Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Não fosse a pandemia,
2020 seria um ano repleto de comemorações por parte dos suecos do InFlames.
Os baluartes do Gothemburg Sound completam
nada mais nada menos que 30 anos de existência. E Clayman, seu quinto disco de estúdio, completa 20 anos de
lançamento. E Clayman representa
muito para o quinteto: foi com esse disco que a banda galgou terreno para além
de seu nicho original, o DeathMetal Melódico, ganhando muitos fãs
dentro da cena do metal moderno mundial.
Clayman em sua versão original
Clayman também é considerado
o último disco do In Flames a apostar em sua proposta sonora original. RerouteToRemain chegaria pouco
depois para causar uma imensa divisão entre os fãs, com muito do então chamado NuMetal
infiltrado em seu estilo sueco de Death
Melódico. Eu fui um dos fãs que largou de mão da carreira dos caras à época
(depois voltei com força total e passei a entender e curtir os rumos que
escolheram). Mas escutando o disco hoje em dia, fica mais claro que a ruptura
não foi tão drástica quanto pareceu, Clayman
já era uma espécie de elo perdido entre o velho e o futuro InFlames. Originalmente
produzido por FredrikNordström, o disco tem sua edição comemorativa
remasterizada por TedJensen (Pantera, Gojira). E fica
bem fácil notar que a escolha foi acertada, com a clássica BulletRide soando forte
como nunca na abertura. E que abertura: seguem PinballMap e a
obrigatória Only For The Weak, um
clássico instantâneo que curiosamente já escancarava a metamorfose que os
suecos sofreriam no próximo disco.
E a destruição não para. A nem sempre lembrada As The Future Repeats Today é de uma urgência viciante, e o início
da bem construída SquareNothing remete aos temas Folk vistos nos discos anteriores, mas
com um arranjo mais maduro. A faixa título chega, e só não se faz como
obrigatória nos sets atuais pois a tríade de abertura está num nível
estratosférico e os caras precisam prestigiar os outros trabalhos.
O restante do disco não baixa nem um pouco a guarda, com a dinâmica do
futuro In Flames dando as caras em
coisas como SatellitesAndAstronauts e SuburbanMe (com solo de ChristopherAmott) e Swim merecendo um lugar entre os lados
B favoritos dos caras. Com pouco mais de 40 minutos, Clayman continua um forte candidato a disco definitivo de um subgênero,
e soa melhor que nunca no novo trabalho de remasterização. Clássico da Cripta, obrigatório!!
Bônus
Da Edição de 20 Anos
Para a nova edição, Clayman ganhou uma arte de capa nova. E
cara, como ficou mais bonita. Também estão presentes cinco faixas gravadas atualmente
(embora não fique claro no encarte a formação responsável pela gravação),
produzidas por HowardBenson (Motörhead). A primeira delas é uma instrumental tocada pelo
violoncelista JohannesBergion (DiabloSwingOrchestra) e BjörnGelotte, uma
espécie de medley de alguns temas do disco. Interessante, mas longe de
obrigatória. De resto, temos as regravações de Only For The Weak, Bullet
Ride, PinballMap e Clayman. Não, nenhuma delas soa tão bem quanto as originais, embora
fique claro que AndersFridén usa melhor sua voz limitada hoje
em dia. Ou seja, não fosse o ótimo trabalho de remasterização das faixas
originais, não recomendaria a substituição da versão original do disco por essa
edição comemorativa.
Gravadora:
Shinigami Records (nacional)
Prós:
O clássico do In Flames em seu melhor estado
Contras:
As regravações não rivalizam com as originais
Classifique
como: Melodic Death metal, Modern Metal
Para
Fãs de: Soilwork, Arch Enemy, Dark Tranquillity
Para tentar explicar
a força por detrás do lançamento desse projeto no início de 2000, temos que relembrar
o cenário da música pesada nos anos 1990. Em uma era em que o Metal foi absolutamente defenestrado do
Mainstream, uma penca de subgêneros
floresceu, tanto para o lado mais extremo quanto para o lado mais melódico. E
comercialmente, o PowerMetal era a estrela do dia. Zilhões de
imitações de segunda categoria do Helloween
surgiram. E como é comum em qualquer cena que floresça, algumas pérolas
conseguiram soerguer acima da média. Os alemães do BlindGuardian, capitaneados
pelo baixista/vocalista HansiKürsch, mais pesados que boa parte de
seus pares, com sua sonoridade completamente calcada na fantasia, rapidamente
galgaram degraus para se tornar uma das maiores bandas de seu tempo.
Hansi, antes do visual tiozão do churrasco
E nos Estados Unidos, onde o Metal
como então se conhecia sofria ainda mais com o surgimento da cena moderna do
infame NuMetal, um obstinado (e complicado) guitarrista, JonSchaffer, enfim conseguia que sua visão levasse seu IcedEarth do quinto escalão para uma das grandes promessas do Metal mundial com o lançamento de dois
petardos em sequência, TheDarkSaga e SomethingWickedThisWayComes e o surpreendente sucesso do triplo
ao vivo AliveInAthens.
Jon, fazendo o que ele faz quando não está mandando alguém embora
Hansi e Jon haviam se tornado grandes amigos. Após
uma noitada na Alemanha, regada a muita birita, um ressacado Jon esbarra com um violão na sala da
casa de Hansi e começa a dedilhar
algo novo. Hansi logo cria uma melodia
em cima. Em pouco tempo nascia MyLastSunrise, e com ela, a semente da colaboração que seria Demons&Wizards. O nome,
triado do disco clássico do UriahHeep, era perfeito para exemplificar a
mistura da fantasia do BG com o
clima mais capetão do IE. O anúncio
do disco, em 1999, teve um impacto absurdo. Era então como imaginar algo como uma
colaboração do RobHalford com o SteveHarris. O disco,
produzido por JimMorris (que também ficaria ao encargo
das guitarras solo), agora ganha uma edição comemorativa, remasterizada pelo
premiado produtor Zeuss, devidamente
relançada aqui no Brasil pela HellionRecords.
Hansi & Jon
RitesOfPassage é a
introdução climática e marcial, que bem poderia musicar a marcha de orcs em um
derivado do Senhor dos Anéis. Ela prepara um sombrio terreno para HeavenDenies, uma daquelas músicas tão absurdamente perfeitas que por si
só já valeria a recomendação de aquisição do disco. A sonoridade é exatamente a
mescla da RifferamaThrashy do IcedEarth com as
melodias únicas (e guitarras dobradas) do BlindGuardian.
Boa parte dos ouvintes já se daria por satisfeita com o que ouvira até aí,
mas há muito mais por vir. A qualidade não cai por um segundo sequer, seja em números
“chugga-chugga” como PoorMan’sCrusade e BloodOnMyHands, seja em canções únicas e algo
fantasmagóricas como a apoteótica FiddlerOnTheGreen (canção cuja
letra é ilustrada na bela arte de capa) e PathOfGlory.
A mistura do que há de melhor no mundo dos demônios estadunidenses do IcedEarth com o ápice criativo dos magos alemães do BlindGuardian foi tão cirúrgica, e o timing tão perfeito, que dali para
frente nenhuma das duas bandas conseguiria lançar nada que sequer chegasse
perto do que ouvimos aqui. A carreira do IcedEarth, então postulante ao primeiro
escalão do HeavyMetal mundial, minguou de disco em
disco, raramente colocando a cabeça para fora do lago da mediocridade. Já o BlindGuardian conseguiu se manter comercialmente como uma grande
potência, mas nenhum dos discos dali para a frente seria uma unanimidade entre
os fãs, com o lado orquestral e exagerado da banda suplantando o peso de seus
primórdios. Nem mesmo repetição da dobradinha, com TouchedByTheCrimsonKing, em 2005,
conseguiria chamar tanto a atenção, sucumbindo rapidamente à expectativa criada
pelo debut.
O tratamento dado para essa reedição é louvável. Além da presença de WhiteRoom (um improvável e apenas ok cover do Cream), presente apenas na edição especial à época do lançamento,
temos as demos de HeavenDenies e uma versão alternativa para TheWistler. A remasterização não impressiona, mas o encarte possui linernotes bacanas, pelas mãos dos mentores da obra. E a edição nacional
ficou bem bonita, com um digipack caprichado
encartado em um belo PaperSleeve.
