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quinta-feira, 3 de maio de 2018

Glenn Hughes – Classic Deep Purple Live (29/04/2018 – Circo Voador – Rio de Janeiro/RJ)

             Glenn Hughes – Classic Deep Purple Live (29/04/2018 – Circo Voador – Rio de Janeiro/RJ)

Definitivamente: A VOZ!
Fotos e texto por Trevas


Noite de domingo, parto para assistir, pela quarta vez, uma das lendas vivas da história do rock: Mr. Glenn Hughes. O vocalista/baixista britânico, agora um senhor de 65 anos muito bem vividos, a grande maioria deles de grandes serviços prestados à música, é figura fácil na cidade. Embora a qualidade de Hughes como músico seja incontestável, nem sempre a dinâmica de seus shows corresponde, muito por conta de repertórios confusos diante de tanta coisa produzida junto a diferentes artistas com quem ele colaborou (Deep Purple, Trapeze, Pat Thrall, Black Sabbath, Phenomena...). Mas dessa vez o show seria calcado exclusivamente em material do Deep Purple, uma das bandas mais importantes da história. Promissor.

Cartaz da turnê
A abertura do show ficou por conta da banda carioca Seu Roque. Com o som totalmente calcado no rock setentista, a banda alternou covers de clássicos (Led Zeppelin e The Doors) com músicas próprias em português. Instrumentalmente a banda funciona muito bem, mas confesso que senti que falta de algo nas composições próprias, em especial nas linhas vocais. Ainda assim, um show divertido e que ganhou no mínimo o respeito da plateia, que já lotava o Circo Voador como há muito eu não via.


Titia Hughes, carcaça carcomida, voz do além


Após uma introdução imitando transmissão de rádio, tocada no som mecânico, Stormbringer é jogada impiedosamente em nossas fuças. Um início avassalador, mas quem já acompanha os shows de Hughes não viu novidade ali...ela viria sob a forma de Might Just take Your Life, seguida pela bela Sail Away e pelo clássico absoluto Mistreated.


Glenn canalizando agudos de outra dimensão
Esse tipo de repertório é uma faca de dois gumes, excelente no papel, poderia muito bem ser um tiro no pé se a banda que acompanha Glenn não tivesse a pegada certa. Mas, acreditem, os caras tocam muito e estavam muito bem ensaiados, e com os timbres brilhantemente escolhidos. E o som da casa, perfeito como poucas vezes ouvi. A comprovação veio logo após a pergunta do vocalista: vamos voltar comigo ao California Jam? Foi a deixa para executarem You Fool No One, com direito a emulação dos improvisos originais do lendário show. Soren Andersen já é velho conhecido, e se não é um virtuose da guitarra, casa muito bem com a proposta e tem muita pegada e carisma. Jay Boe manda bem demais nos teclados, e contou com o reforço de mini moog e hammond reais! Mas o destaque mesmo ficou para o jovem chileno Fer Escobedo, que brilhou em um longo solo de bateria que bem poderia ter minado o andamento da apresentação. Aliás, ele brilhou o show inteiro, a despeito do visual meio sleaze e das caras e bocas, o garoto é de uma técnica e pegada invejáveis!


O fiel escudeiro, Soren Andersen


Glenn & Soren

Ah, e a voz do Rock? Essa não envelhece nunca, a despeito da carcaça cada vez mais gasta de seu dono. Para falar a verdade, facilmente posso colocar o que ouvi nessa noite como uma das performances vocais mais belas e impressionantes que já pude testemunhar. O que Glenn fez essa noite em canções como This Time Around, Georgia On My Mind (encerrando Smoke On The Water, como nos shows de sua era no Purple) e You Keep On Moving (essa de arrepiar cada pelo do corpo) é de uma perfeição que parece vir de outro plano astral. A banda se despede sob intensos aplausos de uma plateia maravilhada.

Sim, você o é, meu chapa

Mas havia mais. O quarteto retorna alguns minutos depois. Glenn deixa o baixo para alguém de sua equipe técnica (sorry, não descobri quem é) e emenda uma versão de Highway Star anos luz à frente do que o Purple consegue fazer hoje em dia. Aliás, ela podia ser intitulada “Chupa Gillan”, mas isso é outra história. O encerramento vem com a obrigatória Burn, um pouco desencontrada, mas que surte o efeito de um tornado no Circo Voador. Todos os membros da banda abraçam o chefe de maneira carinhosa e verdadeira. Hughes, visivelmente emocionado, agradece com aquela paz de guru esotérico e promete um retorno para o ano que vem. Ninguém arreda o pé, os aplausos seguem efusivos enquanto a banda e seu líder permanecem no palco. E posso dizer então, que, mesmo já tendo visto o Purple “oficial” uma penca de vezes, pela primeira vez vi uma banda fazer justiça a seu legado musical. E assim termina um dos maiores espetáculos que já tive a sorte de presenciar. Uma noite perfeita (NOTA: 10)




