Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Quase 14 anos após o
lançamento do apoteótico One Cold Winter’s
Night, um dos home vídeos mais bacanas já lançados, o combo multinacional
de Power MetalKamelot volta ao formato com um show especial, gravado em Tilburg, na Holanda, em 2018. A versão
aqui analisada é a do Box Set, contendo
Blu-ray, Cds e DVD, mas como
habitual, existem diversos outros formatos (com lançamento nacional, inclusive).
Apresentação
O Box Set segue o formato tradicional
para lançamentos do gênero: um Digipack
enclausurado em Slipcase. Cada banda
do Digipack com miolos de plástico sobrepostos
para encaixe dos disquinhos. O encarte é bonito, mas tudo segue um padrão
repetido inúmeras vezes. Os Menus são bonitos, mas tive alguma dificuldade de
navegação pelo joystick do PS4. Uma apresentação bacana, mas não
há nada diferente aqui.
Feuer Frei!
Áudio
e Vídeo
Quem já assistiu a
banda ao vivo sabe do esmero técnico que envolve suas apresentações. Em se
tratando de um show especialmente feito para a gravação de seu novo ao vivo,
era de se esperar algo ainda mais grandioso. E é isso que encontramos aqui: uma
qualidade absurda de vídeo, com inúmeras câmeras, nenhuma imagem granulada que
seja, edição perfeita e momentos visuais de cair o queixo. A produção do show
ainda garante um palco belo, pirotecnias bem colocadas e um ou outro arroubo de
teatralidade (embora em menor grau que em One
Cold Winter’s Night).
O áudio é ótimo, e os Cds
merecem sim a aquisição, mas confesso que na primeira audição demorei a entrar
no clima da mixagem. Embora hoje nem saiba mais explicar o porquê.
Performances
e Repertório
O show do Kamelot é absurdamente redondo, e tecnicamente
absurdo. Alex Landenburg, o mais
novo membro, é um baterista para lá de competente para o estilo. OliverPalotai toma tanto os holofotes com seus teclados quanto o eficiente
patrão ThomasYoungblood. SeanTibbets brinca bastante no palco, ainda
que suas linhas de baixo raramente apareçam tanto. E TommyKarevik é o clone
perfeito de RoyKhan. A semelhança nos timbres chega a assustar. Mas, apesar de
tecnicamente ser possivelmente até melhor que seu antecessor, sinto a falta de
um pouco mais de feeling em suas interpretações. Da mesma maneira, apesar de,
como Roy, não ter pinta de cantor de
Metal, ele segura bem como frontman,
mas fica um pouco a sensação de algo meio robotizado em sua performance.
E, por falar em robôs, vamos entrar num ponto sensível aqui; é impressionante
o quanto temos material pré-gravado no show do Kamelot. Das compreensíveis partes orquestradas até quase todos os backingvocals, essas camadas extras deixam tudo com cara de que estamos
ouvindo o próprio CD ao vivo. Das bandas que conheço, somente o Nightwish exagera mais do que eles nas backingtracks. O quanto esse uso é interessante ou beira a trapaça, deixo
para cada um analisar.
Temos também um punhado de
participações especiais nesse show: LaurenHart (OnceHuman); AlissaWhite-Gluz (ArchEnemy); ElizeRyd (Amaranthe); CharlotteWessels (Delain), SaschaPaeth (ex-HeavensGate, Avantasia) e o quarteto feminino de
cordas Eklipse. Todos os convidados têm
seu espaço e fazem bonito, engrandecendo o show, como esperado.
Sobre o repertório,
aqui jaz o suposto único ponto fraco do pacote. A intenção, exposta nas
entrevistas bônus, era a de focar no material posterior ao último HomeVídeo. Com ao menos uma música dos cinco trabalhos de estúdio
lançados a partir de então. Uma ideia válida, mas que demonstra o quanto a
banda decaiu criativamente com o passar do tempo. Não que os discos com Karevik não tenham lá seus bons
momentos, em especial as músicas de Haven
(de longe o melhor dos discos atuais), mas até esses números empalidecem quando
confrontados com os poucos clássicos espalhados pelo set (MarchOfMephisto, When The Lights Are Down e Forever). Na verdade, apanham até dos
momentos de discos menores da era Khan,
como RuleTheWorld e TheGreatPandemonium. Mas a
plateia presente não composta de fãs eventuais, e acaba por cantar de tudo,
feliz e participativa.