Jon & Hansi, 2019. A parceria reativada.
Veredito
da Cripta
Para quem já tem a bolachinha,
confesso que os extras não são exatamente imperdíveis. Já para quem perdeu essa
pérola à época em que saiu, a caprichada reedição em solo tupiniquim vale cada
centavo. Afinal, trata-se de um dos melhores discos de PowerMetal em todos os
tempos, capaz de rivalizar com o que de melhor fizeram tanto BlindGuardian quanto IcedEarth.
NOTA:
CLÁSSICO DA CRIPTA
Gravadora: Hellion Records (nacional)
Prós: A mistura perfeita entre Blind
Guardian e Iced Earth
Bombástico. Essa foi
a palavra que o guitarrista EsaHolopainen escolheu para definir o 13º disco
do Amorphis, QueenOfTime. O novo trabalho, que com o
retorno do baixista Olli-Pekka Laineo,
se tornou o primeiro a contar com todos os quatro membros originais desde o longínquo
TalesOfAThousandLakes (de 1994), repete a dobradinha com o requisitado produtor sueco
JensBogren. Jens foi responsável direto pela banda se reencontrar com o
ótimo UnderTheRedCloud (lançado em 2015), após o período
de estagnação criativa que o combo finlandês atravessou ao tentar repetir sem
sucesso a fórmula do excelente Skyforger
(de 2009). As letras, do eterno colaborador PekkaKainulainen, recorrem
ao folclore escandinavo e sua fixação pela magia da natureza para explorar o
grande poder de mudança contido em pequenos gestos e na junção de pequenas
vozes. Banda e produtor trouxeram à mistura orquestra
e coros de verdade. A ideia, fazer o disco mais ambicioso da carreira do sexteto.
Meu medo, que o Amorphis se tornasse
mais uma banda de metal sinfônico comum.
Detonantemente amorfos
Medo que se mostrou infundado
logo no primeiro minuto da absolutamente fenomenal faixa de abertura, TheBee. Folk, eletrônica, progressivo, Space Rock e metal extremo,
elementos explorados em graus diferentes ao longo da carreira dos finlandeses
se fundem de maneira apoteótica, numa canção que certamente se tornará obrigatória
nos shows pelos anos que virão.
A qualidade cinemática comum às produções de Bogren casou à perfeição com o estilo do Amorphis, e de cara fica evidente se tratar do disco mais dinâmico
da carreira do sexteto, vide a variação de emoções presentes na folk MessageIn The Amber e na trauletada DaughterOfHate, que evolui da tranquilidade para uma das faixas mais pesadas
da discografia Amorphiana. Aliás,
seu refrão bem poderia estar em algum trabalho do AmonAmarth, não fosse
seguido de um instigante saxofone. Elementos alienígenas ao Heavy metal sempre
foram comuns à banda, mas os recém incorporados coros e orquestra aparecem aqui
e acolá nos arranjos, sempre com extremo bom gosto e de uma maneira sofisticada.
Nada da breguice típica das bandas de Metal Sinfônico, que muitas das vezes
parecem pastiches com guitarras de trilha sonora de filme da Disney.
JensBogren não é reconhecido somente por ser detalhista nos arranjos. Sua
obsessão em extrair a melhor performance dos artistas com quem trabalha já
gerou uma tremenda fama de carrasco ao sueco. Mas raramente a tortura é em vão,
aqui temos cada um dos músicos em seu ápice. O vocalista TomiJoutsen nunca soou
melhor em nenhum dos extremos de sua voz. Mas todo e cada instrumento aqui,
ainda que gravado de forma exímia, atende tão somente ao que o cenário musical
pede. Nada, absolutamente nada soa gratuito. Mas o esmero com a produção e as
performances estelares pouco valeriam se o disco não tivesse composições à
altura. Felizmente ficaram para trás os tempos de falta de foco criativo que
assolou trabalhos como FarFromTheSun, TheBeginningOfTimes e Circle. Todas as faixas da edição padrão são excelentes. E que
material variado: TheGoldenElk (cuja letra traz o trecho que nomeia o disco), GrainOfSand e a faixa de
trabalho WrongDirection fazem a felicidade daqueles mais afeitos à melodia e às
referências ao space rock e progressivo. Já WeAccursed, e a tribal
e cinemática Heart Of the Giant trazem
o som para o lado mais pesado.
