Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
A maior banda de HeavyMetal da história achou uma fórmula mágica tem bastante tempo:
lança um CD de estúdio, faz uma turnê para promover a bolachinha. Volta para
casa. Depois sai em turnê de novo com um repertório baseado nos clássicos do
passado. Cada uma dessas turnês rendendo um ao vivo. Que venderá que nem água,
claro. E é exatamente o registro da última Legacy
Of The Beast que temos em mãos.
Logo aos primeiros
segundos de Churchill’s Speech,
faz-se claro que a escolha de um show no México é tremendamente acertada. Público
alucinado logo de cara. E daí para diante, somos confrontados com um repertório
que mescla algumas “raridades”, como Where
Eagles Dare, Flight Of Icarus, For The Greater Good Of God e Revelations, com as faixas “exploradas ad nauseam” habituais, como 2 Minutes To Midnight, Fear Of the Dark, IronMaiden e HallowedBeThyName. Ah, e temos até tempo para o
resgate de algumas peças da era Blaze,
como SignOfTheCross e Clansman.
A produção de KevinShirley conseguiu deixar tudo bem na cara, mas com qualidade. E o
quinteto estava particularmente inspirado, até mesmo a combalida voz de Bruce viveu uma noite acima da média
atual. Nenhuma das versões aqui suplanta as de estúdio ou até mesmo gravações
ao vivo do passado áureo da banda. Mas também passam longe de soarem ruins.
Pode-se até criticar a Donzela
por supostamente diluir seu legado com uma penca de lançamentos ao vivo, alguns
pouco inspirados, ao menos se comparados aos hoje clássicos LiveAfterDeath e MaidenJapan. Mas convenhamos, em tempos passados, quando a banda não
lançava um ao vivo para cada turnê, os fãs se debatiam atrás de toscos (e
caros) bootlegs. Então, o material
oficial está aí. E dessa vez até que ficou legal. Compra quem quiser. (NOTA: 7,50)
Gravadora: EMI (importado)
Prós: uma noite inspirada da Donzela
Contras: mesmo em uma boa noite, Bruce
está soando cada vez gasto
Se na época áurea da
indústria fonográfica os discos ao vivo já eram considerados uma espécie de
patinho feio, o que dizer hoje em dia, num cenário onde nem mais os discos de
estúdio vendem e onde a profusão de imagens amadoras e profissionais dos shows
pululam quase em tempo real no youtube,
minando qualquer magia de “ver e ouvir” sua banda favorita ao vivo? Pois é. E o
cenário realmente mudou muito. Nas últimas duas décadas os discos ao vivo foram
colocados de lado em detrimento dos home vídeos, aproveitando que os DVDs vendiam bem, mas o Youtube destruiu por completo esse
mercado, o que explica a estratégia de lançamento de The Book Of Souls: Live Chapter, o enésimo disco ao vivo da Donzela
– streaming ao vivo da contraparte visual do disco, com a parte em áudio lançada
em Cd duplo (aqui analisado) e vinil
triplo.
Os dois formatos lançados para os Cds
Mas o que um lançamento desse
tipo vindo do Iron Maiden ainda pode
nos oferecer? Que o Iron é uma força poderosa em cima dos palcos, até os
detratores da banda tem que admitir. E a fórmula quase sempre é a mesma: muitas
músicas do novo lançamento de estúdio entremeadas pelos clássicos de sempre e
uma ou duas mexidas do baú da banda. Talvez o grande trunfo do novo lançamento
seja justamente a qualidade do disco em promoção nessa turnê, The Book Of Souls é, de longe, a melhor
coisa que a banda colocou no mercado desde os anos 1980. Mas será que seu
material, mais denso e sombrio que o habitual, funcionou no ambiente ao vivo? Veremos.
Disco
1:
O formato escolhido
segue a ideia que a banda executou outras vezes, de pinçar músicas de
apresentações diferentes ao redor do globo. E o primeiro disco é, de longe, o
maior atrativo no pacote. O início apoteótico com a matadora If Eternity Should Fail (pensada como música
solo por Bruce e adotada pela banda para
o novo trabalho) já sana de vez uma dúvida: como estaria a voz do baixinho após
o câncer? Perfeita, obrigado. Mr. Dickinson
está soando melhor nessa turnê do que nas três anteriores. Speed Of Light é divertida, e as antigas começam a aparecer no
repertório. Wrathchild está ok, mas
a versão matadora de ChildrenOf The Damned é quem brilha.
Death Or Glory é um petardo e
funciona muito melhor ao vivo, com ótima pegada do vovô Nicko, assim como a épica The
Red And The Black, com passagem instrumental excelente, de longe a melhor
música de Harris desde a hoje clássica
Sign Of The Cross.
E nas surradas (mas sempre bem-vindas) TheTrooper e Powerslave, pode ser notado que enfim a
fórmula com três guitarras vem sendo aproveitada em sua plenitude, os arranjos
estão diferentes e Adrian, Janick e Dave, muito mais soltos. E Tony
Newton acertou a mão na mixagem, cheia de punch e permitindo ouvir cada um dos guitarristas com perfeição.
Disco
2:
O segundo disco
começa com excelentes versões para The
Great Unknown e Book Of Souls,
comprovando novamente a força do disco mais recente. E comprovando também que definitivamente
KevinShirley não acerta a mão em estúdio com a banda, as duas músicas,
como as outras do mesmo trabalho, soam muito mais poderosas aqui do que nas
versões originais.
Daí em diante é aquilo: jogo ganho e mais do mesmo. Ok, eu seria o
primeiro a reclamar “porra, vão tocar essa de novo?” quando os primeiros
acordes de Fear of The Dark tomassem
a arena...mas logo estaria pulando junto à massa cearense de carne saltitante e
cantante. A superexposição é um problema sério, mas garanto que 90% das bandas
de metal tradicional do planeta matariam para ter uma música como essa em seu
repertório. As óbvias e sempre funcionais Iron
Maiden (Argentina), The Number of
The Beast (Wacken) e o encerramento com Wasted Years (Rio de Janeiro) entremeadas com a chata Blood Brothers. Inexplicável como a
banda insiste em uma de suas piores músicas recentes no repertório.
Veredito
da Cripta
The
Book Of Souls: Live Chapter certamente não irá rivalizar com Live After Death como melhor registro
ao vivo do Iron Maiden. Mas é muito
bem feito e divertido, capaz de lembrar ao mais cínico dos cínicos que os britânicos
sempre serão uma das melhores bandas ao vivo da história do rock pesado. Muito
bom.
NOTA:
8,50
Gravadora:
Warner Music (nacional).
Pontos
positivos: gravação excelente, ótimas performances, músicas novas funcionam
muito bem ao vivo
Pontos
negativos: a banda podia dar uma remexida mais criativa no material antigo
Iron Maiden - Run To The Hills - A Biografia Autorizada - Mick Wall
Mick Desnuda A Besta
Por
Trevas
MickWall
é meu autor favorito no que se refere a biografias do mundo do rock. Sua vasta
experiência junto a revistas como Metal HammerUk e ClassicRockMagazine, dentre outras, desde a década
de 1970, faz com que ele traga a reboque um sem número de entrevistas
realizadas com toda a nata do Rock britânico. E o que diferencia ele da
maioria de seus compadres: Mick tem
uma capacidade ímpar de tornar uma miríade de informações técnicas em uma
narrativa interessante. E o que é melhor, sem nenhum clima de tapinha nas
costas, sua língua é ferina, não caindo no lugar comum da “pelação de saco” de
artistas consagrados. Então quando vi essa biografia, de uma banda geralmente
pouco afeita a abrir seus bastidores ao mundo, corri para as colinas...ooops...
O jovem Mick brincando nas catacumbas com Jimmy Page
Logo
de início, MickWall avisa de bate pronto, com o IronMaiden o que você
vê é o que tem para ser visto. Não há arroubos de estrelismo ou histórias que
fariam Calígula orgulhoso, apenas caras normais e talentosos que trabalham duro
e acreditam numa visão. E assim começa o livro, centrado na hercúlea missão de
tornar um bando de jovens em uma das maiores forças da natureza da história da
música: A obstinação de SteveHarris, a lealdade canina da banda para
com seu líder, a visão e honestidade de RodSmallwood. Tudo muito bem documentado em uma narrativa gostosa e interessante.
Existem episódios
surpreendentes, como a estúpida rusga com o JudasPriest por uma
declaração arrogante feita em tom de brincadeira pelo linguarudo PaulDianno. O apoio surpreendente de outro linguarudo (GeneSimmons) a uma então emergente e jovem banda. Surpreendente também
se faz o fato do quanto os encontros mais importantes para a banda em seus
primórdios (Rod, MartinBirch) ocorreram de forma quase acidental.
Você está demitido!!! Steev Harris, o sargentão de bom coração e mola mestra do sucesso da Donzela
Aprendemos
também que a tão incensada NWOBHM de
fato nunca existiu como movimento, não passava de um balaio de gato de bandas
de origens e intenções diferentes, bem semelhante ao Grunge nos anos 1990, e que nem as figuras clássicas envolvidas no
movimento acreditavam nele (nem o mítico GeoffBarton), e que ele era encarado como
uma espécie de piada por todos (bandas, fãs e imprensa).
Impressiona
a honestidade de PaulDianno em admitir que estragou por
completo uma chance que milhares de jovens sonhariam em ter. O quanto a loucura
obstinada de seu hiperativo substituto se tornou o elemento essencial para o
salto de qualidade e imprevisibilidade que a banda necessitava para saltar de
uma realidade na Grã-Bretanha para uma das maiores bandas de rock do planeta.
E é justamente no
capítulo em que Bruce entra na
equação que a já interessante narrativa também ganha um imenso salto de
qualidade. A mente criativa e sarcástica do baixinho eleva o pacote repleto de
informações históricas importantes, mas até então certinho demais, para algo
mais próximo do clássico Eu Sou Ozzy.
A diferença é que as estripulias do jovem e arrogante Bruce eram bem menos voltadas para o uso de entorpecentes, ainda
que em alguns momentos, até mais perigosas, como quando ele arquitetou uma
vingança contra os bullies de seu
internato com uma armadilha feita de minas reais.
Iron Maiden, pós retorno
Talvez
o grande problema com o livro seja o fato de que Bruce e Nicko só
aparecem da metade para o final da narrativa. A época de ouro do IronMaiden tem muito menos espaço do que os primórdios. Talvez por
representar um período já muito bem explorado em outras obras, não sei. E a
partir daí RunToTheHills decai. Da chegada de Bruce (e o excelente capítulo a ele dedicado) em diante, a narrativa fica bem
menos elaborada, tudo acontece em saltos temporais, sem a profundidade da primeira
metade do livro. E os capítulos finais, já relacionados aos bastidores do
retorno de Bruce e Adrian, além das gravações de BraveNewWorld e DanceofDeath, trazem um tom
de adulação incomum às obras de MickWall.
Mas
o que diferencia mesmo a história do IronMaiden de outras 789 bandas que
atingiram o estrelato é a postura: todos que um dia já se envolveram com os
caras são unânimes em dizer o quanto eles não tinham as frescuras típicas de
astros do rock, o quanto sempre foram extremamente críticos e profissionais, e
o quanto lutaram contra tudo e todos por acreditar em uma visão. Nenhum
deslumbramento, nenhuma concessão, pode-se gostar ou não do que os caras fazem
até hoje, mas tenha certeza, eles fazem exatamente o que querem.
Sobre
a edição analisada, a tradução é bastante precisa, e salvo alguns erros bem
esparsos de revisão, temos um texto bastante bem trabalhado. Uma pena que a
capa aproveite a péssima arte gráfica de Dance
Of Death, o então mais recente disco da banda.
Temos
em mãos simplesmente o mais completo (ainda que imperfeito) registro da
trajetória da maior banda de HeavyMetal que já existiu.
NOTA: 7,50
Iron Maiden – Run To The
Hills – A Biografia Autorizada
Bah, os infortúnios dessa existência. Sabe quando você tem noção de que um show vai ser imperdível e que deveria fazer de tudo para comparecer ao mesmo, mas ao mesmo tempo o universo parece conspirar para que você fracasse em sua missão. Pois bem, esse foi o caso com o show do Iron. Por sorte, um grande amigo e Maidenmaníaco, Señor Freddy Krill, biólogo e professor de respeito (sic), tornou-se o enVIADO especial da Cripta nas longínquas terras da Barra da Tijuca, e nos contou o que aconteceu por lá. resta agradecer ao cabrunco (e à Srta Claudia Speroto) e passar um pouco mais de gelol nos meus doloridos cotovelos.
Divirtam-se!
Trevas
INTRO:
ENFIM, CHEGOU NOSSA VEZ!!!
(texto por Freddy Krill, fotos por Krill e Claudia Speroto)
Desde
que o “The Book of Souls” foi lançado, em setembro/2015, que a
expectativa criada por uma nova turnê por estas plagas só fazia aumentar.
Enfim, sai o anúncio oficial: a 11ª passagem da Donzela pelo Brasil está
CONFIRMADA! Começou a vender? Compramos! Seria meu 10º show (só não estive
presente ao épico concerto do Rock in Rio de 1985)...
Nota do Trevas: o equivalente Krillzístico do Santo Graal
A
banda resolveu enveredar por um caminho muito progressivo, desde o “Dance
of Death”. Composições longas, complexas e de difícil palatabilidade
(por vezes) arrefeceram aquele entusiasmo juvenil pela minha banda predileta.
“The
Book of Souls” não fugiu a essa “nova” regra... É Iron Maiden, mas não
é “aquele” Iron Maiden de antanho... Enfim... Sem muitas digressões...
Depois de toda a zika
(com bastante trocadilho) envolvendo a perna sul-americana da turnê (Ed Force
One avariado no Chile; Eddie levando um tombo no palco na Argentina), CHEGOU O
DIA!!! Como tudo aqui na terra de Big
Foot “tá tranquilo, tá favorável”, no mesmo dia a Barra teria Simply Red
(no redivivo Metropolitan) e Wesley Safadão (no Barra Music). Aquele trânsito,
maravilhoso por ele, foi tornado ainda mais gostoso pelas obras olímpicas... Alternativa?
Sair muito cedo de casa! Após um curto trajeto Tijuca-Barra de 1:35h pela Linha
Amarela, chegamos!!! Estacionamento fácil, mas um curral insano, onde todos
eram separados de acordo com sua lotação, para serem reunidos na rampa de
acesso e separados DE NOVO lá em cima...
Praticamente um senhor de idade, pagando esse "Kong" (foto por Claudia Speroto)
THE
RAVEN AGE: Nada como ser filho do homem...
Originalmente
previsto para iniciar às 19h, eram ainda 18:48h quando o THE RAVEN AGE, banda de
George Harris, filho caçula do “The Boss” adentrou o palco. De cara, o
baterista Jai Patel inicia uma surra impiedosa nos surdos, enquanto rolava a intro no background. A banda entra e... A impressão era estar num show do
famigerado Avenged Sevenfold!!! Tá certo que não há novidades no metal, mas... Aquela
batida pesada e pegajosa, que não empolga nem dá vontade de botar pra correr do
palco...O vocalista Michael Burrough (que veio com um visual de Jack Bauer - felizmente não foram 24h de show!) canta bem, de verdade. George na guitarra solo é muito eficiente! Seu parceiro Dan Wright e o baixista Matt Cox mostram que a banda tem MUITO potencial, mas precisa urgentemente encontrar um norte! Um set curto, com menos de 30 minutos de duração, em que tocaram seu EP (auto-intitulado) na íntegra (mais uma música), que agradou as meninas e os fãs-não-tão-troos-de-coração-de-melão...Lauren Harris nos deu o Richie Faulkner. Talvez eles façam melhor daqui para frente...
- Nota: 6,5.
- Indicado para: quem curte A7X.
- Fuja se: você não admite nepotismo e/ou “meritocracia”.
ANTHRAX:
Baixei o “For All Kings” só pra irritar o Scott Ian…
Quando
estiveram por aqui, não consegui ir. Sempre por captação deficiente de ativos
voláteis no mercado financeiro... Mas dessa vez não escaparam! Após uma rápida
preparação, eram 19:50h quando os bacilos mais extremos do thrash pisaram o
palco! Pra começar, entra o onipresente John Dette na bateria, substituindo o
operado/convalescente Charlie Benante (que sofre de síndrome do túnel do
carpo... ÓTIMO para um baterista!). Antes de qualquer coisa, e por dever de
justiça: TOCA MUITO!!! Aliás, ele detém o recorde mundial de se apresentar com
o Anthrax e o Slayer NA MESMA NOITE!!!... Estrearam o novo guitarrista solo
Jonathan Donais, absolutamente preciso!
Isto
posto, vamos ao show: começam logo mandando três petardos absolutos: Caught In A Mosh, Got The Time e Antisocial!!!
Suores heteros rolaram pelas minhas vistas... Scott Ian, cada vez mais careca e
barbudo... Frank Bello, cada vez mais insano e ritmado... Joey Belladona (O VOCALISTA do Anthrax! – sorry Neil
Turbin, John Bush & Dan Nelson...), cada vez mais com o cabelo parecendo
arame... Seguiram mandando Fight ‘em ‘til
You Can’t (do Worship Music, originalmente gravado pelo Nelson mais bizarro
citado acima...), Evil Twin (do novo For
All Kings), Medusa (Spreading
the Disease) e Breathing
Lightning (For All Kings). Para encerrar, o mega clássico Indians, em que alguns mosh-pits foram abertos, para desespero
de velhos rock’n’rollers presentes na
Arena... Faltaram Madhouse e I Am The Law, mas não se pode ter
tudo... Prometeram voltar em 2017 para um show completo...
-Nota:
9,0.
-Indicado
para: bangers velhos, senis e
decrépitos como eu.
À
medida que se via o palco sendo preparado, aumentavam a expectativa e o “amassation of the wicked”... Black
Sabbath & AC/DC rolando baixinho no som da Arena tornavam o clima mais
elétrico. Até que, às 21:15h... DOCTOR DOCTOR entra rugindo nas caixas! Todo
Maidenmaníaco SABE que (1) Esta
música prenuncia a entrada da Besta; (2) Steve Harris morre de raiva de não
tê-la composto; (3) Steve Harris morre de raiva de ter colocado o Blaze para
cantá-la...
Tensão máxima... O palco é liberado dos panos que cobrem os adereços... Um templo Maia surge. Sobre a bateria, uma pira começa a soltar fumaça... É a deixa para um etéreo Bruce Dickinson iniciar If Eternity Should Fail quase Acapella... Se alguém tinha dúvidas de que o câncer descoberto após as gravações do novo disco (quem mandou botar a boca onde DEVIA???) teria detonado sua voz... Nada! Confira no vídeo:
Na
sequência vem a mais rápida e enérgica do “Book”: Speed Of Light, seguida por uma belíssima (e cada vez mais
indispensável) Children Of The Damned,
em que o duo Smith / Dickinson prova ser IMPRESCINDÍVEL à Donzela! Tears Of A Clown homenageia Robin
Williams, enquanto The Red And The Black
mostra um vigor ao vivo insuspeito na gravação!
The Trooper (uma
das eternas do set) e Powerslave (meu
mega clássico absoluto!) provam que o passar dos anos em nada tirou seu brilho,
peso e adoração por parte dos fãs!
(Uma
bandeira Brasileira é atirada no palco. Bruce a pega, abre, diz que a tem visto
muito na CNN e que “espera que os ‘bad
guys’ se fodam, quem quer que sejam”... Difícil saber por quem começar...
Os ‘good guys’ certamente estão entre
os ‘worse guys’... O Tempora, O Mores...).
Death Or Glory é muito boa, mas poderia ter dado lugar a outra mais antiga... (The Evil That Men Do ou Killers... Sempre vou esperando por esta última... Sei que não rolará, mas vai que...). Daí vem a faixa título e, como dito por Bruce, a “última do disco novo que tocaremos”... Uma daquelas faixas destinadas a virar clássico eterno, que depois dessa turnê nem eles sabem se voltará a ser apresentada... Hora do Eddie no palco (sem tombos!) e Bruce Dickinson: Vocalista, Historiador, Esgrimista, Piloto Profissional de aviões comerciais e Cirurgião Cardíaco:
Pausa.
Um sino começa a tocar junto ao dedilhado de Dave Murray. Hallowed Be Thy Name chegou! É de longe a minha predileta do “Number”.
Bruce se enforca cenograficamente sobre a bateria, surrando os pratos com a
corda durante o solo e regendo um extático e abarrotado HSBC Arena. Nunca mais a
tirem do set, seus putos!!!
Fear Of The Dark é aquela
que digo não aguentar mais... Junto com The
Trooper e TheNumber Of The Beast, está em TODO set, de todas as turnês... Faço
beicinho, digo que não canto / pulo mais, mas... Ôô.. ôôôôôô... ôôôôôô...
Iron Maiden traz o segundo Eddie. Hino absoluto.
Profusa distribuição de brindes. Após segundos de intervalo, aquela voz cavernosa proclama “Woe to You, O Earth and Sea (…)” enquanto um Capetão inflável sobe no fundo do palco. É hora de The Number Of The Beast:
Blood Brothers segue
após um discurso de Bruce, proclamando que “Impérios se levantam, mas sempre
caem! O que permanece são os laços de sangue, porque nós somos Irmãos de
Sangue!”. Certamente uma das melhores do Brave New World, e muito bem
recebida por um público já cansado, mas disposto a mais!
So, understand... Don’t waste
your time… Wasted Years
fecha de forma improvável o show, após quase duas horas ininterruptas! Sorrisos,
agradecimentos, fotos, palhetas, peles, munhequeiras, baquetas, tudo voa… E
voltamos para casa certos de mais um espetáculo que só senhores sessentões
(quase todos) sabem proporcionar.
Bruce
Dickinson é Bruce Dickinson, Dave Murray é Dave Murray. Sem mais. Adrian Smith
é a cola que une a banda. O melhor e mais técnico dos guitarristas, melódico e
absolutamente preciso nas composições, linhas base e solos. Simples assim... Janick
Gers? Claro... Está lá! Neste show fez muito menos presepada... Rodou a
guitarra nos braços, jogou pro alto, pegou... Zoou o Eddie... O de sempre...
Mas nos solos... PQP... O “Ovelha bem nascido” DEBULHOU como NUNCA vi!!!...
Steve Harris, com seus 60 completos e cabelos escuros tal qual um adolescente
cavalga as quatro cordas, corre de um lado pro outro, faz backing vocal... O HEAVY METAL SÓ MORRERÁ COM ELE!!! Lemmy &
Dio Live Forever!!! Nicko McBrain é o enfermo de sempre! Técnico e preciso, mas
lamentavelmente cada vez mais lento, compensando com doses cavalares de mão de pedra
na bateria.
Outubro de 1995. Um
jovem Trevas, no último ano do segundo grau se encontra longe da sala de aula,
em casa e enfermo com quase 40º de febre somado a muita dor no corpo e náuseas.
A tarde está surpreendentemente fria e chuvosa. Meu sono é então interrompido pela ligação de um amigo: “cara, acabou de chegar o novo disco do Iron Maiden aqui numa loja da Tijuca”.
Trevas respira fundo, e ciente da responsabilidade que acomete um homem com uma
missão, coloca seus tênis e um moletom velho, rumando debaixo de chuva para o
referido bairro, atrás de X Factor,
o primeiro disco da polêmica fase com Blaze
nos vocais.
X Factor tirou um Trevas zumbi de casa
Bom citei esse episódio para mostrar o quanto o Iron Maiden já significou para mim no passado. Não foi minha
primeira monomania juvenil (essa foi o Queen),
mas certamente foi a mais forte e que durou mais tempo. Logo depois viria Virtual XI para derrubar o tabu, e a
ruindade daquela obra me fez ver o óbvio, o Iron tinha defeitos, era uma banda mortal, como todas. Acabara a
era da inocência e nada mais foi como antes. De repente, músicas horríveis como
Gangland, Back In The Village, The
Assassin, Quest For Fire,
saltaram aos meus olhos. Não, nunca antes eu admitiria que o Iron em sua fase
áurea tivesse pecados tão graves. Ah, a realidade. Bom, o tempo passou, e nem
mesmo o retorno de Bruce e Adrian à banda com o legalzinho Brave New World conseguiram reavivar
minha adoração pela Donzela. Seguiram-se o razoável Dance Of Death, o bom (com boca murcha, como diria um amigo) A Matter Of Life And Death e então o
péssimo Final Frontier e minha
certeza de que o Iron jamais faria
algo realmente marcante de novo só se fortalecia.
Brave New World, um enganoso retorno à boa forma
Bom,
então quando foi anunciado que o Iron
lançaria mais um disco, novamente produzido por Kevin Shirley e dessa vez em formato duplo e batendo 90 minutos de
duração, não poderia ter ficado menos empolgado. Confesso que nem o confronto
com a morte travado por Mr. Dickinson
foi capaz de me sensibilizar em relação ao futuro lançamento. Sou um rato de
resenhas, o que aliás me fez criar esse blog, e já andava suspeito de que algo
mudara ao esbarrar com palavras de outros ex-maidenmaníacos e atuais detratores
da banda elogiando sem piedade o novo disco. E quando finalmente a banda soltou
a música de trabalho, Speed Of Light,
as suspeitas aumentaram. Não, a faixa não é nada excepcional, mas soa muito
melhor que suas primas recentes (Different
World, a pavorosa Eldorado e
congêneres). Sim, há algo a mais ali. Talvez dessa vez eu esteja enganado. E lá
fui eu, pela primeira vez em muitos e muitos anos, conferir com alguma
expectativa um novo trabalho da banda mais amada da história do metal.
Disco 1
O
início psicodélico de If Eternity Should
Fail causará pavor àqueles que ainda tem na memória a péssima Satellite 15 do disco anterior. Graças
à Odin a música logo se desenvolve para algo pesado e sombrio que muito mais se
aproxima ao material solo de Bruce
do que aos discos recentes da donzela (não por acaso é uma composição assinada
exclusivamente por ele e até o trecho narrado ao final parece saído de Chemical Wedding). Um excelente início
que de cara pôs em dúvida minha crença de que eu estaria com mais um cd para
cumprir tabela em mãos.
Eddie de peito aberto para os fãs...
Speed Of Light, primeira música de trabalho, fruto da parceria
entre Bruce e Adrian, é simples e direta. Bobinha até. Mas muito melhor que suas
concorrentes dos discos anteriores, com bons solos, um refrão bacana e até
mesmo um curioso cowbell!! Só que nela já podemos ver dois probleminhas na
bolacha: 1. Bruce está penando nos
tons mais altos, está soando feio e forçado em alguns momentos. 2. Kevin Shirley não acerta o som do Iron,
em alguns momentos dá a impressão que estamos com uma demo boa em mãos.
The Great Unknown já tem aquela estrutura típica das
faixas atuais do Iron, e incomoda um pouco em alguns momentos devido à
insistência de Bruce em trabalhar em
tons visivelmente desconfortáveis para sua voz. Mas ainda assim está acima da
média atual da banda e novamente trabalha com um clima sombrio, que parece ditar
a norma aqui, e tem belas obras de guitarra.
Única faixa exclusiva
de Steve Harris na bolachinha, The Red And The Black é também sua
melhor obra desde Sign Of The Cross.
Um épico de 13 minutos com trechos de belas guitarras e um coro que clama por uma
multidão empolgada em um estádio. When
The River Runs Deep abre com algo de Moonchild
e logo se mostra um rockão mais direto, bastante bom, por sinal, com ótimo
refrão e variações interessantes de andamento.
Bruce descansando após chutar a bunda de um câncer
O
primeiro disco se encerra com a faixa título, um épico pesado e bem inspirado,
com elementos sinfônicos bem encaixados e que certamente fará parte dos shows
vindouros.
Disco 2:
A segunda bolachinha
começa com o pé no acelerador em outra parceria entre Bruce e Adrian chamada Death Or Glory, baseada nos embates
aéreos da primeira guerra. Uma faixa empolgante com belos trechos de guitarra e
que vai na contramão do material mais recente da banda. Shadows Of the Valley é a contribuição de Gers no disco, em conjunto com Harris,
uma música bastante legal, que quase falha no resultado final por conta da voz
de Bruce, novamente rateando nos
tons altos. Tears Of A Clown é a já
tão falada música inspirada no suicídio de Robin
Williams. Quase radiofônica, é outra que deve muito mais aos discos solos
do Mr. Dickinson e possui um refrão
bem grudento e sua aparente simplicidade engrandecida por um andamento algo
quebrado.
Iron Maiden 2015
The Man Of Sorrows tem um teclado irritante (para que
tanto teclado fazendo camas desnecessárias numa banda com 3 guitarras???) e
algumas passagens desinteressantes atrapalhando seu bom refrão, fazendo dela a
menos inspirada de todo o disco.
Empire Of the Clouds, a ópera rock de Bruce sobre o acidente com um dirigível
na década de 1930 vem dividindo opiniões. E dá para entender o motivo, seus longos
dezoito minutos de duração tem lá seus altos e baixos. Bruce ao piano cantando em sua primeira parte é de uma rara beleza
e mostra que o britânico ainda tem muita lenha para queimar e serve ainda para
os detratores que reclamam da banda nunca ousar ficarem com uma pulga atrás da
orelha. Mas talvez algumas passagens instrumentais pudessem ser encurtadas, e a
performance do vocalista no momento da catástrofe, repleto de drama e novamente
em tons muito altos, quase põe tudo a perder. Por sorte esses trechos não
comprometem o todo e a música se encerra de forma bela e apoteótica, findando
com ela os pouco mais de 90 minutos do Livro Das almas.
Bruce espreitando o horizonte
Saldo Final
Não,
The Book Of Souls não vai
ressuscitar seu amor juvenil pela banda, os tempos são outros tanto para os fãs
antigos quanto para os combalidos britânicos. Mas se esse não for o disco a
recuperar ao menos um pouco o respeito do grande público pela maior banda de
Heavy metal da história, não sei que disco o fará. Imperdível.
NOTA: 86
Prós:
O
melhor e mais equilibrado disco do Iron em décadas.