Nós é que temos que agradecer, obrigado, tia Glenn

sábado, 16 de dezembro de 2017

Deep Purple + Cheap Trick + Tesla - Solid Rock festival (Jeunesse Arena - Rio de Janeiro/RJ - 15/12/17)

Solid Rock Festival


Olá, Guardiões da Cripta!
Mais uma participação especialíssima aqui na Cripta para cobrir um evento para lá de esperado! Sim, meu amigo e colega de Metalmorphose, o Rinoceronte Branco André Delacroix, um dos maiores bateristas do Brasil, foi lá conferir a passagem de seu amado Cheap Trick por terreno tupiniquim, nos brindando com um texto para lá de bacana!
Espero que gostem!
Abraço
Trevas 

Sinta a felicidade de nosso enviado especial 
Uma Trinca De Ases!
Texto por delacroix
Fotos de Tesla e Cheap Trick: página oficial das bandas
Foto do Deep Purple: Daniel Croce

Cheap Trick!
Desculpem, mas eu não poderia começar essa resenha do evento de ontem, de outra forma.
Grande fã, trinta e nove anos de espera por um show dos caras por essas bandas… muita anisedade… muita emoção!

Mas, vamos lá…
O Tesla é uma banda da safra Hard Rocker oitentista que nunca foi assim, do primeiro time, mas que tem um trabalho de qualidade, voltado pra um lado mais Blues/Rock a la Aerosmith do que para algo mais “farofesco” (permitam- me o neologismo) a la Poison, Pretty Boy Floyd e similares.

Vieram como azarões, abrindo, com shows curtos (sete músicas, no Rio, oito) por serem banda de abertura, mas conseguiram, finalmente (tal qual o poderoso Cheap Trick) se apresentar no RJ (dava pra ver na animação dos músicos da banda).

Como não sou conhecedor da obra dos caras e não sei se o set list publicado na internet está correto, vou resumir a apresentação dizendo que os caras realmente são ótimos músicos, as músicas são muito bem feitas, ora empolgantes, ora mais calmas e que todos que chegaram a tempo, com certeza, no mínimo passaram a respeitar o trabalho da banda.

Destaques para o ótimo vocalista Jeff Keith, com muito carisma e uma excelente voz cheia de feeling , que engrandece as composições da banda. De sons mais intensos como a música de abertura “Edison´s Medicine” a baladas, como a mais conhecida “The Way it Is’, os caras mostraram muita qualidade musical O batera Troy Lucketta tem pegada firme e precisa e o guitarrista Frank Hannon faz bonito nos solos.

Um começo de noite muito bom, com ótima qualidade de som (me surpreendi), aquecendo a galera pro que via pela frente.

Tesla passando o som na Jeunesse Arena



Sei que muita gente desdenhou e chegou tarde ou até ignorou as apresentações das duas bandas de abertura, o que é uma grande pena. Perde- se cultura musical e a chance de se evitar ser um fã obtuso de música, limitando seus conhecimentos musicais às mesmas cinco bandas de sempre.
Pronto, falei he he

A banda mais aguardada (por mim), Cheap Trick entrou no palco com a já esperada intro “Hello There”, música que abre praticamente todos os shows, já ditando a pegada do concerto (com exceção de uma ou outra balada). Entraram forte e já mostraram aos descrentes que Cheap Trick é Rock N Roll visceral, sim, e não apenas uma banda de baladas melosas, como passou a ser vista, graças a uma fase realmente mais mansa nos anos 80 (ah, as gravadoras)

“Elo Kiddies” do primeirão veio com peso, mas foi em “Big Eyes” que a casa caiu, mesmo. Peso total e lágrimas deste que vos escreve. Música clássica do petardo ao vivo “At Budokan”, primeiro deles que eu ouvi na vida e que me fisgou de imediato.
Daí em diante o porta-voz da banda e mestre de cerimônias Rick Nielsen e seus comparsas detonaram a ótima Jeunesse Arena com vários petardos da carreira da banda (praticamente focando apenas nos anos 70, quando a banda lançou cinco discos). Algumas inesperadas, como The House is Rockin do excelente “Dream Police”, um rockão lado B; “Lookout” um Rock frenético que foi registrado inicialmente no “At Budokan” ;“Voices” balada agradável e água com açúcar , também do “Dream Police” e “The Ballad of TV Violence’, do primeirão (essa eu confesso que não faz muito a minha cabeça).
Fora os clássicos que não podiam faltar como “Dream Police”, “I Want you to Want Me” (grande sucesso da banda, versão do “At Budokan” e “Surrender” (de “Heaven Tonight”.)