AmongstStars, que traz a participação da bela AnnekeVanGierbergen, é exatamente o tipo de som
que eu temia encontrar em QueenOfTime.
Uma faixa que bem poderia estar num disco dos xaropescos conterrâneos do Nightwish, e que se salva do efeito DisneyMetal por muito pouco. Talvez eu realmente seja incapaz de resistir
à holandesa. PyresOnTheCoast eleva ao máximo o poder
cinemático do disco, terminando de forma pesada densa e épica o disco com a
imagem de uma cena que bem poderia estar em Vikings ou GameOfThrones.
A edição nacional ainda nos brinda com duas faixas bônus, ambas legais, mas que
soam um pouco deslocadas dentro da ordem perfeita dos 57 minutos originais da
bolachinha.
Veredito
da Cripta
Uma das bandas mais originais
de sua geração, o Amorphis
finalmente encontrou um novo sopro de vida nos últimos dois discos. QueenOfTime é realmente
bombástico e ambicioso, como seus membros haviam prometido. Mas está muito
longe e sucumbir ao exagero e pompa de alguns artistas que resolvem incorporar
elementos alienígenas em profusão ao seu som. Pesado, solene e sofisticado, QueenOfTime não é só um dos
melhores discos de 2018. Aos poucos está também se tornando um forte postulante
a um dos meus discos favoritos em todos os tempos.
Entra disco, sai
disco e somos confrontados com as afirmativas por vezes fanfarronescas de
artistas consagrados: meu próximo trabalho é o melhor que já lancei. Promessas que
vem e vão, e raramente se concretizam. Não, não estou acusando o Judas de ter
se utilizado desse expediente. Até por que não usou, no máximo li Richie e Rob dizendo que sentiam algo especial no trabalho vindouro. Mas confesso
que eu é quem me sentia apreensivo. A banda, confrontada com as críticas
pesadas à produção tacanha do (bom) RedeemerOfSouls, mostrou que não estava para brincadeiras: tirou TomAllom da aposentadoria. Sim, o cara que assinou a produção de tudo
o que o Judas lançara entre UnleashedintheEast e Ram It Down. Já parece impressionante? Não parou por aí, chamaram
também o melhor produtor de HeavyMetal dos últimos 20 anos, o britânico AndySneap, mago por detrás dos clássicos do Nevermore e da ressurreição do Accept.
Satisfeito? Não? Nem eles. Além os dois renomados produtores de eras
diferentes, ainda mantiveram MikeExeter, com quem haviam trabalhado no
disco anterior. Com essa trinca, partiram para o estúdio, e deram carta branca
para que os produtores fizessem o que tivessem que fazer para extrair o melhor
do bando de senhores e do já não mais calouro, RichieFaulkner. Uma estratégia
que dependia e muito da maturidade e falta de ego de todos os envolvidos, mas
que podia, enfim, até dar certo.
Judas em Firepower
Não bastasse a escolha incomum
por um triunvirato de produtores, outro fato tornou o lançamento de Firepower uma incógnita. GlennTipton , do alto de seus 70 anos a figura mais icônica da banda, anunciou
que não mais acompanhará o JudasPriest em turnê, devido às limitações
físicas impostas pela terrível doença de Parkinson.
AndySneap assumiria as guitarras nos shows e uma questão ficou no ar. Estaríamos,
pouco depois da aposentadoria do BlackSabbath, diante do ocaso de outros
dos monstros sagrados do HeavyMetal? E se o crepúsculo efetivamente
se aproxima, seria Firepower um fim
digno para uma das bandas mais influentes do estilo? Com essa pequena grande
nuvem na mente, coloquei minha recém-chegada bolachinha para rodar. E no meu
som ela estacionou por toda a semana...e cá relato o que achei...
Poder
De Fogo Intacto
Firepower (ver vídeo), a música, começa vibrante e pesada.
