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terça-feira, 22 de setembro de 2020

In Flames – Clayman: 20th Anniversary Edition (CD-2020)


 

Remodelando Um Clássico

Por Trevas

Não fosse a pandemia, 2020 seria um ano repleto de comemorações por parte dos suecos do In Flames. Os baluartes do Gothemburg Sound completam nada mais nada menos que 30 anos de existência. E Clayman, seu quinto disco de estúdio, completa 20 anos de lançamento. E Clayman representa muito para o quinteto: foi com esse disco que a banda galgou terreno para além de seu nicho original, o Death Metal Melódico, ganhando muitos fãs dentro da cena do metal moderno mundial.

Clayman em sua versão original

Clayman também é considerado o último disco do In Flames a apostar em sua proposta sonora original. Reroute To Remain chegaria pouco depois para causar uma imensa divisão entre os fãs, com muito do então chamado Nu Metal infiltrado em seu estilo sueco de Death Melódico. Eu fui um dos fãs que largou de mão da carreira dos caras à época (depois voltei com força total e passei a entender e curtir os rumos que escolheram). Mas escutando o disco hoje em dia, fica mais claro que a ruptura não foi tão drástica quanto pareceu, Clayman já era uma espécie de elo perdido entre o velho e o futuro In Flames. Originalmente produzido por Fredrik Nordström, o disco tem sua edição comemorativa remasterizada por Ted Jensen (Pantera, Gojira). E fica bem fácil notar que a escolha foi acertada, com a clássica Bullet Ride soando forte como nunca na abertura. E que abertura: seguem Pinball Map e a obrigatória Only For The Weak, um clássico instantâneo que curiosamente já escancarava a metamorfose que os suecos sofreriam no próximo disco.


E a destruição não para. A nem sempre lembrada As The Future Repeats Today é de uma urgência viciante, e o início da bem construída Square Nothing remete aos temas Folk vistos nos discos anteriores, mas com um arranjo mais maduro. A faixa título chega, e só não se faz como obrigatória nos sets atuais pois a tríade de abertura está num nível estratosférico e os caras precisam prestigiar os outros trabalhos.


O restante do disco não baixa nem um pouco a guarda, com a dinâmica do futuro In Flames dando as caras em coisas como Satellites And Astronauts e Suburban Me (com solo de Christopher Amott) e Swim merecendo um lugar entre os lados B favoritos dos caras. Com pouco mais de 40 minutos, Clayman continua um forte candidato a disco definitivo de um subgênero, e soa melhor que nunca no novo trabalho de remasterização. Clássico da Cripta, obrigatório!! 


Bônus Da Edição de 20 Anos

Para a nova edição, Clayman ganhou uma arte de capa nova. E cara, como ficou mais bonita. Também estão presentes cinco faixas gravadas atualmente (embora não fique claro no encarte a formação responsável pela gravação), produzidas por Howard Benson (Motörhead). A primeira delas é uma instrumental tocada pelo violoncelista Johannes Bergion (Diablo Swing Orchestra) e Björn Gelotte, uma espécie de medley de alguns temas do disco. Interessante, mas longe de obrigatória. De resto, temos as regravações de Only For The Weak, Bullet Ride, Pinball Map e Clayman. Não, nenhuma delas soa tão bem quanto as originais, embora fique claro que Anders Fridén usa melhor sua voz limitada hoje em dia. Ou seja, não fosse o ótimo trabalho de remasterização das faixas originais, não recomendaria a substituição da versão original do disco por essa edição comemorativa.


