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domingo, 1 de março de 2020

Graspop Metal Meeting 2019: Parte II – Os Shows



Olá Criptomaníacos!! 
Nessa segunda postagem sobre o GMM, farei um breve apanhado dos 36 shows assistidos ao longo dos 3 dias de festival. 
Por show assistido e avaliado, consideramos aquele que conseguimos presenciar por pelo menos metade de sua duração prevista. 
Se contarmos os pedaços de 10/15 minutos que assistimos ao longo desses dias, o número cresceria bastante.
As fotos e pequenos vídeos são meus e da Dressa, e servem apenas para tentar dar uma vaga noção visual da coisa, já que celulares são péssimos para esse tipo de registro. 
E claro que demos preferência a curtir as apresentações ao invés de registrar as mesmas de maneira porca.
Divirtam-se
Trevas


21.06.19 - SEXTA (11 shows assistidos)

Os calouros aqui calcularam mal o deslocamento para o festival, o que nos fez perder o Death Angel, escalado para a infeliz hora do almoço. Nossa primeira parada acabou por ser o Crowbar, no palco Marquee. Foi um bom começo, Kirk Windstein e sua trupe desfilaram seus acordes monolíticos com maestria (NOTA: 8,00). Ainda conseguimos assistir duas músicas do caos eletrônico virulento do Combichrist antes de encarar Glenn Hughes e suas releituras dos clássicos do Purple num show inesperadamente mediano (NOTA: 6,00).

Crowbar - mais pesado que fimose de cachalote
Retornando ao Marquee, dessa vez para o assombroso e para lá de pesado show do Candlemass com Leif de volta ao batente trazendo a tiracolo o excelente Johan Längqvist, vocalista que gravou Epicus Doomicus Metallicus. Realmente épico, Doom bagarai e destruidor (NOTA: 10).

Candlemass, espetacular e de volta às origens
Num dos palcos principais, o metal moderno do Architects levantou o público de maneira tão esfuziante que me senti até um pouco culpado por não conseguir ver nada demais no som dos caras (NOTA: 7,00). Após alguns minutos do viajante e original Cult Of Luna, era vez de comprovar o quanto o Anthrax funciona bem ao vivo. Mesmo com som embolado e Belladonna longe da boa forma vocal, o som dos caras em festival levanta até defunto (NOTA: 9,00).

Caught In A Mosh! Anthrax detonando! 
Um dos shows mais esperados pela gente, o Lynyrd Skynyrd demorou a esquentar. Ainda assim, um show que tem Saturday Night Special e Free Bird não pode ser um fracasso. Vide a contagiante rodinha de coroas dançando em Sweet Home Alabama (NOTA: 7,50). Se os sulistas pareciam algo deslocados, os suecos do Amon Amarth estavam na sala de casa. Com um show pesado, tecnicamente perfeito e cheio de pirotecnias, mostraram que hoje em dia são os headliners perfeitos para festivais do tipo. Vide a lotação do empolgado público de frente para o palco (NOTA: 10).







Perfeição técnica é o que vimos também na apresentação do Within Temptation. Com uma produção de fazer inveja a qualquer banda que não seja o Rammstein, destilaram clássicos de seu período mais sinfônico misturados ao metal moderno de agora. O ponto alto da noite foi ver um verdadeiro viking, torso desnudo no frio, cantando a plenos pulmões Ice Queen. Nos debulhamos em gargalhadas, para então recebermos um merecido olhar de reprovação do grandalhão, que logo voltou a exibir seus dotes líricos. Um belo show (NOTA:8,50) Era hora do último show do Slayer na Bélgica. Um dos eventos mais esperados do festival, a apresentação do quarteto contou com uma produção de palco caprichada e muita, mas muita pirotecnia. O repertório está matador e Gary Holt trouxe um algo a mais para a dinâmica do show, mas não fosse o clima criado pela grandiosidade visual, que nos transporta para algum lugar no inferno, novamente ficaria com a impressão de que a banda é um pouco burocrática no palco (NOTA: 8,00). No acampamento, madrugada adentro só se ouviria uma coisa, urros de “SLAAAAAYEEEEERRR”.

