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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Motörhead – Live At Brixton Academy (CD Duplo – 2019)



Boneshaker Redivivo
Por Trevas

Lemmy sempre lutou contra os abusos das gravadoras no lançamento de caça-níqueis que exploram os fãs da banda. Com ele adornando o mármore do inferno, qualquer amarra que segurasse esses lançamentos se afrouxou. Então cabe aqui um aviso importante aos colecionadores desavisados: Live At Brixton Academy nada tem a ver com o clássico show de 1987. Trata-se na verdade do relançamento de uma edição dupla da contraparte sonora de Boneshaker, o DVD,  gravado em 2000 na turnê comemorativa de 25 anos do trio. Originalmente o DVD de Boneshaker (lançado em 2001 com o subtítulo: 25 & Alive) vinha com um CD encartado, contendo apenas 17 das 23 faixas que compunham o show. Em 2003 a edição completa do show apareceu pela primeira vez em CD duplo, mas em uma edição que saiu em poucos países, sem o nome original (e criminosamente sem a arte de Joe Petagno) de Boneshaker, um item relativamente difícil de encontrar.

Boneshaker, o DVD com o CD bônus

O que temos em mãos é uma nova prensagem, agora de ampla distribuição, dessa edição, com a capa em slipcase trazendo apenas o nome da banda e uma foto da mítica casa de shows. Ao todo são as 23 faixas de um dos shows mais legais já registrados oficialmente pela banda. O repertório traz muita coisa dos anos 1990 e da então nova era da banda (Sacrifice, We Are Motörhead, Snake Bite Love, Overnight Sensation...) mescladas aos clássicos imortais e algumas faixas antigas não tão óbvias. Como se tratava de um show comemorativo, alguns improváveis personagens foram convidados ao palco, com destaques para Whitfield Crane, Doro, Fast Eddie Clarke e Brian May. Isso sem contar a participação dos filhos de Phil Campbell e do próprio Lemmy.


A festa bem poderia ter resultado numa zona completa, mas não, o que ouvimos aqui é um deleite sonoro para fã nenhum do Motörhead botar defeito. E o fato do excelente resultado final ter sido obtido com um repertório que não se baseava somente nos clássicos da fase mais incensada da banda serve para nos lembrar do quão subestimada era a formação Lemmy + Phil + Dee. Um caça-níquel da melhor qualidade, feito para ser ouvido no talo! (NOTA:10)

Gravadora: BMG (importado)
Prós: é Motörhead
Contras: se você é um Ned Flanders e gosta de AOR, passe longe!
Classifique como: Motörhead
Para Fãs de: Motörhead!!!!


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Lemmy: A Biografia Definitiva – Mick Wall (EBook – 2017)

Lemmy: A Biografia Definitiva

Verrugas Desnudas
Por Trevas

Versão em EBook da biografia lançada em formato físico em 2016, Lemmy cumpre o que promete em seu arrogante subtítulo. Talvez por ter como grande trunfo o autor, Mick Wall, que se relacionou por 35 anos em três esferas diferentes com o mítico líder do Motörhead: seja como jornalista, seja como assessor de imprensa da banda (ainda que por um tempo não muito extenso), seja como amigo pessoal. Sim, Mick tem em seus arquivos dezenas de horas de entrevistas com todos os principais atores envolvidos na história de uma das bandas mais icônicas do panteão do rock pesado, e utilizou esse material com a habitual maestria.

Mick Wall, o desgraçado que conheceu muito bem quase todos os grandes da história do rock


E, que fique bem claro, se ainda não ficou pelo título autoexplicativo: o livro é centrado na figura de Ian Kilmister, e, ainda que suas desventuras em muito se confundam com a história do Motörhead, há muito mais envolvido no livro do que a trajetória de uma das mais infames bandas do mundo. Impossível não se deliciar com os causos, muitas das vezes narrados sobre o ponto de vista do próprio Lemmy, por vezes com o contraponto de outras pessoas que viveram os mesmos. Mick, que declina (como sempre) a fazer o papel de mero adulador, desde o início já avisa ao leitor que Lemmy, um magistral contador de histórias, era capaz de contar o mesmo fato ano após ano, sem que a narrativa ou exatidão dos fatos se repetisse. Muito longe da imagem unidimensional do roqueiro ogróide, ele era mestre de “melhorar” os causos, e o fazia tão bem que passava a acreditar em sua mais nova versão, mesmo que essa versão fizesse ele parecer um ser humano pior do que realmente era. E muitas vezes temos a forte impressão, alimentada pelo próprio escritor, de que nosso anti-herói favorito se via preso, em uma torre de solidão hedonista, a um personagem de sua própria criação. E esse parece o único denominador comum entre as teias de depoimentos de amigos, desafetos e ex-colegas de bandas: o de que ninguém era capaz de criar e alimentar a própria mitologia tão bem como Lemmy Kilmister. E a nós, leitores, resta se deliciar com a sórdida riqueza dessa mitologia, no melhor livro sobre o Motörhead e seu capitão disponível no mercado. Vida longa à Lemmy Kilmister.


NOTA: 8,50


Lemmy: A Biografia Definitiva – Mick Wall
Editora: Globo Livros (EBook)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Motörhead – Under Cöver (Cd-2017)

Motörhead - Under Cöver (Cd-2017)

O Baú do Tio Crocotó!
Por Trevas

Under Cöver é o segundo lançamento póstumo do Motörhead, e ao menos tem uma ideia não tão gasta por detrás: uma compilação de covers que Lemmy e companhia fizeram ao longo da carreira. Como todo bom caça níquel, o catadão precisaria de algo inédito para chamar a atenção dos fãs de carteirinha da banda, que provavelmente já terão quase tudo incluso nesta bolachinha, certo? Certo. E existem duas faixas inéditas aqui, uma delas uma improvável versão para um dos maiores clássicos do recém falecido David Bowie, além de mais uma das homenagens do Tio Crocotó a seus amigos da maior banda punk da história, os Ramones.  O disco está disponível desde início de setembro no Spotify, e deve ganhar as prateleiras tupiniquins em breve. Vamos ao que interessa.


Catadão Fenömenal!

Com tanta música boa no repertório do Judas Priest, poderia soar broxante a escolha de Breaking The Law, a faixa mais batida da banda, para o Motörhead coverizar. Mas, convenhamos, ela é simples e direta, a cara de Lemmy e sua trupe. Só consigo pensar em como Grinder ficaria. Ela já havia parecido antes no tributo Hell Bent Forever e a despeito da escolha óbvia, ficou bem legal. God Save The Queen tem até videoclipe (ver abaixo) e era uma das muitas pérolas no subestimado We Are Motörhead. Arrisco dizer que é bem mais legal que a versão original.


E se um disco póstumo já soa quase sempre como oportunismo barato, o que pensar dum disco póstumo que contém uma cover inédita para o maior clássico de outra celebridade recém falecida? Pois é, é o que acontece com Heroes, do David Bowie. A versão que aparece aqui é bem legal, ainda que a fragilidade de Lemmy esteja estampada ao longo de seus pouco mais de quatro minutos. Uma escolha surpreendente e que sabe-se lá como, acaba funcionando. Seguindo a mesma lógica, Starstruck esteve presente no excelente tributo póstumo ao baixinho Ronnie James Dio, amigo pessoal de Lemmy. A música, um bem escolhido lado B do Rainbow, funcionou que é uma beleza naquele tributo. Naquela versão o próprio Lemmy, sabedor de sua limitação vocal, deixou os mesmos com o “parça” Biff Byfford, do Saxon. Já na versão aqui presente a mixagem é diferente da que consta em This Is Your Life, pois Lemmy aparece no refrão. Serve de curiosidade, mas ficou melhor só com o Biff. Sorry Lem


Como qualquer catadão que se preze, temos mais de uma formação da banda aparecendo no disco. Mais especificamente o falecido Würzel aparece em dois números, ambos originalmente contidos no injustamente massacrado March Ör Die, de 1992. O primeiro é a música mais emblemática de um dos artistas mais babacas do rock estadunidense, o infame Ted Nugent, Cat Scratch Fever que é divertida e ficou bem legal. Já o segundo não é exatamente um cover. Hellraiser é uma das músicas que Lemmy compôs para um desesperado Ozzy incluir no seu maior sucesso comercial, No More Tears. Segundo o tio crocotó, ele ganhou mais dinheiro fazendo essas músicas para o comedor de morcegos do que com a carreira inteira do Motörhead.



E por falar em dobradinhas, os Rolling Stones aparecem em dois números por aqui também. Chega a ser curioso que Lemmy, fã declarado de Beatles e que em sua biografia zombara da fama de bad boys dos Stones, tenha tanto apreço pelo som dos caras. Mas quem ganha com isso é a gente. Jumpin’ Jack Flash, que aparecera originalmente no excelente Bastards, ficou matadora. Já Sympathy For The Devil poderia ter ficado bem melhor que a original, se a turma tivesse tido a sacada de limar os chatos “uh-uh” que, sabe-se lá por escolha de quem, infernizam nossos ouvidos desde o longínquo Beggars Banquet, de 1968.

Motörhead nas sessões de fotos para Bad Magic, Lemmy já no puro osso
Mas se o apreço pelos Stones pode ter pego muitos de surpresa, uma homenagem aos Ramones por parte de Lemmy se fazia quase obrigatória. As duas bandas viviam trocando elogios e camaradagens, a despeito das desavenças eventuais com o coxinha Johnny. Rockaway Beach é a segunda pérola inédita no catadão e obviamente funciona bem, como se imaginaria, em se tratando de Motörhead tocando Ramones. E o que dizer do trio encarnando Shoot’em Down do igualmente divertido Twisted Sister? Irresistível? Sim ou claro?

O Metallica diz ter sofrido muita influência do Motörhead em sua sede por criar algo feroz e veloz. E na faixa que encerra o disco, Lemmy desconstrói Whiplash e a transforma em algo que claramente podia estar em Ace Of Spades e/ou Overkill. Matadora.


Saldo Final

Under Cöver é o que é. Um catadão repleto de material já conhecido confeitado com duas cerejas inéditas. Impossível maquiar a cara de caça níqueis. Mas, porra, Motörhead foi uma das bandas mais descompromissadas e divertidas da história do rock e sabia como ninguém converter as músicas dos outros para seu estilo inimitável. Impossível não balançar a cabeça e bater o pé ao som dessa compilação. Ponha para rodar, esqueça a rabugice e relembre que temos que ser gratos por termos vivido neste planeta hostil na mesma época que o Motörhead!


NOTA: 8,71


 
Gravadora: Warner Records (Nacional).
Pontos negativos: ok, é um caça níquel descarado.
Pontos positivos: Quem se importa?
Para fãs de: Motörhead, claro
Classifique como: Rock and Roll



domingo, 13 de dezembro de 2015

Curtas: Royal Thunder, Kahbra, UFO e Motörhead





Royal Thunder - Crooked Doors



Royal Thunder - Crooked Doors (Cd - 2015)

Um Estranho e belo segundo rebento

O sucessor de CVI, um dos discos do ano de 2012 para esse escriba, me soou a princípio uma decepção. Time Machine, faixa de abertura, é uma belíssima canção dramática e épica, mas o resto do material falhou em me impressionar nas primeiras audições. Sorte que depois de um tempo retornei a esse álbum com a devida atenção. A banda está menos pesada e apostando um bocado mais em sua verve noventista. Enquanto The Line, Floor e Ear On The Fool (com algo de Mastodon) fazem menção ao peso sabbathico da estreia, Wake Me e Forget You trazem uma mistura de psicodelia e peso alternativo que lembram alguns momentos do Soundgarden, caso a banda tivesse como vocalista Johnette Napolitano, do Concrete Blonde. Sim, Mlny Parzon continua cantando muito, e sua voz não somente se ampara nos potentes gritos, como podemos ouvir em One Day e nas duas partes de the Bear, que fecham de maneira etérea um disco repleto de detalhes que talvez não ganhem a devida atenção da geração do imediatismo.

NOTA: 83

Royal Thunder longe de despencar no penhasco
                                                                              

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Kahbra

Kahbra - Kahbra (Ep - 2015)

Goat Rock, babe!

O Ep de estreia da banda carioca que define seu som como Goat Rock é uma bela surpresa. No geral a banda aposta num Stoner com pitadas de Doom e Retro Rock, tudo com influências bem dosadas. Drown lembra um Graveyard mais cru, com a voz de Jonas Araújo (também baixista e que faz uma bela cozinha com Denys Melo) soando um pouco como Eric Wagner (Trouble). Elementos psicodélicos dão um tempero bacana à boa Giant’s Dream e as guitarras de Igor Fabbri e Julio Latorraca mostram o devido respeito à Tony Iommi em What I Lost (que também me lembrou os bons momentos do Down e Orange Goblin). São apenas quatro faixas, mas que servem de um promissor cartão de visitas dos ditos Goat Rockers.

NOTA: 75

Kahbra bandcamp

Goat Rock Fever

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UFO - A Conspiracy of Stars


UFO - A Conspiracy Of Stars (Cd - 2015)

Objeto Voador ancião se recusa a pousar

E quem poderia apostar que os veteranos do UFO ainda teriam tanta lenha para queimar? O quinto disco dos britânicos desde que o virtuose estadunidense Vinnie Moore preencheu com inesperado louvor o espaço deixado pelo Semi-Deus Michael Schenker é talvez o melhor da (não tão) nova fase. Recheado de grandes riffs e solos e com a voz encardida do sexagenário Phil Mogg destilando letras e melodias igualmente encardidas, não há nenhum minuto desse Conspiracy que não soe inspirado. Uma pena que o UFO pareça relegado ao segundo plano na história da música, mesmo tendo uma discografia das mais consistentes e muito mais rock nas veias que a grande maioria dos “monstros sagrados” que rastejam por aí. Discaço!

NOTA: 84

Esses velhinhos cascudos ainda podem enterrar você

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Motörhead - Bad Magic



Motörhead - Bad Magic (Cd - 2015)

Ainda longe de desligar os aparelhos

Mais uma vez envolto num manto de preocupação em relação ao estado de saúde de seu líder, o lendário e infame Lemmy, o Motörhead faz de seu novo disco um portentoso “dedo do meio” na fuça dos carcarás. Os únicos cadáveres a serem velados aqui são os dos nossos tímpanos, atacados com fúria punk por petardos como Victory Or Die (que traz uma singela homenagem ao Metallica em um de seus riffs) e Thunder & Lightning (não, ela não ficaria deslocada em We Are Motörhead). Os flashbacks de Heavy Rock dos anos 1970/80, que engrandeceram Aftershock, estão presentes em FireStorm Hotel e nas excelentes Devil e Evil Eye (essa última traz em seu refrão a referência ao título do disco). Ah, e nem mesmo a escolha da batida Simpathy For the Devil consegue disfarçar o fato de que um Motörhead moribundo ainda tem muito mais tesão pela vida que 99,99% das bandas do universo conhecido.

NOTA: 84

Com o pé na cova, mas melhor que você

terça-feira, 28 de abril de 2015

Monsters Of Rock 2015 - Arena Anhembi - São Paulo (25 e 26.04.15)



Monsters Of Rock 2015
Texto e fotos por Trevas

Realizado nos dias 25 e 26 de abril na Arena Anhembi, o festival desse ano focou seu cast majoritariamente em bandas veteranas, apostando num público um pouco mais velho (e potencialmente mais apto a consumir). Separei a resenha em duas partes, a primeira focada na estrutura em si, a outra nas performances das bandas.

PARTE I – O FESTIVAL

O festival Monsters Of Rock, marca famosa na Europa da década de 1980, sempre esteve diretamente correlacionado ao heavy Metal e Hard Rock. Aqui no Brasil, foi realizado algumas vezes na década de 1990, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. Assisti duas edições, a última em 1998. Essa edição foi apoteótica, contando com Korzus, Dorsal, Glenn Hughes, Saxon, Savatage, Dream Theater, Manowar, Megadeth e Slayer. Um cast para lá de caprichado. Ano passado o evento voltou a ser realizado, centrado numa mistura de duas eras diferentes do rock pesado, confrontando nomes como Limp Bizkit e Whitesnake. Pela segunda vez sediado na Arena Anhembi, como é comum em eventos desse porte, o Monsters 2015 viveu entre erros e acertos.

Ingressos
Primeiro ponto negativo dessa edição, foi um absoluto parto adquirir ingressos pela internet. Os preços, pouco convidativos de início, logo se tornaram abusivos conforme os lotes de ingressos se sucederam. Aliás, esse esquema de lotes com preços diferenciados me parece realmente ridículo.

Acesso
Principal ponto negativo para muitos, pois no sábado a média de espera na fila para adentrar a Arena foi de uma hora e meia. Inexplicavelmente, quando nos aproximávamos do único portão aberto (19), tudo transcorria velozmente e ficamos sem entender o motivo de tanta retenção. O problema poderia ter sido resolvido com uma melhor orientação ao longo da fila, ou melhor ainda, com outro portão de acesso disponibilizado. No domingo tudo transcorreu sem entraves e adentrei a Arena em menos de 2 minutos, ainda que o número do público tenha sido o mesmo do dia anterior. Nas catracas, outro problema, ao contrário do anunciado no site, os funcionários impediam a entrada de água em embalagens plásticas.

Próximo à fila, o jeitinho brasileiro: uma casa oferecendo o prazer de uma cagada por preço módico
Atividades
Um espaço chamado Galpão do Rock trouxe dezenas de stands vendendo acessórios e roupas ligadas à cultura rocker, dentre outras atividades. Ao longo da Arena também tivemos a disposição um stand de venda de vinil e diversos stands vendendo merchandise das principais bandas do festival e do próprio evento. Os preços variaram de R$60 (as camisetas mais vagabundas) a salgados R$250 (moletons). