Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Difícil acreditar,
mas os italianos do LacunaCoil já estão comemorando 20 anos desde
o lançamento de InAReverie.
Outra das bandas a explorar um território bem mais moderno após figurar entre
as trocentas promessas do GothicMetal no fim dos anos 1990, transição
que operou com surpreendente sucesso, mas não sem dividir opiniões entre os
fãs, chegam enfim ao seu 9º trabalho de estúdio em um recente espiral crescente
de peso. O disco, novamente conceitual, traz o trio principal de fundadores AndreaFerro (voz), CristinaScabbia (voz) e MarcoCoti-Zelati (baixo e teclados) agora
amparados por DiegoCavalotti (guitarra) e RichardMeiz (bateria). A produção ficou ao encargo de Marco, e a temática parece lidar com a dualidade luz/sombra que
permeia nossa existência. Na verdade, não muito diferente do mergulho na
loucura contido em Delirium, apenas
um pouco mais abstrato.
Cris e suas assombrações de estimação
AnimaNera é uma introdução climática, onde Scabbia soa como uma versão sombria da LadyGaga, preparando o
terreno para a pesadíssima SwordOfAnger.
Chama a atenção a versatilidade nas vozes da banda: Scabbia cada vez migrando para uma pegada entre o Pop e o Rock e Andrea crescendo consideravelmente de
produção, o cara está melhor que nunca, em especial nos guturais. Esse casamento
funciona às mil maravilhas aqui, como podemos comprovar na acachapante faixa de
trabalho, Reckless.
Primeira das músicas do novo trabalho a ser apresentada, e postulante a
clássico imediato, LayersOfTime
é das coisas mais pesadas que o LacunaCoil já fez. Possivelmente o ouvinte
casual só vai conseguir identificar a banda no refrão, quando Cristina deposita pitadas de doçura
numa trauletada de fazer inveja a muita banda Troozona por aí. Apocalypse baixa um pouco a poeira, mas
sem baixar a qualidade.
NowOrNever sobe o tom
novamente, pesada e com um riff
cortante. Nunca os italianos soaram tão raivosos, em alguns momentos temos a
impressão de estar ouvindo os discos mais recentes do ParadiseLost, uma das
maiores influências da banda, diga-se. UnderTheSurface parece querer resgatar um pouco o espírito do LacunaCoil dos primeiros discos, mas com a nova roupagem, e funciona bem.
Outra novidade é o resgate dos solos de guitarra, sempre curtos, mas bonitos, e
presentes em maior número que o usual. Veneficium
é um espetáculo à parte, unindo o peso atual a um então inédito viés sinfônico.
A melhor faixa do disco e uma das mais impressionantes da carreira do quinteto.
Chegamos à reta final do disco e fica claro que o mesmo perde um pouco
de fôlego, as três últimas canções soando bem mais calmas que o restante do
material. Mas até nisso o Lacuna Coil acerta dessa vez, o trabalho não se estende por tempo demais
(como em alguns CDs deles no passado) e quando a faixa título termina, ficamos
com a certeza de estar diante do disco mais forte da carreira dos italianos.
Surpreendente. (NOTA: 9,27)
Curtas: Gary Moore, Lacuna Coil, Deftones, Sunstorm
Gary Moore - Live At Bush Hall 2007 (Cd-2016)
Gary
Moore – Live at Bush Hall 2007 (Cd-2016)
O Baú do Tio Moore
Lançado
originalmente lá fora em 2014 numa edição que logo saiu de catálogo, esse é o
relançamento brasuca de mais um ao vivo do cara de Morcego. Gravado às vésperas
do lançamento de Close as You Get, disco de 2007, temos aqui o registro de um
show bem diferente. Primeiramente, o show fez parte de uma promoção de uma
rádio britânica, e os 400 felizardos presentes no evento compõe o hall de
vencedores dessa promoção. E outro fator que fez desse show único é que seu set
está calcado majoritariamente no repertório do disco novo. Que bacana que Close
As You Get é muito bom, como vemos nas ótimas If The Devil Made Whiskey,
Eyesight to the Blind, I Had a Dream, Trouble at Home e na versão para Thirty Days
de Chuck Berry. Claro que estamos falando de um Gary em sua fase Blueseira, mas
os fãs de seu lado mais hard tem uma ótima versão de Don’t Believe a Word,
clássico do Thin Lizzy, para se divertir um pouco. De resto, um disco muito bem
gravado, com ótima performance vocal e guitarrística do irlandês. O único senão
fica por conta da participação do público, bastante tímida, obviamente por
conta do número de espectadores e pelo clima intimista do show. Um grande
lançamento que nos deixa esperançosos de que o baú do tio Moore ainda esteja
repleto de belezuras ao vivo.
NOTA:
8,50
Pontos
positivos: ótimas rendições para as músicas de Close as you get e alguns
clássicos
Pontos
negativos: plateia bem no fundo na mixagem.
Para
fãs de: Joe Bonamassa, Rory Gallagher
Classifique
como: Blues Rock
O saudoso cara de morcego, debulhando sua guitarra
O oitavo disco de
estúdio dos italianos foi elaborado em situação extremamente incomum. O
baixista Marco Coti Zelati ficou boa parte da turnê de divulgação de Broken
Crown Halo no estaleiro, utilizando esse período de férias forçadas para
exercitar seus talentos como compositor. Em paralelo, os italianos sofreram com
uma espécie de demissão coletiva, com os membros de longa data Cristiano
"Criz" Mozzati, Cristiano "Pizza” e Marco "Maus"
Biazzi abandonando o barco no período de um ano. Tempos sombrios, temática
sombria. Os vocalistas Cristina Scabbia e Andrea Ferro resolveram aproveitar o
surto criativo de Zelati, e escolheram como tema central do novo trabalho
explorar os recônditos mais sombrios da mente humana. Loucura, depressão e os
horrores dos tratamentos psiquiátricos e suas instituições num passado não
muito distante figuram nas letras de Delirium.
A
temática trevosa acabou por gerar o disco mais pesado e sombrio da banda.
Andrea Ferro tem aqui sua melhor e mais brutal performance até hoje (lembrando
em algumas partes o Burton C Bell) e faixas como The House of Shame e as
viciantes My Demons, Ghost in the Mist, Broken Things e Take Me Home bebem em
iguais proporções das fontes do Metalcore, Groove Metal e Gothic Metal. Cris
Scabbia também mudou em parte sua maneira de cantar, como fica evidente nos
agudos estratosféricos da excelente faixa título. As guitarras são um caso à
parte. Enquanto Zeloti gravou praticamente todas as bases, os solos ficaram ao
encargo de músicos convidados, que trouxeram solos mais trabalhados do que o
habitual. Entre os convidados, a surpresa fica por conta de Myles Kennedy, no
belo solo da boa balada Downfall. Enfim, Delirium não é um retorno às origens,
como foi vendido em declarações para a imprensa. O disco é ainda mais sombrio e
pesado que os trabalhos mais antigos da banda, mas bastante moderno e bem mais
sofisticado. Eis que da escuridão absoluta e da loucura surge o provável melhor trabalho do Lacuna
Coil. Muito bom!
NOTA:
8,71
Pontos
positivos: disco mais sombrio da banda, com a melhor performance vocal de
Andrea Ferro até hoje
Pontos
negativos: sua produção algo saturada pode causar cansaço.
Para
fãs de: Paradise Lost, Delain, Within Temptation
Classifique como: Gothic
Metal, Metal Moderno
Cris quer saber se você já tomou seu remedinho hoje
Supostamente Gore é o
disco que marcou a dissidência entre o guitarrista Stephen Carpenter e o
vocalista Chino Moreno, por conta do direcionamento musical menos pesado
forçado pelo último. A polêmica foi amplamente ventilada nos meios de
comunicação especializados e parecia antecipar uma mudança drástica na
sonoridade dos estadunidenses, talvez o único exemplar do moribundo Nu Metal a
ainda contar com grande aceitação por parte da crítica. Mas ao colocar a
bolachinha para rodar, fiquei com a impressão de que tudo não passou de um
grande embuste, estratégia de marketing para chamar a atenção num mercado cada
vez mais saturado de lançamentos. Não, Gore não é ruim, não mesmo. Mas sua
sonoridade também não representa nada de tão novo na discografia Deftoniana.
Diria que parece um cruzamento entre o comercial e direto (e ótimo) Diamond
Eyes e o diversificado (e muito bom) Koi No Yokan. As melodias estranhas e
ainda assim grudentas de Chino estão lá, fazendo de músicas algo incomuns como
Prayers/Triangles, Hearts/Wires e (L)Mirl potenciais hits. Aliás, sou só eu ou
alguém mais consegue ver o paralelo entre as linhas melódicas de Chino e as da
Islandesa Bjork?
