Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Uma vez, li uma
entrevista com o guitarrista AndreasKisser que achei bastante valiosa
para ilustrar meu pensamento sobre o Sepultura.
Nela, o entrevistador (acho que foi na RoadieCrew) perguntava sobre como a
expectativa dos fãs sobre o direcionamento de um novo lançamento afetava a
banda. Andreas, com sua inteligência
habitual, explicou brilhantemente que cada fã tinha uma imagem do que considerava
ser o Sepultura ideal. E ele mesmo
também tinha uma imagem bem nítida de seu Sepultura
ideal. Sendo assim, invariavelmente o que a banda viesse a lançar chegaria
perto do Sepultura que alguns
idealizam, e distanciaria de maneira igual do Sepultura ideal de outros tantos. Logo, seria tolice compor
pensando nisso, o Sepultura real
sempre perderia para os vários Sepulturas imaginários. MachineMessiah
representou com maestria o nascimento de mais um desses muitos Sepulturas,
ganhando espaço nas listas de melhores do ano ao redor do globo em 2017. Surpreendente
para um disco cuja gestão total durou poucos meses. Mas Kisser queria mais. Repetindo a parceria com JensBögren, dessa vez a
banda tomou todo o tempo necessário para trabalhar em seu sucessor. Novamente conceitual,
as ideias por detrás de Quadra são
repletas de nuances, e deixarei aos curiosos pesquisar mais sobre o assunto. Em
resumo, o conceito brinca com estereótipos e maneiras diferentes de ver a
realidade, com uma mensagem simplificada de respeito às diferenças. Como sempre
digo, a intenção quando da criação de um disco conceitual pode ser brilhante,
mas de nada servirá se as músicas não estiverem à altura. Então, vamos ao que
interessa: como soa Quadra?
Os quatro de Quadra
O disco também está dividido em quartos, cada qual com 3 músicas. A dobradinha
que abre a bolacha é de destruir qualquer pescoço. Isolation e a pretendente a clássico Means To An End mesclam os elementos sinfônicos típicos das
produções de Bögren com uma
ferocidade absurda. Os detratores podem reclamar de qualquer coisa do Sepultura atual, mas definitivamente
jamais poderão acusar a banda de amansar seu som. LastTime encerra o
primeiro quarto do disco, com orquestrações que dão um certo tom épico em outra
pancadaria que ficará muito bem ao vivo.
O segundo quarto abre com elementos tribais em CapitalEnslavement,
outro destaque, com sua forte letra. Ali
é o primeiro momento menos frenético do disco, contando com um groove carregado, assim como em RagingVoid, um dos refrães mais legais de todo o disco. Já nesse ponto dá
para comemorar Quadra como a melhor
performance vocal do gigante DerrickGreen, cada vez mais versátil.
A épica Guardians of Earth inaugura
o terceiro quarto, com sua mensagem poderosa e preservacionista traduzida perfeitamente
em um clipe igualmente forte. ThePentagram é uma das duas instrumentais
que vem salientar a força criativa dessa formação da banda e nos lembrar do
monstruoso guitarrista que é AndreasKisser. E se alguém souber de que
planeta vem EloyCasagrande, favor avisar. Além da
performance colossal, o baterista também co-assina quase todas as faixas do
disco com Kisser. Autem
encerra mais um quarto do disco de maneira tão experimental quanto empolgante.
A faixa título inaugura sua soturna e aventureira reta final, uma
pequena peça instrumental no violão clássico, seguida pela excelente AgonyOfDefeat, que traz Derrick usando vocais limpos, com
maestria, e com ótimo arranjo. A surpresa aumenta ainda mais com Fear, Pain, Chaos, Suffering, com um dueto espetacular
entre Green e EmmilyBarreto, a ótima
vocalista do Far From Alaska. Ao
final das contas, Quadra não só se mostra uma sequência digna para MachineMessiah, como também forte postulante a novo clássico do metal
nacional. Um disco único e forte. (NOTA:10)
Um dos muitos
rebentos de um ambicioso projeto multimídia já há 7 anos em desenvolvimento, BehindTheMaskI é a parte inicial de uma trilogia de
discos que contarão a história de NathanaelFrost, um suposto imortal que se
aventura por eras e lugares diferentes do planeta em uma jornada de
autoconhecimento. Fruto da imaginação do guitarrista/produtor TiagoDellaVega, a história
foi desenvolvida em um livro por DamienVoid, e foi adaptada aqui no disco em
letras majoritariamente construídas pela escritora NinaBarthman. Claro que
deixar de lado o aspecto conceitual em um projeto que certamente envolve muita
paixão e esmero em sua elaboração pode parecer injusto. Mas como habitual aqui
na Cripta, repito o discurso: álbuns conceituais são por vezes a própria
materialização do ditado “de boas intenções o inferno está cheio”. Então, vamos
ao que interessa: musicalmente, o que está por trás (oops) de BehindTheMaskI?
