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quarta-feira, 1 de março de 2017

Os Melhores de 2016 - Pela Cripta do Trevas!

Os Melhores de 2016 pela Cripta do Trevas!
Olá, Guardiões da Cripta

Mais um ano se passou, mais uma lista atrasou, hehehehe

Bem, passei janeiro e fevereiro chafurdando nas listas de sites e pessoas em busca de discos obscuros. Confesso que caso não o tivesse feito, meu Top 20 de 2016 teria ficado bem empobrecido.

E não é por falta de material, não. Foi o primeiro ano em que utilizei ativamente o Spotify, e com ele e o The Metal Club, consegui ter alcance a uma penca de discos quase impossíveis de serem encontrados fisicamente. Devo ter escutado cerca de 200 trabalhos, uns 100 deles resenhados na Cripta.

2016 foi tão bom em lançamentos de rock pesado que minha lista original para essa postagem contava com 30 discos. Abri mão de coisas como os novos do Testament, Kvelertak, Temperance Movement, Claustrofobia, Killswitch Engage, Deftones...mas o fiz para que o texto ficasse menos longo.

Mas ainda assim ficou beeeem longo. Dividirei a postagem em duas partes. Na primeira, farei um apanhado de diversos pontos de 2016. Na segunda parte consta a lista do Top 20.
Comentem, critiquem, desenvolvam vossos vocabulários chulos, só lembrem de deixar minha progenitora fora dessa. Divirtam-se!!!

Saudações metálicas!
Trevas


MELHORES (E PIORES) DE 2016 – Parte I:
Por Trevas


Decepção e Bomba
Decepção e Bomba? Opeth e Metallica cabem aqui? Bom, decepção a gente só tem quando se espera algo de alguma coisa ou alguém. Não é o caso, parei de me importar com o Opeth tem tempo e Metallica nunca me interessou. E, convenhamos, por mais mequetrefes que soem os novos discos, estão longe de poderem ser considerados bombas. Decepção tive quando escutei o novo projeto dos mestres Hank Shermann e Michael Denner. Os caras tiveram a infeliz ideia de contratar para os vocais Sean Peck, o Ripper Owens sem pedigree, que tem tempos infla minha bolsa escrotal com o genérico Cage. Bom, Sean parece ter se empolgado ao fazer um som com os tiozões do Mercyful Fate, nos presenteando com a performance vocal mais irritante desde a estreia de Jim Gillette. Some os maneirismos para lá de Over de nosso amiguinho à um punhado de faixas burras do naipe de Son Of Satan e temos o disco mais decepcionante que escuto em eras. Mas, por pior que seja Masters of Evil, ele em nada se compara a The Astonishing, do Dream Theater. Os nerds estadunidenses encapsulam tudo o que há de pior no Prog Metal, mas dessa vez se superaram: 130 minutos de puro exibicionismo com barulhinhos de robôs e melodias insípidas que contam uma história tão desinteressante e genérica que se trocássemos os robozinhos por dragões, teríamos um disco do Rhapsody. E tome tiruliruli-tirulirulu-pim-pom-tum. O treco é tão absurdamente ruim que a melhor música dentro as 34(!!!!), the Gift Of Music, não serviria nem de lado B de single do Rush atual. Bisonho!

Denner/Shermann + Dream Theater - why, Lord, whyyy??!?!?!

Revelações:

Ok, ok. Podem me xingar. Mas o combo britânico de Classic/Hard Rock que o queridinho do The Voice Nathan James montou promete, e muito. O primeiro disco do Inglorious pode não ter reinventado a roda, mas promete fazer a alegria dos fãs de Rainbow e seus derivados pelos anos que virão. O mesmo pode ser dito dos espanhóis do Lords Of Black. Não os caras não nasceram em 2016, mas a escolha de seu vocalista, Ronnie Romero, para o posto de nova aposta de Blackmore no retorno improvável do Rainbow fez com que os caras ganhassem uma exposição gigantesca. Uma baita banda a ser espiada no futuro! E coloco aqui um supergrupo também – Last In Line. O combo montado por Vivian Campbell e Vinny Appice chutou bundas com seu debut. E para provar que não foi acidente, já anunciaram o lançamento do segundo rebento. Aqui no Brasil, fui surpreendido pelo trio Chronicode, que lançou meio que na surdina seu Shapeshifter, mostrando que Mari Figueiredo é uma das melhores vozes da nova cena brasuca. Com boas músicas guiadas pelas guitarras afiadas de Julia Pombo e Celo Oliveira e uma baita produção, esse projeto é mais uma promessa tupiniquim de alta qualidade! 