Engana-se
quem acreditou que a produção do experiente MattHyde (MonsterMagnet, MachineHead, Slayer, Slipknot...)
deixaria a banda soar leve demais (vide porradas como DoomedUser). As guitarras
de StephenCarpenter estão ali, destilando riffs à sua maneira peculiar, mas
dessa vez experimentando um pouco mais, como nas dobras Ironmaideanas de PitturaInfamante e da belíssima PhantomBride, essa última com participação
do monstro JerryCantrell. Talvez o
grande diferencial e maior charme de Gore
seja o senso algo cinemático do material, que faz com que seus 51
fantasmagóricos minutos venham a fluir agradavelmente de forma contínua, ainda
que as faixas tenham vida própria para o ouvinte casual. Um disco bonito e
estranho que conta com ótima arte gráfica em seu lançamento nacional e que
figura como forte candidato a entrar nas listas de discos do ano ao redor do
globo.
NOTA: 8,74
Pontos
positivos: melodias vocais belas e intrincadas, boa cadência dando senso de
continuidade na audição do disco
Pontos
negativos: experimental demais a alguns ouvidos
Para
fãs de: Bjork, Tesseract, Korn
Classifique como: Nu
Metal, Metal Alternativo, Metal Moderno
Chino e sua trupe, aprontando muita confusão na sessão da tarde
EdgeofTomorrow é o quarto rebento do projeto AOR capitaneado pelo veterano vocalista
Estadunidense JoeLynnTurner (Rainbow, DeepPurple, Malmsteen). Dessa
vez o “Seu Peruca” resolveu reformular por completo a banda que o acompanha. Ao
invés da base do Pink Cream 69, Joe cooptou um bando de pistoleiros de
aluguel do selo AORFrontiers, tendo à frente o tecladista
e compositor AlessandroDelVecchio, ser onipresente nos lançamentos atuais da gravadora
italiana. A sonoridade, supostamente mais pesada que nos discos anteriores, na
verdade está bastante próxima ao estilo de composição de DelVecchio, que assina
quase todas as faixas (com exceção de uma contribuição de JimPeterik, do Survivor na oitentista TheSoundofGoodbye): ou seja, uma sonoridade que
geralmente lembra um Journey um
pouco mais melancólico e rocker.
As
faixas, aliás, são todas legais, ainda que raramente memoráveis. Os melhores momentos
ficam com HeartoftheStorm e a faixa título. Joe pode ser persona non grata para os
fãs de DeepPurple e Rainbow, mas continua
reinando absoluto quando se trata desse estilo mais comercial de HardRock. A banda toda é muito boa, mas quem brilha na parte
instrumental é o guitarrista SimoneMularoni, que destila riffs e solos
muito bem arquitetados e até mesmo mais vigorosos do que se esperaria. A
produção, sob a batuta de DelVecchio, é aquela tipicamente polida e
algo plástica, tão característica dos trabalhos da Frontiers,
fato que já começa a incomodar. Enfim, um bom disco, divertido e cliché até a
medula e que irá agradar em cheio aos fãs de um AOR old school.
NOTA: 7,93
Pontos
positivos: boas interpretações de Joe e ótimos solos de Mularoni
Pontos
negativos: produção pasteurizada e canções bacanas, mas bem manjadas
Para
fãs de: produções típicas da gravadora Frontiers
Classifique como:
AOR, Melodic Hard Rock
Tio Joe, boquiaberto com o novo lançamento das Perucas Lady
A temporada de shows esse ano anda
inspirada para os Cariocas, e maio vem sendo um mês especial, com uma miríade
de opções para todos os tipos de headbangers.
E como que para exemplificar esse
fenômeno venho agora com essa resenha para dois shows que aconteceram no mesmo
local no espaço curtíssimo de 5 dias: os góticos italianos do Lacuna Coil e os
Vikings fedegosos do Amon Amarth!
p.s.: Maio também foi um mês de
marasmo aqui na Cripta, meu computador ficou no estaleiro, mas agora já está
tudo em ordem e voltaremos com nossa programação habitual em breve...ou não...
Abraços
Trevas
Poster da Turnê Latino Americana
Lacuna Coil – Circo Voador (RJ) –
11.05.14
Gothic Spaghetti
Texto e fotos – Trevas
Aproximadamente um ano após o
memorável show dos italianos por essas bandas (Ver resenha aqui), o Lacuna Coil
retorna ao mesmo palco para apresentar seu novo show, para um público
quantitativamente inferior ao daquela ocasião.