Slayer levando sua capirotagem pela última vez em território belga
22.06.19 - SÁBADO (10 shows assistidos)

Começamos na hora do almoço, com a belíssima apresentação do Cellar Darling. Anna Murphy é uma vocalista e multi-instrumentista brilhante e a banda é um raro caso do estilo que não se vale de absolutamente nada pré-gravado. Excelente (NOTA: 9,00).

Ainda esbarramos com o final da apresentação do Gloryhammer, banda piada de Power Metal que surpreendentemente mostra um poderio absurdo nos palcos. Fica para uma próxima. Impressionante também o pouco que vimos do Ne Obliviscaris, que parece conjurar o próprio som de alguma outra dimensão, uma dimensão sombria e pesada. Os suecos do Hammerfall podem ser mega xaropes, mas imaginei que seu som pudesse soar divertido no ambiente de um festival. Até cantei junto uma ou outra música dos simpáticos bangers, mas a plateia não pareceu tão convencida assim (NOTA: 7,00).

Compenetrados
Muito melhor se saiu o fenômeno Lzzy Hale e seu Halestorm. Aguados em estúdio, os estadunidenses destroem ao vivo, capitaneados por uma das vozes mais fortes da história do rock (NOTA: 9,00). Após um pequeno relance no não muito impressionante show do Grand Magus, era hora de Nergal e sua trupe no palco principal. E o Behemoth fez justiça a sua fama, um show verdadeiramente infernal e pesado (NOTA: 9,00). Tempos atrás parecia que o Trivium conquistaria o mundo, mas a carreira dos caras nunca atingiu o ápice esperado. Mas não é por falta de trabalho, com um show tecnicamente excelente na parte instrumental, os caras se movem tanto no palco que microfones eram colocados em toda a extensão do mesmo. Uma apresentação repleta de carisma e energia (NOTA:8,50).

Muitos cadeirantes no evento, alguns deles gozaram de belos crowdsurfings
De volta aos palcos menores, nossa primeira escolha de sofia: estávamos nas primeiras fileiras da apoteótica apresentação do Clutch, com um Neil Fallon endiabrado comandando a plateia como um pastor do inferno, os estadunidenses destilavam um clássico atrás do outro (NOTA: 10,00). Infelizmente deixamos o show na reta final pois não podíamos perder uma das derradeiras apresentações do UFO antes do encerramento da carreira. O septuagenário Phil Mogg parece um pouco cansado, e logo se percebe que a aposentadoria vem em boa hora, mas o show tem tanto clássico por minuto que acaba valendo o esforço (NOTA: 8,00). A noite não dormida cobrou seu preço, acabamos por abandonar o festival mais cedo e perdemos bandas como Krokus, King Diamond, Demons & Wizards, Disturbed, Lamb Of God e Slipknot. As três últimas pudemos escutar do acampamento, assim como a reação da plateia. Ao que parece, shows destruidores. Era hora de recuperar as baterias para o último dia.

Domingo com sol a pino e os dois na primeira fila para o FM


23.06.19 - DOMINGO (15 shows assistidos)

Nosso domingo começou bem cedo, e direto da primeira fila de um dos palcos principais, com uma aula impecável de AOR com os veteranos britânicos do FM, comandados pela bela e cristalina voz de Steve Overland (NOTA:9,00). Bem menos impressionante foi o show seguinte, dos postulantes a nova sensação do Classic Rock Inglorious. Definitivamente falta algo aos ingleses, e o afetado e talentoso Nathan James ainda precisa comer muito Fish & Chips para atingir o nível que acha já ter (NOTA: 6,50).


Outro combo britânico na fila, fomos conferir os ogros do Orange Goblin no Marquee. O gigante Ben Ward e sua trupe fazem um show poderoso e vibrante, e nos divertimos pulando abraçados a um cabrunco que parecia ter lambido um sapo lisérgico (NOTA:9,00). Ainda deu tempo de pegar a metade final do Deadland Ritual, supergrupo que reúne gente do quilate de Geezer Butler, Steve Stevens e Matt Sorum. Capitaneados pelo pouco inspirado vocalista Franky Perez, a banda fez o provável show mais murcho de todo o festival. Uma apresentação morta a ponto de conseguir não levantar a galera nem com War Pigs, música que geralmente salva da derrota qualquer banda cover do planeta. Uma lástima (NOTA: 4,00).

Ih, é a banda da minha camisa ó!


Mudando um pouco o clima, fomos conferir o show do Delain, que seria o último com a formação contando com duas guitarras (uma despedida curiosamente silenciosa da demissionária gnominha espoleta Merel Bechtold). Um show bacana que levantou a plateia com hits grudentos, mas fica claro que os holandeses ainda precisam trilhar muita estrada para chegar perto dos patrícios do Within Tempattion ou dos finlandeses do Nightwish (NOTA: 7,50).

Mesmo durante o início do show do Delain, era visível e impressionante o deslocamento de boa parte do público presente no festival para o outro palco principal. O que só comprova o estrondoso sucesso dos franceses do Gojira em território europeu. E que show. Com peso e musicalidade surreais e uma postura de quem sabe que vai destruir tudo, os irmãos Duplantier foram responsáveis pela maior profusão de rodinhas, Crowd Surfing e afins em todo o festival. Ao final de pouco mais de uma hora, a banda se despede, e o baterista Mario vai ao microfone agradecer e atestar ter perdido alguns quilos na apresentação. Nós também, Mario, nós também (NOTA: 9,50).

Pernas pedindo arrego, hora de dosar as energias
Igualmente destruidora foi a apresentação dos suecos do In Flames. Trazendo a bela adição de Chris Broderick na segunda guitarra e contando com algumas surpresas antigas (Pinball Map e Colony) e muita simpatia, fizeram um set de arrepiar os fãs de todas as fases da carreira dos caras (NOTA: 9,50). Uma breve checada no aparentemente imponente show do Insomnium antes do encontro com tio Coverdale e seu novo Whitesnake. Novo entre mil aspas. O repertório permanece o de sempre (só trocam as faixas do disco atual), mas a destreza dos músicos compensa a repetição. Claro que se você pode chiar do tom abissal no qual as músicas são tocadas e do fato de um show de uma hora contar com solos individuais e intervenções instrumentais, ambos artifícios voltados a preservar a combalida voz do tio, que até que estava num bom dia. Divertido e previsível, como sempre (NOTA: 8,00). Já eram 19:00 da noite, mas o céu de verão estava límpido, com o sol castigando a galera. Após conferir alguns minutos do final estrondoso do show do Possessed, sentados na grama para testemunhar Rob Zombie fazer uma apresentação impressionantemente divertida, com direito até a uma ótima versão para Helter Skelter (NOTA: 9,00). Nunca havíamos visto o Def Leppard em ação. E cara, que decepção. Tecnicamente perfeito, o show tomava forma repleto dos hits radiofônicos que catapultaram os ingleses ao Mainstream. Mas é tudo feito de maneira tão burocrática que faz até o “chá das cinco” parecer um evento com mais atitude. Morno demais (NOTA: 6,00).

Cervejinha belga + Coverdale = previsível e bom
Fugimos para o Eluveitie, mas a lotação do Marquee e o calor infernal nos levaram mesmo ao palco onde se apresentava o Kvelertak. Eu tinha muita curiosidade de conferir o sexteto de Death’n’Roll, com suas músicas repletas de referência de tudo o que é era do rock cantadas em norueguês. E que sorte que o destino nos levou até ali, os caras fizeram um dos shows mais perfeitos do festival. E o público pequeno, logo se transformou em uma multidão. A grande maioria não fazia ideia do que esperar do som dos caras, mas a força de uma banda que, além de proficiência técnica, ainda termina com o vocalista (novo na turma) e dois dos três guitarristas fazendo crowdsurfing ao longo das músicas não pode ser menosprezada. Ao final dos 50 minutos do repertório, os noruegueses deixavam umas 5.000 pessoas embasbacadas para trás, certamente tendo convertido boa parte desses em novos fãs incondicionais (NOTA: 10).


Pausa para o lanche, retornamos a um dos palcos principais e temos uma grata surpresa. O Sabaton é absurdamente popular por lá. Sim a multidão que se amontoa de frente para o palco é impressionante, mas mais impressionante ainda é a desenvoltura com que a banda lida com isso. Em poucos minutos de show e umas 40.000 cabeças cantam e dançam sem parar os hinos quase caricatos dos suecos. A banda também faz por merecer. Os caras não param um segundo e Joakin pode ser um vocalista limitado, mas tem um carisma e simpatia tão grandes que você acaba o show jurando que ainda vai tomar uma cerveja com o grandalhão. Isso sem contar que, arames farpados, sacos de areia, um coral de 20 cabruncos vestidos com uniformes da primeira guerra mundial e um tanque de guerra de verdade estão ali no palco, em meio a explosões e pirotecnias variadas, criando um clima que raramente se vê por aí. Um show monumental e que tem como um grande trunfo não se levar a sério por um instante sequer (NOTA: 10).