Gravadora: Shinigami Records (nacional)

Prós: O clássico do In Flames em seu melhor estado

Contras: As regravações não rivalizam com as originais

Classifique como: Melodic Death metal, Modern Metal

Para Fãs de: Soilwork, Arch Enemy, Dark Tranquillity 












domingo, 21 de julho de 2019

Demons & Wizards – Demons & Wizards Remastered Edition (CD-2019 – originalmente lançado em 2000)




Blind Earth ou Iced Guardian?
Por Trevas

Para tentar explicar a força por detrás do lançamento desse projeto no início de 2000, temos que relembrar o cenário da música pesada nos anos 1990. Em uma era em que o Metal foi absolutamente defenestrado do Mainstream, uma penca de subgêneros floresceu, tanto para o lado mais extremo quanto para o lado mais melódico. E comercialmente, o Power Metal era a estrela do dia. Zilhões de imitações de segunda categoria do Helloween surgiram. E como é comum em qualquer cena que floresça, algumas pérolas conseguiram soerguer acima da média. Os alemães do Blind Guardian, capitaneados pelo baixista/vocalista Hansi Kürsch, mais pesados que boa parte de seus pares, com sua sonoridade completamente calcada na fantasia, rapidamente galgaram degraus para se tornar uma das maiores bandas de seu tempo.

Hansi, antes do visual tiozão do churrasco

E nos Estados Unidos, onde o Metal como então se conhecia sofria ainda mais com o surgimento da cena moderna do infame Nu Metal, um obstinado (e complicado) guitarrista, Jon Schaffer, enfim conseguia que sua visão levasse seu Iced Earth do quinto escalão para uma das grandes promessas do Metal mundial com o lançamento de dois petardos em sequência, The Dark Saga e Something Wicked This Way Comes e o surpreendente sucesso do triplo ao vivo Alive In Athens.


Jon, fazendo o que ele faz quando não está mandando alguém embora

Hansi e Jon haviam se tornado grandes amigos. Após uma noitada na Alemanha, regada a muita birita, um ressacado Jon esbarra com um violão na sala da casa de Hansi e começa a dedilhar algo novo. Hansi logo cria uma melodia em cima. Em pouco tempo nascia My Last Sunrise, e com ela, a semente da colaboração que seria Demons & Wizards. O nome, triado do disco clássico do Uriah Heep, era perfeito para exemplificar a mistura da fantasia do BG com o clima mais capetão do IE. O anúncio do disco, em 1999, teve um impacto absurdo. Era então como imaginar algo como uma colaboração do Rob Halford com o Steve Harris. O disco, produzido por Jim Morris (que também ficaria ao encargo das guitarras solo), agora ganha uma edição comemorativa, remasterizada pelo premiado produtor Zeuss, devidamente relançada aqui no Brasil pela Hellion Records.

Hansi & Jon 
Rites Of Passage é a introdução climática e marcial, que bem poderia musicar a marcha de orcs em um derivado do Senhor dos Anéis. Ela prepara um sombrio terreno para Heaven Denies, uma daquelas músicas tão absurdamente perfeitas que por si só já valeria a recomendação de aquisição do disco. A sonoridade é exatamente a mescla da Rifferama Thrashy do Iced Earth com as melodias únicas (e guitarras dobradas) do Blind Guardian.


Boa parte dos ouvintes já se daria por satisfeita com o que ouvira até aí, mas há muito mais por vir. A qualidade não cai por um segundo sequer, seja em números “chugga-chugga” como Poor Man’s Crusade e Blood On My Hands, seja em canções únicas e algo fantasmagóricas como a apoteótica Fiddler On The Green (canção cuja letra é ilustrada na bela arte de capa) e Path Of Glory.