Extras
O pacote é caprichado aqui:
temos um extenso documentário (cerca de 30 minutos) sobre o show, com muito
espaço para os fãs e convidados especiais. Tudo muito bem feito e interessante.
Outro item é um apanhado de imagens de bastidores da turnê norte americana, com
cerca de 15 minutos. Menos interessante, é daqueles que você dificilmente assistirá
mais de uma vez. Para fechar, temos todos os videoclipes da fase Karevik (10 no total), todos contando
com produção de ponta.
Veredito
Final
Completo e feito com imenso
esmero, I Am The Empire é um pacote
que há de ganhar alta rodagem nos aparelhos dos fãs da fase atual do Kamelot. Poderia reclamar da falta de
material antigo, mas como essa é exatamente a proposta desse ao vivo, seria
julgar o trabalho justamente pelo que ele não intenciona ser. Um HomeVídeo tecnicamente perfeito. (NOTA:
10).
Gravadora: Napalm Records (importado)
Prós: um pacote recheado e tecnicamente
absurdo
Contras: repertório baseado na fase atual,
backing tracks em profusão
Chega a ser difícil
acreditar que um artista tão reconhecido pelo apelo visual de suas
apresentações ao vivo nunca tenha lançado um HomeVideo em sua
extensa carreira. Pois é, mas esse é caso do dinamarquês KingDiamond, que
pretende tirar o atraso com esse Songs
For The Dead, que nos traz duas apresentações completas, uma em ambiente
fechado e outra num festival, focadas em sua para lá de bem-sucedida turnê de
retorno após um infarto que quase lhe levou mais cedo para o colo do capeta.
O Box e suas guloseimas
Apresentação
Songs For The Dead vem em uma penca de
formatos: DVD duplo + Cd; BluRay e um opulento BoxSet. E é justamente o BoxSet que analisaremos aqui na Cripta.
O mesmo compreende a soma das edições em DVD
duplo (mesmo conteúdo do BD) + CD, Blu-Ray e um CD bônus (com o áudio do show do Graspop). Isso tudo em um pacote cheio
de delícias para colecionadores. São elas: uma réplica do SetList do Graspop assinado (uma pena que o
“autógrafo” é impresso); uma réplica do cartaz do show; um pôster da turnê;
dois stagepasses e uma palheta. Tudo embalado numa caixa de papelão que emula
um case de instrumento musical. Um pacote belo e caprichado, que pode ser visto
em detalhes no Unboxing que fiz no
vídeo abaixo.
Áudio
e Vídeo
Todo o cuidado com a
apresentação de nada serviria se não fosse acompanhado de igual esmero nas
imagens e no som. Para nossa sorte, os shows foram captados em altíssima
definição, com tomadas e edição criativas que só engrandecem a por si só já
impressionante produção de palco. E as performances individuais da agitada
banda também não escapam do olho mecânico sagaz. E isso sem deixar de lado as
imagens da galera ensandecida, sempre instigada pela presença de palco
hipnótica do carismático ReiDiamante. O Som? Tão impressionante
quanto esperaria o mais otimista dos fãs. E a qualidade sonora também está
excelente nos Cds, o que é ainda
mais raro.
Os
Shows – Performances e Set List
Olha, realmente fica
difícil acreditar que o Rei esteja com 60 anos nesses shows. Já tive a
oportunidade de ver o Dinamarquês ao vivo duas décadas atrás e a performance
dele naquela noite não se equipara ao que vemos nos dois shows aqui presentes,
a perfeição é tamanha que logo apostaria em toneladas de overdubs. Mas basta buscar outros shows gravados não oficialmente
dessa turnê para entender que, seja lá o que a experiência de quase morte
trouxe na cachola do maluco, essa epifania fez um bem danado para sua
performance. Contando apenas com a ajuda da esposa e cantora LiviaZita, ele destrói, e nenhuma música fica aquém de sua contraparte
de estúdio.
E não é só o patrão que está na ponta dos cascos, não. AndyLaRocque e MikeWead formam uma dupla de guitarras forjada nas profundezas do
inferno. E a cozinha composta por PontusEgberg e MattThompson (que rolo
compressor é esse cara!) parece tocar por telepatia. Sem tempo para respirar,
as músicas se seguem e os caras agitam bastante, como se conhecessem cada uma
das notas desde 789 encarnações passadas.