KVELERTAK!!!
Era chegada a hora do ultimo Headliner do festival. You Wanted The Best, You’ve Got The Best. The Hottest Band In The World…KISS! Você pode até não gostar do quarteto mascarado estadunidense, mas eles sempre foram o padrão que norteia toda e qualquer banda que preza pelo espetáculo. E a banda faz sua despedida oficial nessa turnê (se bem que anunciam isso sem cumprir o prometido tem bem uns 20 anos pelo menos), então a expetativa era de uma experiência audiovisual impressionante. E realmente o palco é impressionante. Pirotecnias e teatralidade a mil. Uma pena que a banda simplesmente já não esteja à altura de sua reputação. Paul Stanley está com a voz tão cacarecada que consegue irritar os ouvidos até nas várias falas entre as músicas. Sim, o cara está desafinando até falando. Mas ao menos se esforça, conduzindo a banda com vigor impressionante para a idade. Uma pena que seus colegas pareçam tão desinteressados, em especial Gene, cansado como aquele motorista de ônibus no final da última jornada do dia. O repertório, algo previsível, ainda assim deveria soar delicioso. Mas não soa. A sensação de que efetivamente uma das lendas vivas do rock esgotou sua força vital parece ter consumido o público, já cansado dos três intensos dias, que respondia contidamente e de maneira mais respeitosa do que realmente empolgada. Talvez devessem ter pendurado as chuteiras alguns anos atrás, quem assistir a banda pela primeira vez nessa turnê jamais terá a verdadeira noção do que foram até um passado não muito distante (NOTA: 6,00). Íamos deixando o festival antes do fim da apresentação do Kiss, mas pelo caminho ouvimos um som destruidor. Entramos no Marquee no exato momento em que Jeff Walker bradava sarcasticamente ao parco público presente na apresentação do Carcass: “ parabéns a você que está nos assistindo, pois você definitivamente não é um poser”! A provocação aos fãs do Kiss poderia parecer exagerada e deselegante, mas o show do Carcass responde em campo. Um final devastador para nossa longa e fantástica jornada num dos maiores festivais do planeta (NOTA: 9,00).

Kiss e seu melancólico adeus




segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Clutch – Book Of Bad Decisions (Cd-2018)

Clutch - Book OF Bad Decisions
Mais Um Grande Livro de Decisões Ruins
Por Trevas

A gestação do décimo segundo disco de estúdio dos estadunidenses do Clutch colocou a banda numa encruzilhada. O surpreendente sucesso de Earth Rocker (excelente disco de 2013, ler resenha aqui) fez com que a banda pela primeira vez em sua carreira repetisse a fórmula, com Psychic Warfare (de 2015, ler resenha aqui) dando sinais de que a mesma não sobreviveria a uma terceira reprise. Recorreram então ao produtor Vance Powell (Jack White, Rival Sons, Kings Of Leon...) com a missão de fazer um disco que soasse o menos programado o possível, na esperança de que a espontaneidade e o clima de gravação “ao vivo” botassem a cachola para funcionar fora da recente caixinha.

Não se engane, esses caras normais podem bem chutar sua bunda troozona
As sessões foram tão produtivas que a banda terminou com quinze faixas consideradas por todos os envolvidos para lá de satisfatórias. Não sou exatamente um grande fã de discos longos ou com esse tanto de faixas, acho que acaba por diluir a essência de um bom trabalho, e com isso em mente fui conferir o novo “livro” dos malucos. E eu tinha razão. E não tinha. Pois é. 



É que nada com esse quarteto é tão simples assim. O disco tem um som cru e que remete a uma mistura dos dois discos anteriores com a fase Robot Hive/From Beale Street. No cardápio, um som que migra entre um rock básico (Vision Quest, In Walks Barbarella e Paper & Strife), o stoner (como nas ótimas Spirit of ’76 e How To Shake Hands) e o Blues Rock encardido da faixa título (e no belo encerramento com Loreley, quase uma continuação de Oh, Isabella).


A variedade de ingredientes do universo culinário rocker é surpreendente para uma banda que faz um som relativamente simples. Barbarella, por exemplo, traz algo de Funk e seus naipes de metal tornam o refrão viciante ao extremo.


O gogó de Neil Fallon está em sua plenitude e negritude, e suas letras únicas trazem pequenas fábulas espirituosas (biritando com o ceifador? Infestação de advogados no Celeiro?) que ora poderiam estar num roteiro de filme noir (a faixa título), ora num livro de ...receitas?!?! Sim, Hot Bottom Feeder, com seu instrumental bem Southern Rock não passa de uma receita de casquinha de siri escrita com o senso de humor único característico de Neil e sua trupe.



E não é só Neil que brilha, claro. Tim Sult e sua guitarra cheia de fuzz produz por disco uma quantidade de riffs grudentos que muito guitarrista não produz numa carreira inteira. Jean-Paul Gaster é um dos bateristas mais subestimados da história do rock, extremamente versátil e inventivo em sua simplicidade vintage. E ainda por cima está acompanhado por um baixista excelente, Dan Maines, que tem espaço suficiente nos arranjos para mostrar suas ótimas linhas de baixo. Um caos controlado muito bem costurado e mixado pelo produtor Vance Powell.


Veredito da Cripta

Book Of Bad Decisions até tem mais faixas do que deveria. Mas por outro lado a versatilidade do material aliada a seu espírito bem espontâneo torna sua audição obrigatória a qualquer fã de Rock And Roll em sua forma mais pura que se preze. Mais um capítulo extremamente divertido no livro de boas decisões de uma das bandas mais “cool” da história recente do rock.


NOTA: 8.73


Visite O The Metal Club

Gravadora: Weathermaker Music (Importado)
Prós: sonoridade orgânica, clima descontraído e variedade
Contras: Quinze faixas? Coisa demais...
Classifique como: Blues Rock, Retro Rock
Para Fãs de: Rival Sons, ZZ Top


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Clutch - Psychic Warfare (Cd -2015)

Clutch - Psychic Warfare
Para Tirar O Tapete da Sala!
Por Trevas

Na estrada tem quase três décadas, os veteranos de Maryland vem curiosamente galgando terreno após o lançamento de Earth Rocker, seu décimo rebento de estúdio de uma rica e pouco explorada discografia. Pudera, apesar de não reinventar a roda, aquela bolachinha é uma pedrada que consegue unir tanto headbangers, adoradores de um rock mais puro e alternativóides no mesmo barco. Foi minha escolha de disco de 2013 (veja minha lista aqui) e em sua resenha na Cripta (ver aqui ó), faço um apanhado histórico curto, mas de coração, para a carreira dos cabruncos.


Aproveitando a boa maré de shows e entrevistas no encalço do sucesso de Earth Rocker, o Clutch anunciou o nascimento de mais um filhote, Psychic Warfare. Segundo o hirsuto vocalista Neil Fallon, o bichano viria na linha do disco anterior, mas ainda mais direto. Seria isso possível? E se possível, seria isso bom? Vamos checar.

Audição de Raio X?

Depois de uma curtíssima intro falada, X Ray Visions (ver vídeo), repleta de Sci-fi e nonsense em sua letra se apresenta de maneira direta como a mais nova postulante a clássico do Clutch. E ela nem termina, já logo emendando com uma levada de bateria com a espoleta rocker Firebirds!, sim com exclamação, como que para deixar bem claras suas intenções, lembrando até mesmo algumas das melhores faixas da fase mais hard do Monster Magnet.


A Quick Death In Texas traz o disco de volta aos tempos de From Beale Street e Strange Cousins, com um blues rock algo malicioso que infelizmente acaba soando um pouco familiar demais. Mas ao deixar tempo para respirar, essa música evidencia a qualidade de produção que a própria banda atingiu, com arranjos cuidadosos capazes de enriquecer faixas aparentemente simples sem deixar cair o punch. Punch esse que aparece em toda sua glória na dobradinha Sucker For the Witch (com pitadas de Surf Rock) e a swingada Your Love Is Incarceration, ambas cheirando a palco.


Pelas barbas do profeta! Neil Fallon e o Clutch, 2015


Doom Saloon é a melancólica intro western para Our Lady Of Electric Light, uma pérola que nos faz lembrar que o Clutch é a menos bidimensional das bandas bidimensionais da história recente do rock. Simplesmente fantástica.


As turbinas voltam a aquecer com a veloz Noble Savage e com Behold The Colossus, um hino de autoadulação que até funciona bem, mas fica aquém de clássicos do repertório Clutchiano. Melhor se sai Decapitation Blues, com seu tempero Stoner à lá Orange Goblin, mantendo acesa a chama de um disco que não tem uma música sequer que possa ser acusada do pecado de ser chata. Ah e se não bastasse isso, a bolachinha ainda tem como encerramento a épica e já clássica Son Of Virginia.

Saldo Final

Bom, o Clutch prometera um disco ainda mais direto que o excelente Earth Rocker. E promessa é dívida. Talvez falte uma pitada daquele “algo a mais” que elevou aquele álbum a um patamar tão próximo da perfeição. Mas te garanto que esse Psychic Warfare não vai decepcionar àqueles ávidos por uma aula de Rock and Roll daquelas que o saudoso tio Lemmy aprovaria entre uma bebericada e outra em seu Jack and Coke. Ponto pros caras!!

NOTA: 89

Classifique como: Heavy Rock, Stoner, Blues Rock, Qualquer-cooisa-boa-rock
Para fãs de: Monster Magnet, Graveyard, Kadavar e rock em geral.
Fuja se: estiver em busca de compassos 789/456.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Clutch – Earth Rocker (CD - 2013)

Clutch - Earth Rocker

Clutch – Earth Rocker (CD - 2013)
Por Trevas

Prólogo - As Sete Faces do Dr. Clutch

Grunge? Hard Rock? Post-Hardcore? Stoner? Metal Alternativo? Blues Rock? Heavy Rock?

Parece que desde a criação da banda, nos começando-a-ficar-distantes anos 1990, todo e qualquer ser vivo que esbarrou com a música do Clutch perdeu um pouco que seja de seu valioso tempo discutindo que rótulo melhor representa o som dos malucos de Maryland.

Quer dizer, quase todo e qualquer ser vivo, a própria banda sempre defecou solenemente para rótulos...

Inicialmente uma banda barulhenta e pouco afeita a sutilezas, como fica claro a uma mínima audição de seu primeiro hit, A Shogun Named Marcus, faixa de abertura de seu não muito promissor primeiro disco (e que chegou a ouvidos mais amplos via inserção em um episódio de Beavis And Butthead), o Clutch evoluiu um bocado, aos poucos aflorando o interesse de seus membros por Doom Metal, Stoner, Blues Rock, rock dos anos 1950 e R&B...

Tudo misturado de uma maneira única, moldando a personalidade idiossincrática e prá lá de cultuada da banda. E por "a banda", desde 1992, leia-se: Tim Sult (guitarras), Neil Fallon (voz e guitarras), Dan Maines (baixo) e Jean-Paul Gaster (bateria), unidade apenas quebrada pela inserção de um tecladista entre 2004-2007.

Clutch - 2013
E se Beavis & Butthead deram o pontapé inicial no status de banda Cult que o Clutch angariaria, foi outro ícone do besteirol o responsável por catapultar de vez a música dos caras. A banda já tinha uma carreira razoavelmente estabilizada na cena underground estadunidense quando Bam Margera, o boçal por trás do Jack Ass e Viva La Bam, adotou a fantástica The Mob Goes Wild, do igualmente fantástico disco Blast Tyrant. Bam divulgou a música, tendo dirigindo inclusive um videoclipe com seus colegas de TV para o rockão (ver resultado abaixo). Para a Classic Rock Magazine, The Mob Goes Wild seria o primeiro dos hinos do rock no recém inaugurado século 21.



Dali para frente o Clutch gravaria outros grandes discos, como Robot Hive/Exodus (mantendo a fúria meio Stoner de Blast Tyrant) e From Beale Street to Oblivion e Strange Cousins From The West (nesses últimos tendo mergulhado mais fundo no Blues Rock envenenado).



Mas foi durante uma turnê com os ídolos Thin Lizzy e Motorhead, nos idos de 2010 que uma luz acendeu na mente dos membros do Clutch: O Cenário Rocker atual carecia de discos como os dessas duas bandas, obras diretas e curtas de puro escapismo e diversão. E foi com a meta de reproduzir os resultados (e não o som) de bandas como as duas citadas que a banda então adentrou o estúdio para compor seu décimo trabalho.


Earth Rocker - 11 odes ao mais puro Rock And Roll

Com a faixa de capitão do time distribuída ao mesmo produtor do agora clássico Blast Tyrant, um tal Machine, e contendo uma bela arte gráfica que muito lembrou o conceito de Audio Visions do Kansas, Earth Rocker cospe grosso desde seu primeiro minuto.

A faixa título é a demonstração cabal da habilidade de Neil Fallon com letras, ao melhor estilo Lemmy Kilmister. A história sobre a mesma fora contada em entrevista à Metal Hammer:

Neil disse que ao passar dos anos uma das coisas que mais teve que escutar foi:

“Qual Sua Profissão?”

Ao responder ser um músico profissional, sempre se deparou com olhares que por vezes mesclavam reprovação contida, outras vezes pura pena. Cansado desse tipo de reação, ao ser perguntado sobre sua profissão passou a responder: “I’m A Full Time Jammer”

O nome do disco seria esse a princípio, mas Neil corretamente achou o termo meio pedante para alguém que queria trazer de volta a essência do rock mais simples. Transformou a expressão em Earth Rocker. E nessa faixa faz então uma mistura de ode ao estilo de vida rocker e também uma piada com os músicos que se esquecem do quão abençoada a vida na estrada é. Uma pedrada perfeita com uma letra irônica e divertida.

Neil Fallon: Barba maneira, voz idem.

A pancadaria rock and roll prossegue com Crucial Velocity, cujo refrão faz referência à Rocket 88, faixa que ficara famosa com Ike Turner nos anos 1950 e que para muitos é considerada o primeiro rock da história. Mr. Freedom é outro bom exemplo do som do Sr. Capiroto, um rockão rápido com um riff tão simples quanto brilhante, cortesia do sempre inspirado  Tim Sult.


Quem até aqui teve a impressão de que o novo Clutch trouxe uma pegada bem mais acelerada ao som da banda vai passar então a ter certeza quando DC Sound Attack!, com seu groove incendiário marcado por uma cozinha poderosa e um inesperado riff de gaita, espancar os alto falantes. Unto The Breach só parece uma faixa mundana por estar espremida entre tantos postulantes a clássicos, pois também tem muita qualidade.

Gone Cold é um ótimo blues semi-acústico muito influenciado pela experiência da banda nas releituras acústicas do EP Baskett Of Eggs. Um ótimo portfólio para a voz de Neil Fallon, uma evolução que poucos apostariam ao escutar seu primeiro registro com o Clutch.


The Face mantém a quebra de ritmo, mas reascende o peso, com sua pegada algo Doom pontuada por um excelente refrão e ótima linha de baixo. O ritmo acelera de novo com as boas Book, Saddle, And Go e Cyborg Bette. Oh, Isabella é uma das melhores faixas já escritas pelo Clutch, com passagens de guitarras alucinantes e uma atmosfera épica que torna a faixa de encerramento ( a legal The Wolfman Kindly Requests...) até pálida em comparação.



Saldo Final

Earth Rocker atingiu o 15º posto nas paradas da Billboard e o primeiro lugar no ITunes na categoria Rock (e quarto lugar no total). Nada mal para um disco de “Vintage Rock”, feito por uma banda sem muito apoio da grande mídia e com figuras nada afeitas ao esteriótipo de rockstar. Um feito e tanto, não?

Pois é. A explicação para isso é simples assim: Earth Rocker é um discaço!

Não perca tempo, se você nunca ouviu falar da banda e ficou curioso, Earth Rocker é um ótimo ponto para adentrar o mundo do Clutch.

O Vício é quase garantido!  

NOTA: 9

Ficha Técnica
Banda (Nacionalidade): Clutch (EUA)
Título (ano de lançamento): Earth Rocker (2013)

Mídia: CD
Gravadora: Weathermaker Music (Importado)
Faixas: 11
Duração: 44’

Rotule como: Heavy Rock, Stoner Rock, Qulaquercoisa-Rock, caceta!

Indicado para: fãs de rock sem concessões 

Passe longe se: seu ideal de paraíso envolver John Mayer, Beyonce, Justin Timberlake e ursinhos carinhosos