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sábado, 23 de janeiro de 2021

Sepultura – Quadra (CD-2020)


 

Nasce Um Novo Clássico

Por Trevas

Uma vez, li uma entrevista com o guitarrista Andreas Kisser que achei bastante valiosa para ilustrar meu pensamento sobre o Sepultura. Nela, o entrevistador (acho que foi na Roadie Crew) perguntava sobre como a expectativa dos fãs sobre o direcionamento de um novo lançamento afetava a banda. Andreas, com sua inteligência habitual, explicou brilhantemente que cada fã tinha uma imagem do que considerava ser o Sepultura ideal. E ele mesmo também tinha uma imagem bem nítida de seu Sepultura ideal. Sendo assim, invariavelmente o que a banda viesse a lançar chegaria perto do Sepultura que alguns idealizam, e distanciaria de maneira igual do Sepultura ideal de outros tantos. Logo, seria tolice compor pensando nisso, o Sepultura real sempre perderia para os vários Sepulturas imaginários. Machine Messiah representou com maestria o nascimento de mais um desses muitos Sepulturas, ganhando espaço nas listas de melhores do ano ao redor do globo em 2017. Surpreendente para um disco cuja gestão total durou poucos meses. Mas Kisser queria mais. Repetindo a parceria com Jens Bögren, dessa vez a banda tomou todo o tempo necessário para trabalhar em seu sucessor. Novamente conceitual, as ideias por detrás de Quadra são repletas de nuances, e deixarei aos curiosos pesquisar mais sobre o assunto. Em resumo, o conceito brinca com estereótipos e maneiras diferentes de ver a realidade, com uma mensagem simplificada de respeito às diferenças. Como sempre digo, a intenção quando da criação de um disco conceitual pode ser brilhante, mas de nada servirá se as músicas não estiverem à altura. Então, vamos ao que interessa: como soa Quadra?

Os quatro de Quadra

O disco também está dividido em quartos, cada qual com 3 músicas. A dobradinha que abre a bolacha é de destruir qualquer pescoço. Isolation e a pretendente a clássico Means To An End mesclam os elementos sinfônicos típicos das produções de Bögren com uma ferocidade absurda. Os detratores podem reclamar de qualquer coisa do Sepultura atual, mas definitivamente jamais poderão acusar a banda de amansar seu som. Last Time encerra o primeiro quarto do disco, com orquestrações que dão um certo tom épico em outra pancadaria que ficará muito bem ao vivo.


O segundo quarto abre com elementos tribais em Capital Enslavement, outro destaque, com sua forte letra. Ali é o primeiro momento menos frenético do disco, contando com um groove carregado, assim como em Raging Void, um dos refrães mais legais de todo o disco. Já nesse ponto dá para comemorar Quadra como a melhor performance vocal do gigante Derrick Green, cada vez mais versátil.


A épica Guardians of Earth inaugura o terceiro quarto, com sua mensagem poderosa e preservacionista traduzida perfeitamente em um clipe igualmente forte. The Pentagram é uma das duas instrumentais que vem salientar a força criativa dessa formação da banda e nos lembrar do monstruoso guitarrista que é Andreas Kisser. E se alguém souber de que planeta vem Eloy Casagrande, favor avisar. Além da performance colossal, o baterista também co-assina quase todas as faixas do disco com Kisser.  Autem encerra mais um quarto do disco de maneira tão experimental quanto empolgante.


A faixa título inaugura sua soturna e aventureira reta final, uma pequena peça instrumental no violão clássico, seguida pela excelente Agony Of Defeat, que traz Derrick usando vocais limpos, com maestria, e com ótimo arranjo. A surpresa aumenta ainda mais com Fear, Pain, Chaos, Suffering, com um dueto espetacular entre Green e Emmily Barreto, a ótima vocalista do Far From Alaska. Ao final das contas, Quadra não só se mostra uma sequência digna para Machine Messiah, como também forte postulante a novo clássico do metal nacional. Um disco único e forte. (NOTA:10)

Visite o The Metal Club

Gravadora: BMG (nacional)

Prós: pesado, experimental e ainda assim viciante

Contras: só os muito puristas terão algo a reclamar

Classifique como: Thrash Metal, Modern Metal

Para Fãs de: Gojira, Machine Head


domingo, 22 de dezembro de 2019

Vikram – Behind The Mask I (CD-2019)



O Poder Por Trás Da Máscara
Por Trevas

Um dos muitos rebentos de um ambicioso projeto multimídia já há 7 anos em desenvolvimento, Behind The Mask I é a parte inicial de uma trilogia de discos que contarão a história de Nathanael Frost, um suposto imortal que se aventura por eras e lugares diferentes do planeta em uma jornada de autoconhecimento. Fruto da imaginação do guitarrista/produtor Tiago Della Vega, a história foi desenvolvida em um livro por Damien Void, e foi adaptada aqui no disco em letras majoritariamente construídas pela escritora Nina Barthman. Claro que deixar de lado o aspecto conceitual em um projeto que certamente envolve muita paixão e esmero em sua elaboração pode parecer injusto. Mas como habitual aqui na Cripta, repito o discurso: álbuns conceituais são por vezes a própria materialização do ditado “de boas intenções o inferno está cheio”. Então, vamos ao que interessa: musicalmente, o que está por trás (oops) de Behind The Mask I?

Behind The Mask I, o livro

A começar, o time envolvido no disco é de primeira. Della Vega tem seu nome estampado no Guiness Book para o recorde de guitarrista mais veloz do planeta e possui vasta experiência em produção e arranjos em cenas musicais diferentes. Marcus Dotta é o homem-polvo que pilotou a bateria do excelente Shadow Work, disco póstumo do mestre Warrel Dane, dentre outros trabalhos (o conheci destruindo ao vivo com a Leather Leone). O petropolitano Guilherme de Siervi já nos presenteou com seus talentos vocais/guitarrísticos em trabalhos do Syren, Skyrion e em seu projeto solo: Omega Blast. O nome do baixista G Morazza pode não ter registro na mente dos headbangers, mas tem experiência produzindo, tocando e arranjando para diversos artistas e estilos ao redor do globo, background semelhante ao do tecladista Tiago Zunino. Ok, time de primeira. Mas, e as músicas?

The Ali Babá Band? O super time do Vikram
Behind The Mask I abre com uma curta introdução (Taar) que já nos mostra o uso de instrumentos (e cantos) étnicos que propõe (e conseguem) nos situar nos cenários onde a história se desenvolve. A primeira faixa de fato é The Mortal Dance Of Kali. Pressão sonora, produção para lá de caprichada. A sonoridade? De maneira simplista, um Prog/Power com toques de Folk muito bem elaborado, mas nada gratuito. Riffs e solos certeiros, bateria intrincada, mas extremamente pesada, baixo caprichado e teclados que engrandecem o som sem querer saltar a cada minuto em sua cara. E a voz dramática e forte de Guilherme destilando melodias complexas, mas grudentas. Ótimo refrão, ótimo início.


A paulada come solta desde o início sacro (que me remeteu a uma versão mais Prog de algo que o Powerwolf assinaria) da matadora Requiem For Salem. Já podemos notar então que as referências musicais Folk variarão pelo disco conforme a história se desenvolve e os cenários mudam. Burn In Hell é boa, e mantém a força bruta em alta, mas sem soar tão memorável quanto as faixas anteriores. Nem sempre a versatilidade funciona. Andaluzia, a despeito do capricho nos arranjos flamencos (destaque para o baixo aqui) e belos solos, acaba por soar exagerada, em especial na interpretação vocal. Podem me linchar, mas me soou como se o Gypsy Kings resolvesse gravar Prog Metal


Mas os pontos negativos são também pontos fora da curva aqui, para nossa sorte. Hassan Tower devolve o tempero oriental ao disco com maestria (com destaque para os solos de Zunino e Della Vega) e a espetacular Forsaken Death habitou minha cachola por dias a fio mesmo após a primeira (e então solitária) audição da bolachinha. Minha possível favorita em todo o disco.


Eyes Of Ra adiciona ao pacote a bela voz da argentina Inês Vera Ortiz, que faz um contraste para lá de enriquecedor com a rispidez de Guilherme, cujo estilo sempre me faz lembrar o finlandês Marco Hietala (Tarot, Nightwish). Os cantos e instrumentos étnicos onipresentes fazem com que comparações com bandas como Myrath e Orphaned Land venham à mente aqui e acolá. Mas o Vikram faz uso desses elementos de maneira bem própria, com um enfoque que me fez pensar mais na sutileza de arranjos de um Ark. Enfim, a despeito das comparações que usamos de referência, há bastante personalidade aqui, o que impressiona se pensarmos que estamos diante de um disco de estreia. A pesar contra, o disco é bem longo, ao que parece cada faixa reflete um dos capítulos do livro. E quando a excelente Gypsy Tragedy termina de tomar nossos ouvidos de assalto já começamos a transpor os 40 minutos de música, ainda tendo 5 faixas pela frente. Seria mais um disco a sucumbir à maldição do trabalho conceitual?