Behind The Mask I, o livro
A começar, o time envolvido no disco é de primeira. DellaVega tem seu nome
estampado no GuinessBook para o recorde de guitarrista mais
veloz do planeta e possui vasta experiência em produção e arranjos em cenas
musicais diferentes. MarcusDotta é o homem-polvo que pilotou a
bateria do excelente ShadowWork, disco póstumo do mestre WarrelDane, dentre outros trabalhos (o conheci destruindo ao vivo com a LeatherLeone). O petropolitano GuilhermedeSiervi já nos presenteou com seus talentos vocais/guitarrísticos em trabalhos do Syren, Skyrion e em seu projeto solo: Omega Blast. O nome do
baixista G Morazza pode não ter registro na mente dos headbangers, mas tem
experiência produzindo, tocando e arranjando para diversos artistas e estilos
ao redor do globo, background semelhante ao do tecladista Tiago Zunino. Ok, time de
primeira. Mas, e as músicas?
The Ali Babá Band? O super time do Vikram
Behind The Mask I abre com uma curta
introdução (Taar) que já nos mostra
o uso de instrumentos (e cantos) étnicos que propõe (e conseguem) nos situar
nos cenários onde a história se desenvolve. A primeira faixa de fato é TheMortalDanceOfKali.
Pressão sonora, produção para lá de caprichada. A sonoridade? De maneira
simplista, um Prog/Power com toques de Folk muito bem elaborado, mas nada gratuito. Riffs e solos certeiros, bateria intrincada,
mas extremamente pesada, baixo caprichado e teclados que engrandecem o som sem
querer saltar a cada minuto em sua cara. E a voz dramática e forte de Guilherme destilando melodias
complexas, mas grudentas. Ótimo refrão, ótimo início.
A paulada come solta desde o início sacro (que me remeteu a uma versão
mais Prog de algo que o Powerwolf assinaria) da matadora RequiemForSalem. Já podemos
notar então que as referências musicais Folk
variarão pelo disco conforme a história se desenvolve e os cenários mudam. BurnInHell é boa, e mantém
a força bruta em alta, mas sem soar tão memorável quanto as faixas anteriores. Nem
sempre a versatilidade funciona. Andaluzia,
a despeito do capricho nos arranjos flamencos (destaque para o baixo aqui) e
belos solos, acaba por soar exagerada, em especial na interpretação vocal. Podem me linchar, mas me soou como se o Gypsy Kings resolvesse gravar Prog Metal.
Mas os pontos negativos são também pontos fora da curva aqui, para nossa
sorte. HassanTower devolve o tempero oriental ao disco com maestria (com
destaque para os solos de Zunino e DellaVega) e a espetacular ForsakenDeath habitou minha cachola por dias
a fio mesmo após a primeira (e então solitária) audição da bolachinha. Minha possível
favorita em todo o disco.
EyesOfRa adiciona ao pacote
a bela voz da argentina Inês Vera Ortiz,
que faz um contraste para lá de enriquecedor com a rispidez de Guilherme, cujo estilo sempre me faz
lembrar o finlandês MarcoHietala (Tarot, Nightwish). Os cantos
e instrumentos étnicos onipresentes fazem com que comparações com bandas como Myrath e OrphanedLand venham à
mente aqui e acolá. Mas o Vikram faz
uso desses elementos de maneira bem própria, com um enfoque que me fez pensar mais
na sutileza de arranjos de um Ark.
Enfim, a despeito das comparações que usamos de referência, há bastante
personalidade aqui, o que impressiona se pensarmos que estamos diante de um
disco de estreia. A pesar contra, o disco é bem longo, ao que parece cada faixa
reflete um dos capítulos do livro. E quando a excelente GypsyTragedy termina de
tomar nossos ouvidos de assalto já começamos a transpor os 40 minutos de
música, ainda tendo 5 faixas pela frente. Seria mais um disco a sucumbir à maldição
do trabalho conceitual?