 A banda ao vivo é muito forte, uma máquina. A cozinha com o baixo de doze cordas de Tom Petersson e com o ‘novato” Dax Nielsen na batera (substituindo o mítico batera original Bun E. Carlos) é muito precisa e poderosa, deixando espaço para os destaques Rick Nielsen , principal compositor e guitarrista cem por cento Rock N Roller e suas bases inspiradas e solos incendiários (infelizmente, parcialmente prejudicados em termos de volume) e Robin Zander (a meu ver, um dos maiores vocalistas de Rock de todos o tempos) , que me surpreendeu com sua performance irrepreensível, alternando vocais mais intensos e rockeiros a momentos de suavidade e melodia, de forma mais natural, impossível (isso aos sessenta e quatro anos!)

Fora os clássicos dos anos setenta, tivemos “The Flame” (grande sucesso deles nos anos oitenta), “In the Streets” (da trilha sonora da famosa série ‘That Seventies Show” ) e “Long Time Comin” (e como!), do mais recente disco “Were All Allright” que voltou a uma sonoridade mais rockeira (teria a entrada deles no Rock N Roll Hall of Fame, no ano passado, animado o espírito mais rockeiro da banda?)

“California Man “, cover de “The Move” botou fogo na galera, mas poderia ter sido o único da noite. “Magical Mistery Tour” dos Beatles é bem legal, mas eu preferiria “Come on, Come on”, “Clock Strikes Ten’ ou “Stop This Game’, que foram tocadas em SP, por exemplos (sons autorais!). O mesmo para o cover de “Velvet Underground, “I´m Waiting for the Man” , cantado pelo Tom Petersson, desnecessário.

Apesar desse pequeno detalhe (e eu tô sendo bem minucioso, mesmo he he) o show foi arregaçante e os caras deixaram uma ótima impressão mesmo em quem não os conhecia e pagaram essa “dívida histórica” com o Brasil. Mágico.

Cheap Trick fazendo novos amigos

Já o Deep Purple chegou consagrado e , mesmo antes de tocar sequer uma nota e, apesar das críticas aos mais recentes trabalhos, fez um show que empolgou a plateia e fez jus á história da banda.

Ian Gillan já não tem mais aqueles agudões? Não. Steve Morse não é o cara certo pra o lugar do lendário Ritchie Blackmore? Don Airey não tem como substituir o insubstituível Jon Lord?

Bom, o Gillan se saiu muito bem durante todo o show, respeitando seus limites que vieram com a idade (setenta e dois anos e no palco, afinal de contas!), arriscando agudos suaves, para pontuar malabarismos de outrora e cantando com feeling os vários clássicos que a banda executou na noite.

Steve Morse, obviamente é um excelente guitarrista, mas eu não acho que ele tenha um “determinado o quê” que o Blackmore tem. Talvez seja o velho choque “Virtuose x feeling”, não sei bem explicar. E não é que ele não tenha feeling, não me entendam mal. De qualquer maneira, o cara toca muito e inclusive, durante um solo de guitarra, ele inseriu a melodia de “Surrender” do Cheap Trick. Bônus pra o homem das seis cordas.

Ian Paice: o que mais dizer sobre esse batera monstro? Muito groove e finesse na batera e Roger Glover “fechou” bonito com ele. Cozinha classe A.

Já Don Airey brilhou na noite. Além de respeitar o timbre e a execução do insubstituível Jon Lord, Airey debulhou nos teclados, tanto nas músicas como em dois solos extensos, que encheram os ouvidos da galera, inclusive incluindo temas de músicas brasileiras (Bossa Nova e Marchinhas), para o delírio da plateia. Show de bola.

Entre uma ou outra mais nova, o Purple se concentrou em clássicos que agitaram a galera (que encheu a pista e a maioria das arquibancadas, mostrando que o RJ surpreendeu em termos de presença de público – parabéns por isso!) , abrindo o show com o “pé na porta”, com a intensa e clássica “Highway Star”. Tocando depois, “Blood Sucker” (do brutal “In Rock”), Lazy, Black Night (com os famosos ô, ô, ôs do público), Strange Kind of Woman, uma dobradinha do “Perfect Strangers”, a música homônima e “Knockin on your door” e, é claro, atingindo o ápice com  a mega clássica que todo mundo conhece “Smoke on the Water”, com participação de Rick Nielsen do Cheap Trick na guitarra.