O repertório se repete nas duas apresentações, com uma ou outra mudança
de ordem. A primeira parte do show traz um apanhado da carreira do tio
Diamante, com dois números do Mercyful
Fate, a segunda metade centrada na execução integral de seu disco mais famoso: Abigail. Apesar das reclamações dos fãs
mais ardorosos, que gostariam de ver todos os discos representados, é
indiscutível que o resultado final funcionou monstruosamente bem! E apesar dos
repertórios gêmeos, a ambiência diferente dos dois shows justificam a
dobradinha. Apesar do público maior no Graspop,
a atmosfera fica ainda mais legal no mais intimista Phillmore. Se há realmente algo que poderia causar alguma
reclamação mais justa, é a ausência de makingoff, entrevistas ou qualquer outro
extra.
Veredito
da Cripta
Alta definição de imagens,
grandes performances e uma sonoridade bem cuidada podem produzir grandes HomeVideos. Mas existe um outro elemento, difícil de explicar, que
eleva alguns desses registros de shows a um patamar ainda mais alto. Seria a atmosfera?
Ou a interação entre público e banda? Ou uma noite particularmente inspirada
dos músicos? Tudo isso junto? Não sei. Mas sei que esse Songs For The Dead tem exatamente esse algo mais, um bem-vindo
elemento sobrenatural que faz desse ao vivo um clássico em potencial. Coloque
para rodar com o volume no talo e perdoe KingDiamond por ter demorado tanto tempo
para nos entregar essa pérola! Obrigatório!
NOTA: 10
Gravadora: Metal Blade Records (importado)
Prós: produção visual impecável, som de
primeira e grande performances
A maior banda de rock
pesado da história de Portugal, a despeito de uma carreira para lá de produtiva
e do reconhecimento internacional, é bastante econômica em seus lançamentos em
vídeo. Afora o ótimo LusitanianMetal e um ou outro DVD bônus encartado nas edições especiais
de seus álbuns, os grandes shows dos Moonspell
só podiam até então ser conferidos na íntegra em Bootlegs ou filmagens toscas no YouTube. Talvez por ter se apercebido já ter passado a hora de um HomeVideo caprichado, o quinteto preparou uma noite ambiciosa em
fevereiro de 2017, no CampoBelo, casa com grande capacidade. O
plano? Registrar com produção para lá de caprichada uma noite especial, onde
três de seus trabalhos mais icônicos seriam tocados na íntegra. O pacote,
sintomaticamente nomeado Lisboa Under
The Spell, foi lançado em vários formatos. O formato analisado aqui é o do Box-Set, prontamente adquirido por este que vos escreve, sabidamente um
grande fã dos caras.
Fanâ e um dos brinquedinhos da produção caprichada do show
Apresentação
O Box é caprichado, contendo um Blu-Ray, um DVD (mesmo
conteúdo do BD) e os três Cds, cada qual para um dos atos do
show. Tudo encartado (e encaixado em miolos de acrílico) em belo mediabook encapsulado por uma capa em
cartão. A arte do pacote é bela e o design interno, informativo e contando com
fotos excelentes da noite do show.
O Box Set
Documentário:
O documentário é a
perfeita contraparte para a excelente biografia Lobos Que Foram Homens (ler resenha aqui), repleta de filmagens
para lá de pitorescas. Aqui acompanhamos os lusos em cenas que retratam desde
tarefas prontamente identificáveis e mundanas como preparar o café para a
esposa e as crianças, praticar atividades físicas, rever risonhamente imagens
do passado com os colegas tomando uma birita e fumando umas ervas, até tarefas
nada comuns aos reles mortais, como guiar uma banda internacionalmente
reconhecida em suas peripécias criativas/administrativas. Os preparativos para
a grande noite também aparecem aqui, sempre em takes despojados. Com legendas em inglês para os não lusófonos, é
um apanhado para lá de agradável que nos faz sentir parte dessa simpática e
batalhadora alcateia. A edição já é emendada com os shows, o que garante uma
maratona para lá de bem-vinda aos fãs dispostos a reservar 3 horas de seu tempo
junto à maior banda Portuguesa da história.