A mistura do que há de melhor no mundo dos demônios estadunidenses do Iced Earth com o ápice criativo dos magos alemães do Blind Guardian foi tão cirúrgica, e o timing tão perfeito, que dali para frente nenhuma das duas bandas conseguiria lançar nada que sequer chegasse perto do que ouvimos aqui. A carreira do Iced Earth, então postulante ao primeiro escalão do Heavy Metal mundial, minguou de disco em disco, raramente colocando a cabeça para fora do lago da mediocridade. Já o Blind Guardian conseguiu se manter comercialmente como uma grande potência, mas nenhum dos discos dali para a frente seria uma unanimidade entre os fãs, com o lado orquestral e exagerado da banda suplantando o peso de seus primórdios. Nem mesmo repetição da dobradinha, com Touched By The Crimson King, em 2005, conseguiria chamar tanto a atenção, sucumbindo rapidamente à expectativa criada pelo debut


O tratamento dado para essa reedição é louvável. Além da presença de White Room (um improvável e apenas ok cover do Cream), presente apenas na edição especial à época do lançamento, temos as demos de Heaven Denies e uma versão alternativa para The Wistler. A remasterização não impressiona, mas o encarte possui liner notes bacanas, pelas mãos dos mentores da obra. E a edição nacional ficou bem bonita, com um digipack caprichado encartado em um belo Paper Sleeve.

Jon & Hansi, 2019. A parceria reativada. 
Veredito da Cripta

Para quem já tem a bolachinha, confesso que os extras não são exatamente imperdíveis. Já para quem perdeu essa pérola à época em que saiu, a caprichada reedição em solo tupiniquim vale cada centavo. Afinal, trata-se de um dos melhores discos de Power Metal em todos os tempos, capaz de rivalizar com o que de melhor fizeram tanto Blind Guardian quanto Iced Earth.


NOTA: CLÁSSICO DA CRIPTA


Gravadora: Hellion Records (nacional)
Prós: A mistura perfeita entre Blind Guardian e Iced Earth
Contras: O disco acaba.
Classifique como: Power Metal
Para Fãs de: Iced Eath e Blind Guardian (dã)



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Amorphis – Queen Of Time (Cd-2018)

Amorphis - Queen Of Time

Um Novo Ápice
Por Trevas

Bombástico. Essa foi a palavra que o guitarrista Esa Holopainen escolheu para definir o 13º disco do Amorphis, Queen Of Time. O novo trabalho, que com o retorno do baixista Olli-Pekka Laineo, se tornou o primeiro a contar com todos os quatro membros originais desde o longínquo Tales Of A Thousand Lakes (de 1994), repete a dobradinha com o requisitado produtor sueco Jens Bogren. Jens foi responsável direto pela banda se reencontrar com o ótimo Under The Red Cloud (lançado em 2015), após o período de estagnação criativa que o combo finlandês atravessou ao tentar repetir sem sucesso a fórmula do excelente Skyforger (de 2009). As letras, do eterno colaborador Pekka Kainulainen, recorrem ao folclore escandinavo e sua fixação pela magia da natureza para explorar o grande poder de mudança contido em pequenos gestos e na junção de pequenas vozes. Banda e produtor trouxeram à mistura   orquestra e coros de verdade. A ideia, fazer o disco mais ambicioso da carreira do sexteto. Meu medo, que o Amorphis se tornasse mais uma banda de metal sinfônico comum.


Detonantemente amorfos
Medo que se mostrou infundado logo no primeiro minuto da absolutamente fenomenal faixa de abertura, The Bee. Folk, eletrônica, progressivo, Space Rock e metal extremo, elementos explorados em graus diferentes ao longo da carreira dos finlandeses se fundem de maneira apoteótica, numa canção que certamente se tornará obrigatória nos shows pelos anos que virão.


A qualidade cinemática comum às produções de Bogren casou à perfeição com o estilo do Amorphis, e de cara fica evidente se tratar do disco mais dinâmico da carreira do sexteto, vide a variação de emoções presentes na folk Message In The Amber e na trauletada Daughter Of Hate, que evolui da tranquilidade para uma das faixas mais pesadas da discografia Amorphiana. Aliás, seu refrão bem poderia estar em algum trabalho do Amon Amarth, não fosse seguido de um instigante saxofone. Elementos alienígenas ao Heavy metal sempre foram comuns à banda, mas os recém incorporados coros e orquestra aparecem aqui e acolá nos arranjos, sempre com extremo bom gosto e de uma maneira sofisticada. Nada da breguice típica das bandas de Metal Sinfônico, que muitas das vezes parecem pastiches com guitarras de trilha sonora de filme da Disney.