Enfim, fizeram um show arrasador e surpreenderam quem não acreditava mais no “poder de fogo” dos velhinhos.
O “Solid Rock” foi uma noite para não se esquecer, com ótima participação de público, ótimas apresentações das bandas, excelente organização em um espaço para shows que se mostrou à altura do evento.

Parabéns, Tesla, Cheap Trick, Deep Purple e público rockeiro do RJ!


Steve Morse mostrando todas as rugas, foto por Daniel Croce


domingo, 11 de junho de 2017

Deep Purple – InFinite (Cd-2017)


Deep Purple - InFinite
Hora de Dar Tchau?
Por Trevas


Prólogo – Trevas, Blackmore, Morse e a Montanha Russa

Vamos ser honestos aqui, caros Criptomaníacos...Deep Purple foi, durante muito tempo, minha banda favorita. Mais precisamente durante os anos 1990, quando efetivamente me tornei fanático por Rock e comecei a descobrir os clássicos. Eu simplesmente ficava vidrado com a bateria diferente de Ian Paice, com o Hammond do eterno Jon Lord...mas era o som da guitarra de Ritchie Blackmore que me encantava mais. O mago dodói das ideias tinha um jeito de tocar que não parecia nada que eu já tinha visto ou ouvido (apesar de ter gerado uma horda de imitadores, o mais famoso o sueco, também maluco, Malmsteen). Blackmore fez despertar em mim a vontade de ser músico, como guitarrista. Infelizmente nunca tive talento e obstinação necessários para tocar guitarra decentemente. Acabei por acidente virando vocalista. Então, chegamos ao ponto crítico para preparar vossos espíritos para o que vem a seguir nesta resenha: quando o Purple anunciou a saída de Blackmore, lá no meio dos anos 1990, fiquei horrorizado. Mas minha adoração por Blackmore não era suficiente para me tornar surdo a material sem ele, não. Come Taste The Band é um puta disco, e conta com o saudoso Bolin, de estilo diverso demais do Ritchie, na guitarra. À época pouco ou nada conhecia do substituto, um redneck chamado Steve Morse. Até ligar os pontos: descobri que ele era responsável pelo pior disco de outra de minhas bandas favoritas, o péssimo Power, do Kansas. Aí a luz amarela acendeu. Mas ainda assim, fui encarar o disco vindouro, Purpendicular, de peito aberto. E até que gostei. Longe de ser um discaço, era melhor do que coisas como House of Blue Light e Slaves and Masters, bombas feitas sob a batuta de meu falível herói.


Purple em 1971, para muitos, o auge

Assisti o Purple nessa turnê, e mesmo diante do meu fascínio em poder ver uma das minhas bandas favoritas, não pude deixar de notar três coisas: 1. Gillan estava ficando péssimo ao vivo, 2. Morse podia ser bem técnico, mas seu som e meus ouvidos não casavam. 3. O Purple estava começando a soar como outra banda.

Discos vieram, cada um soando menos Purple e menos interessante aos meus ouvidos. Assisti a banda por mais duas vezes, até entender que ao menos para mim, a magia havia morrido. E por falar em morrer, foi com imenso desgosto que recebi a chocante notícia de que a banda seguiria seu caminho mesmo após o falecimento de Jon Lord. Purple sem Blackmore já me soa perigoso. Sem Lord também, é o equivalente a um Black Sabbath sem Tony Iommi. Simplesmente não faz sentido seguir sem os compositores de 97% do material clássico da banda. Me entristeci pela decisão de Ian Paice e Glover. Mas é um direito deles. Vida que segue.

Jon Lord, 1973. A alma da banda.

Bom, apaguei a banda da minha vida, até que esbarrei com uma cópia do então disco novo Now What!? Resolvi, sei lá por que cargas d’agua comprar a bolachinha. Soava como qualquer outra coisa, inclusive como a errática carreira solo de Gillan, até mesmo soava em momentos como um pastiche de ELP. Tudo, menos Purple. Se tornou a bomba do ano para mim. Me desfiz daquilo. Agora, escuto que a dobradinha com o produtor Bob Ezrin se repetiria, dessa vez num suposto disco de despedida. Somente por acreditar na tão falada despedida, resolvi escutar InFinite. E lá vamos nós...