O documentário espia os homens por debaixo desses lobos aí
Os
Shows
Arena abarrotada de
fãs dispostos a cantar cada nota junto à banda, produção de palco de altíssima
qualidade e ótima captação de imagens em alta resolução, com takes e edição bem pensados, que
conseguem alternar performances, plateia e os detalhes da produção esmerada sem
que tudo pareça um grande videoclipe. Tudo isso se perderia caso os Moonspell não fossem uma máquina
funcional em cima dos palcos. Mas eles hoje são sua melhor versão ao vivo, uma
alcateia que, mesmo sem contar com os mais virtuosos dos músicos, atende a um
padrão alto de qualidade de espetáculo e musicalidade.
O repertório é dividido em três atos, cada um replicando um disco da
carreira dos lusos na íntegra. O primeiro ato com Wolfheart, o segundo com Irreligious
e o terceiro com o então disco novo, Extinct.
A escolha tem uma explicação simples: Wolfheart
e Irreligious, a despeito do impacto
que causaram à cena europeia em seus lançamentos, vieram em uma época de
consolidação da banda, e as suas turnês tinham um Moonspell majoritariamente servindo de openingact para outras
bandas, tendo então a restrição habitual de tempo de palco. Logo, o material
clássico desses trabalhos, afora as mais manjadas, raramente viu a luz do dia
nas turnês posteriores. E é para lá de bacana ver o quanto esses discos, em
especial Irreligious, sobreviveram
ao teste do tempo, soando ainda melhores interpretados ao vivo por uma banda
mais madura e proficiente. A plateia participativa, os coros reais e a presença
de MariangelaDeMurtas (Tristania,
esposa do guitarrista RicardoAmorim) em RavenClaws ainda ajudam
a tornar as versões aqui mostradas melhores que suas contrapartes de estúdio.
O terceiro ato, com o bem mais moderno e complexo Extinct encerra um ciclo que demonstra que, a despeito da evolução
musical da banda, que experimentou muito em cada disco nesse interim, há uma
lógica estética clara. Jamais poderiam acusar não ser a banda que fez Wolfheart capaz de anos depois entregar
o belo Extinct, interpretado com emocionante
excelência. Talvez o único senão resida no fato que o som do Blu-Ray e sua mixagem não acompanhem o visual Blockbuster da noite. Não, o som não é ruim, apenas mais cru do que
se imaginaria. Tal pormenor estético fica ainda mais claro no áudio dos Cds. O lado bom é que efetivamente a
experiência fica mais próxima de um show real, nada parece sonoramente
superproduzido ou artificial.
Veredito
da Cripta
Lisboa
Under The Spell veio ao mundo para suprir a falta de registros
ao vivo oficiais do Moonspell. Trazendo três horas de um ótimo e completo material,
acompanhado de um grande esmero na apresentação, temos aqui um pacote dos
sonhos para os fãs de uma das bandas mais idiossincráticas da história.
NOTA: 10
Gravadora: Napalm Records (importado)
Prós: produção visual impecável, três horas
de um material de primeira
Contras: áudio algo cru, contrastando com
a superprodução da noite
Classifique como: Gothic Metal
Para Fãs de: Paradise Lost, Type O Negative,
Tiamat
Caro Criptomaníano, a
alemã Powerwolf, surgida nos idos de
2003, é a típica banda fácil de se odiar. CorpsePaint, vocalista advindo da música
erudita, um PowerMetal bombástico, nomes artísticos
bisonhos e muito, muito excesso visual, com direito a roupinhas elaboradas pirotecnias
e até mesmo o abjeto artifício do uso de CorpsePaint. Mas um ingrediente nessa
mistura faz com que toda essa gororoba possa ser digerida sem problemas: os
caras estão munidos de um tremendo senso de humor! Quando esse escuta uma pérola
como ResurrectionByErection,
não dá para bancar o banger sisudo e os exageros passam a fazer parte do
charme.
Não, você não consegue ser mais ridículo que essa foto...desista
E parece que ao menos na Europa o pessoal comprou a piada, a banda disco
a disco passou de mera curiosidade engraçadinha a postulante a headliner em festivais de verão. O show
bombástico e visualmente bem pensado obviamente ajuda, mas o prato principal
são os refrães bombásticos, que misturam elementos de música sacra com Power
Metal, ornamentados por letras divertidamente profanas e blasfemas.