Jens Bogren não é reconhecido somente por ser detalhista nos arranjos. Sua obsessão em extrair a melhor performance dos artistas com quem trabalha já gerou uma tremenda fama de carrasco ao sueco. Mas raramente a tortura é em vão, aqui temos cada um dos músicos em seu ápice. O vocalista Tomi Joutsen nunca soou melhor em nenhum dos extremos de sua voz. Mas todo e cada instrumento aqui, ainda que gravado de forma exímia, atende tão somente ao que o cenário musical pede. Nada, absolutamente nada soa gratuito. Mas o esmero com a produção e as performances estelares pouco valeriam se o disco não tivesse composições à altura. Felizmente ficaram para trás os tempos de falta de foco criativo que assolou trabalhos como Far From The Sun, The Beginning Of Times e Circle. Todas as faixas da edição padrão são excelentes. E que material variado: The Golden Elk (cuja letra traz o trecho que nomeia o disco), Grain Of Sand e a faixa de trabalho Wrong Direction fazem a felicidade daqueles mais afeitos à melodia e às referências ao space rock e progressivo. Já We Accursed, e a tribal e cinemática Heart Of the Giant trazem o som para o lado mais pesado.




Amongst Stars, que traz a participação da bela Anneke Van Gierbergen, é exatamente o tipo de som que eu temia encontrar em Queen Of Time. Uma faixa que bem poderia estar num disco dos xaropescos conterrâneos do Nightwish, e que se salva do efeito Disney Metal por muito pouco. Talvez eu realmente seja incapaz de resistir à holandesa. Pyres On The Coast eleva ao máximo o poder cinemático do disco, terminando de forma pesada densa e épica o disco com a imagem de uma cena que bem poderia estar em Vikings ou Game Of Thrones. A edição nacional ainda nos brinda com duas faixas bônus, ambas legais, mas que soam um pouco deslocadas dentro da ordem perfeita dos 57 minutos originais da bolachinha.



Veredito da Cripta


Uma das bandas mais originais de sua geração, o Amorphis finalmente encontrou um novo sopro de vida nos últimos dois discos. Queen Of Time é realmente bombástico e ambicioso, como seus membros haviam prometido. Mas está muito longe e sucumbir ao exagero e pompa de alguns artistas que resolvem incorporar elementos alienígenas em profusão ao seu som. Pesado, solene e sofisticado, Queen Of Time não é só um dos melhores discos de 2018. Aos poucos está também se tornando um forte postulante a um dos meus discos favoritos em todos os tempos.


NOTA: 10

Visite o The Metal Club

Gravadora: Shinigami Records (nacional)

Prós: Som perfeito, músicas perfeitas
Contras: Um disco repleto de detalhes, pode demorar a pegar ouvidos mais apressados.
Classifique como: Prog Metal, Folk Metal, Melodic Death metal
Para Fãs de: Insomnium, Dimmu Borgir, Moonspell, Enslaved




sábado, 24 de março de 2018

Judas Priest – Firepower (Cd-2018)