O Fim de Uma Era?

Bom, entre ouvir o disco, escrever o esboço da resenha e ter coragem de publicar a mesma, esbarrei com duas boas entrevistas. Nelas, Gillan admite à Classic Rock e à Roadie Crew que a despedida da banda é uma farsa. Uma estratégia de marketing capitaneada pela gravadora, que inclusive, é a responsável pelo enganoso título. Um título bacana, que combina com a belíssima capa e arte gráfica. As únicas coisas que justificam a existência do que vem a seguir.

Time For Bedlam abre o disco. Primeira faixa de trabalho, me soou péssima à época do lançamento do Lyric Video (ver abaixo). Com o tempo acho que acostumei. Não, está longe de ser boa ou até mesmo razoável, mas ganha pontos por tentar soar única e relevante, o que infelizmente não acontece muito no restante do álbum.



Aí voltamos à dura realidade do Purple de 1994 para cá, Hip Boots é aquele rockinho para lá de safado, com mais um riff genérico de mr. Morse. Mas temos Don Airey e Bob Ezrin pode não saber o que fazer com o direcionamento do som do Purple, mas não é bobo, então afundou as guitarras no mix e deixou o teclado brilhar disco adentro.

All I Got Is You, outra das faixas de trabalho (ver vídeo abaixo), inicia com um tom algo melancólico e um trabalho interessante de Airey. Aqui Gillan até que não soa irritante como tem sido costume, mas os riffs qualquer nota de Morse falham em tornar a música algo além de agradável.



One Night In Vegas segue a toada da mediocridade. Fosse em outros tempos, com muita sorte serviria de lado B de um single não muito inspirado do Purple. Seria demais pedir por um bom riff? Em se tratando de Steve Morse, sim. O cara tem tanto rock no sangue quanto um Porquinho da Índia. A falta de inspiração é tamanha que fica até me peguei checando se a fraca Get Me Out Of Here já não havia tocado antes no disco...

Deep Purple 2017...colocando nossos ouvidos numa fria...
E então The Surprising chega, me trazendo uma grande...erh, surpresa...Sim, Gillan me presenteia, ao menos em parte da Power Ballad, com uma interpretação bem bacana. Não é uma faixa magistral, jamais a colocaria numa coletânea óctupla dos caras, e o maldito Ezrin novamente deixou o Purple soar em alguns momentos como uma banda progressiva pau mole, mas assim como Time For Bedlam, a música acaba por se salvar por ao menos tentar soar diferente.


Daí é ladeira abaixo. Jonny’s band tem uma bela introdução que parece chupada do Kansas. O que até cairia bem, mas logo Steve puxa mais um de seus brilhantes riffs feitos de água de chuchu e temos um rockinho para lá de fraco na extensa coleção recente do Purple. On Top Of The World começa e novamente não tenho muita certeza se já não ouvi essa mesma faixa no Bananas, ou no Abandon, ou em ambos. Não irrita e nem empolga, apenas passa sem mudar sua vida. Em Birds of Prey Steve Morse ao menos sai um pouco do piloto automático, só comprovando que ele se sai melhor quando não finge ter as manhas para o rock and roll. O que mata aqui é o arranjo das vozes, daqueles que marcaram o Gillan recente, anasalado e pentelho. Fico feliz por estar chegando ao fim da jornada. Tolinho. Me foge à compreensão como uma banda veterana e um produtor experiente deixam entrar em uma gravação oficial uma hecatombe nuclear que é essa desnecessária versão para a já muito batida Roadhouse Blues, do Doors. Gillan parece estar cantando de pura sacanagem, Morse definitivamente não funciona e nem mesmo Don Airey parece estar à vontade. Me pergunto se Ian Paice não sofreu seu AVC após escutar o resultado final. Uma das piores covers já feitas.  


Saldo Final

Por mais medíocre que o trabalho pós Purpendicular do Deep Purple se mostrasse, ainda existia em mim uma mínima fagulha de esperança que em seu suposto grito final a banda pudesse heroicamente mostrar redenção. Tolice pura. O segundo rebento da parceria com Bob Ezrin traz mais um apanhado de ideias desinteressantes e momentos constrangedores que fazem desse um dos piores discos da extensa discografia do Purple, uma (in)digna companhia aos igualmente ruins House of Blue Light, Slaves & Masters e Now What naquele canto empoeirado de nossa estante de CDs. Torço que o fim da banda não seja realmente pura estratégia de marketing. Triste, muito triste. 