Não exatamente. A reta final do disco pode não apresentar o brilhantismo
de algumas das faixas já citadas, apostando numa pegada mais direta, com
faixas “curtas” a partir da épica TheRedMasquerade, como que rumando para o clímax de um bom filme. Mas ainda há espaço para novidades: TheBurden conta com vocais guturais, enquanto Shokran bem poderia estar em um dos pesados (e inspirados) discos
recentes do SymphonyX e
Prelude To the End tem um clima que me remeteu aos bons tempos do Everon. O encerramento com a faixa
título é um dos pontos altos de nossa jornada. Unindo a cara do Vikram com uma urgência e refrão que
fazem lembrar o OmegaBlast. Aqui Guilherme mostra o quanto sua voz vem ganhando em versatilidade,
com bela intepretação. Um final apoteótico para um dos melhores discos de
estreia que escutei nos últimos anos. Figura certa na minha lista de melhores
de 2019 e uma clara demonstração do poder de renovação de nossa cena autoral.
Que este seja o início de uma longa e gratificante jornada. Excelente! (NOTA: 9,17)
The Tribes Of Witching Souls é o segundo
lançamento de inéditas da veterana banda de FolkMetal de
Varginha/MG, após o anúncio do retorno às atividades, em 2010. São cinco faixas
inteiramente novas, duas regravações e duas demos, totalizando 45 minutos muito
bem encartados em belo digipack com
igualmente bela arte de capa. Se a descrição do material te deixou com aquela
sensação de que não passa de um catadão, sinto te informar: pensou errado,
otário!
Os Bardos de Varginha
Resumido hoje a um trio (BrunoMaia, EdgardBritto e GiovaniGomes), e contando com inúmeros convidados, o Tuatha conseguiu fazer desse Ep
uma pérola imperdível dentro do Metal Nacional. A boa faixa título abre a
bolachinha com um rock alto astral que nem explora tanto a veia Folk tradicional dos caras.
Mas essa veia vem com juros e
correção monetária na excelente e irresistível Turn, e daí para frente é impossível para de ouvir o disco. WarriorQueen, com seu clima celta e a voz certeira e forte de DaísaMunhoz dá arrepios. Mas ainda tem mais...
Your Wall Shall Fall traz o mestre MartinWalkyier, com sua indefectível voz de quem faz gargarejo com cerol,
bradando um hino que se faz obrigatório nos vindouros shows dos mineiros! Um
deleite para um fã dos velhos tempos do Skyclad,
como este escriba aqui. Conjura é
outra pedrada FolkMetal para nenhum fã do estilo botar
defeito, com dinâmicas e melodias engrandecidas pela maturidade da banda.
As versões para Outcry (que
ficou com um quê de NewModelArmy) e TanPingaRaTan, essa última com
as belas vozes de FernandaLira (sim, ela mesma, das incansáveis Thrashers emergentes mundo afora: Nervosa) e NitaRodrigues, fecham
muito bem a linha de frente do pacote. E nem a adição das demos para Rhymes e para a faixa título (em take instrumental) consegue minar a
fluidez desse Ep. Um daqueles
trabalhos que tão logo terminam já pedem por um novo toque compulsivo no “PLAY”
do aparelho de som. E cabe lembrar que essa patota inspirada está de show
marcado no Rio de Janeiro, dia 10 de agosto! Não dá para perder. Que venha logo
um novo FullLength!! (NOTA: 9,65)
Mais uma resenha
difícil de ser escrita. WarrelDane foi um dos meus Vocal-heroes, uma
inspiração tremenda e que contribuiu com um tempero especial dentro das
influências que ajudaram a construir minha identidade musical como vocalista e
letrista. Mas minha relação com aquela figura algo excêntrica de longos e
indefectíveis cabelos louros (o que provavelmente rendeu ao rapaz o apelido “Dane”- vernáculo levemente pejorativo
para quem se encaixa no estereótipo Nórdico) não foi exatamente um amor à
primeira vista. Um amigo me apresentou RefugeDenied, do Sanctuary, lá nos idos de 1999. Até achei o disco interessante, mas
esbarrei justamente nos agudos estratosféricos de Warrel. Sempre tive dificuldades com vocalistas com registros muito
altos. Mas quase que de imediato uma banda despontava na cena com uma
sonoridade única, uma tal Nevermore.