Logo de cara somos confrontados com a perfeição sonora proporcionada pelo trio
de produtores. E somos também confrontados com um fenômeno: como a voz do
senhor RobHalford, 66 anos de estrada, está soando excelentemente bem! De
nada serviriam esses detalhes se a música fosse uma bomba. Não é. Ainda que
recicle o refrão meio panaca da rendição cafona para RapidFire com o Ripper (contida no Ep BulletTrain), a música cresce a cada audição e deve funcionar muito bem
ao vivo, obrigado.
LightningStrike, primeira faixa de trabalho, e totalmente old school, se sai
ainda melhor. Riffs, refrão, solos, simplesmente perfeita em todos os sentidos.
A empolgação nesse ponto era tamanha que a paulada midtempo EvilNeverDies, com sua
letra fazendo uma releitura dos pactos com o cramulhão dos músicos de Blues,
até pareceu uma bola fora. Simples, na mão de uma banda de segunda categoria
como o PrimalFear, realmente poderia soar um daqueles pastiches mequetrefes que
os fãs do revivalismo dos anos 1980 adoram endeusar. Mas nas mãos dos criadores
de 99% dos clichês do gênero, a música acaba por se safar com louvor.
Falei em anos 1980? Então, a produção aqui é cascuda e moderna, ainda
que bastante orgânica. Os músicos gravaram quase a integridade das bases ao
vivo, com a banda tocando toda junto, uma ideia de AndySneap comprada
pelos outros dois produtores. O que não impediu uma ou outra referência às
produções do passado da banda, como na viradinha de bateria artificial da
simplesmente absurda NeverTheHeroes, uma powerballad nas veias de HeartOfALion.
Necromancer é o tipo de música
que se esperaria encontrar no sucessor de Painkiller,
caso Rob não tivesse jogado a banda
num hiato com sua saída. Engrandecida por um bem colocado coro dramático, nessa
altura do disco já se percebe a opção em apostar no poder de interpretação de Halford, limitando os agudos
lancinantes aos backing vocals. E nota-se também que a bateria de ScottTravis não tomava seu devido lugar de destaque na sonoridade de um
disco dos caras desde sua longínqua estreia.
Os coroinhas do Padre Judas: Richie & Andy
ChildrenOfTheSun é uma das faixas que demonstram que
a banda não necessariamente deitou nos louros do passado. Possivelmente fruto
da liberdade dada a RichieFaulkner, é repleta de groove e
dinâmica, mostrando um JudasPriest diferente, ainda que prontamente
reconhecível. Aliás, Richie deve
levar sua parte dos créditos pelo sangue renovado da banda, quem duvida, cheque
os caras ao vivo. O massacre continua com a belíssima instrumental de clima
celta Guardians, que introduz a
avassaladora RisingFromRuins. Tida como a favorita de Scott e Faulkner no novo disco, e
repleta das dobras de guitarra de Richie
e GlennTipton, ela poderia ser definida como uma nova BloodRedSkies, o que é um mega elogio.
FlameThrower é outra faixa diferente, com andamento para lá de
empolgante e algumas experiências (muito boas) na voz de Rob. O refrão parece algo que o careca teria pensado lá na época do
SinAfterSin, e soa um
pouco estranho nas primeiras audições. Uma música que demorou um pouco a me
conquistar, mas que cresceu com o tempo. O groove retorna com a simples e para
lá de viciante Spectre (ver vídeo),
um dos destaques do disco, que já vem constando dos repertórios da nova turnê.
Já me daria por satisfeito com o que meus ouvidos testemunhavam até
então. Mas o disco tem 15 músicas, e isso costuma ser um péssimo sinal. Pensei
comigo, vai desandar em algum momento. Não desandou. TraitorsGate é um
monumento à performance vocal do senhor Halford.
Sua voz pode ter vivido eras de alcance maior, mas nunca antes fora tão bem
gravada e com tantas variações quanto nesse disco. Fazia muito tempo que um
vocalista não me impressionava tanto quanto nesse Firepower e a delícia HardRocker de pouco mais de dois minutos
NoSurrender seguida da paulada moderna cheia de groove LoneWolf só comprovam meu ponto. O disco termina com a PowerBalladSea Of Red, na
veia da já clássica Angel, e poucas
vezes na minha vida me senti compelido a rodar de novo um disco tão longo assim
que o mesmo terminou.
Veredito
da Cripta
O Heavy Metal em sua vertente
mais tradicional parecia esquecido no tempo, as velhas bandas do estilo vivendo
de raros lampejos (com exceções...ok, Accept
e Saxon?), e as novas se limitando a
copiar de forma pálida e diluída o que já fora feito melhor no passado. Aí vem
um dos titãs do estilo e lança, aos mais de 40 anos de estrada, uma obra que
não só se contenta em não fazer feio frente ao passado, como também é capaz de
rivalizar com os melhores momentos de sua vitoriosa carreira. Firepower não é só o melhor disco do JudasPriest em décadas. É também o melhor disco de Metal Tradicional que
escutei nos últimos cinco anos (talvez mais). Se esse realmente for o canto de
cisne de uma das maiores bandas em todos os tempos, será uma saída triunfal de
cena. Forte candidato a futuro clássico.
P.s.: A resposta do mercado
foi unânime, o disco atingiu a maior posição na Billboard que a banda já teve (5ª posição) e nas paradas
britânicas, também estacionou na 5ª posição, a posição mais alta que a banda
conseguiu desde BritishSteel, de...1980!!!
Gravadora:
Sony Music (nacional).
Pontos
positivos: um dos melhores discos da carreira do Judas
Curtas: Pretty Maids, Tygers of Pan Tang, Diamond Head, Armored Saint
Pretty Maids - Kingmaker
Pretty
Maids – Kingmaker (Cd-2016)
Algo
Morno no Reino da Dinamarca
O 15º disco de
estúdio dos prolíficos dinamarqueses, 4º no curto período de 5 anos – uma
raridade em tempos de download ilegal - traz a mesma fórmula que a banda vem
lapidando desde meados dos anos 1990: Pitadas de PowerMetal europeu em
meio a melodias que não ficariam nem um pouco deslocadas em um trabalho de AOR. Some-se a isso uma produção
moderna, com importante uso de teclados nos arranjos e uma ou outra balada
incidental farofenta e você tem um diagrama de todos os lançamentos recentes
dos caras. O fato é que a fórmula, quando funciona, como na faixa título, é
irresistível. E ninguém soa como os cabruncos.
O problema é que para
funcionar bem, toda a perfeição dos músicos e da produção do sempre competente JacobHansen tem que vir acompanhados de canções marcantes. E, embora Kingmaker não tenha nada em seus quase
cinquenta minutos de duração que ofenda os ouvidos, também passa longe de gerar
músicas passíveis de integrar o repertório ao vivo do PrettyMaids. Enfim, um
disco competente, mas que passa longe dos melhores momentos de uma banda única.
Talvez seja hora de desacelerar na quantidade de lançamentos e atentar para o
padrão de qualidade.
NOTA:
7,30
Pontos
positivos: produção caprichada
Pontos
negativos: falta algo à boa parte do material
Fóssil vivo da NWOBHM, o TygersofPanTang escolheu não nomear seu quinto rebento desde o retorno à ativa
(em 1999). Quando uma banda lança um disco homônimo a essa altura da carreira,
geralmente o faz com a intenção de mostrar ao mundo um suposto renascimento. E
é mais ou menos o que temos aqui. Não, os caras não reinventaram seu som, ainda
temos aqui aquela mistura de Hard
com um HeavyMetal tipicamente britânico, mas cara, a inspiração estava em alta.
Que o diga a abertura, com OnlytheBrave, facilmente uma das melhores músicas de 2016.
A formação atual traz apenas o
guitarrista RobWeir dos primórdios, mas está longe de ser um catadão sem
personalidade. O vocalista Italiano JacopoMeille já acompanha Weir desde 2004, e a despeito de soar
meio irritante em discos anteriores, simplesmente detona aqui. Outro que já
está na banda tem muito tempo (desde 2002, para ser mais preciso) é CraigEllis (batera), que forma uma ótima cozinha com GavinGray (baixo). Outro destaque fica para o excelente MickyCrystal, que debulha solos e riffs de primeira. Musicalmente temos
faixas que equilibram muito bem o Hard/Heavy (a já citada Only the Brave, Never Give
In e Do It Again – todas muito
boas) e outras mais festivas, como a contagiante GladRags, a bela Praying For a Miracle e o cover bacana
para I Got The Music In Me (KikiDeesBand). A banda
estava com a mão tão boa que, até mesmo quando arriscou uma balada xarope tipicamente
anos 1980 (The Reason Why), o fez
muito bem. Ao final dos 45 minutos do disco homônimo, fiquei com a certeza de
estar diante de um dos melhores trabalhos da longa carreira dos britânicos. Só
dispenso o grunhido tosco de tigre após a última música, que me deu um baita
susto. Excelente!