Judas Priest - Firepower

O Incendiário Crepúsculo Dos Deuses
Por Trevas

Entra disco, sai disco e somos confrontados com as afirmativas por vezes fanfarronescas de artistas consagrados: meu próximo trabalho é o melhor que já lancei. Promessas que vem e vão, e raramente se concretizam. Não, não estou acusando o Judas de ter se utilizado desse expediente. Até por que não usou, no máximo li Richie e Rob dizendo que sentiam algo especial no trabalho vindouro. Mas confesso que eu é quem me sentia apreensivo. A banda, confrontada com as críticas pesadas à produção tacanha do (bom) Redeemer Of Souls, mostrou que não estava para brincadeiras: tirou Tom Allom da aposentadoria. Sim, o cara que assinou a produção de tudo o que o Judas lançara entre Unleashed in the East e Ram It Down. Já parece impressionante? Não parou por aí, chamaram também o melhor produtor de Heavy Metal dos últimos 20 anos, o britânico Andy Sneap, mago por detrás dos clássicos do Nevermore e da ressurreição do Accept. Satisfeito? Não? Nem eles. Além os dois renomados produtores de eras diferentes, ainda mantiveram Mike Exeter, com quem haviam trabalhado no disco anterior. Com essa trinca, partiram para o estúdio, e deram carta branca para que os produtores fizessem o que tivessem que fazer para extrair o melhor do bando de senhores e do já não mais calouro, Richie Faulkner. Uma estratégia que dependia e muito da maturidade e falta de ego de todos os envolvidos, mas que podia, enfim, até dar certo.

Judas em Firepower
Não bastasse a escolha incomum por um triunvirato de produtores, outro fato tornou o lançamento de Firepower uma incógnita. Glenn Tipton , do alto de seus 70 anos a figura mais icônica da banda, anunciou que não mais acompanhará o Judas Priest em turnê, devido às limitações físicas impostas pela terrível doença de Parkinson. Andy Sneap assumiria as guitarras nos shows e uma questão ficou no ar. Estaríamos, pouco depois da aposentadoria do Black Sabbath, diante do ocaso de outros dos monstros sagrados do Heavy Metal? E se o crepúsculo efetivamente se aproxima, seria Firepower um fim digno para uma das bandas mais influentes do estilo? Com essa pequena grande nuvem na mente, coloquei minha recém-chegada bolachinha para rodar. E no meu som ela estacionou por toda a semana...e cá relato o que achei...



Poder De Fogo Intacto

Firepower (ver vídeo), a música, começa vibrante e pesada. Logo de cara somos confrontados com a perfeição sonora proporcionada pelo trio de produtores. E somos também confrontados com um fenômeno: como a voz do senhor Rob Halford, 66 anos de estrada, está soando excelentemente bem! De nada serviriam esses detalhes se a música fosse uma bomba. Não é. Ainda que recicle o refrão meio panaca da rendição cafona para Rapid Fire com o Ripper (contida no Ep Bullet Train), a música cresce a cada audição e deve funcionar muito bem ao vivo, obrigado.



Lightning Strike, primeira faixa de trabalho, e totalmente old school, se sai ainda melhor. Riffs, refrão, solos, simplesmente perfeita em todos os sentidos. A empolgação nesse ponto era tamanha que a paulada midtempo Evil Never Dies, com sua letra fazendo uma releitura dos pactos com o cramulhão dos músicos de Blues, até pareceu uma bola fora. Simples, na mão de uma banda de segunda categoria como o Primal Fear, realmente poderia soar um daqueles pastiches mequetrefes que os fãs do revivalismo dos anos 1980 adoram endeusar. Mas nas mãos dos criadores de 99% dos clichês do gênero, a música acaba por se safar com louvor.


Falei em anos 1980? Então, a produção aqui é cascuda e moderna, ainda que bastante orgânica. Os músicos gravaram quase a integridade das bases ao vivo, com a banda tocando toda junto, uma ideia de Andy Sneap comprada pelos outros dois produtores. O que não impediu uma ou outra referência às produções do passado da banda, como na viradinha de bateria artificial da simplesmente absurda Never The Heroes, uma power ballad nas veias de Heart Of A Lion.


Necromancer é o tipo de música que se esperaria encontrar no sucessor de Painkiller, caso Rob não tivesse jogado a banda num hiato com sua saída. Engrandecida por um bem colocado coro dramático, nessa altura do disco já se percebe a opção em apostar no poder de interpretação de Halford, limitando os agudos lancinantes aos backing vocals. E nota-se também que a bateria de Scott Travis não tomava seu devido lugar de destaque na sonoridade de um disco dos caras desde sua longínqua estreia.