NOTA: 5,19


Gravadora: Hellion (nacional)
Pontos positivos: Bela arte gráfica e Bob Ezrin traz sua habitual qualidade no som
Pontos negativos: músicas fracas e um guitarrista que parece ter preguiça de compor um riff de rock marcante 
Para fãs de: Ian Gillan Band em seus momentos mais soporíferos e tarados por Steve Morse
Classifique como: Rock de velho broxa























domingo, 22 de dezembro de 2013

Curtas: Anvil + Monster Magnet + Death Angel + Deep Purple + Trivium + Whitesnake


Curtas: Anvil + Monster Magnet + Death Angel + Deep Purple + Trivium + Whitesnake

Ano acabando e minha lista de melhores começa a ser elaborada. Faz um bocado de tempo que não posto por aqui, fim de ano complicado, então lá vai uma penca de resenhas, no atacado!

Anvil - Hope In Hell
Anvil – Hope In Hell (CD - 2013)

Mais do Mesmo

Segundo disco dos mestres do Speed/Thrash Metal canadense após o estouro do documentário History Of Anvil, Hope In Hell repete a dobradinha da banda com o renomado produtor Bob Marlette (Alice Cooper, Iommi, Seether). Infelizmente dessa vez sem o mesmo sucesso do ótimo Juggernaut Of Justice.

Ok, Lips, nós também gostamos de você. Mas vê se capricha mais na próxima!
Não que falte garra a Lips, Reiner e Sal Italiano, o Anvil continua com uma pegada bem pé no acelerador, e nem falta também o obrigatório senso de humor, vide a brincadeira com o riff e estrutura de Smoke On The Water, que atende pelo nome de Through With You. O que ficou faltando foram músicas memoráveis. Para se ter uma ideia, somente na quarta música, a vigorosa The Fight Is Never Won é que o disco ameaça engrenar. E só ameaça, pois afora a mencionada música e as duas bônus da edição limitada (Hard Wired e Fire At Will), o material do disco não empolga, embora também não chegue a ser ruim. Como a banda está excursionando como nunca, dá a nítida impressão que esse Hope In Hell foi produzido apenas como desculpa para o retorno aos palcos. Se não se cuidar com os próximos lançamentos, é possível que o Anvil comece a traçar seu retorno ao ostracismo. Melhor caprichar, então!

NOTA: 6,5

Recomendado para: apenas para os fanáticos pelo Anvil e/ou completistas.

Passe longe se: quiser conhecer a banda, nesse caso, a discografia dos caras tem coisas muito melhores, tente Juggernaut of Justice ou Metal On Metal...



Monster Magnet - Last Patrol
Monster Magnet – Last Patrol (CD - 2013)

(Not So) Hot Shit, Babe!

Após uma seqüência de grandes discos que tornaram o Monster Magnet provavelmente a banda mais bem sucedida e influente da história do Stoner Rock, o maluquete Dave Wyndorf sofreu uma overdose, e então tudo desandou. 

Seguiram-se os pouco inspirados 4 Way Diablo e Mastermind, que só chamaram a atenção dos fãs mais ardorosos. Dave parecia inclusive ter perdido a centelha que movia a banda e suas histórias de proxenetas interplanetários e drogas cósmicas (seria porque ironicamente sua overdose quase fatal fora de remédios para dormir?).

Seria Dave Wyndorf  = Sr. Madruga + LSD?
Bom, quando poucos esperavam alguma coisa da banda, foi anunciado esse Last Patrol, como uma audaciosa e triunfal volta aos primórdios lisérgicos do MM. Seria verdade ou bravata? Veremos.

Logo de início, na sombria faixa de abertura (I Live Behind) e na espacial faixa título que a segue, duas coisas ficam claras: 1. não, não é um retorno a Superjudge ou Spine of God; 2. Certamente trata-se de material muito melhor que o dos últimos dois discos.

Com uma sonoridade que fica entre God Says No e Monolithic Baby, o disco segue com uma surpreendentemente boa releitura para Three Kingfishers (do Donovan), e com as boas Paradise e Hallelujah e a “MM no piloto automático” Mindless Ones (música de trabalho, que se parece outras 789 músicas da banda). The Duke Of Supernature torna o disco novamente interessante, seguida pelo rockão End Of Time. Stay Tuned encerra a bolachinha como que para nos avisar de que Wyndorf tem planos mirabolantes para os novos capítulos. Que assim seja, pois Last Patrol, embora longe das glórias de outrora, deixa os fãs esperançosos para com o futuro do Monster Magnet!

NOTA: 7,5

Recomendado para: fãs de Stoner e Space Rock em geral.