Se naquele dia a banda foi escoltada pelos
ótimos brasileiros do Painside, dessa vez não dividiram a noite com ninguém, e
pontualmente o show teve início, curiosamente com uma canção do disco anterior.
A bela...
Com um set bem menos abrangente e variado que no
show de 2013, tivemos vários representantes do último lançamento (o ótimo
Broken Crown Halo) no repertório, como Die & Rise, Victims, Zombies e
Hostage To The Light. Estranhamente a atual música de trabalho, I Forgive (But
Won’t Forget Your Name) foi deixada de fora.
...e a fera.
Mas apesar da ausência de algumas favoritas do
público (cadê Senzafine?), ninguém pode reclamar muito do show. Novamente
impecavelmente profissionais, os italianos proporcionaram um show intenso, com
ótimo trabalho de iluminação somado a um cuidado estético que passa pelo
figurino e termina na estudada postura de palco dos dois vocalistas, a
belíssima, simpática e talentosa Christina Sccabia e o esforçado Andrea ferro.
Andrea teve em Broken Crown Halo sua melhor performance em estúdio até o
momento, o que parece ter refletido em sua atuação vocal superior nessa turnê.
Christina Sccabia
O profissionalismo por vezes quase mecânico do
show não contaminou o público, que respondeu com bastante energia a cada música
tocada. E um toque de espontaneidade foi adicionado ao espetáculo graças a duas
coroas arremessadas ao palco pelos fãs, que serviram de uma indumentária lúdica
aos vocalistas, que claramente se divertiram com a situação. Talvez por se
tratar do último show da perna brasileira da turnê e por conta do cansaço
acumulado, a banda cortou uma música do set programado, se retirando um pouco
antes do palco. O bis curiosamente
trouxe um apanhado de músicas relativamente recentes, mas com um público fiel e
conhecedor de cada trabalho dos italianos, as mesmas foram recebidas com
empolgação e intensidade. O show chega ao fim, todos voltam para casa felizes,
mas fico com a impressão de que o Lacuna Coil está andando um pouquinho demais
no piloto automático (NOTA: 7,5).
Qual não foi minha surpresa ao
chegar às 21:50 na porta do Circo Voador e ouvir o Tamuya Thrash Tribe tocando
em alto e bom som para uma casa que já contava com ótimo público (a essa hora
já superior ao que testemunhou o show do Lacuna Coil resenhado acima). Entrei a
tempo de ver o TTT anunciar sua última música, terminando o show ovacionado
efusivamente pelo público, o que só me fez amaldiçoar ainda mais a falta de
respeito da organização do evento. Por que diabos temos problemas em cumprir
com os horários programados, isso eu nunca vou saber. Além de ter perdido o
show de abertura, me deparei com a bancada de merchandise dos suecos vazia, com
todo o material tendo sido vendido faltando ainda uma hora para o início do
show. Prenuncio de que os barbudões teriam em sua primeira passagem por solo
carioca um público fiel e sedento nas mãos.
Com um belo backdrop representando a arte de
capa do novo trabalho, Deceiver Of The Gods, mas sem parte da produção
costumeira de seus shows em solo europeu (nada do Drakkar nem de efeitos
pirotécnicos), o Amon Amarth sobe ao palco triunfante ao som de Father Of The
Wolf. A reação do público se repetiria a cada nova música anunciada: punhos ao
alto e animados moshpits.
Vamos lá, Vikings tupiniquins!
O som está perfeito e a banda executa as músicas
com tamanha precisão que a impressão de que estamos escutando aos discos só é
quebrada porque o público canta cada palavra das letras a plenos pulmões. O
gigante Johan Hegg, com sua imensa barba só rivalizando com a rotunda pança e
possante voz, parece maravilhado com a recepção calorosa. Sua postura
portentosa de campeão Viking desmoronando perante o sorriso pueril incontido a
cada vez que percebia os fãs cantando até mesmo as linhas melódicas das
guitarras.
Faltaram o Drakkar e os fogos...
A costumeira pose belicosa e ameaçadora da banda
esconde um punhado de suecos para lá de descontraídos e bem humorados, e a
ferocidade do show foi quebrada por um momento que gerou uma sensação generalizada
de vergonha alheia. Johan resolve homenagear a cidade, fazendo a banda brindar
e beber uma “típica” birita brasileira, ao som de uma bizarra e festiva música
de caserna. A cara de incredulidade do público, que pela primeira e única vez
durante o set faria um sepulcral silêncio, talvez tenha parecido misteriosa aos
olhos da banda. É que ninguém avisou aos grandalhões que “Underberg” não é
exatamente uma bebida típica e muito menos popular por aqui...de qualquer
maneira, foi um momento pitoresco.
Moshpit em nome de Odin!
Com músicas novas como Blood Eagle, As Loke
Falls e Warriors Of The North tão bem recebidas quanto as já clássicas Runes To
My Memory (ver vídeo abaixo) e Cry of the Black Birds, a banda se retira do
palco pela primeira vez com a sensação de vitoria estampada nos felizes e
hirsutos rostos. O retorno se dá ao som da destruidora Twilight Of The Thunder
God, seguida de Pursuit Of Vikings. Exausta e extasiada, a platéia grita
efusivamente “Amon, Amon” ao final do que parecia ser o prenúncio do ragnarök.
E pelo olhar de todos na banda ficamos na certeza de que não demorará muito até
que os guerreiros vikings retornem em solo fluminense para repetir a pilhagem
que presenciamos essa noite (NOTA 10).
Sim, quem passa os olhos frequentemente ou bissextamente por
este Blog certamente reparou que nada é postado por essas bandas tem muito
tempo. Não é por falta de ideias e/ou material a ser resenhado. Apenas estou
sem computador e venho utilizando a internet com parcimônia, algo que deve
mudar no próximo mês. No mais, nesse período de ausência, pude assistir três
bandas em dois eventos que serão comentados a seguir.
Sexta feira chuvosa na Lapa, longa fila, espera ainda mais
longa. A qualidade de som e luzes nos espetáculos de pequeno/médio porte no Rio
de Janeiro melhorou exponencialmente na última década, mas o mesmo infelizmente
não pode ser dito em relação ao respeito com os horários. Mais de uma hora após
o anunciado os portões finalmente são abertos. Hora de conferir a primeira
atração da noite, a promissora Painside.
PAINSIDE: Um Acidente com Desfecho Épico
Poderia ser um problema a distância estilística
entre o metal moderno, porém com raízes no power metal e metal tradicional
praticado pela Painside em relação ao Pop Metal de raízes góticas da atração
principal. Mas não o foi. Desde o início do set, a plateia que já se amontoava
a frente do palco não só respeitou a banda, como prestou bastante atenção à
mesma. Talvez fruto do ótimo trabalho de grandes músicos, fermentado por uma
forte divulgação em redes sociais com uso de material visual que transpira
profissionalismo e bom gosto.
Sevens, do Painside: uma prece ao Deus-Metal?
Boas
músicas como Reject The Silence, Collapse The Lies e A Caustic Romance formaram
um impressionante cartão de visitas para quem nunca havia escutado a Painside
antes. Contando com uma cozinha bastante forte (cortesia de Eduardo Julião e
Thiago D), grandes guitarristas (o sempre ótimo Leandro Carvalho fazendo par
com Carlos Saione) e um vocalista com personalidade e muito carisma, na figura
de Guilherme Sevens (cujo timbre me recorda uma versão moderna do subestimado
Lizzy Borden), a banda vem trabalhando em novo material para seu segundo cd, e
mostrou nesse show que não fica a dever em qualidade em relação ao novo
material de estúdio que vem sendo apresentado em seus sites.
Dois dos guerreiros do Painside
E a aceitação do
público, correta e respeitosa, cresceu absurdamente diante de um fato que
poderia ter acabado com o show. Já na reta final do set, Guilherme sai às
pressas do palco, sob olhares incrédulos tanto do público quanto da banda.
Pouco depois chega a notícia: a causa da retirada emergencial fora um ombro
deslocado. O restante da banda segura a batuta com muita simpatia e
simplesmente o mágico acontece: o público, mesmo após todo o atraso debaixo da
chuva não só foi compreensivo como também ajudou a banda – com uma garra
impressionante - a se reerguer, fazendo
do final desse curto show algo épico e único. Coisas dessas que só acontecem em
um show de Heavy Metal. Quanto ao futuro do Painside, esse promete. Como diria
o velho desenho animado: Stay Tuned!!!!
No Pain(side) no Gain! Sevens segura as pontas na raça!
LACUNA COIL: Profissionalismo e Simpatia
Com um primor de iluminação e som beirando a perfeição, os
italianos do Lacuna Coil tomaram de assalto o Circo Voador, usando como armas
uma tríade de músicas de seus últimos dois álbuns (na minha opinião, os dois
melhores). Dark Adrenaline e Shallow Life, diga-se de passagem, foram os discos
que dominaram o longo set dessa noite.
Dupla Nada Sertaneja
O show
do Lacuna Coil é um primor de profissionalismo, tudo é muito bem pensado, cada
movimento no palco devidamente estudado. Christina Scabbia, sonho de consumo de
9 entre 10 moleques que se vestem de preto, tem uma voz pequena, mas bonita e
cheia de personalidade. Andrea ferro, um dos caras mas feios do showbusiness,
não é um dos vocalistas mais talentosos do mundo, mas tem muito carisma e canta
com uma garra impressionante. O restante da banda, a saber, os guitarristas Marco
Biazzi e Cristiano Migliori e o baterista substituto Ryan Folden (o titular,
Cristiano Mozzati não pode participar dessa parte da turnê), assumem sem
nenhuma vergonha seus papéis de meros coadjuvantes. A ausência do baixista
Marco Zelati rendeu talvez a grande polêmica da noite. Em seu lugar a banda se
utilizou de bases pré-gravadas de baixo. O fato do Lacuna Coil utilizar
samplers contendo efeitos eletrônicos, linhas de baixo e até mesmo alguns
backing vocals chegou a render algumas acusações veladas de que o show inteiro
não passara de uma tétrica exibição de mero playback. Nem tanto amiguinhos, nem
tanto.
Christina solta o gogó
Após
9 bem recebidas músicas a banda anuncia uma breve pausa e se retira do palco,
que é modificado para receber um segundo set, dessa vez acústico. Uma boa
ideia, o set acústico nos mostra a qualidade das canções dos italianos, valoriza
a boa (ops) voz de Christina e coloca o simpático Andrea em uma enrascada, já
que nesse set fica ainda mais clara a limitação técnica do vocalista. Shallow
Life encerra o quarto número desse segundo set, e então a banda novamente se retira.
Pegue seu banquinho...acústico gótico?
O retorno
ao formato plugado levantou o já cansado público e novamente fomos agraciados
com os maiores sucessos da banda tocados com precisão cirúrgica. O grande final
ficou por conta de uma emocionante My Spirit, anunciada como uma homenagem
póstuma ao ídolo e amigo da banda, Peter Steele. A banda se despede com um
misto de felicidade e cansaço estampados nos rostos. Fica a promessa de um
retorno em breve, que tomando pela recepção do público, será um retorno muito
aguardado.
ANNEKE VAN
GIERSBERGEN – RIO ROCK & BLUES 17.03.13
Chuva torrencial em uma noite de domingo na Lapa. Nova demonstração
de desrespeito ao público carioca: os portões do simpático rio Rock &
Blues, previstos para serem abertos às 18:30h, permanecem fechados até as 20:00h.
A estreita calçada da Rua do Riachuelo somada à costumeira falta de educação
dos motoristas cariocas foi suficiente para deixar o pacato público que esperava
pacientemente do lado de fora da casa encharcado, a despeito do uso de guarda
chuvas. Público que pagou caro para assistir ao show. Triste.
Desrespeito de lado, a pequena, bela e extremamente simpática
Anneke sobe ao palco com sua banda armada de seu contagiante e onipresente
sorriso e da bela I Feel Alive, de seu mais recente trabalho.
Sua imagem quase élfica, a belíssima voz e seu
carisma arrebatador conquistaram o público de imediato e em um fato raro as músicas
atuais da holandesa, de teor muito mais pop e alegre que o restante da carreira
da cantora, foram tão bem recebidas quanto os clássicos do The Gathering, banda
pela qual Anneke se tornou mundialmente conhecida.
Anneke: toda sorrisos
Muitos sorrisos, declarações de amor vindas do público, 17
músicas (delas 4 do The Gathering, um cover do Eurythmics e outro do Devin
Townsend) e pouco mais de uma hora e quinze minutos depois, Anneke se despede,
deixando todos com aquele sentimento de que poderiam assistir ao show por horas
e horas à fio sem cansar.
Como de praxe, meia hora após sua saída do
palco, Anneke recebeu a todos os que quiseram esperar para fotos, autógrafos e
até mesmo para um bom papo. Tudo com uma simpatia pra lá de incomum, a
felicidade daqueles que amam o que fazem e principalmente, que amam e respeitam
aqueles possibilitam a ela viver o sonho: os fãs. Certamente todos os presentes
aguardarão ansiosamente a oportunidade de retribuir o carinho mais uma vez.