Inglorious, Lords Of Black, Last In Line e Chronicode - gratas surpresas!
Capas do Ano!

Ah, tá, ninguém mais compra mídia física. Foda-se! Ninguém liga mais para arte gráfica. FODAAAAAA-SEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!!!! 

Eu ligo. Engole o choro!

Olha, ainda que o declínio da vendagem das mídias físicas seja uma infeliz realidade, ele não afetou tanto assim a qualidade das artes gráficas dos lançamentos mundo afora não. Muito provavelmente por que as ferramentas hoje são muito mais acessíveis aos artistas de plantão. Escolhi aqui quatro capas que considero das mais belas que vi esse ano. Brotherhood of the Snake, do Testament, pode ter falhado em me conquistar como o fizeram os lançamentos dos caras desde The Gathering. Mas a arte de capa do Israelense Eliran Kantor (Satan, Crowbar, Kreator) ficou excelente, casando bem com as paranoias conspiratórias das letras do disco.

O Tamuya Thrash Tribe explora em suas letras um pouco de nossa história. E também toca em temas para lá de pesados, como o silencioso genocídio de nossos índios. E dificilmente uma arte de capa poderia se mostrar mais concisa e impactante do que a que adornou The Last Of The Guaranis. Um Forte e belo trabalho da artista plástica Isabelle Araujo.

O Metal extremamente técnico e espacial dos estadunidenses do Fallujah geralmente vem adornado por artes de capa belíssimas e etéreas, e em Dreamless não foi diferente: cortesia de Peter Mohrbacher, especialista em ilustrar versões bem diferentes para as entidades que chamamos de “Anjos”.

Os noruegueses do Kvelertak decidiram abandonar as artes de temática pagã do excelente John Baizley (líder do Baroness), mas o renomado ilustrador Arik Roper (que além e artes para outras mídias já pintou coisas para Black Crowes, Sleep e Cathedral) nos presenteou com uma bela ilustração Old School para o Night Traveller (com a corujinha mascote da banda à tiracolo) do título em norueguês.

Testament, TTT, Fallujah e Kvelertak - belos trabalhos de arte gráfica
Shows:
A oferta de shows pelo Brasil em 2016 foi bastante boa. Os preços, nem tanto. Aqui na Cripta vocês puderam ler relatos de alguns convidados ilustres sobre o primeiro Hell In Rio, sobre a primeira turnê do Iron Maiden depois da recuperação de Mr. Bruce Dickinson, além da passagem marcante do Sisters Of Mercy pelo Rio. Pude assistir a uma penca de shows em 2016, vários deles memoráveis (Soilwork, Candlemass, Halestorm, Kamelot, Exciter/Sacred Reich), mas dentre todos, os que mais me marcaram foram os shows de dois combos teutônicos (7x1?):

A) O verdadeiro massacre sonoro que a nova encarnação do Accept propiciou no Imperator, em Abril. Arrisco a dizer que os caras estão melhores hoje do que em seus tempos áureos. Um show de metal sem frescuras, apenas a banda e sua música.

B) Bem diferente da minha escolha seguinte: o apoteótico show do Rammstein encerrando o primeiro Maximus Festival. Um show de tanto poder de fogo musical e visual que é capaz de tornar uma apresentação do Kiss algo mambembe e desinteressante. Simplesmente o melhor espetáculo audiovisual que a cena do rock pesado já criou. Inesquecível.

Pôster do primeiro Maximus
O que esperar de 2017?

Em termos de lançamentos, 2017 começou com tudo! Kreator, Pain Of Salvation e Sepultura já botaram suas garrinhas de fora com dois discaços que em breve ganharão suas resenhas por aqui. Os veteranos prometem muita coisa boa vindo por aí: Judas Priest, Metalmorphose e Deep Purple são alguns dos “velhinhos” que já anunciaram novos trabalhos para esse ano. Ritchie Blackmore já avisou que uma segunda rodada de shows do Rainbow redivivo irá acontecer, deixando um suspense em relação a um novo disco. O Megadeth finalmente conquistou seu primeiro Grammy, ainda que trolado pela produção, que tocou uma música do Metallica no momento do anúncio. E 2017 ainda promete ser o ano em que finalmente o Tool vai largar a preguiça de lado e lançar seu primeiro trabalho em mais de 10 anos. Em relação a shows em nosso território, Amon Amarth, Abbath, Lacuna Coil, Evanescence e Moonspell já tem datas confirmadas. A promessa é de uma agenda ainda mais cheia e repleta de grandes apresentações do que 2016. Enfim, o ano promete!


MELHORES DE 2016 – PARTE II - TOP 20!!!


20. Witherscape - The Northern Sanctuary

20. Witherscape – The Northern Sanctuary
O projeto do criativo sueco Dan Swanö com Ragnar Widerberg  tem um pé na morbidez, mas com nuances Prog e citações a quase todo e qualquer subgênero dentro do Heavy Metal, mas sem perder uma inesperada veia pop.


19. Gus Monsanto - Karma Café
19. Gus Monsanto – Karma Café
O primeiro disco solo de um dos melhores vocalistas da história do rock pesado Brasuca é uma grata surpresa: AOR/Hard recheado sensibilidade e boas ideias. Ah, e com um vocal de primeira!


18. Lords Of Black - II
18. Lords Of Black – II
Vocal de primeira é o que encontramos nessa banda espanhola, que faz uma versão 2016 do som que o Rainbow imprimiu lá nos anos 1970. Não à toa, Ronnie Romero foi escolhido vocalista do...Rainbow!


17. Ihsahn - Arktis
17. Ihsahn – Arktis
O norueguês é especialista em trabalhos que misturam zilhões de influências de tudo o que já foi feito dentro do metal. Só que dessa vez ele conseguiu fazer isso de maneira ainda mais acessível.


16. Blood Ceremony - Lord Of Misrule
16. Blood Ceremory -  Lord Of Misrule
Os canadenses fazem um Occult Rock que bebe tanto de Jethro Tull quanto de Black Sabbath e Coven. Os riffs monolíticos com nuances folk, flautas e a bela voz de Alia O’Brien criam um clima único e sombrio.


15. Vader - The Empire
15. Vader – The Empire
Não há nada de necessariamente novo nos pouco mais de 30 minutos do novo disco dos mestres poloneses do Death Metal. E nem precisa ter novidade quando se faz um disco tão forte e vigoroso quanto esse.


14. Tygers of Pan Tang
14. Tygers Of Pan Tang - Tygers Of Pan Tang
Talvez o disco mais improvável a figurar na minha lista. Os veteranos da NWOBHM  tem mais cacos do que clássicos em sua discografia, então esse ótimo disco homônimo certamente pode figurar entre seus melhores trabalhos.


13. Last In Line
13. Last In Line – Heavy Crown
Vivian Campbell remonta a formação clássica que gravou Holy Diver para honrar a memória do desafeto Ronnie James Dio. Soa falso? Em intenção, sim, mas que puta disco nasceu dessa ideia!


12. Purson - Desire's Magic Theatre
12. Purson – Desire’s Magic Theatre
Rosalie Cunningham, o prodígio britânico que praticamente faz tudo nessa banda com nome de capeta, muda a chave de seu som para algo mais psicodélico e menos sombrio, mas ainda assim excelente.


11. Magnum - Sacred Blood, Divine Lies
11. Magnum – Sacred Blood, Divine Lies
Os veteraníssimos britânicos, responsáveis por uma das sonoridades mais idiossincráticas da história do rock, vivem um raro momento de criatividade tardia. Um dos melhores trabalhos de sua extensa discografia.


10. Trees of Eternity - Hour of the Nightingale
10. Trees Of Eternity – Hour of the Nightingale
A Sul-Africana Aleah Stanbridge pode ter deixado cedo demais esse plano astral. Mas seu legado musical, em parceria com Juha Raivio (do Swallow the Sun), viverá para sempre nesse belo e tristonho disco.


09. Fallujah - Dreamless
09. Fallujah – Dreamless
Robótico, etéreo e extremamente técnico, o som dos estadunidenses é bem próprio. Para nossa sorte também é pesado feito um mamute celestial. Estranho e muito criativo, um baita disco de metal moderno.


08. Metal Church - XI
08. Metal Church – XI
Outra surpresa vinda de um grupo veterano. Mike Howe retornou ao Metal Church e parece que os anos afastado da cena fizeram muito bem ao vocalista uma ótima performance num disco recheado de petardos para deixar a velha guarda de sorriso no rosto.

07. Khemmis - Hunted
07. Khemmis – Hunted
Em Hunted, o Khemmis escreve um verdadeiro compêndio de quase tudo o que se pode fazer dentro do Doom Metal. Épico, pesadíssimo e lento feito uma tartaruga das galápagos com reumatismo.


06. Gojira - Magma
06. Gojira – Magma
Composto em um longo espaço de tempo onde a vida dos irmãos Duplantier foi revirada de pernas para o ar, Magma confirma a capacidade dessa banda francesa de compor discos que não se parecem com nada que já tenha sido feito antes. Pesado, denso e ainda assim cheio de sutilezas.


05. Blues Pills - Lady In Gold
05. Blues Pills – Lady In Gold
O combo multinacional capitaneado pela bela vocalista sueca Elin Larsson já havia apresentado uma imensa gama de influências no som retrô de seu surpreendente debut. Mas no novo disco foram ainda mais longe, mostrando que além de emular com precisão as eras de ouro do Rock, são capazes também de compor belas músicas que grudam na nossa cabeça.


04. Tamuya Thrash Tribe - The Last Of The Guaranis
04. Tamuya Thrash Tribe – The Last Of the Guaranis
Os cariocas nos presentearam com um trabalho extremamente bem pensado, desde o conceito, passando pela arte gráfica, composições e arranjos. Ah, e no meio disso tudo tem peso, um puta peso, diga-se. Um dos melhores trabalhos de estreia de uma banda brasuca em muito tempo.


03. Insomnium - Winter's Gate
03. Insomnium – Winter’s Gate
Puta merda, um trabalho conceitual sobre uma história viking em uma única música dividida em várias partes. Adornado por uma sonoridade que remete ao Melodic Death Metal. Isso pode prestar? Sim, e como!!!!! Um trabalho quase perfeito.


02. Amon Amarth - Jomsviking
02. Amon Amarth – Jomsviking
Eita, mais um trabalho conceitual envolvendo temática nórdica? Virou moda? Obviamente os suecos do Amon Amarth são bem menos sutis que os colegas do Insomnium, mas ainda assim a história simples de Jomsviking é muito bem contada. E musicalmente o disco é o melhor dos brucutus desde o perfeito Twilight Of The Thunder God.



01. Fates Warning - Theories Of Flight
01. Fates Warning – Theories Of Flight
Vejam só que surpresa, um cara que adora desancar o Prog Metal coloca justamente um dos baluartes do estilo no topo de sua lista? Pois é. Mas não estamos falando de qualquer banda, e sim de uma das pioneiras. E de longe a mais madura. E é justamente por isso que o FW não cai nas armadilhas de punhetagem explícita e arrogância intelectualoide que assolaram e minaram o estilo. Não que não existam momentos de proficiência técnica que esbarrem nisso por aqui, mas o que vem primeiro para Jim Matheos, Ray Alder e sua trupe é a música. E Theories Of Flight está repleto de boas canções, excelentes melodias e peso, muito peso. Com dos melhores discos de uma longa carreira, o Fates Warning angariou com sobras o topo de minha lista!




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Tamuya Thrash Tribe – The Last Of The Guaranis – Edição Especial (2Cds-2016)

Tamuya Thrash Tribe - The Last Of The Guaranis (Cd-2016)

Programa De Índio
Por Trevas

Meu primeiro contato com Tamuya Thrash Tribe (ou TTT) aconteceu de surpresa. Uma grata surpresa, diga-se. Fui ao Vivo Rio em 2012 assistir ao show do Black Label Society, banda de Zakk Wylde. Quando adentrei a casa o TTT já estava no palco, detonando um set curto, mas bem poderoso. Dois anos depois, tive a oportunidade de rever o show dos caras minada pela falta de informações sobre o horário de início do show, que abriu a estrondosa passagem do Amon Amarth pelo Circo Voador. Show perdido, aproveitei para garantir uma cópia do Ep United, primeiro rebento dos cariocas. United é um disco bacana, um bom cartão de visitas de uma promissora banda. Mas quem viu ao menos um pouco de qualquer show dos caras, com seu Thrash Metal + Death Metal Melódico que em muito lembra o dos já citados Vikings suecos, sabia de cara que a banda tinha muito mais a mostrar. E então um dia fui surpreendido pelo anúncio da arte de capa do que seria o disco de estreia, intitulado The Last Of The Guaranis. E sim, tinha cheiro de coisa especial.


Arte Gráfica e Conceito:

O anúncio da impactante arte gráfica, uma belíssima e sombria ilustração da artista plástica Isabelle Araujo, baseada em ideias do vocalista/guitarrista Luciano Vassan e inspirada nos trabalhos do premiado fotógrafo Steve McCurry já mostrava em parte o conceito por detrás do disco. A emblemática capa traduz em uma só imagem o acachapante índice de suicídio entre os povos indígenas, fruto de conflitos por terras onde a cultura e os valores religiosos dos nativos são violentados em prol do lucro do homem branco. The Last Of The Guaranis chafurda tematicamente nas entranhas de alguns desses conflitos desde suas origens, remetendo aos seus desdobramentos na violência urbana que encontramos hoje nas grandes cidades. Forte, não. Mas de boas intenções (e pretensões) o inferno está cheio, e de nada adiantaria o belo conceito se não estivesse acompanhado de uma boa contraparte musical. Para nossa sorte e deleite, a parte musical não fica nem um pouco atrás...

Arte Gráfica da Edição Especial (capa/contracapa)
Música:  

O disco abre mostrando suas raízes, com um hipnótico cântico indígena entoado pelo Coral de Crianças Guarani. Logo somos jogados de um ambiente aparentemente pacífico para o olho de uma tempestade. Nessa tempestade, a dita voz de Nhanderú é expressa pelo trovão, ou como dizem os donos dessa terra, Tupã-Cinunga. Musicalmente o TTT surge como o trovão expresso na letra, matador, uma versão tupiniquim perfeita dos suecos do Amon Amarth. A voz de Luciano Vassan (que escreve boa parte do material e também toca guitarra), inclusive, lembra a de um imberbe Johan Hegg. O apoteótico interlúdio em tupi vem nos lembrar que não estamos nem de longe falando de meros copistas.



O ponto (ou cantiga) de umbanda, Brado de Xangô (na voz da Mãe de Santo Gleyds Granden), faz o perfeito contraponto com a ferocidade de Senzala/Favela. Essa música traz elementos tribais (ao longo do disco, vários percussionistas convidados auxiliam o excelente baterista Bruno Rabello), guitarras que lembram os sons mais pesados do Paradise Lost e letras em inglês e português para fazer a correlação entre o fim da escravatura e o início da favelização e segregação racial aliada ao constante desmerecimento dos valores culturais afrodescendentes. Confesso não ter nenhuma simpatia pelo Marcelo D2, mas sua participação nessa música cai como uma luva, ajudando a criar o clímax de um possível novo clássico do metal nacional. A destacar, a bela produção de Sidney Sohn Jr, que consegue equilibrar a crueza com diversos elementos exóticos que engrandecem em muito o resultado final.

TTT - 2016
The Last Ball Of The Empire é mais direta e tem menos chances de assustar os fãs mais ortodoxos de Metal. As guitarras cortantes de Vassan e Leonardo Emanoel erguidas imponentemente sobre a base monolítica da cozinha formada por Rabello e João Paulo Mugrabi (baixo). Nela sinto pela primeira vez um dos pequenos problemas do disco, a pronúncia do inglês de Vassan. Longe de ser macarrônico, provavelmente só incomodará os muito detalhistas ou os native speakers. Mas esse é um dos poucos pontos que consigo enxergar onde a banda pode evoluir, até por que a qualidade do material é tanta que os mercados internacionais devem estar na programação. A excelente faixa título é outra a trilhar um caminho mais Amon Amarth, com adicionais tribais e alguns momentos meio Dino Cazares na guitarra.


A voz de João Cavalcanti (filho de Lenine e vocalista do Casuarina), dá vida a perfeita Vinte e Cinco, que serve de introdução à Violence And Blood (ver vídeo), numa das melhores fusões música brasileira/Metal que se tem notícia desde Roots do Sepultura. Apoteótica! A Call From Xapuri e Conjuration são muito boas, mas empalidecem um pouco perante o restante do material. O disco se encerra de maneira mais calma, com a balada Urutau’s Cry mostrando que o gogó de Vassan ainda se faz muito mais eficiente nos momentos mais violentos do que nos de maior sutileza. Hàhè’m nos apresenta à bela voz de Zahy Guajajara, naquela que pode ser definida como uma The Great Gig In The Sky, do Pink Floyd, se a mesma fosse cantada em tupi por uma banda de metal. Exótico? Absolutamente. Mas cara, funciona muito bem!


Saldo Final

The Last Of the Guaranis é um ousado trabalho desde sua concepção gráfica até sua execução musical. Acredito piamente que tem muita banda boa no cenário rocker brasileiro colocando nas prateleiras físicas ou digitais uma penca de bons lançamentos. Mas não me lembro a última vez que fiquei tão admirado com um disco de estreia de uma banda de Heavy Metal brasuca como fiquei com este Cd. Só o tempo dirá, mas apostaria sem medo que The Last Of the Guaranis será lembrado no futuro como um dos grandes clássicos de nossa música pesada. Um dos melhores discos desse belo ano para a música pesada que foi 2016!



NOTA: 9,10

Pontos positivos: excelentes integração entre o Metal e música brasileira
Pontos negativos: pode assustar os bangers mais ortodoxos
Para fãs de: Amon Amarth, Sepultura
Classifique como: Melodic Death Metal, Thrash Metal


Bônus da Edição Especial:

Quem comprou o disco antecipadamente pelo Site do TTT recebeu em mãos um belo pacote em formato DVD/Digipack, contendo um encarte caprichado e um segundo Cd. Esse segundo Cd é a versão remasterizada do Ep United, com a cozinha regravada pela formação atual e duas faixas bônus acústicas. Como eu falei no início da resenha, United representou um cartão de visitas bacana do potencial da banda. Mas nem de perto faz frente ao material do novo disco. Ainda assim, um ótimo complemento, ainda mais por conta do formato, que valoriza bastante a bela arte gráfica. Coisa de primeiro mundo.


Capa Original de United

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Black Label Society – Vivo Rio/RJ (24.11.12)



Pelas Barbas do Profeta!
Texto: Trevas
Fotos do Show por David de Oliveira

Prólogo – Zakk, ontem e hoje

Numa chuvosa tarde de sábado me encaminhei ao Vivo Rio para corrigir uma de minhas mais evidentes falhas curriculares, assistir a um dos maiores guitarristas de Hard/ Heavy em todos os tempos ao vivo.  

Jeffery Phillip Wiedlandt, gerado em 1967, de fato nasceu para o mundo em 1987, quando já com o nome artístico Zakk Wylde, substituiu Jake E. Lee na banda do Madman Ozzy Osbourne. O então magro e alto rapaz loiro cravou ali o início de uma duradoura parceria com o comedor de morcegos, tendo sido responsável pelo seu maior sucesso comercial, o disco No More Tears.


Zakk antes de comer espinafre e jogas as giletes fora, em 88

Compositor prolífico, Zakk ocupou seu tempo livre entre os espaçados discos com Ozzy e respectivas turnês inicialmente com o Pride And Glory, projeto de Southern Metal que daria origem ao mais pesado e sujo Black Label Society. Entretanto, com o crescimento desse projeto e aumento exponencial da fama do guitarrista, sucesso esse ancorado em uma mistura de talento, carisma e imagem forte, muitos começaram a perceber o óbvio: havia muito pouco de Ozzy nas músicas de Ozzy (sempre foi assim, ora bolas). Some-se a isso o fato de muitos moleques que pouco ou nada sabem (ou não se interessam em saber) da importância histórica de Ozzy para o metal irem aos shows mais para ver Zakk em ação e tivemos então a escolha óbvia – Zakk é convidado a se retirar da banda.

Muitas barbas e músculos depois
Quanto à minha falha curricular, já havia assistido ao Ozzy por duas vezes. Mas na primeira, em 1995, Joe Holmes (que tocara com Dave Lee Roth) assumira as cordas no lugar do já prodigioso e ainda nada anabolizado pupilo e na vez mais recente (esse ano) Gus G, outro prodígio, se adonara do mesmo posto. Dessa vez, tão logo soube da apresentação no Rio de Janeiro, me apressei em garantir meu ingresso.

Darwin projetando a evolução de Zakk?
Tamuya Thrash Tribe

Como de costume, o ingresso e material de divulgação do evento não traziam maiores informações sobre os horários das atrações da noite, o que fez com que eu perdesse parte do set da promissora banda de Thrash/Death Tamuya Thrash Tribe. Esbanjando profissionalismo e apresentando um punhado de boas músicas, a banda foi muito bem recebida pelo público, que até então não enchia metade da casa. E a julgar a qualidade e potência do som dos caras, aparentemente foi permitido à banda a utilização quase completa do som da casa (eu acho, não estou certo). Cabe ressaltar que havia um estande vendendo material da banda no saguão do Vivo Rio e ao final da noite não foi incomum esbarrar com pessoas já ornadas com camisas do TTT. Tomara que a banda vingue, qualidade para isso os caras tem.

TTT - Futuro promissor
Berserkers Movidos à Cerveja Sem álcool

O que vimos em seguida foi uma rápida ação militar dos roadies do BLS para restabelecer a organização do palco para a atração principal. Próximo de 22:30h o som mecânico da casa é tomado por uma portentosa introdução (2001 – Uma Odisséia no Espaço), seguida de sons de sirene. Os integrantes da banda tomam seus postos e então seu hirsuto líder inicia os trabalhos com o ótimo riff de Godspeed Hellbound, seguida de Destruction Overdrive (ver essas duas no vídeo abaixo) e Bored To Tears. Há algo de errado. O som está absurdamente embolado, a voz de Zakk totalmente sem definição, sendo quase impossível distinguir as frases. E pior, a guitarra do grandalhão aparece com volume lá em baixo, sendo encoberta em diversos momentos pelo ótimo e fiel escudeiro Nick Catanese.