Edição deluxe, com Communio Luporum
Só que a piada aos poucos parecia perder força, os últimos dois discos (Blessed&Possessed e PreachersOftheNight) soando como versões diluídas do
que havia dado muito certo até BibleOfTheBeast. O quinteto
resolveu então apelar para o mago da moda, o produtor sueco JensBögren, para ver se recuperava a mão para a divertida blasfêmia de
outrora. E deu sim muito certo. O coro sacro dá as caras nos primeiros segundos
da bombástica Fire & Forgive, e
todos os clichês são escancarados e desconstruídos com maestria em pouco mais
de 4 minutos.
A primeira música de trabalho, Demons
Are A Girl’s Best Friend mostra aquele apreço por melodias grudentas e letras
lascivas que podem soar irritantes ou irresistíveis dependendo da rabugice dos
ouvidos receptores. Os vocais roufenhos de AttilaDorn são aquela coisa entre o
roufenho de um ChrisBoltendahl (GraveDigger) e JoakinBrodén (Sabaton) com
algo mais técnico e talvez sirvam para minimizar a atmosfera exagerada. Fosse
um típico vocalista eunuco de PowerMetal aqui e eu não aguentaria um
minuto.
Killers With The
Cross
exemplifica de maneira explícita minha fala quando me pedem para definir o som
do Powerwolf: é o Sabaton com música sacra e ocultismo
nos temas. Sim, Killers poderia
estar em um bom disco dos suecos se falasse sobre guerras. A faixa é o paraíso
para o fã de Power Metal, e é seguida pela bacaninha Incense & Iron. Mas talvez o ápice do disco seja mesmo a dobradinha
formada pela belíssima PowerBallad com cara de Scorpions-mordida-por-um-lobisomem chamada WhereTheWildWolvesHaveGone e pela excelente experiência em
alemão Strossgebet, que faria o fã
de Rammstein passar a frequentar a
igreja profana dos caras.
Daí para frente o disco continua extremamente divertido, emoldurado pela
produção grandiosa mas para lá de bem calculada e cheia de punch de Bögren, ainda que definitivamente
nenhuma das faixas restantes alcance o poder de fogo da primeira metade da
bolachinha, talvez excetuando VenomOfVenus.
Veredito
da Cripta
O PowerMetal, geralmente um
pária aos ouvidos deste escriba aqui, certamente ganhará um representante na
minha vindoura lista de melhores discos de 2018. SacramentOfSin é o renascimento dos lobisomens teutônicos
e provável postulante a melhor trabalho de suas carreiras. Um disco
deliciosamente brega e divertido.
NOTA: 9,12
Visite o The Metal Club
Communio Lupatum
A edição deluxe é um caprichado box com dois belíssimos
mediabooks. O primeiro é o SacramentOfSin propriamente
dito. O segundo é o surpreendente CommunioLupatum, improvável disco que traz
dez faixas do Powerwolf
interpretadas por gente tão diversa quanto MillePetrozza, BattleBeast, HeavenShallBurn, Eluveitie e Epica. Os resultados são para lá de divertidos, justamente por que
os artistas não são em sua maioria bandas típicas de PowerMetal, mas conseguiram
traduzir o estilo único do Powerwolf para seus próprios mundos. Um dos bônus
mais legais e diferentes que já vi e que só mostra o quanto as músicas dos
alemães são bacanas mesmo afastadas do exagero audiovisual que os cercam.
Communio Lupatum e sua bela capa
Gravadora: Nuclear Blast (importado)
Prós: produção impecável, ótimas músicas
Contras: pode soar muito brega dependendo
do ouvinte
O AmonAmarth completou 25 anos de carreira, comemorados em 2017. ThePursuitOfVikings lançado em diversos formatos,
traz um documentário que conta a história dessa jornada, tendo como bônus as
duas apresentações comemorativas (em algumas edições, só o show principal dá as
caras) que a banda fez no SummerBreeze daquele ano. A nossa edição é um
Digipack contendo um Blu-Ray e um Cd, então vamos
às impressões.
Versão analisada pela Cripta
Documentário:
A estrela principal
do pacote, o documentário 25 Years In
The Eye Of The Storm tem 100 minutos de material que alterna entre
entrevistas, imagens de shows e de arquivo. E mostra a longa jornada que o
quinteto de Tumba (que ótimo nome para uma cidade de origem para uma banda de Death, hein?), lugarejo nos subúrbios
de Estocolmo, percorreu até ter um disco como número 1 nas paradas da Alemanha,
isso tocando Deathmetal e cantando sobre Vikings. As
entrevistas focam a formação atual, mas como boa parte já está na estrada desde
a década de 1990, não há grandes problemas. É legal imaginar que os caras que
vemos agitando nos palcos dos festivais hoje já sofreram os mesmos revezes que
qualquer banda que se tenha notícia: a ingrata divisão de tempo e dinheiro
entre vida social, empregos normais e banda; a insegurança de que estariam
fazendo a coisa certa que fez com que a banda quase acabasse, a falta de
profissionalismo dos primórdios, quando a banda criou uma péssima reputação por
subir extremamente bêbada nos shows. É difícil imaginar o hirsuto JohannHegg entregando sorvete para crianças em um caminhão enquanto os
outros meninos trabalhavam pesado como pedreiros em Estocolmo, todos se
reunindo no fantasioso mundo dos estúdios após o horário comercial. Mais
insólito ainda é descobrir que a escolha da temática viking, que os ajudou a
mostrar um diferencial em relação a outras bandas para o resto do mundo, gerava
imenso preconceito na Suécia natal. Sim, pois por lá a cultura viking é muito
utilizada por grupos racistas da extrema direita. Precisou de tempo e do
sucesso internacional para que o país entendesse que os rapazes definitivamente
não abraçavam essa vertente política, se concentrando apenas no interesse pela
mitologia e história daquele período.
BrianSlagel, PeterTatgren e AndySneap aparecem ao
longo do documentário, e muito é falado de quanto o falecido MichaelTrengert, executivo da MetalBlade, colocou a banda debaixo dos
braços, desenvolvendo conceitualmente o show que hoje conhecemos. A edição é
bacana e a honestidade dos envolvidos é visível, mas a longa duração, a falta
de histórias mais polêmicas e ausência de legendas (o inglês dos suecos nem
sempre é fácil para ouvidos não treinados) podem tornar o filme desinteressante
aos olhos do fã casual. Mas aos viciados por biografias, temos um ótimo e bem
documentado apanhado da história de uma das bandas mais legais da atualidade.
Live
At Summer Breeze: The Movie
O show dos suecos
continua o mesmo em sua essência: furioso, com uma música quase emendando na
outra e alto nível de proficiência técnica (com exceção feita ao inexplicável e
já infame solo torto em TwilightOfTheThunderGod). A diferença para outros tempos reside na produção: hoje a
banda tem cacife para bancar pantomimas de encher os olhos do headbanger
oitentista de lágrimas, como um praticado de bateria que é um elmo viking, um mjolnir
explosivo, batalhas bem encenadas, um Loki
de olhos fulgurantes e até mesmo a serpente marinha gigante da mitologia
nórdica. O repertório é bem diverso (uma pena o show da noite anterior, mais
Old School, só estar disponível no Box-set maior) e JohanHegg capitaneia o
quinteto com imenso carisma diante de uma plateia que parece incansável durante
todo o set, rolando até mesmo o dueto legalzinho com a musa Doro. O som é cristalino e as múltiplas
câmeras captam em alta definição e com edição de imagens bacana o clima festivo
e a quase simbiose entre banda e público. Talvez o único senão seja a captação
do som da tresloucada plateia durante as músicas, bem baixo na mixagem.
Live
At Summer Breeze: The Album
O pacote aqui
analisado vem com o show da segunda noite, o do palco principal, completo. O
áudio é cristalino como o do Blu-ray, mas no Cd o som baixo da plateia incomoda
ainda mais. Difícil entender como uma banda experiente como o AmonAmarth pode ter deixado passar batido um pequeno grande detalhe que
separou o presente trabalho da perfeição. Ainda assim, as rendições das músicas
apresentadas são todas bem legais, no mínimo rivalizando com suas originais de
estúdio.
Veredito
da Cripta
Um ótimo e extenso
documentário adornado com um show em alta definição de uma das bandas mais
legais da atualidade para se ver ao vivo. Há como reclamar? Um pacote que por
alguns pequenos detalhes não alcança a perfeição. Altamente recomendado.