Passe longe se: o Monster Magnet morreu para você após Superjudge.



Death Angel - The Dream Calls For Blood
Death Angel – The Dream Calls For Blood (CD - 2013)

Absolutamente Destruidor

Um raro caso de segunda chance na história do Metal, o Death Angel, banda promissora de Thrash a surgir na segunda leva da cena da Bay Area, retornou com sangue nos olhos em 2004. De lá para cá produziu três obras que facilmente suplantam em qualidade os três discos de sua encarnação original. E o quarto rebento desse ressurgimento, The Dream Calls For Blood já chama a atenção de primeira, graças à belíssima ilustração de Brent Elliot White que adorna sua capa, facilmente a mais bacana de 2013.

Death Angel - 2013
Mas de nada adiantaria se o conteúdo, produzido pelo guitarrista e principal compositor do D.A., Rob Cavestany e Jason Suecof (Trivium, Firewind, Six Feet under) não fizesse frente à bela arte de capa. Ah e como faz. Left For Dead, Son Of The Morning e Fallen formam uma trinca de derrubar tanque de guerra.

Mark Osegueda está usando sua voz peculiar (que poderia bem servir a uma banda sleaze, por exemplo) como nunca. Rob Cavestany e Ted Aguilar são os culpados por uma chuva de riffs e solos memoráveis e a cozinha de Damien Sisson (baixo) e Will Carroll (bateria) não deixam pedra sobre pedra.

O ritmo cai com a faixa título, somente em velocidade, já que a mesma cheira a clássico. E não para por aí, somos presenteados com uma pedrada após a outra, com destaque para Caster Of Shame e Empty. A edição limitada, além de um DVD com o Making Of do álbum, ainda vem com uma ótima versão para Heaven And Hell, do Black Sabbath.

Em suma, o Death Angel nos entregou o disco de Thrash de 2013!

NOTA: 9

Recomendado para: fãs de thrash,  seja ele old ou new school.

Passe longe se: seu ideal musical tenha algo com Jack Johnson e John Mayer...




Deep Purple - Now What?!
Deep Purple – Now What?! (CD - 2013)

Cuma?

O tempo pode ser cruel com alguns artistas. Mas com outros pode ser ainda pior. Esse é o caso do Deep Purple, que aos poucos se tornou uma caricatura hedionda do outrora seminal grupo do Rock britânico. Com seu último grande disco datando de 1984 (Perfect strangers), a fase atual da banda, com o enfadonho Steve Morse na guitarra, até começou com um brilhareco, sob a figura do corretinho Pupendicular, mas depois desceu uma interminável ladeira. E se você caiu na propaganda enganosa desse novo disco, de que o produtor Bob Ezrin (que produzira o the Wall, do Pink Floyd, dentre outros...) teria conseguido efetuar um milagre, esqueça. A ladeira Purpleniana  realmente  não tem fim...

Não, ainda não descobri se ali é o Gillan ou o Bill Murray...
Sim, acho um absurdo a banda ter mudado seu som para se encaixar no estilo do “novo” guitarrista, mas seria demais colocar toda a culpa por todas as mazelas da banda nas costas de Steve Morse. Na verdade, a saída de Blackmore representa muito mais que a mudança de um guitarrista. Representou a saída do compositor de 90% do material da banda. E disso o Purple nunca se recuperou. Atualmente a banda parece muito mais com um misto de projeto solo de Gillan e/ou Morse. Fato ainda mais acentuado após a saída do saudoso Jon Lord.

E não ajuda em nada o fato de Ian Gillan, outrora a voz mais prodigiosa dos anos 1970 hoje soar ridículo, com seu timbre anasalado que irrita até monge budista.

Bom, o que esse Now What?! Traz de novo, então? Bob Ezrin ajudou em todas as composições do disco, e orientou a banda a compor em forma de Jam. O álbum traz uma produção encorpada, com bastante punch e um clima progressivo que permeia todas as faixas. Um bom começo, desde que as faixas demonstrassem alguma qualidade. Não é o caso. A despeito de boas passagens instrumentais, inclusive com uma referência a ELP (Uncommon Man, homenagem à homenagem do ELP a Aaron Copland), o que temos aqui é um ótimo som tentando esconder músicas envelhecidas e desinteressantes. Curiosamente a melhorzinha da safra vem sob a figura da esquisitona Vincent Price, uma ode bacana aos filmes de horror do passado. Sintomaticamente, horror é quase o que temos aqui. 