Não exatamente. A reta final do disco pode não apresentar o brilhantismo de algumas das faixas já citadas, apostando numa pegada mais direta, com faixas “curtas” a partir da épica The Red Masquerade, como que rumando para o clímax de um bom filme. Mas ainda há espaço para novidades: The Burden conta com vocais guturais, enquanto Shokran bem poderia estar em um dos pesados (e inspirados) discos recentes do Symphony X e Prelude To the End tem um clima que me remeteu aos bons tempos do Everon. O encerramento com a faixa título é um dos pontos altos de nossa jornada. Unindo a cara do Vikram com uma urgência e refrão que fazem lembrar o Omega Blast. Aqui Guilherme mostra o quanto sua voz vem ganhando em versatilidade, com bela intepretação. Um final apoteótico para um dos melhores discos de estreia que escutei nos últimos anos. Figura certa na minha lista de melhores de 2019 e uma clara demonstração do poder de renovação de nossa cena autoral. Que este seja o início de uma longa e gratificante jornada. Excelente! (NOTA: 9,17)

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Gravadora: Shinigami Records (nacional)
Prós: musicalidade absurda, ótimos arranjos e canções
Contras: 72 minutos pode ser coisa demais para a cachola
Classifique como: Prog/Power Metal
Para Fãs de: Ark, Symphony X, Blind Guardian


sábado, 27 de julho de 2019

Tuatha De Danann – The Tribes Of Witching Souls (Ep-2019)




Quase EPerfeito!
Por Trevas

The Tribes Of Witching Souls é o segundo lançamento de inéditas da veterana banda de Folk Metal de Varginha/MG, após o anúncio do retorno às atividades, em 2010. São cinco faixas inteiramente novas, duas regravações e duas demos, totalizando 45 minutos muito bem encartados em belo digipack com igualmente bela arte de capa. Se a descrição do material te deixou com aquela sensação de que não passa de um catadão, sinto te informar: pensou errado, otário!

Os Bardos de Varginha
Resumido hoje a um trio (Bruno Maia, Edgard Britto e Giovani Gomes), e contando com inúmeros convidados, o Tuatha conseguiu fazer desse Ep uma pérola imperdível dentro do Metal Nacional. A boa faixa título abre a bolachinha com um rock alto astral que nem explora tanto a veia Folk tradicional dos caras.


Mas essa veia vem com juros e correção monetária na excelente e irresistível Turn, e daí para frente é impossível para de ouvir o disco. Warrior Queen, com seu clima celta e a voz certeira e forte de Daísa Munhoz dá arrepios. Mas ainda tem mais...


Your Wall Shall Fall traz o mestre Martin Walkyier, com sua indefectível voz de quem faz gargarejo com cerol, bradando um hino que se faz obrigatório nos vindouros shows dos mineiros! Um deleite para um fã dos velhos tempos do Skyclad, como este escriba aqui. Conjura é outra pedrada Folk Metal para nenhum fã do estilo botar defeito, com dinâmicas e melodias engrandecidas pela maturidade da banda.



As versões para Outcry (que ficou com um quê de New Model Army) e Tan Pinga Ra Tan, essa última com as belas vozes de Fernanda Lira (sim, ela mesma, das incansáveis Thrashers emergentes mundo afora: Nervosa) e Nita Rodrigues, fecham muito bem a linha de frente do pacote. E nem a adição das demos para Rhymes e para a faixa título (em take instrumental) consegue minar a fluidez desse Ep. Um daqueles trabalhos que tão logo terminam já pedem por um novo toque compulsivo no “PLAY” do aparelho de som. E cabe lembrar que essa patota inspirada está de show marcado no Rio de Janeiro, dia 10 de agosto! Não dá para perder. Que venha logo um novo Full Length!! (NOTA: 9,65)

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Gravadora: Heavy Metal Rock (nacional)
Prós: Folk Metal irresistível com temperos diversos
Contras: o disco acaba
Classifique como: Folk Metal
Para Fãs de: Skyclad, Eluveitie


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Warrel Dane – Shadow Work (Cd-2018)