Escutar DreamingNeonBlack foi um soco no estômago e quando descobri que o versátil
cantor, que alternava graves góticos, melodias complexas e, eventualmente,
agudos lancinantes, era o mesmo WarrelDane do Sanctuary, ganhei um novo herói.
Warrel em sua cativante excentricidade
Warrel vinha excursionando
desde 2014 na companhia de um excelente time de músicos brasileiros, e em 2017
resolveu selar essa parceria com a gravação de um disco. Infelizmente a jornada
foi interrompida ao final do mesmo ano, quando justamente o coração que ele
punha em cada nota que cantava o traiu, e Warrel
se foi antes de poder gravar os vocais definitivos. O quarteto de músicos e a
gravadora fizeram então um esforço hercúleo de juntar os cacos das demos e
pré-produção e conseguiram montar um quebra-cabeças de oito músicas, intitulado
ShadowWork. O disco ganhou uma belíssima edição nacional em Mediabook, contando com várias
ilustrações do mestre TravisSmith. Confesso que custei a colocar a bolachinha,
supostamente um trabalho inacabado, para rodar. Mas tão logo o fiz, o coração
apertou. Lá vão minhas impressões.
Dane And The Zucas!
EtherealBlessing abre o trabalho, uma melodia fantasmagórica nos moldes que
só Warrel seria capaz de criar,
emoldurada sorumbaticamente por sons tribais. Pouco ela nos diz sobre o
direcionamento do mesmo trabalho, mas logo somos arremessados a MadameSatan, e aí a sombra do Nevermore
aparece. A faixa parece a evolução do que a banda vinha tentando fazer antes de
seu precoce encerramento, e chega até a convencer, graças à qualidade dos
aliados do estadunidense. Quanto talento os rapazes brasileiros têm!
O mesmo não pode ser dito dos outros momentos Nevermorianos: DisconnectionSistem é menos empolgante e remonta
ao PoliticsOfEcstasy, disco
complexo e algo mecanizado que marcou o corte do cordão umbilical do Nevermore com o legado musical do Sanctuary. ShadowWork, a faixa, é
de longe a menos interessante e parece um puxadinho construído por cima do
alicerce de Narcosynthesis. Já o
encerramento com MotherIs The Word For God quase desperdiça um
dos mais belos temas que Warrel já
cantou em nove longos e titubeantes minutos de quebradeira.
Mas é justamente quando a banda leva o saudoso vocalista para terrenos
anteriormente pouco explorados por ele que o disco vive seus melhores momentos:
As Fast As The Others gruda feito
piche no cérebro, a reinvenção de The Hanging
Garden (do TheCure) é ouro puro, e Rain é aquele cruzamento Metal/Gótico
que sempre funcionou tão bem com mr. Dane.
Sobre a performance do vocalista, ainda que ela seja feita de uma
compilação de gravações demo ou da pré-produção, tudo funciona bem. Não, você
não vai encontrar a performance vocal da vida dele aqui, mas cada palavra é
cantada com o coração na ponta da língua, e as melodias são muito boas. As letras? Fortes e únicas, como sempre! Já os
músicos, dão um show à parte: MarcusDotta definitivamente não é humano -
é o batera Cthulhu, um destruidor mestre
dos polvos; ThiagoOliveira (que compôs todas as músicas
autorais aqui) e JohnnyMoraes não só sobrevivem ao peso da
comparação com JeffLoomis como trazem inúmeros solos melodiosos
que engrandeceram em muito o disco; e até mesmo o baixo de FabioCarito, por vezes
enterrado em meio à multitude de informações da produção, tem seus bons
momentos aqui e acolá. Enfim, Warrel
se foi em ótima companhia.
O belo mediabook de Shadow Work
Veredito
da Cripta
ShadowWork não é o trabalho definitivo de WarrelDane. Por vezes o disco pecou ao sucumbir à tentação de emular o
passado no Nevermore, se saindo
melhor quando deixou estilisticamente essa sombra ficar para trás. Mas também
está longe de nos dar qualquer pista de se tratar de um corte e colagem
qualquer. É sim um disco para lá de digno e instigante, pesado e denso. Um grande
e empolgante Cd, que só entristece
ao nos fazer sonhar o que seria de uma hipotética continuação se esse vitorioso
e virtuoso time fosse mantido. RIP,
mr. Dane. Parabéns, Thiago, Johnny, Fabio e Dotta!