NOTA:
8,93
Pontos
positivos: Inspiração em alta, ótimos vocais, riffs e solos
Pontos
negativos: tem cara de anos 1980, se espera modernidade, nem passe perto
Para
fãs de: Saxon, Diamond Head, Def Leppard antigo
Bem, repita aqui a
introdução da resenha acima. Temos um disco homônimo tardio de um dos baluartes
da NWOBHM. O Diamond Head hoje tem
seu nome marcado na história do Rock por sempre ser lembrado pelos
estadunidenses do Metallica como uma das suas principais influências nos
primórdios da banda. Mas, verdade seja dita, sua carreira nunca sobreviveu ao
peso de seu primeiro disco, o excelente LightningToTheNations. Essa é a
segunda tentativa de retorno da banda, com uma formação que traz apenas o
guitarrista BrianTatler de seus primórdios, auxiliado
pelo baterista KarlWilcox, que figurou na encarnação
noventista dos caras, além dos novatos RasmusBomAndersen (voz), AndyAbberley e DeanAshton (baixo).
Bones abre
o disco de forma vigorosa, mostrando um cruzamento da sonoridade NWOBHM com uma leve e bem-vinda
modernidade. ShoutAt The Devil tem um bom riff
prejudicado pela óbvia indução ao clássico homônimo do MotleyCrue. A boa Set My Soul On Fire poderia até figurar
num disco do Audioslave, não fossem
os timbres e algumas sutilezas estilísticas. SeeYouRise tem aquela rifferama que cheira a AC/DC e bons vocais do competente, mas
algo comum, RasmusAndersen. E talvez aí resida o único problema
do disco. É tudo bastante bem tocado, as músicas nunca ficam exatamente enfadonhas,
mas o todo carece de personalidade. Tudo soa comum como a voz de Rasmus. Se All The Reasons You Live é outra que bem poderia estar num disco do
Audioslave, WizardSleeve já é a
cara dos primórdios do NWOBHM e
talvez mais próxima do que se esperaria da banda. Outras, como BloodonMyHands, remetem ao mediano BritishLion do SteveHarris. Ou seja, o ouvinte casual
provavelmente irá transitar pelas 11 músicas desse disco sem saber exatamente
quem diabos é o DiamondHead. Um disco correto, mas que passa
longe de ser essencial.
Armored
Saint – Saints Will Conquer (Cd – 1988/2016)
Desenterrando
um Clássico
Saints Will Conquer é o Ep ao vivo que os estadunidenses do ArmoredSaint soltaram em 1988, registrando 7 faixas nos palcos da turnê de
RaisingFear, além de uma música de estúdio inédita. O clássico Ep foi recentemente relançado aqui no
Brasil pela HeavyMetalRock, curiosamente pouco antes da banda lançar seu segundo disco ao
vivo na carreira. O material ao vivo da bolachinha é feroz e nada lapidado, e
aí reside seu principal charme: todas as versões aqui são superiores às originais
de estúdio, graças ao clima quase tosco e à velocidade acelerada das rendições.
Os gang vocals são
praticamente jogados nos microfones, JohnBush se preocupa muito mais com a
garra das interpretações do que com pormenores técnicos. DavidPritchard, que
morreria dois anos depois, segura muito bem as guitarras sozinho. GonzoSandoval e JoeyVera fazem uma cozinha de respeito, colaborando um bocado para o
impressionante peso do resultado final. A oitava faixa é uma até então inédita
sobra das gravações da primeira demo dos Saints,
datada de 1983. Um imperdível registro de uma era romântica da história do HeavyMetal.
NOTA:
CLÁSSICO DA CRIPTA
Pontos
positivos: energia pura, ótimas músicas
Pontos
negativos: deixa a gente querendo ouvir mais do show