Um Grandioso Adeus
Por Trevas

Prólogo – Dane, o Vocal-Hero

Mais uma resenha difícil de ser escrita. Warrel Dane foi um dos meus Vocal-heroes, uma inspiração tremenda e que contribuiu com um tempero especial dentro das influências que ajudaram a construir minha identidade musical como vocalista e letrista. Mas minha relação com aquela figura algo excêntrica de longos e indefectíveis cabelos louros (o que provavelmente rendeu ao rapaz o apelido “Dane”- vernáculo levemente pejorativo para quem se encaixa no estereótipo Nórdico) não foi exatamente um amor à primeira vista. Um amigo me apresentou Refuge Denied, do Sanctuary, lá nos idos de 1999. Até achei o disco interessante, mas esbarrei justamente nos agudos estratosféricos de Warrel. Sempre tive dificuldades com vocalistas com registros muito altos. Mas quase que de imediato uma banda despontava na cena com uma sonoridade única, uma tal Nevermore. Escutar Dreaming Neon Black foi um soco no estômago e quando descobri que o versátil cantor, que alternava graves góticos, melodias complexas e, eventualmente, agudos lancinantes, era o mesmo Warrel Dane do Sanctuary, ganhei um novo herói.

Warrel em sua cativante excentricidade
Warrel vinha excursionando desde 2014 na companhia de um excelente time de músicos brasileiros, e em 2017 resolveu selar essa parceria com a gravação de um disco. Infelizmente a jornada foi interrompida ao final do mesmo ano, quando justamente o coração que ele punha em cada nota que cantava o traiu, e Warrel se foi antes de poder gravar os vocais definitivos. O quarteto de músicos e a gravadora fizeram então um esforço hercúleo de juntar os cacos das demos e pré-produção e conseguiram montar um quebra-cabeças de oito músicas, intitulado Shadow Work. O disco ganhou uma belíssima edição nacional em Mediabook, contando com várias ilustrações do mestre Travis Smith. Confesso que custei a colocar a bolachinha, supostamente um trabalho inacabado, para rodar. Mas tão logo o fiz, o coração apertou. Lá vão minhas impressões.

Dane And The Zucas!
Ethereal Blessing abre o trabalho, uma melodia fantasmagórica nos moldes que só Warrel seria capaz de criar, emoldurada sorumbaticamente por sons tribais. Pouco ela nos diz sobre o direcionamento do mesmo trabalho, mas logo somos arremessados a Madame Satan, e aí a sombra do Nevermore aparece. A faixa parece a evolução do que a banda vinha tentando fazer antes de seu precoce encerramento, e chega até a convencer, graças à qualidade dos aliados do estadunidense. Quanto talento os rapazes brasileiros têm!



O mesmo não pode ser dito dos outros momentos Nevermorianos: Disconnection Sistem é menos empolgante e remonta ao Politics Of Ecstasy, disco complexo e algo mecanizado que marcou o corte do cordão umbilical do Nevermore com o legado musical do Sanctuary. Shadow Work, a faixa, é de longe a menos interessante e parece um puxadinho construído por cima do alicerce de Narcosynthesis. Já o encerramento com Mother Is The Word For God quase desperdiça um dos mais belos temas que Warrel já cantou em nove longos e titubeantes minutos de quebradeira.


Mas é justamente quando a banda leva o saudoso vocalista para terrenos anteriormente pouco explorados por ele que o disco vive seus melhores momentos: As Fast As The Others gruda feito piche no cérebro, a reinvenção de The Hanging Garden (do The Cure) é ouro puro, e Rain é aquele cruzamento Metal/Gótico que sempre funcionou tão bem com mr. Dane.



Sobre a performance do vocalista, ainda que ela seja feita de uma compilação de gravações demo ou da pré-produção, tudo funciona bem. Não, você não vai encontrar a performance vocal da vida dele aqui, mas cada palavra é cantada com o coração na ponta da língua, e as melodias são muito boas. As letras? Fortes e únicas, como sempre! Já os músicos, dão um show à parte: Marcus Dotta definitivamente não é humano - é o batera Cthulhu, um destruidor mestre dos polvos; Thiago Oliveira (que compôs todas as músicas autorais aqui) e Johnny Moraes não só sobrevivem ao peso da comparação com Jeff Loomis como trazem inúmeros solos melodiosos que engrandeceram em muito o disco; e até mesmo o baixo de Fabio Carito, por vezes enterrado em meio à multitude de informações da produção, tem seus bons momentos aqui e acolá. Enfim, Warrel se foi em ótima companhia.

O belo mediabook de Shadow Work

Veredito da Cripta

Shadow Work não é o trabalho definitivo de Warrel Dane. Por vezes o disco pecou ao sucumbir à tentação de emular o passado no Nevermore, se saindo melhor quando deixou estilisticamente essa sombra ficar para trás. Mas também está longe de nos dar qualquer pista de se tratar de um corte e colagem qualquer. É sim um disco para lá de digno e instigante, pesado e denso. Um grande e empolgante Cd, que só entristece ao nos fazer sonhar o que seria de uma hipotética continuação se esse vitorioso e virtuoso time fosse mantido. RIP, mr. Dane. Parabéns, Thiago, Johnny, Fabio e Dotta!   


NOTA: 8,57


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Gravadora: Valhall Music (nacional)
Prós: um disco forte e denso
Contras: nos deixa com imensa saudade  
Classifique como: Modern Metal, Prog Metal
Para Fãs de: Nevermore, é claro...


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Imago Mortis – LSD (CD-2018)



Os Brutos Também Amam
Por Trevas

Prólogo: Idiossincrasias e heavy metal
Olá, prezados Criptomaníacos.

Quem me conhece sabe o quanto amo o infame Rock and Roll em boa parte de suas quase infinitas formas.

Você, que frequenta regularmente esse Blog bem sabe disso, tenho tanto prazer de ouvir um Vader ou um Amon Amarth quanto um Fates Warning, um Deftones ou um Steel Panther.

Gosto especialmente de ouvir um pouco de tudo dentro do som pesado.

Tudo, é claro, a depender do momento que atravesso ou do meu estado de espírito.

Mas, embora meu coração tenha uma espécie de bússola que sempre me guie (de tempos em tempos) de volta aos sons mais simples do Rock puro ou do Metal Tradicional, sempre me traz enorme delírio auditivo desbravar discos de bandas inclassificáveis, daquelas que transitam por tantos corredores sonoros e bebem de tantas fontes que tornam seus trabalhos por vezes herméticos ao grande público, a despeito da qualidade de sua obra.
Essas bandas nem sempre me agradam em tudo o que fazem, afinal, por vezes bebem de fontes amargas ao meu paladar. Mas o desafio que proporcionam são um irresistível convite a que eu pare minha vida por algumas horas e brinque de explorador.

Na cena brasuca até mesmo nossos maiores expoentes do heavy metal tem como característica experimentar (Angra e Sepultura se fizeram grandes lá fora justamente por isso). Mas se existe uma banda cuja extensa paleta de cores usada em seus discos é de tamanha idiossincrasia que sempre me atrai como uma mariposa para a luz, essa banda se chama Imago Mortis.

Dona de uma obra curta, mas consistente, e progenitora de Vida, um dos maiores discos de nossa história metálica, Imago Mortis retorna à ativa após longuíssimos 12 anos. LSD é um trabalho conceitual em torno da montanha russa de emoções que envolve a construção e desconstrução de um grande amor, calcado nos exageros de nossa cultura de romantizar demasiadamente relacionamentos.

E é claro, a expectativa para a nova viagem musical não poderia ser menos do que absurda.

O sexteto, como desenhado no encarte
E a abertura, com os 13 minutos de The LSD Theorem já me mostrou que a viagem definitivamente não seria em vão. Elementos de World Music, normalmente alienígenas á bandas de Heavy Metal, aqui integram harmoniosamente a paisagem. Uma paisagem árida e empedernida, como deve ser, já que a matriz rochosa primordial do Imago é o Doom Metal. A música se constrói aos poucos, apresentando o forte tema musical principal e diversas facetas, como que se tentasse sintetizar tudo o que o sexteto preparou para o novo disco ao longo de sua existência. Uma grande música, em extensão e qualidade. A qualidade sonora é excelente, a produção, privilegia a dinâmica, luz e sombras o tempo todo. Mas as onipresentes camas de teclados (pelo talentoso Charles Soulz), destacadas demais na mixagem, me incomodaram tremendamente nas primeiras audições. Não, LSD não é tão calcado nas guitarras quanto se esperaria, mas isso está longe de querer dizer que não é um disco pesado. Binary Viscerae, do próprio tecladista, onde o sempre versátil Alex Voorhes mostra sua faceta Black metal nos versos alternando com seu já famoso estilo operístico no ótimo refrão, que o diga.


E Hieros Gamos segue, um monstro avassalador que facilmente conquistará os fãs dos trabalhos anteriores de imediato, compilando World Music, Doom e extremo com gemidos femininos daquela forma única que só o Imago é capaz. Aqui as guitarras de Daemon Ross e Rafael Rassan pulam à frente dos teclados num novo clássico da banda. E o rinoceronte branco André Delacroix (Metalmorphose, Azul Limão), um baterista para lá de subestimado na cena, comprova mais uma vez sua capacidade inconteste de destruir kits em qualquer estilo.


Alex torna com maestria seu poderoso trinado em um quase sussurro em Incantation, guiando a beleza sorumbática de uma Power Ballad que é o tipo de som que o Leif Edling deve colocar para rolar no dia dos namorados para sua noiva cadáver. Mas nem tudo funciona assim tão bem, a balada seguinte, The Promise, esbarra um pouco demais no Disney Metal.

Não e isso não é nem de longe uma crítica a doce voz de fada de Julia Crystal, que divide os vocais com Voorhes.

Aqui o protagonista encontra o grande amor e o tom adocicado da canção apenas mimetiza aquela fase grudenta que todos já experimentamos alguma vez na vida. Ok, um caso em que o conceito se sobrepõe à música. Muito melhor se sai o dueto de Two-Headed Chimaera. O relacionamento começa a azedar, e nada melhor do que a voz cáustica de Mariana Figueiredo (que me faz pensar numa improvável filha entre Tina Turner e Leather Leone) travando uma intensa DR com Mr. Alex. Simplesmente duas das melhores vozes de nossa cena na mesma música. Aliás, essa faixa tem ótimas performances de todos os músicos.



O baixo de Paulo Ricardo Silva prepara o terreno para o Doom mais puro de A Farewell Kiss, onde a voz mutante de Alex parece encarnar uma versão tupiniquim do monstruoso McCoy, mestre do raramente lembrado Fields Of The Nephilim. Outra faixa que faz o link com o Imago do passado. Black Widow, primeira do pacote a ver a luz do dia, e de longe a mais direta e “simples”, não deixa pedra sobre pedra.


Mas se a dobradinha anterior joga os fãs em terreno razoavelmente conhecido, o mesmo não pode ser dito sobre Alone. Aqui parece que enterraram Gary Moore no cemitério maldito do Stephen King, e ele retornou macabramente e compôs uma versão zumbi-demoníaca do que seria uma de suas emocionantes baladas blues-rock, com belas guitarras chorando. E se a interpretação de Alex Voorhes aqui não te der arrepios e não for suficiente para te convencer de que ele é um dos maiores vocalistas da nossa história, sinto muito, mas é você quem está morto. Melhor procurar o infame cemitério indígena. 



Não sou um grande fã de discos conceituais, e o motivo disso é que raramente eles não sucumbem à pantomima de sacrificar a parte musical em favor do andamento da história. E LSD não escapa a esse mal. Exile é um curto e melancólico interlúdio tocado inteiramente no piano. E Epitáfio de Um Amor, a despeito de fazer imenso sentido dentro da história contada, traz um poema declamado sobre uma trilha musical que a princípio reflete alguns temas do disco e depois parece transmutar para algo saído da trilha de uma nada bem-vinda continuação cinematográfica de Nosso Lar. Mas Love Sex And Death (theme) aparece apoteótica, aos 47 do segundo tempo para nos lembrar de que está se encerrando um dos grandes discos nacionais de 2018.


Veredito da Cripta

LSD definitivamente não é o disco mais pesado do Imago Mortis, mas certamente é o mais complexo e variado. Um trabalho denso e repleto de detalhes, daqueles que cresce perante repetidas audições e que demanda bastante do ouvinte. Mas quem decidir embarcar nessa viagem, dificilmente se arrependerá. Mais um capítulo excelente na carreira de uma das bandas mais idiossincráticas do Metal Brasileiro.

     
NOTA: 8,65

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Gravadora: Die Hard Records (nacional)
Prós: diversificado e intenso
Contras: teclados em destaque e poema declamado   
Classifique como: Doom Metal, Metal Progressivo
Para Fãs de: My Dying Bride, Primordial, Candlemass


sábado, 4 de agosto de 2018

Aglarion – Beyond The Void (Cd-2018)



Um Incidente Incomum Em Um Planeta Distante...
Por Trevas

Às vezes a vida nos prega umas peças. Estava eu a fazer um show com minha banda tributo ao Black Sabbath e Ozzy, a Blizzard Of Ozz, num domingo. Um amigo e ex-colega de paleontologia (sim, vejam só, já trilhei esse caminho bacana), hoje um renomado pesquisador/professor, cantava cada música a plenos pulmões lá da plateia. Começamos a tocar Crazy Train, chamo ele ao palco, enquanto faço um stage dive. O cara detona. O show estava sendo filmado, a filmagem vai parar no Youtube. Uma banda de progressivo procurava um vocalista, viu o vídeo e bum, deu o clique. Leo Avilla é o nome do dono da bela voz. Aglarion o nome da banda. E eu me tornei um orgulhoso padrinho incidental.