Quem me conhece sabe o quanto
amo o infame Rock and Roll em boa parte de suas quase infinitas formas.
Você, que frequenta
regularmente esse Blog bem sabe disso, tenho tanto prazer de ouvir um Vader ou um AmonAmarth quanto um FatesWarning, um Deftones ou
um SteelPanther.
Gosto especialmente de ouvir
um pouco de tudo dentro do som pesado.
Tudo, é claro, a depender do
momento que atravesso ou do meu estado de espírito.
Mas, embora meu coração tenha
uma espécie de bússola que sempre me guie (de tempos em tempos) de volta aos
sons mais simples do Rock puro ou do Metal Tradicional, sempre me traz enorme
delírio auditivo desbravar discos de bandas inclassificáveis, daquelas que
transitam por tantos corredores sonoros e bebem de tantas fontes que tornam
seus trabalhos por vezes herméticos ao grande público, a despeito da qualidade de
sua obra.
Essas bandas nem sempre me
agradam em tudo o que fazem, afinal, por vezes bebem de fontes amargas ao meu
paladar. Mas o desafio que proporcionam são um irresistível convite a que eu
pare minha vida por algumas horas e brinque de explorador.
Na cena brasuca até mesmo
nossos maiores expoentes do heavy metal tem como característica experimentar (Angra e Sepultura se fizeram grandes lá fora justamente por isso). Mas se
existe uma banda cuja extensa paleta de cores usada em seus discos é de tamanha
idiossincrasia que sempre me atrai como uma mariposa para a luz, essa banda se
chama Imago Mortis.
Dona de uma obra curta, mas
consistente, e progenitora de Vida,
um dos maiores discos de nossa história metálica, ImagoMortis retorna à
ativa após longuíssimos 12 anos. LSD
é um trabalho conceitual em torno da montanha russa de emoções que envolve a
construção e desconstrução de um grande amor, calcado nos exageros de nossa
cultura de romantizar demasiadamente relacionamentos.
E é claro, a
expectativa para a nova viagem musical não poderia ser menos do que absurda.
O sexteto, como desenhado no encarte
E a abertura, com os 13 minutos de The
LSD Theorem já me mostrou que a viagem definitivamente não seria em vão.
Elementos de WorldMusic, normalmente alienígenas á bandas
de HeavyMetal, aqui integram harmoniosamente a paisagem. Uma paisagem árida
e empedernida, como deve ser, já que a matriz rochosa primordial do Imago é o DoomMetal. A música se
constrói aos poucos, apresentando o forte tema musical principal e diversas
facetas, como que se tentasse sintetizar tudo o que o sexteto preparou para o
novo disco ao longo de sua existência. Uma grande música, em extensão e
qualidade. A qualidade sonora é excelente, a produção, privilegia a dinâmica,
luz e sombras o tempo todo. Mas as onipresentes camas de teclados (pelo
talentoso CharlesSoulz), destacadas demais na mixagem,
me incomodaram tremendamente nas primeiras audições. Não, LSD não é tão calcado nas guitarras quanto se esperaria, mas isso
está longe de querer dizer que não é um disco pesado. BinaryViscerae, do
próprio tecladista, onde o sempre versátil AlexVoorhes mostra sua faceta Black
metal nos versos alternando com seu já famoso estilo operístico no ótimo
refrão, que o diga.
E HierosGamos segue, um monstro avassalador que facilmente conquistará os
fãs dos trabalhos anteriores de imediato, compilando WorldMusic, Doom e extremo com gemidos femininos
daquela forma única que só o Imago é
capaz. Aqui as guitarras de DaemonRoss e RafaelRassan pulam à
frente dos teclados num novo clássico da banda. E o rinoceronte branco AndréDelacroix (Metalmorphose,
AzulLimão), um baterista para lá de subestimado na cena, comprova mais
uma vez sua capacidade inconteste de destruir kits em qualquer estilo.
Alex torna
com maestria seu poderoso trinado em um quase sussurro em Incantation, guiando a beleza sorumbática de uma PowerBallad que é o tipo de som que o LeifEdling deve colocar
para rolar no dia dos namorados para sua noiva cadáver. Mas nem tudo funciona
assim tão bem, a balada seguinte, ThePromise, esbarra um pouco demais no DisneyMetal.
Não e isso não é nem de longe
uma crítica a doce voz de fada de JuliaCrystal, que divide os vocais com Voorhes.
Aqui o protagonista encontra
o grande amor e o tom adocicado da canção apenas mimetiza aquela fase grudenta
que todos já experimentamos alguma vez na vida. Ok, um caso em que o conceito
se sobrepõe à música. Muito melhor se sai o dueto de Two-Headed Chimaera. O relacionamento começa a azedar, e nada
melhor do que a voz cáustica de MarianaFigueiredo (que me faz pensar numa
improvável filha entre TinaTurner e LeatherLeone) travando
uma intensa DR com Mr. Alex. Simplesmente
duas das melhores vozes de nossa cena na mesma música. Aliás, essa faixa tem
ótimas performances de todos os músicos.
O baixo de PauloRicardoSilva prepara o terreno para o Doom
mais puro de A FarewellKiss, onde a voz mutante de Alex parece encarnar uma versão
tupiniquim do monstruoso McCoy,
mestre do raramente lembrado Fields Of The Nephilim. Outra
faixa que faz o link com o Imago do
passado. Black Widow, primeira do pacote a ver a luz do dia, e de longe a mais
direta e “simples”, não deixa pedra sobre pedra.
Mas se a dobradinha anterior joga os fãs em terreno razoavelmente
conhecido, o mesmo não pode ser dito sobre Alone.
Aqui parece que enterraram Gary Moore no cemitério maldito do Stephen King, e
ele retornou macabramente e compôs uma versão zumbi-demoníaca do que seria uma
de suas emocionantes baladas blues-rock, com belas guitarras chorando. E se a
interpretação de AlexVoorhes aqui não te der arrepios e não
for suficiente para te convencer de que ele é um dos maiores vocalistas da
nossa história, sinto muito, mas é você quem está morto. Melhor procurar o infame cemitério indígena.
Não sou um grande fã de discos
conceituais, e o motivo disso é que raramente eles não sucumbem à pantomima de sacrificar a parte musical
em favor do andamento da história. E LSD
não escapa a esse mal. Exile é um
curto e melancólico interlúdio tocado inteiramente no piano. E Epitáfio de Um Amor, a despeito de
fazer imenso sentido dentro da história contada, traz um poema declamado sobre
uma trilha musical que a princípio reflete alguns temas do disco e depois parece
transmutar para algo saído da trilha de uma nada bem-vinda continuação cinematográfica de NossoLar. Mas Love Sex And Death (theme) aparece apoteótica,
aos 47 do segundo tempo para nos lembrar de que está se encerrando um dos
grandes discos nacionais de 2018.
Veredito
da Cripta
LSD definitivamente
não é o disco mais pesado do ImagoMortis, mas certamente é o mais complexo
e variado. Um trabalho denso e repleto de detalhes, daqueles que cresce perante
repetidas audições e que demanda bastante do ouvinte. Mas quem decidir embarcar
nessa viagem, dificilmente se arrependerá. Mais um capítulo excelente na
carreira de uma das bandas mais idiossincráticas do Metal Brasileiro.
NOTA: 8,65
Visite o The Metal Club
Gravadora: Die Hard Records (nacional)
Prós: diversificado e intenso
Contras: teclados em destaque e poema declamado
Classifique como: Doom Metal, Metal Progressivo
Para Fãs de: My Dying Bride, Primordial,
Candlemass
Às vezes a vida nos prega umas
peças. Estava eu a fazer um show com minha banda tributo ao BlackSabbath e Ozzy, a BlizzardOfOzz, num domingo. Um amigo
e ex-colega de paleontologia (sim, vejam só, já trilhei esse caminho bacana),
hoje um renomado pesquisador/professor, cantava cada música a plenos pulmões lá da plateia.
Começamos a tocar CrazyTrain, chamo ele ao palco, enquanto
faço um stagedive. O cara detona. O show estava sendo filmado, a filmagem vai
parar no Youtube. Uma banda de
progressivo procurava um vocalista, viu o vídeo e bum, deu o clique. LeoAvilla é o nome do dono da bela voz. Aglarion o nome da banda. E eu me tornei um orgulhoso padrinho
incidental.
A Aglarion surgiu em 2012, quando um grupo de amigos repleto de
influências em comum decidiu montar uma banda de Metal Progressivo. O nome
escolhido, o de um planeta fictício que flutua num oceano de luz numa galáxia
distante. A intenção de suas composições? Mesclar arte e ciência nas temáticas
e letras. Diversas formações se passaram até que eles enfim resolvessem gravar
seu primeiro Cd, BeyondTheVoid. Por enquanto eu sou um dos poucos com acesso ao material, que
sairá até o final de 2018. E vou então contar de primeira mão um pouco do que
espera vocês.
Beyond
The Void, o disco
Dharma, a
instrumental que abre o disco, é uma verdadeira salada de referências
progressivas. De Marillion a Genesis, passando por Kansas e Eloy, há de tudo um pouco para os fãs do estilo nos temas inclusos em
seus belos 5 minutos. Innonimata, um
reflexo sobre a natureza belicosa dos homens, inicia com uma parte falada e
clima espacial e ritmo marcial, quebrados pela primeira aparição da voz de LeoAvilla. Um belo timbre que em muito lembra o saudoso Mac, do Threshold, com linhas melódicas dramáticas que agradarão aos fãs
dos melhores momentos do Arena.
Ótima música, repleta de dinâmica, um tema de teclado que gruda na mente (e que
poderia estar tanto numa música progressiva quanto numa canção do MyDyingBride) e belos solos.
Sinos e efeitos sonoros, um
belo timbre de guitarra e começa a instrumental StreetsOfSalem, repleta de reviravoltas. Ao que
tudo indica, a curta e épica We Are The
Ones, cujo subtítulo é Koyaanisqatsi,
tem sua letra baseada no filme cult homônimo, que expunha uma visão muda sobre
as relações entre a humanidade, a natureza e a tecnologia.
On
Clocks And Clouds tem um baixo pulsante (cortesia de DiogoSarcinelli, que também co-assina as guitarras), bateria inspirada (por
Filipe Barbosa) e clima Marillionesco em meio às mudanças de
andamento e guitarras (LuizMenezes) que flertam ligeiramente com o
Heavy Metal aqui e acolá. O tecladista DemisonMotta mostra seu repertório de timbres no belo interlúdio Twilight Of A Life, preparando o
terreno para a longa, sombria e por vezes bem pesada, Nostradamus. Talvez a primeira do material que indubitavelmente pode
entrar no nicho do Prog Metal, é também a música que traz a performance mais
versátil de Leo, numa linha melódica
incomum e bem bonita. A fusão do peso metálico com a complexidade progressiva segue
na ótima instrumental Nordgalen e em
Icarus (TheMyth), essa última com
os teclados talvez um pouco acima do aconselhável na mixagem, mas com uma
interessante resolução que remete aos melhores momentos do NeoProg do início dos
anos 1980. O disco tem fim com outra faixa épica, sintomaticamente chamada Valhalla, bem dramática (e com um
gutural bem colocado, juro que ouvi) e que condensa o clima de todo o trabalho
em seus sete minutos de duração.
Veredito
da Cripta
BeyondTheVoid é um disco repleto de ótimas ideias e performances espalhadas
num material de qualidade, mas que demanda atenção do ouvinte, crescendo com as
repetidas audições. Como um bom disco de Progressivo deve ser, diga-se. Uma estreia
promissora de uma banda que aposta num estilo pouco explorado em nosso país!
É
sempre interessante notar a diferença entre os públicos dos vários subgêneros
dentro do rock. No curto espaço de tempo passado na fila do teatro Rival,
fiquei todo ouvidos só captando os diálogos alheios. Se no show do Slash, com seu público “roqueiro de
rádio cidade” que vai ao show por duas ou três músicas batidas sem se importar
com a qualidade do espetáculo em si, isso me rendeu uma imensa sensação de que
o rock realmente estava fadado à morte lenta e dolorosa, no caso do público do POS, foi o contrário. A garotada, que
em sua maioria tem aquela pinta de quem fazia a festa nas lanhouses da vida,
conversava avidamente sobre a carreira de sua banda favorita, parecendo
conhecer cada nuance dos discos e até mesmo de assuntos não tão obrigatórios.
Isso sem perder o humor. Em determinado momento ouço a seguinte tirada: “O
único Ragnar bom era viking e já
está morto”. Gargalhadas se seguiram e só então eu, longe de ser fanboy dos
suecos, me toquei que corria no ar a apreensão de como seria o show (adiado de
fevereiro por problemas de saúde com o dono da bola, DanielGildenlöw) com a
“nova” formação, ainda não testada, com JohanHallgren retomando seu lugar na
guitarra (e voz), justamente em substituição ao tão mal falado
multi-instrumentista Islandês RagnarZolberg. Dentro da casa, tomei meu
lugar para o show da sempre competente banda carioca ReckoningHour.
Reckoning Hour
O quinteto, cujo som
fica muito distante do praticado pela banda principal da noite, bem poderia
correr o risco de uma recepção desfavorável. Mas a ReckoningHour tem
toneladas de peso e talento, e vem se mostrando uma máquina para lá de azeitada
em cima dos palcos cariocas.
JP, o gogó feroz dos excelentes cariocas
Destilando um Metal Moderno que não fica a dever em nada
à muitos expoentes gringos do gênero, logo os rapazes conquistam o público, com
as boas músicas de seus dois trabalhos amplificadas por um primor técnico e muito
carisma. Quando me perguntam sobre renovação na cena brasuca, nem penso muito,
um dos primeiros nomes que me vem à mente é o da ReckoningHour: uma bandaça
que merece alçar voos cada vez maiores. (NOTA:8)
Lucas Brum, um dos guitarristas da Reckoning Hour
Pain Of Salvation
Quando se fala em ProgMetal, muita gente (esse escriba inclusive) logo relaciona o rótulo
à músicas frias e sem alma executadas por robozinhos assexuados travestidos de
músicos. Tudo o que o Rock não
precisa. Mas esse estereótipo passa longe da obra e dos shows do POS. Aqui emoção e feeling ficam em
primeiro plano, a despeito do cuidado com detalhes técnicos. FullThrottleTribe abre
magistralmente o set, e chega a impressionar a desenvoltura da banda em eu
primeiro show desde janeiro desse ano.
Daniel e Flea
Daniel, o dono da bola,
descalço e vestindo uma roupa que você não usaria nem para ajudar seu avô a pintar
a sala, arranca suspiros da mulherada a cada intervalo de música, e sua
felicidade por estar de volta à ativa é contagiante. E a confiança no novo
disco é tamanha que o set seguiu com Reasons
(que acho péssima, mas o público cantou palavra por palavra) e a belíssima Meaningless. A recepção? Cada vírgula
das novas músicas era bebida pela plateia, que se não lotou o TeatroRival, fez compensar os lugares vazios com invejável devoção. E essa
energia circulava, com a banda, em chamas, catapultando em nossas faces o
momento mais rocker da noite, com a
setentista (e excelente) Linoleum.
Daniel Mendigato Gildenlöw
Daniel, o mendigato, pode
não ser o fenômeno vocal que alguns dos discos da banda apregoam, mas está tão
bem assessorado vocalmente por todos os membros do POS
que pouco isso afeta o resultado final - quase tudo o que se ouve das complexas linhas melódicas em estúdio é reproduzido ao vivo. Hallgren,
recentemente reintegrado ao bando, é quase tão ovacionado quanto o patrão.
Pudera, o irmão gêmeo do Flea toca e
agita muito, além de ser um dos destaques vocais. Aliás, todos os membros dessa
formação tocam eximiamente bem, mas com muita pegada e clara vontade expressa
nos rostos. E até os erros eram recebidos com sorrisos por todos, seja no
palco, seja na plateia. Fica fácil se divertir quando a banda mostra tamanho
carinho pelo que faz.
Johan compenetrado
O
repertório buscou representar quase toda a carreira dos suecos, mesmo com a
preferência pelo novo disco. Ashes e
RopeEnds arrancaram lágrimas de muitos e o set inicial terminou com a
Excelente OnATuesday, com
impressionante contribuição vocal do exímio baterista LeoMargarit. Se eu não
tivesse visto com meus próprios olhos, juraria que a voz do cara sai de dentro
de uma estonteante loura escandinava. Um falsete e tanto! O bis se deu com a
faixa título do novo trabalho, aparentemente já elevada a clássico pelos fãs. Doze
músicas e 100 minutos depois, com muitos sorrisos e uma energia palpável no ar,
a banda se despede. E pela reação do público, podem retornar ano após ano sem
medo. Um grande show. (NOTA:9)