E apesar de toda a pancadaria sonora, havia algo a mais no ar (ou a menos), um Zakk inicialmente menos comunicativo que o normal parecia refletir o estado de espírito da equipe da banda, que segundo relatos não confirmados, estaria com os nervos à flor da pele por conta dos problemas que levaram ao cancelamento do show de Fortaleza e adiamento de outra data em Porto Alegre.

Menos mau que o bom John DeServio (baixo) e o sempre eficaz Nick tenham simpatia e carisma suficientes para driblar a postura algo apática do patrão, interagindo com o público com gestos, olhares e sorrisos, enquanto Zakk repetia o rito termina a música, vira as costas e começa a próxima.

BLS detonando
Muita gente reclamou do set escolhido para a turnê atual, mas achei a seleção válida, exceção feita à próxima da noite, Berserkers, que considero uma das mais fracas da banda. Zakk começou a se soltar um pouco somente no hit Bleed For Me, incitando à platéia a soltar o gogó com socos desferidos no ar. A partir desse gesto o show começou a engrenar de vez. The Rose Petalled Garden poderia ser considerada uma grata surpresa, se hoje em dia não fosse tão fácil apagar surpresas consultando a internet antes de um show. Zakk senta frente a um teclado para executar uma pequena peça que logo se torna a bela In This River, em uma rendição não muito feliz devido à combalida voz do gigante. Mas há de ressaltar o espaço dado a Nick, que assume as guitarras por completo durante esse número, e a homenagem à Dimebag Darrel, através de duas imagens do falecido guitarrista do Pantera estendidas sobre as paredes de amps.

Enquanto Madonna e Lady gaga trocam de figurinos durante o show...
...Zakk troca de guitarras, cada uma mais animal que a outra...
Forever Down faz a banda retomar o peso, seguida de um acapachante momento solo de Zakk, onde ele mostra com imensa facilidade que pode colocar quase todos os guitarristas que um dia ousaram tocar heavy metal no bolso de uma de suas jaquetas de motociclista. Não bastasse parecer o rebento da improvável união carnal de um Viking com um urso Grizzly, Zakk tem uma sonoridade e pegada únicos, unindo uma brutalidade impressionante com uma técnica para lá de surreal. Sei que muita gente torce o nariz para a música do BLS, mas é inegável o talento de seu mentor.

E por falar em imagem, não dá para deixar de notar a qualidade da iluminação do show e do cuidado com o visual, com o casamento do backdrop interessante, a parede de amps e até mesmo o indefectível pedestal de microfone utilizado pelo líder da banda. Até mesmo o gesto de Zakk brindando aos céus e bebendo sua cerveja está lá, ainda que saibamos que ele não pode mais beber e que a cerveja cenográfica em questão não passa de uma hedionda Schin sem álcool (reza a lenda que o camarim estava forrado desse treco). Quisera que o esmero com o som tivesse sido semelhante, pois apesar de uma considerável melhora, a guitarra de Zakk chegou até o final da apresentação em volume abaixo do ideal.

Mais uma do harém do homem urso
Compensando o ritmo algo titubeante da primeira metade da apresentação, a partir da boa Parade Of The Dead o que vimos foi um arregaço sonoro atrás do outro: Overlord, Blessed Hellride, Suicide Messiah e as já clássicas Concret jungle (única coisa que presta no pavoroso Shot To Hell) e Stillborn, tocadas sem parar e com Zakk novamente empolgado, quase fizeram o público esquecer a ausência de Fire It Up e do já costumeiro não retorno da banda para a apresentação de um bis.

Saldo Final

Zakk Wylde é uma lenda, está cercado de bons músicos e possui em seu catálogo um punhado de grandes hinos metálicos (isso ainda abrindo mão de material valioso gravado com Ozzy, Pride And Glory e carreira solo). Uma pena que o show demorou um pouco a engrenar e que o som nunca ficou realmente bom durante todo o set.

De qualquer maneira, é um espetáculo bastante indicado aos amantes de grandes riffs e solos e assistir a um dos grandes guitarristas em todos os tempos deveria ser matéria obrigatória em qualquer escola do rock que se preze.




SETLIST: