Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Após dois discos em
que envenenou seu stoner com mais
peso e experimentalismo, somados a alguma modernidade na produção, parece que o
hirsuto trio teutônico Kadavar
resolveu dar marcha-a-ré na máquina do tempo, apostando numa história
conceitual baseada nas várias releituras da mitologia do senhor dos mortos, Drácula.
Convenção de Bruxos velhos?
Em meio a muita fumaça, TheEnd se mostra uma introdução lânguida e
psicodélica que ironicamente inicia os trabalhos, preparando território para
uma pérola do Doom progressivo: TheDevil’sMaster. A produção,
nas mãos do tresloucado batera TigerBartelt, muito mais vintage do que nos discos anteriores, a
voz de LupusLindemann emulando o que parece ser um jovem Ozzy com sífilis, tornando a apreciação do som um pouco ardilosa.
Mas vale a tentativa! Os riffs matadores
estão lá, apenas trabalhando de maneira mais contida ao longo da canção.
A virulência e peso retrô
habituais passa a frente na viciante EvilForces, com baixo gorduroso, bateria
alucinante, grandes riffs e solos. O
som do Kadavar, sempre com pés fincados
no passado, nunca soou tão genuinamente antigo, casando com perfeição com a foto
envelhecida e os trajes dos músicos na arte de capa. Na verdade, o novo disco
soa totalmente Kadavar, mas de uma
maneira diferente, nada como nenhum dos discos anteriores. ChildrenOfTheNight confirma a impressão passada pelas faixas anteriores: os
caras continuam mestres na rifferama, apenas decidiram criar um clima de
suspense na construção das canções, de maneira a casar com as letras, pequenos
contos de horror com um enfoque algo existencialista.
DancingWithTheDead é uma valsa algo progressiva repleta
de climas interessantes e que provavelmente pedirá por improvisos em sua
execução ao vivo. Poison é bem mais
pesada e urgente, e mostra o Rei dos Vampiros em sua conhecida repulsa pela
humanidade dessa vez temperada por um viés de crítica social e comportamental. DemonsInMyMind é excelente e algo
espacial, parecendo fazer a ponte entre o novo trabalho e os caminhos seguidos
nos dois discos anteriores.
Saturnales é mais experimental,
com o baixista SimonBouteloup assumindo os vocais
principais. Funciona praticamente como uma preparação para LongForgottenSong, um misto de Blues com Doom que faria
tio Iommi orgulhoso, a faixa mais
longa de ForTheDeadTravel, Fast. Com seu quinto trabalho de estúdio, o Kadavar mergulha de maneira firme e certeira na história de Drácula
e num som que parece erguido triunfantemente das brumas lisérgicas do final dos
anos 1960. Absolutamente matador (NOTA: 9,39)
A história da música
popular conta com uma miríade de depoimentos de artistas que colocam a culpa do
insucesso ou da baixa qualidade de alguns de seus trabalhos na conta da pressão
sofrida por gravadoras e/ou empresários, que ávidos por aproveitar uma janela
de oportunidades, apressam seus pupilos a soltar uma música ou até mesmo um
disco em tempo recorde. Ok, se tem algo na atual nova ordem do mercado musical
que mudou foi a quase inexistência desse cenário. Afinal, discos já não vendem
nada, mesmo. Mas eis que vem um PowerTrio de RetroRock alemão, com
absoluto controle criativo que resultou em três incensados discos, e que resolve
emular essa atmosfera de pressão para apostar em um resultado mais espontâneo e
mais distante de sua zona de conforto. Loucura? Parece, mas é o caminho que o Kadavar escolheu para seu quarto disco,
sintomaticamente nomeado RoughTimes.
Kadavar em technicolor
Composto e gravado do zero no recém-inaugurado estúdio próprio da banda,
tendo que obedecer um cronograma apertado, RoughTimes foi concebido em meio ao caos
para se tornar um contraponto ao relativamente acessível e muito bem-sucedido Berlin. A crueza da faixa título, com
seu tema viciante guiado por uma cozinha boçal (culpa do baterista TigerBaltelt e do baixista SimonBouteloup) nos soca no meio do
estômago sem nem percebermos. Em seguida temos a absurdamente excelente IntotheWormhole (vídeo),
tão grudenta quanto suja e lisérgica.
SkeletonBlues é BlackSabbath do Vol4 mergulhado em um
tonel de ácido, enquanto DieBabyDie (ver vídeo) se faz um híbrido horrendo e eficaz entre ProgRock e StonerRock. A bateria marcada e calma do
início de Vampires nos pega de
surpresa, a música dando uma retorcida violenta em seu ótimo refrão e que acaba
por nos arremessar diretamente em um vendaval psicotrópico chamado TribulationNation. Tribulation foi
composta em casa pelo tresloucado guitarrista/vocalista Lupus, que queria deliberadamente criar um SpaceRock com elementos
de Gong e com sintetizadores à lá Hawkwind. Conseguiu, e o bicho é bom
demais.
WordsofEvil é diretona e bem
ProtoMetal, e talvez por isso mesmo seja a primeira coisa abaixo do
nível absurdo do material até agora mostrado. A reta final do trabalho é intencionalmente
mais calma e experimental, guiada pela bela e viajandona TheLostChild e pelas chatinhas YouFoundTheBestInMe (que lembra algo do
Led) e A L’Ombre Du Temps. A edição nacional ainda conta com uma suja e
bacana versão para HelterSkelter, vocês sabem de quem, claro.
Veredito
da Cripta
E não é que a pressão funcionou?
O Kadavar criou em RoughTimes seu trabalho mais forte até o momento, ainda que sua reta
final soe um pouco anticlimática. Uma pista de que os alemães talvez ainda
tenham sua obra prima escondida em algum lugar daquelas cacholas desmioladas.
NOTA:
8,69
Gravadora:
Shinigami Records (nacional).
Pontos
positivos: a primeira metade é absurda
Pontos
negativos: as duas últimas músicas quebram e muito o clima
Para
fãs de: Graveyard, Vintage Caravan, Radio Moscow
Talvez o maior
expoente da New Wave Of Traditional
Heavy Metal (NWOTHM), a banda
sueca Enforcer volta com seu quarto
disco, tentando manter o lastro de sucesso que o disco anterior, Death By Fire, alcançou em 2013. Destroyer (ver vídeo) começa como manda
o figurino, veloz para cacete, ótimos riffs e aquelas melodias vocais que nos
tacam no meio de um moshpit em 1985. Aliás, de cara percebe-se que Olof Wikstrand, que além das guitarras
(divididas com maestria com Joseph Tholl)
responde pelos vocais da banda, está muito mais comedido em seus agudinhos, o
que é um grande ponto que me fez gostar mais desse trabalho que os anteriores. Undying Evil é excelente e parece saída
de um álbum nunca gravado pelo Grim
Reaper.
A
faixa título diminui a velocidade da bolachinha, mostrando que a banda também
se sai muito bem no terreno do mid tempo. A velocidade retorna com One With Fire e, sinceramente, fica
difícil não bater a cabeça com o disco até então, há até mesmo uma leve
referência ao Iron Maiden no meio da
faixa. A power ballad Below The Slumber por
vezes até lembra algo bem lá do início do WASP
e aqui a voz de Olaf esbarra no
limite do irritante, mas ainda assim a faixa é bem legal. Hungry They Will Come é o paraíso instrumental para os fãs da NWOBHM, lembrando aquelas pérolas que a
donzela fazia em seus primeiros dois discos. The Banshee,Farewell e Hell Will Follow são outras duas pedradas
velozes com refrães brilhantemente grudentos, essa última com algo de Motörhead em seu instrumental. Depois
da velocidade excruciante da maioria do material, a bolachinha encerra com uma
faixa épica e mid tempo, Mask Of Red
Death, infelizmente a única mais ou menos num disco quase perfeito. Mas não
se deixe enganar por essa pequena falha, From
Beyond é uma aula de metal tradicional à velocidade da luz!
NOTA: 90
Classifique como Speed
Metal, Metal Tradicional
Para fãs de Running Wild, Grim
Reaper, Iron Maiden, Anvil, Eciter, Razor
Passe longe se você só gostar de Funeral Doom
tocado à velocidade de uma tartaruga sifilítica.
Enforcer, forçando (ugh) anos oitenta através de nossas goelas
Baseado no livro
homônimo do britânico William Hope
Hodgson, uma obra de horror algo hermética publicada originalmente em 1907,
The Boats Of the Glen Carrig é
absolutamente o oposto do disco do Enforcer
aí de cima. Lento, denso e muito, mas muito pesado, o som aqui emula com
perfeição a atmosfera da horrenda história dos sobreviventes do naufrágio do Glen Carrig, que se defrontam com um
indescritível horror em sua luta pela sobrevivência num mar infestado de seres
nefastos. Alternando entre belos momentos semi-acústicos e riffs monolíticos,
entre vozes lamuriosas e limpas (que fazem lembrar Opeth) e urros que parecem vindos das profundezas abissais, o disco
tem apenas seis faixas, das quais só uma, The
Red Foam (ver vídeo), tem menos de dez minutos de duração.
Todos
os discos do Ahab tem como temática
o mar e seus mistérios e sua sonoridade, tal qual o Mastodon conseguira com Leviathan,
nos transporta exatamente para dentro do convés de um navio fantasma. Uma
qualidade cinemática que contagia o ouvinte, numa obra bastante interessante de
Funeral Doom para ser escutada de
ponta a ponta, desde o clima de aventura de The Isle, passando pelo desespero de The Weedmen, culminando com a redenção em The Light In The Weed. Um discaço que felizmente me foi apresentado
pelos antenados colegas do Música
Ofensiva.
NOTA: 89
Classifique como: Doom
Metal, Funeral Doom
Para fãs de: My Dying
Bride, Cathedral, Opeth de quinhentos anos atrás
Passe longe se metal tocado à velocidade de
tartaruga sifilítica te irritar.
Nossos amigos do Ahab nas barcas, indo para Niterói
Confesso que demorei
um bocado a ceder aos encantos desse power trio alemão que faz um Retro Rock
com pitadas de psicodelia e Stoner Rock. Talvez por estar cansado das 789
bandas surgindo ao mesmo tempo praticando esse estilo, eu não tenha dado a
devida atenção ao escutar umas duas faixas do primeiro disco dos caras. Bom,
sempre há tempo para corrigirmos nossas falhas curriculares, e no caso do Kadavar minha redenção vem justo com o
novo disco, Berlin. Não precisou de
muito mais que o riff inicial de Lord Of
The Sky para me convencer que eu estava errado e diante de uma banda bem
acima da média no estilo. A cozinha tem uma ótima pegada vintage (a saber, o
batera Christoph “Tiger” Bartelt e o
baixista Simon “Dragon” Bouteloup),
as guitarras de Christoph “Lupus”
Lindemann são diretas, sempre contendo riffs grudentos e com peso na
medida. A voz do mesmo Lupus talvez
seja o ponto fraco, com aquele timbre algo Ozzy,
como em Last Living Dinosaur, que
pode afastar os mais exigentes.
Mas
ao contrário de boa parte dos grupos do estilo, e contrariando até mesmo a
impressão que o nome passa, o Kadavar
tem algo de alto astral em seu som. As faixas, quase todas abaixo dos quatro
minutos e bem legais, vão direto ao ponto, não dando tempo de enjoar do som dos
caras. Feito bastante interessante em tempos onde as bandas confundem
complexidade forçada e com criatividade. Além da trinca que abre o disco,
destacaria The Old Man, Into The Night
e Stolen Dreams acima do restante do
material da bolachinha, que cai ligeiramente de qualidade na sua segunda metade,
mas ainda assim soando interessante o suficiente para merecer uma conferida.
Algumas edições contam ainda com a viajandona versão para Reich Der Träume, faixa da carreira solo de Nico (Velvet Underground)
como um interessante bônus, mostrando uma outra faceta dos alemães.
NOTA: 82
Classifique como: Retro
Rock, Stoner
Para fãs de: Graveyard, Witchcraft,
Hellacopters, Black Sabbath
Passe longe se a onda vintage cheirar a mofo e
ervas ilícitas demais para você.
Kadavar aproveitando Floripa com a galera do Música Ofensiva
Avatarium - the Girl With the Raven Mask (Cd-2015)
Avatarium – The Girl With
The Raven Mask
Candlemass Desnatado
Quando Leif Edling anunciou
o fim do Candlemass, confesso que me senti dividido. Por um lado, uma de minhas
bandas favoritas deixaria de existir. Por outro lado, o então último disco,
Psalms From The Dead, era tão mixuruca que dava a entender que Leif encerrara
as atividades pelo motivo certo: a fonte havia secado, enfim. Qual não foi
minha surpresa quando me deparei com o anúncio do lançamento do primeiro disco
de seu novo projeto, pessimamente nomeado Avatarium (não consigo deixar de
reclamar desse nome horrendo, sorry). Lançado em 2013, o disco homônimo
mostrava um Leif revigorado, fazendo uma versão Light do Candlemass misturada
com Occult rock, psicodelia e elementos setentistas. Tudo muito bem feito e
empolgante, não tivesse escutado o disco só em meados do ano seguinte ele teria
figurado na minha lista para 2013. Quando foi anunciado esse The Girl With The
Raven Mask, fui conferir com a certeza de um grande trabalho. Infelizmente não
é o caso.
A
faixa título, um raro momento de velocidade na bolachinha, parece um remake
mequetrefe de Black Dwarf. De resto temos uma espécie de Candlemass desnatado
genérico, com aquele clima de ocultismo servindo como uma cortina de fumaça
para esconder riffs e refrões genéricos e estruturas musicais preguiçosas. Claro
que existem bons momentos, como o peso etéreo de Ghostlight e a acelerada Run
Killer Run, essa a que mais difere do restante do material, apostando mais no
clima setentista. De resto, a bela voz de Jennie-Ann Smith, cujo timbre garante
a autenticidade do som dos caras, é quem salva o material da mediocridade absoluta.
Uma pena.
NOTA: 68
Classifique como: Retro
Rock, Doom Metal
Para fãs de: Purson, Jess
And the Ancient Ones
Passe longe se não for fanboy do Leif.
Jennie-Ann, a garota com a voz bonita tenta fazer com que a gente não durma...