Os coroinhas do Padre Judas: Richie & Andy


Children Of The Sun é uma das faixas que demonstram que a banda não necessariamente deitou nos louros do passado. Possivelmente fruto da liberdade dada a Richie Faulkner, é repleta de groove e dinâmica, mostrando um Judas Priest diferente, ainda que prontamente reconhecível. Aliás, Richie deve levar sua parte dos créditos pelo sangue renovado da banda, quem duvida, cheque os caras ao vivo. O massacre continua com a belíssima instrumental de clima celta Guardians, que introduz a avassaladora Rising From Ruins. Tida como a favorita de Scott e Faulkner no novo disco, e repleta das dobras de guitarra de Richie e Glenn Tipton, ela poderia ser definida como uma nova Blood Red Skies, o que é um mega elogio.




Flame Thrower é outra faixa diferente, com andamento para lá de empolgante e algumas experiências (muito boas) na voz de Rob. O refrão parece algo que o careca teria pensado lá na época do Sin After Sin, e soa um pouco estranho nas primeiras audições. Uma música que demorou um pouco a me conquistar, mas que cresceu com o tempo. O groove retorna com a simples e para lá de viciante Spectre (ver vídeo), um dos destaques do disco, que já vem constando dos repertórios da nova turnê.



Já me daria por satisfeito com o que meus ouvidos testemunhavam até então. Mas o disco tem 15 músicas, e isso costuma ser um péssimo sinal. Pensei comigo, vai desandar em algum momento. Não desandou. Traitors Gate é um monumento à performance vocal do senhor Halford. Sua voz pode ter vivido eras de alcance maior, mas nunca antes fora tão bem gravada e com tantas variações quanto nesse disco. Fazia muito tempo que um vocalista não me impressionava tanto quanto nesse Firepower e a delícia Hard Rocker de pouco mais de dois minutos No Surrender seguida da paulada moderna cheia de groove Lone Wolf só comprovam meu ponto. O disco termina com a Power Ballad Sea Of Red, na veia da já clássica Angel, e poucas vezes na minha vida me senti compelido a rodar de novo um disco tão longo assim que o mesmo terminou.




Veredito da Cripta

O Heavy Metal em sua vertente mais tradicional parecia esquecido no tempo, as velhas bandas do estilo vivendo de raros lampejos (com exceções...ok, Accept e Saxon?), e as novas se limitando a copiar de forma pálida e diluída o que já fora feito melhor no passado. Aí vem um dos titãs do estilo e lança, aos mais de 40 anos de estrada, uma obra que não só se contenta em não fazer feio frente ao passado, como também é capaz de rivalizar com os melhores momentos de sua vitoriosa carreira. Firepower não é só o melhor disco do Judas Priest em décadas. É também o melhor disco de Metal Tradicional que escutei nos últimos cinco anos (talvez mais). Se esse realmente for o canto de cisne de uma das maiores bandas em todos os tempos, será uma saída triunfal de cena. Forte candidato a futuro clássico.  


NOTA: 10


Visite o The Metal Club

P.s.: A resposta do mercado foi unânime, o disco atingiu a maior posição na Billboard que a banda já teve (5ª posição) e nas paradas britânicas, também estacionou na 5ª posição, a posição mais alta que a banda conseguiu desde British Steel, de...1980!!!


Gravadora: Sony Music (nacional).
Pontos positivos: um dos melhores discos da carreira do Judas 
Pontos negativos: ele termina
Para fãs de: Iron Maiden, Saxon
Classifique como: Heavy Fucking Metal






segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Curtas: Pretty Maids, Tygers of Pan Tang, Diamond Head, Armored Saint

Curtas: Pretty Maids, Tygers of Pan Tang, Diamond Head, Armored Saint

Pretty Maids - Kingmaker
Pretty Maids – Kingmaker (Cd-2016)

Algo Morno no Reino da Dinamarca

O 15º disco de estúdio dos prolíficos dinamarqueses, 4º no curto período de 5 anos – uma raridade em tempos de download ilegal - traz a mesma fórmula que a banda vem lapidando desde meados dos anos 1990: Pitadas de Power Metal europeu em meio a melodias que não ficariam nem um pouco deslocadas em um trabalho de AOR. Some-se a isso uma produção moderna, com importante uso de teclados nos arranjos e uma ou outra balada incidental farofenta e você tem um diagrama de todos os lançamentos recentes dos caras. O fato é que a fórmula, quando funciona, como na faixa título, é irresistível. E ninguém soa como os cabruncos.




O problema é que para funcionar bem, toda a perfeição dos músicos e da produção do sempre competente Jacob Hansen tem que vir acompanhados de canções marcantes. E, embora Kingmaker não tenha nada em seus quase cinquenta minutos de duração que ofenda os ouvidos, também passa longe de gerar músicas passíveis de integrar o repertório ao vivo do Pretty Maids. Enfim, um disco competente, mas que passa longe dos melhores momentos de uma banda única. Talvez seja hora de desacelerar na quantidade de lançamentos e atentar para o padrão de qualidade.


NOTA: 7,30


Pontos positivos: produção caprichada
Pontos negativos: falta algo à boa parte do material 
Para fãs de: Eclipse, Scorpions
Classifique como: Power Metal+AOR




Power Farofa Dinamarquesa


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Tygers of Pan Tang
Tygers Of Pan Tang - Tygers Of Pan Tang (Cd-2016)

O Bonde Do Tigrão

Fóssil vivo da NWOBHM, o Tygers of Pan Tang escolheu não nomear seu quinto rebento desde o retorno à ativa (em 1999). Quando uma banda lança um disco homônimo a essa altura da carreira, geralmente o faz com a intenção de mostrar ao mundo um suposto renascimento. E é mais ou menos o que temos aqui. Não, os caras não reinventaram seu som, ainda temos aqui aquela mistura de Hard com um Heavy Metal tipicamente britânico, mas cara, a inspiração estava em alta. Que o diga a abertura, com Only the Brave, facilmente uma das melhores músicas de 2016.


A formação atual traz apenas o guitarrista Rob Weir dos primórdios, mas está longe de ser um catadão sem personalidade. O vocalista Italiano Jacopo Meille já acompanha Weir desde 2004, e a despeito de soar meio irritante em discos anteriores, simplesmente detona aqui. Outro que já está na banda tem muito tempo (desde 2002, para ser mais preciso) é Craig Ellis (batera), que forma uma ótima cozinha com Gavin Gray (baixo). Outro destaque fica para o excelente Micky Crystal, que debulha solos e riffs de primeira. Musicalmente temos faixas que equilibram muito bem o Hard/Heavy (a já citada Only the Brave, Never Give In e Do It Again – todas muito boas) e outras mais festivas, como a contagiante Glad Rags, a bela Praying For a Miracle e o cover bacana para I Got The Music In Me (Kiki Dees Band). A banda estava com a mão tão boa que, até mesmo quando arriscou uma balada xarope tipicamente anos 1980 (The Reason Why), o fez muito bem. Ao final dos 45 minutos do disco homônimo, fiquei com a certeza de estar diante de um dos melhores trabalhos da longa carreira dos britânicos. Só dispenso o grunhido tosco de tigre após a última música, que me deu um baita susto. Excelente!


NOTA: 8,93


Pontos positivos: Inspiração em alta, ótimos vocais, riffs e solos
Pontos negativos: tem cara de anos 1980, se espera modernidade, nem passe perto 
Para fãs de: Saxon, Diamond Head, Def Leppard antigo
Classifique como: Power Metal+AOR

Bonde do tigrão geriátrico
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Diamond Head
Diamond Head – Diamond Head (Cd-2016)

Diamante Errante

Bem, repita aqui a introdução da resenha acima. Temos um disco homônimo tardio de um dos baluartes da NWOBHM. O Diamond Head hoje tem seu nome marcado na história do Rock por sempre ser lembrado pelos estadunidenses do Metallica como uma das suas principais influências nos primórdios da banda. Mas, verdade seja dita, sua carreira nunca sobreviveu ao peso de seu primeiro disco, o excelente Lightning To The Nations. Essa é a segunda tentativa de retorno da banda, com uma formação que traz apenas o guitarrista Brian Tatler de seus primórdios, auxiliado pelo baterista Karl Wilcox, que figurou na encarnação noventista dos caras, além dos novatos Rasmus Bom Andersen (voz), Andy Abberley e Dean Ashton (baixo).


Bones abre o disco de forma vigorosa, mostrando um cruzamento da sonoridade NWOBHM com uma leve e bem-vinda modernidade. Shout At The Devil tem um bom riff prejudicado pela óbvia indução ao clássico homônimo do Motley Crue. A boa Set My Soul On Fire poderia até figurar num disco do Audioslave, não fossem os timbres e algumas sutilezas estilísticas. See You Rise tem aquela rifferama que cheira a AC/DC e bons vocais do competente, mas algo comum, Rasmus Andersen. E talvez aí resida o único problema do disco. É tudo bastante bem tocado, as músicas nunca ficam exatamente enfadonhas, mas o todo carece de personalidade. Tudo soa comum como a voz de Rasmus. Se All The Reasons You Live é outra que bem poderia estar num disco do Audioslave, Wizard Sleeve já é a cara dos primórdios do NWOBHM e talvez mais próxima do que se esperaria da banda. Outras, como Blood on My Hands, remetem ao mediano British Lion do Steve Harris. Ou seja, o ouvinte casual provavelmente irá transitar pelas 11 músicas desse disco sem saber exatamente quem diabos é o Diamond Head. Um disco correto, mas que passa longe de ser essencial.


NOTA: 6,98


Pontos positivos: muito bem produzido
Pontos negativos: algo sem personalidade
Para fãs de: British Lion, Audioslave
Classifique como: Heavy Metal

Diamond Head 2016




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Armored Saint - Saints Will Conquer
Armored Saint – Saints Will Conquer (Cd – 1988/2016)

Desenterrando um Clássico

Saints Will Conquer é o Ep ao vivo que os estadunidenses do Armored Saint soltaram em 1988, registrando 7 faixas nos palcos da turnê de Raising Fear, além de uma música de estúdio inédita. O clássico Ep foi recentemente relançado aqui no Brasil pela Heavy Metal Rock, curiosamente pouco antes da banda lançar seu segundo disco ao vivo na carreira. O material ao vivo da bolachinha é feroz e nada lapidado, e aí reside seu principal charme: todas as versões aqui são superiores às originais de estúdio, graças ao clima quase tosco e à velocidade acelerada das rendições.




Os gang vocals são praticamente jogados nos microfones, John Bush se preocupa muito mais com a garra das interpretações do que com pormenores técnicos. David Pritchard, que morreria dois anos depois, segura muito bem as guitarras sozinho. Gonzo  Sandoval e Joey Vera fazem uma cozinha de respeito, colaborando um bocado para o impressionante peso do resultado final. A oitava faixa é uma até então inédita sobra das gravações da primeira demo dos Saints, datada de 1983. Um imperdível registro de uma era romântica da história do Heavy Metal.


NOTA: CLÁSSICO DA CRIPTA


Pontos positivos: energia pura, ótimas músicas
Pontos negativos: deixa a gente querendo ouvir mais do show
Para fãs de: Riot, Jag Panzer
Classifique como: Heavy Metal


Realce, reaaalce - Armored Saint 1987