A Aglarion surgiu em 2012, quando um grupo de amigos repleto de influências em comum decidiu montar uma banda de Metal Progressivo. O nome escolhido, o de um planeta fictício que flutua num oceano de luz numa galáxia distante. A intenção de suas composições? Mesclar arte e ciência nas temáticas e letras. Diversas formações se passaram até que eles enfim resolvessem gravar seu primeiro Cd, Beyond The Void. Por enquanto eu sou um dos poucos com acesso ao material, que sairá até o final de 2018. E vou então contar de primeira mão um pouco do que espera vocês.


Beyond The Void, o disco

Dharma, a instrumental que abre o disco, é uma verdadeira salada de referências progressivas. De Marillion a Genesis, passando por Kansas e Eloy, há de tudo um pouco para os fãs do estilo nos temas inclusos em seus belos 5 minutos. Innonimata, um reflexo sobre a natureza belicosa dos homens, inicia com uma parte falada e clima espacial e ritmo marcial, quebrados pela primeira aparição da voz de Leo Avilla. Um belo timbre que em muito lembra o saudoso Mac, do Threshold, com linhas melódicas dramáticas que agradarão aos fãs dos melhores momentos do Arena. Ótima música, repleta de dinâmica, um tema de teclado que gruda na mente (e que poderia estar tanto numa música progressiva quanto numa canção do My Dying Bride) e belos solos.

Sinos e efeitos sonoros, um belo timbre de guitarra e começa a instrumental Streets Of Salem, repleta de reviravoltas. Ao que tudo indica, a curta e épica We Are The Ones, cujo subtítulo é Koyaanisqatsi, tem sua letra baseada no filme cult homônimo, que expunha uma visão muda sobre as relações entre a humanidade, a natureza e a tecnologia.

On Clocks And Clouds tem um baixo pulsante (cortesia de Diogo Sarcinelli, que também co-assina as guitarras), bateria inspirada (por Filipe Barbosa) e clima Marillionesco em meio às mudanças de andamento e guitarras (Luiz Menezes) que flertam ligeiramente com o Heavy Metal aqui e acolá.  O tecladista Demison Motta mostra seu repertório de timbres no belo interlúdio Twilight Of A Life, preparando o terreno para a longa, sombria e por vezes bem pesada, Nostradamus. Talvez a primeira do material que indubitavelmente pode entrar no nicho do Prog Metal, é também a música que traz a performance mais versátil de Leo, numa linha melódica incomum e bem bonita. A fusão do peso metálico com a complexidade progressiva segue na ótima instrumental Nordgalen e em Icarus (The Myth), essa última com os teclados talvez um pouco acima do aconselhável na mixagem, mas com uma interessante resolução que remete aos melhores momentos do Neo Prog do início dos anos 1980. O disco tem fim com outra faixa épica, sintomaticamente chamada Valhalla, bem dramática (e com um gutural bem colocado, juro que ouvi) e que condensa o clima de todo o trabalho em seus sete minutos de duração.

Veredito da Cripta

Beyond The Void é um disco repleto de ótimas ideias e performances espalhadas num material de qualidade, mas que demanda atenção do ouvinte, crescendo com as repetidas audições. Como um bom disco de Progressivo deve ser, diga-se. Uma estreia promissora de uma banda que aposta num estilo pouco explorado em nosso país!


NOTA: 8,26


Gravadora: Ainda a definir.
Pontos positivos: muita dinâmica e ótimas performances
Pontos negativos: complexo, demanda a atenção do ouvinte em tempos de informações simples e mastigadas
Para fãs de: Marillion, Arena, Pendragon
Classifique como: Rock Progressivo, Metal Progressivo


terça-feira, 1 de maio de 2018

Pain Of Salvation + Reckoning Hour (26/04/2018 - Teatro Rival – Rio de Janeiro/RJ)

