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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Europe – Walk The Earth (Cd-2017)

Europe - Walk The Earth

Valhalla Garantido
Por Trevas

Um sujeito que fosse congelado em 1986, ano em que Final Countdown tornou a banda sueca ainda que por alguns instantes a improvável maior banda de rock do planeta, e repentinamente acordasse de seu sono criogênico em 2017 ao som desse Walk The Earth, juraria de pés juntos se tratar de outra banda completamente diferente. Pudera, da arte gráfica que lembra propositalmente os trabalhos do Pink Floyd, à maturidade nos timbres e construção das canções, o Europe deu uma guinada de imenso bom gosto em sua carreira após o retorno com Start From The Dark. E Walk the Earth, refazendo a dobradinha com o produtor estadunidense Dave Cobb (Rival Sons) em Nashville, é mais um impressionante capítulo dessa nova vida, longe da papagaiada de laquê e porcarias do naipe de Carrie.

Europe andando por esse vasto mundão, 2017
Walk The Earth, a música, foi escolhida também como primeiro single. Quase uma continuação de War Of Kings, não me pegou de primeira, mas cresceu a cada vez que coloquei a bolachinha para rodar. Excelente, a despeito da sempre inexplicável opção de se colocar vozes de crianças em uma música de rock. Jamais entenderei esse estranho fetiche.



A pesada The Siege segue, com seu baixo pulsante (cortesia de John Leven) e ótimos solos do genial Norum. E aqui o clima do disco já pode ser notado, é como se a banda optasse por seguir o caminho testado em Rainbow Bridge do disco anterior, flertando com escalas orientais e timbres setentistas. A temática desta música também é vista ao redor de boa parte do material, política e democracia. Originalmente, Joey Tempest havia tido a ideia de escrever um disco conceitual sobre o tema. O projeto foi abortado, mas não impediu que o tema desce suas caras aqui e acolá, como podemos ver em seguida na impressionante Kingdom United, primeira a ser composta para o disco, com show de Ian Haugland e Mic Michaeli.



Ok, nem tudo é perfeito aqui. Pictures traz uma daquelas melodias melecosas típicas das baladas de Tempest e nem o arranjo com um belo crescendo ao final ajudam a salvar a faixa da bancarrota. Election Day e Wolves para nossa sorte trazem o vigor de volta ao disco, duas faixas com letras virulentamente políticas. A primeira, acelerada e um pouco mais típica da banda até faz bonito, mas a segunda, gravada de maneira totalmente analógica, é fruto de um delicioso e inédito flerte com o psicodelismo. O trabalho de Norum aqui é belíssimo, uma versão amplificada e menos econômica do que fizera no disco anterior. Um dos grandes destaques do disco.


GTO foi a proposta de Norum para a banda quando o quinteto chegou à conclusão de que o disco carecia de um número mais veloz. Com um quê de Scorpions antigo, traz uma impressionante performance do geralmente excessivamente melodioso Tempest. E logo depois somos presenteados pela surpreendente Haze, um número que poderia até mesmo ser regravado pelo Monster Magnet, apresentando um riff monstruoso e um solo de Haugland. Aliás, o que o baterista tocou nesse disco não está no gibi, de longe seu melhor trabalho em estúdio.



Whenever You’re Ready aumenta novamente a velocidade, com riffs e solos para lá de inspirados de John Norum. O encerramento com Turn To Dust coloca Mic no centro dos holofotes numa peça épica que faria muito marmanjo feliz no California Jam de 1974.


Veredito da Cripta

Levando ainda mais adiante o clima Classic Rock de War Of Kings, Walk The Earth é outra pérola da renovada carreira de um quinteto que se encontrou após se livrar das amarras da música pasteurizada da segunda metade dos anos 1980. O Europe segue brilhando cada vez mais em uma improvável e impressionante redenção! Dá quase para perdoar os caras por Carrie. Quase. Brincadeira, depois desses seis últimos discos, os suecos podem adentrar o Valhalla, merecidamente.


NOTA: 9,33




Gravadora: Hellion Records (nacional).
Pontos positivos: canções excelentes com arranjos cuidadosos e ótimas performances
Pontos negativos: Pictures destoa
Para fãs de: UFO, Rainbow, Thin Lizzy,
Classifique como: Hard Rock, Classic Rock



sábado, 18 de abril de 2015

Europe – War Of Kings (Cd – 2015)

Europe - War Of Kings (Cd - 2015)
Digno dos Reis
Por Trevas

Uma Nova Banda
A não ser que você tenha sido mantido em sono criogênico ou tenha sido abduzido por alienígenas e mantido em uma galáxia distante pelos últimos 20 anos, deve estar bem a par de que os suecos do Europe renasceram das cinzas (ou seria da purpurina) com uma sonoridade bem encorpada e melancólica. Caso tenha perdido esse ressurgimento glorioso, fiz um bom apanhado histórico na resenha do penúltimo disco dos caras, cheque aqui!

Europe, com ou sem farofa?
Reafirmando a cada entrevista sua paixão por UFO, Scorpions, Thin Lizzy, Deep Purple, Gary Moore e outros expoentes do rock pesado do velho continente, Joey Tempest ficou bastante impressionado com a ascensão dos retro-rockers californianos do Rival Sons (ver resenha para o novo disco aqui). Não à toa, escolheu o produtor dos caras, Dave Cobb, para capitanear o novo trabalho do Europe. Escolha endossada com alegria por John Norum, cada vez mais afeito à uma linguagem mais bluesy em seus trabalhos.

Punch e Feeling

A recepção ao novo disco foi formidável, com a Metal Hammer (dentre vários outros meios especializados) catapultando-o ao topo da discografia dos suecos. Citações à Deep Purple e Led Zeppelin tem sido uma constante nas resenhas mundo afora. Na contramão, a brasileira Roadie Crew elogiou comedidamente o disco, fazendo uma ressalva, o mesmo faria muito mais a alegria de fãs de classic rock do que aqueles que acompanharam o Europe em seu auge purpurinado. Uma crítica bastante honesta, ainda que só venha a corroborar a qualidade do trabalho dos caras.

Europe em 2015
De fato, a sonoridade de War Of Kings, ainda que longe de datada, está muito mais próxima à dos gigantes setentistas do que da patota dos anos 1980. Mas isso não quer dizer em absoluto que o disco seja um mero exercício de saudosismo barato, há de tudo um pouco aqui. War Of Kings (a música, ver vídeo) e Rainbow Bridge fazem menção à mitologia nórdica, coroadas por uma atmosfera épica fantástica na tradição do Metal Europeu mais clássico.



Hole in My Pocket, Children Of The Mind e Days Of Rock ‘n’ Roll são exemplos perfeitos do rock mais puro e direto e Praise You traz uma versão de Joey Tempest repleta de um feeling que muitos não reconheceriam nele em eras passadas. California 405 e The Second Day em contrapartida já parecem aquele Europe carregado de influências modernas e pitadas de Soundgarden que apareceu com maior destaque em Secret Society. A qualidade das composições é tão destacada que até mesmo a balada obrigatória, a bela Angels (With Broken Hearts), parece dever mais ao irlandês Gary Moore do que a baboseiras melecosas como Carrie. Marcando a mudança de sonoridade do novo trabalho, Mic Michaeli escolheu timbres bastante focados na fase mais clássica do rock, sendo esse seu trabalho mais destacado na nova fase do Europe (tanto em qualidade quanto no destaque na mixagem final).


A sonoridade que Dave Cobb trouxe ao disco é perfeita, com muito punch, destacando a dinâmica das canções e apostando numa performance mais encorpada de Tempest, na telepaticamente perfeita cozinha de Levèn e Haugland e especialmente na vigorosa pegada bluesy do mestre John Norum, que brilha em todas as faixas, mas dá um show especial na orgia guitarrística que marca o final da derradeira Light It Up.

Saldo Final

Afirmar que War Of Kings é possivelmente o melhor disco da carreira do Europe pode parecer uma afronta aos fãs incondicionais dos farofeiros anos 1980. Mas é difícil, muito difícil terminar a audição desse excelente trabalho sem ter exatamente essa impressão. A sonoridade madura e melancólica, repleta de blues e hard rock em sua melhor vertente, aliada a fortes composições e de atuações bem acima da média dos músicos envolvidos faz desse War Of kings um dos destaques prematuros desse promissor ano de 2015.

NOTA: 9

Prós:
Tempest em sua melhor forma, grandes músicas e um sempre excelente John Norum.
Contras:
Talvez desagrade aquele teu amigo fã de polainas, roupas de lycra e laquê.

Classifique como: Hard Rock, Blues Rock, Retro Rock

Para Fãs de: Deep Purple, Led Zeppelin, Thin Lizzy

Ficha Técnica
Banda: Europe
Origem: SUE
Disco (ano): War Of Kings (2015)
Mídia: CD
Lançamento: UDR (importado)

Faixas (duração): CD  - 11 (49’)
Produção: Dave Cobb
Arte de Capa: Paul Tippett, Adrian Andrews e Paul Higgins

Formação:
Joey tempest - voz;
John Levèn – Baixo;
John Norum – Guitarra;
Mic Michaeli – Teclado;
Ian Haugland – Bateria.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Europe – Bag Of Bones (2012)




DO LAQUÊ PARA O BOURBON

Prólogo – quando o valium engoliu a farofa

Ano: 1992, Rolf Maguns Joakim Larsson percebe que o mundo está mudando. Sua banda vive um ritmo frenético de trabalho há anos, entre estúdios cada vez mais caros e turnês progressivamente mais pomposas. Por um par de anos o Europe desfrutara do prestígio de uma das maiores bandas de rock do mundo, mas agora o recém lançado Prisioners In Paradise (1991) falhava retumbantemente em atingir os corações (e bolsos) da juventude. Uma nova banda de Seattle acabara de tornar mainstream a depressão e o sentimento de inadequação, através de um multiplatinado Nevermind. Os dias de glória do hair metal estavam contados, Rolf - ou como é conhecido mundialmente – Joey Tempest - sabia disso.

E foi sem nenhuma despedida oficial e sem nenhum glamour que o Europe se retirou repentinamente de cena.

Europe em sua glória purpurinada

Europe II – recomeçando das trevas


Setembro de 2004, tão silenciosamente quanto havia desaparecido, e sem ninguém ter pedido, o Europe ressurgia.

Mas tal qual uma carcaça enterrada no Cemitério Micmac idealizado por Stephen King, o Europe que levantava da tumba, embora carnalmente fosse representado pela formação clássica, em essência era uma coisa muito diferente.




Europe em 2004

Ao vivo, a mudança ficava ainda mais clara. Com visual resumido ao tradicional couro e jeans, sem efeitos de pirotecnia, o Europe passou a assaltar os palcos com uma pegada muito diferente. A banda não virou as costas ao seu catálogo pregresso, apenas mostrou que existiam grandes músicas por detrás daquelas produções pasteurizadas. Ou como John Norum gosta de dizer nas entrevistas atuais, “agora as músicas soam como deveriam, sem a interferência de gravadoras e empresários”. Um exemplo pode ser visto no vídeo abaixo para Seven Doors Hotel:





E esse “novo” Europe angariava uma nova geração de fãs, e gente que outrora torcera o nariz para banda, passava a ver a marca com outros olhos.
E eu fui um deles.

Bag of Bones – o quarto e bluesy rebento

A mudança, bem arquitetada pelo líder e principal compositor, o vocalista Joey Tempest, atendeu aos anseios de todos da banda. “Somos crias do heavy rock britânico dos anos 1970”, disse o vocalista à Classic Rock Magazine em junho desse ano.

Não é novidade, por exemplo, a adoração do guitarrista John Norum pelo Thin Lizzy, que foi inclusive alvo de uma homenagem em Start From the Dark (na faixa Hero).

Uma prova de que não se trata de oportunismo a repentina aproximação do Europe com o heavy rock é próprio o nome da banda, inicialmente Force, e que fora mudado por conta de uma de uma das maiores paixões de Tempest e Norum, o disco Made in Europe, do Deep Purple.

Tendo dito isso, nos últimos lançamentos após seu retorno a banda veio, ainda que aos poucos, introduzindo essas influências em seu som.

Mas é somente no quarto rebento após o retorno, Bag Of Bones, que as influências do hard setentista deixam de ser uma referência residual para se tornarem explícitas. 

Europe 2012
O início com o riff grooveado e repleto de wah-wah de Riches to Rags, mostra grandes pitadas de blues rock. O solo hendrixiano do sempre excelente Norum remete diretamente ao seu último disco solo, Playard Blues.

E se soa estranho aos seus ouvidos Europe tocando blues rock, você não está sozinho, Not Supposed to Sing the Blues (um heavy rock, na realidade – ver vídeo abaixo) é uma resposta justamente a uma crítica que a banda recebera no passado, na qual um repórter disse que ele seriam o tipo de banda que nunca conseguiria tocar um blues. Desafio vencido: diga-se de passagem, a banda se sai muito bem fazendo-o. obviamente, sob a forma de uma versão pesada de um blues.



Aliás, o Blues Rock anabolizado dá as caras em My Woman My Friend e na faixa título, que inclusive conta com a participação do atual fenômeno do Blues rock – Joe Bonamassa – fazendo slide guitar. Joe, aliás, que foi trazido à tiracolo pelo produtor da bolacha, Kevin Shirley. O Sul-africano ganhou o posto justamente pelas produções atuais com enfoque no classic rock, seja com Bonamassa, seja com o Black Country Communion. Embora não seja exatamente entusiasta do som de suas produções, não há como não reconhecer que o trabalho aqui é muito bom. Tudo soa com punch e clareza.
E se há algo de notável nesse disco é o som das guitarras. John Norum está inspiradíssimo em seus solos, totalmente calcados nos guitar-heroes do passado. A furiosa Firebox é um exemplo dessa excelência guitarristica, lembra bastante as faixas mais pesadas de Start From the Dark e é uma das melhores do disco. Outra que se destaca pelo peso é Demon Head e se não citei ainda o quanto a cozinha da banda contribui para o resultado, é porque Ian Haughland e John Levèn, ainda que excelentes músicos, se preocupam principalmente com a coesão e pegada, e não com exibicionismos.


Encontro de titãs: John Norum e Joe Bonamassa

Aliás, no que tange ao desempenho individual, minha única ressalva é justamente quanto à Joey Tempest. Não que ele esteja cantando mal, Joey tem uma voz bonita e precisa, além de ser um letrista de mão cheia e criar boas melodias. O problema na verdade é que seu timbre é limpo ao extremo, contrastando com a dose de bourbon que o Europe colocou em sua música para esse disco. Não consigo deixar de imaginar, por exemplo, como a pesada Mercy You Mercy Me (ou My Woman My Friend) se sairia melhor com a voz encardida de John Norum. Mas se há um momento em que fica clara sua qualidade é na totalmente zeppeliana Drink And A Smile.


Joey Tempest botando as roupas de lycra para lavar

Doghouse já vinha fazendo parte do repertório dos shows da banda desde 2011 (ver vídeo), e é talvez a mais sem graça do disco.



Ah, e talvez você esteja estranhando algo. Estou quase no fim da resenha de um disco do Europe e não fiz nenhuma referência a baladas. Mas é porque a mesma só dá as caras a final do disco, com a bonitinha (mas desnecessária) Bring It All Home. Não, em nada se parece com Carrie (graças à Deus). E sim, tem um ar setentista.

Saldo Final

Longe de seu passado purpurinado, o Europe nos presenteia com um bom disco de hard rock calcado em blues e coisas que rescendem à mofo.

Bag Of Bones em nenhum momento soa cansativo e prova mais uma vez que o Europe é sim uma grande banda de rock e que você não precisa se envergonhar de ter uma cópia de Final Countdown em sua coleção. Resta torcer para eles substituírem Carrie por alguma das boas faixas desse disco nos shows.


NOTA - 8

Ficha Técnica

Banda (Nacionalidade): Europe (SUE)
Título (ano de lançamento): Bag Of Bones (2012)
Mídia: CD, lançamento Hellion Records(Nacional)
Faixas: 11
Duração: 40’

Faixas:
1. Riches to Rags; 2. Not Supposed to Sing The Blues; 3. Firebox; 4. Bag Of Bones; 5. Requiem; 6. My Woman My Friend; 7. Demon Head; 8. Drink And A Smile; 9. Doghouse; 10. Mercy You Mercy Me; 11. Bring it All Home.

Rotule como: Hard Rock, Heavy Rock
Indicado para: Fãs de um hard mais classudo.
Passe longe se: adorar laquê e roupas de lycra.