NOTA: 9,00
Gravadora: Metal Blade Records/ Sony Music
(importado)
Prós: documentário e show detonam
Contras: faltou o show do palco menor, a
plateia na mixagem e a opção de legendas
O período que
antecedeu a gestação do nono trabalho de estúdio dos titãs irlandeses do Black/FolkMetal viu um
quinteto desalentado. Uma verdadeira encruzilhada criativa, diante da qual os
experientes músicos questionaram veementemente a relevância do Primordial nos dias de hoje. Relutantes
em prosseguir, mas teimosos demais para decretar o fim das atividades, o
quinteto seguiu pela primeira vez em sua longa carreira para o estúdio sem nem
uma linha escrita. Em seu site oficial, a banda passou a definir seu som apenas
como heavy metal, o que evidencia o espírito e necessidade de libertação que os
envolveu. Se nada das sessões de gravação agradasse a todos os envolvidos, o
fim estaria decretado. Como Exile
ganhou a luz do dia, sabemos que a história teve um final feliz.
Rob Half...ehr, Primordial, 2018
Digibook
A edição Deluxe, aqui analisada, consiste em um
belíssimo Digibook com encarte em
papel especial que valoriza em muito a bela arte gráfica de CostinChioreanu. Em miolos situados nas contracapas, temos os dois
discos. O primeiro, o trabalho em si, com oito músicas. No segundo disco, 6
músicas entre versões instrumentais, ensaios e duas inéditas. Um caprichado
pacote que agradará em cheio aos fãs de carteirinha. Quem é marinheiro de
primeira viagem, melhor se ater mesmo à edição padrão.
Digibook do Exile
O Exílio
Nail Their Tongues, a apocalíptica faixa
de abertura já mostra um bocado do que encontraremos ao longo da bolachinha: um
HeavyMetal difícil de ser rotulado, mas sempre épico, intenso e pesado. Praticamente
nenhum sinal de Folk pode ser
entreouvido, e os resquícios de BlackMetal se fazem presentes em uma ou
outra voz rasgada e na bateria em sua reta final.
To Hell Or The
Hangman
segue explicitando ainda mais a liberdade que a banda almejou no novo trabalho.
Ao ouvinte desavisado, o sinistro conto de traição e assassinato bem poderia
ser confundido com um novo (e inspiradíssimo) single do misterioso combo gótico
britânico FieldsOfTheNephilim. Sim, o vocalista AllanAverill “Nemtheanga” soa
aqui como um improvável filho bastardo do CarlMcCoy com o MartinWalkyier (Skyclad). Uma das melhores faixas de um
inspirado 2018.
Where Lies The Gods traz consigo os
elementos folk, mas com um ar
oriental, e sua letra inicia um tema frequente no disco, o das civilizações e
feitos apagados e soterrados pelas areias do tempo. O tema é explorado ainda
mais vividamente na faixa título, carregada de emoção. Ambas apoteóticas.
Nemtheanga e suas linhas
melódicas fortes, voz carregada de emoção e ótimas letras pode até reinar
absoluto ao longo do disco, mas a banda está longe, muito longe de ser formada
por um amontoado de pernas-de pau. Os guitarristas CiáranMacUiliam e MicheálÓFloinn jogam para o
time, num peso minimalista repleto de nuances e dinâmica. E a cozinha, essa é
excelente, com as linhas inventivas de baixo de PólMacAmhlaigh e a
bateria variada e tribal de SimonÓLaoghaire
roubando a cena nas passagens instrumentais. A longa e matadora UponOurSpiritualDeathbed, que migra de um som marcial
para algo mais próximo ao heavy metal mais tradicional é um belo exemplo da
versatilidade do quinteto, emoldurada pela produção sombria e acertadamente árida
de OlaErsfjord (Tribulation).
StolenYears, a melancólica e calma faixa de trabalho, assustou alguns dos
fãs da fase mais crua da banda, mas é bela e hipnótica e merece o posto de
single do disco, ainda que sua aura, com algo de Katatonia, pouco represente o restante do material.
O disco se encerra com dois pesadíssimos épicos: SunkenLungs com sua
intrincada cozinha e novamente com aquele espírito de Fields Of The Nephilim sobressaindo; já LastCall é tão sombria
e claustrofóbica que não ficaria nem um pouco deslocada em um disco do MyDyingBride.
Veredito da Cripta
A
crise de meia idade fez um imenso bem aos Irlandeses. Diante da necessidade de
se reinventar, o Primordial
conseguiu criar uma obra densa e difícil de ser rotulada. Um trabalho daqueles
que acabam por proporcionar uma atmosfera absolutamente imersiva, um louvável e
incomum resultado. Um dos melhores discos de 2018 e forte concorrente a disco
de cabeceira deste escriba aqui.