POS - Cartaz do Show

In The Passing Light Of...Night...
Fotos e Texto Por Trevas

É sempre interessante notar a diferença entre os públicos dos vários subgêneros dentro do rock. No curto espaço de tempo passado na fila do teatro Rival, fiquei todo ouvidos só captando os diálogos alheios. Se no show do Slash, com seu público “roqueiro de rádio cidade” que vai ao show por duas ou três músicas batidas sem se importar com a qualidade do espetáculo em si, isso me rendeu uma imensa sensação de que o rock realmente estava fadado à morte lenta e dolorosa, no caso do público do POS, foi o contrário. A garotada, que em sua maioria tem aquela pinta de quem fazia a festa nas lanhouses da vida, conversava avidamente sobre a carreira de sua banda favorita, parecendo conhecer cada nuance dos discos e até mesmo de assuntos não tão obrigatórios. Isso sem perder o humor. Em determinado momento ouço a seguinte tirada: “O único Ragnar bom era viking e já está morto”. Gargalhadas se seguiram e só então eu, longe de ser fanboy dos suecos, me toquei que corria no ar a apreensão de como seria o show (adiado de fevereiro por problemas de saúde com o dono da bola, Daniel Gildenlöw) com a “nova” formação, ainda não testada, com Johan Hallgren retomando seu lugar na guitarra (e voz), justamente em substituição ao tão mal falado multi-instrumentista Islandês Ragnar Zolberg. Dentro da casa, tomei meu lugar para o show da sempre competente banda carioca Reckoning Hour.


Reckoning Hour

O quinteto, cujo som fica muito distante do praticado pela banda principal da noite, bem poderia correr o risco de uma recepção desfavorável. Mas a Reckoning Hour tem toneladas de peso e talento, e vem se mostrando uma máquina para lá de azeitada em cima dos palcos cariocas.

JP, o gogó feroz dos excelentes cariocas


Destilando um Metal Moderno que não fica a dever em nada à muitos expoentes gringos do gênero, logo os rapazes conquistam o público, com as boas músicas de seus dois trabalhos amplificadas por um primor técnico e muito carisma. Quando me perguntam sobre renovação na cena brasuca, nem penso muito, um dos primeiros nomes que me vem à mente é o da Reckoning Hour: uma bandaça que merece alçar voos cada vez maiores. (NOTA:8)

Lucas Brum, um dos guitarristas da Reckoning Hour



Pain Of Salvation

Quando se fala em Prog Metal, muita gente (esse escriba inclusive) logo relaciona o rótulo à músicas frias e sem alma executadas por robozinhos assexuados travestidos de músicos. Tudo o que o Rock não precisa. Mas esse estereótipo passa longe da obra e dos shows do POS. Aqui emoção e feeling ficam em primeiro plano, a despeito do cuidado com detalhes técnicos. Full Throttle Tribe abre magistralmente o set, e chega a impressionar a desenvoltura da banda em eu primeiro show desde janeiro desse ano.

Daniel e Flea

Daniel, o dono da bola, descalço e vestindo uma roupa que você não usaria nem para ajudar seu avô a pintar a sala, arranca suspiros da mulherada a cada intervalo de música, e sua felicidade por estar de volta à ativa é contagiante. E a confiança no novo disco é tamanha que o set seguiu com Reasons (que acho péssima, mas o público cantou palavra por palavra) e a belíssima Meaningless. A recepção? Cada vírgula das novas músicas era bebida pela plateia, que se não lotou o Teatro Rival, fez compensar os lugares vazios com invejável devoção. E essa energia circulava, com a banda, em chamas, catapultando em nossas faces o momento mais rocker da noite, com a setentista (e excelente) Linoleum.

Daniel Mendigato Gildenlöw


Daniel, o mendigato, pode não ser o fenômeno vocal que alguns dos discos da banda apregoam, mas está tão bem assessorado vocalmente por todos os membros do POS que pouco isso afeta o resultado final - quase tudo o que se ouve das complexas linhas melódicas em estúdio é reproduzido ao vivo. Hallgren, recentemente reintegrado ao bando, é quase tão ovacionado quanto o patrão. Pudera, o irmão gêmeo do Flea toca e agita muito, além de ser um dos destaques vocais. Aliás, todos os membros dessa formação tocam eximiamente bem, mas com muita pegada e clara vontade expressa nos rostos. E até os erros eram recebidos com sorrisos por todos, seja no palco, seja na plateia. Fica fácil se divertir quando a banda mostra tamanho carinho pelo que faz.

Johan compenetrado

O repertório buscou representar quase toda a carreira dos suecos, mesmo com a preferência pelo novo disco. Ashes e Rope Ends arrancaram lágrimas de muitos e o set inicial terminou com a Excelente On A Tuesday, com impressionante contribuição vocal do exímio baterista Leo Margarit. Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, juraria que a voz do cara sai de dentro de uma estonteante loura escandinava. Um falsete e tanto! O bis se deu com a faixa título do novo trabalho, aparentemente já elevada a clássico pelos fãs. Doze músicas e 100 minutos depois, com muitos sorrisos e uma energia palpável no ar, a banda se despede. E pela reação do público, podem retornar ano após ano sem medo. Um grande show. (NOTA:9)