NOTA: 5

Recomendado para: não consegui pensar em ninguém para recomendar isso aqui...

Passe longe se: for fã do Deep Purple!




Trivium - Vengeance Falls
Trivium – Vengeance Falls (CD - 2013)

Rumo Ao topo

Surgida como a possível cereja do bolo dentro da cena que vem sido chamada de New Wave Of American Metal, a banda Trivium acabou por ver sua carreira ratear para longe do topo, enquanto o Avenged Sevenfold era catapultado à estratosfera.

Quebrando a parceria de longa data com o produtor Jason Suecof (ver resenha sobre o novo do Death Angel, nesse mesmo post), os garotos assumiram a atitude do “ou vai ou racha”. Só que muitos estranharam quando foi anunciado o novo produtor: David Draiman, mais conhecido pelo posto de vocalista no controverso Disturbed.

Pelas orelhas de Matt Heafy! Esse disco é bom mesmo!
Mas não se desesperem caros amigos, a presença de Draiman não fez que Matt Heafy passasse a imitar orangotangos em suas linhas melódicas. Muito pelo contrário, a presença do diminuto careca fez com que finalmente Matt encontrasse sua voz, não mais pecando pelo excesso de referências a seus ídolos. A maior preocupação com as melodias vocais não tirou o foco das guitarras, que permanecem excelentes. Matt e Corey Beaulieu formam uma dupla de respeito, e não faltam solos e riffs memoráveis no novo disco. E o fato das músicas estarem mais diretas, isso não deveria assustar, já que In Waves já mostrava essa tendência.

Sem sequer uma música ruim, fica difícil apontar os momentos de destaque no novo disco, mas a tríade composta pela faixa título, Strife (a melhor) e No Way To Heal devem se tornar obrigatórias nos shows. O encerramento com a épica Wake (The End Is Nigh) deixa o ouvinte com aquela sensação de que poderia escutar mais uma hora de material desse nível. A apontar de negativo (se é que dá para considerar isso como negativo), apenas uma presença um pouco forte demais de Disturbed em algumas composições (como nos versos da boa To Believe, por exemplo). No mais, um grande salto de qualidade na carreira do Trivium e um dos melhores discos do ano.

NOTA: 9

Recomendado para: fãs de metal tradicional em geral.

Passe longe se: prefere músicas mais intrincadas e/ou extremas.



Whitesnake - Made In Japan
Whitesnake – Made In Japan (Blu Ray - 2013)

Rugas e Farofa em HD!

Após ter passado seu período de maior sucesso sem soltar sequer um disco ao vivo, o Whitesnake resolveu capitalizar na última década, lançando um atrás do outro. Não que isso seja ruim, David Coverdale nunca foi bobo e sempre se cercou da nata do hard/Heavy, fazendo com que uma apresentação da banda seja quase sempre certeza de sucesso.

Quase por um simples motivo, de alguns anos para cá a voz do tiozão anda pagando o preço de décadas de birita e muito cigarro. Como visto esse ano nos últimos shows da banda em território tupiniquim, Coverdale alterna bons shows com outros nos quais parece ter feito gargarejo com giletes.

Pode admitir, ele parece alguma tia sua, vai...
Para nossa sorte, nesse Blu Ray (com edições em DVD e CD duplo), que imortaliza a participação da banda no festival Loud Park de 2011 (realizado na Saitama Super Arena, Tóquio),  a voz de Coverdale está no melhor estado que sua idade permite atualmente. Somos agraciados com um set curto (cerca de 80 minutos), mas matador, contando com alguns clássicos misturados a faixas do ótimo Forevermore e do bom Good To Be Bad. Doug Aldrich e Reb Beach arregaçam as guitarras, como sempre. Brian Tichy é um tremendo baterista e dá até para não passar o solo do rapaz. Michael Devin pode não ser tão famoso quantos eus colegas, mas segura as pontas com louvor. E Coverdale, esse é um dos maiores frontmen da história, esbanjando vigor e simpatia, além de possuir uma das mais belas vozes do rock. Tudo isso coroando uma imagem cristalina (podemos ver as rugas de tio Cobrabranca com perfeição), e um som que em nada deve a essa imagem.

A reclamar, somente a escassez de extras de verdade. Se considerarmos que o show é bem curto e Blu Ray ainda custa um bocado para os incautos cucarachas, temos a relação custo/benefício um bocado prejudicada. Ainda assim, trata-se de um grande registro de uma grande banda.

NOTA: 8

Recomendado para: amantes de boas vozes e grandes guitarras...

Passe longe se: tem alergia ao verbete “Love”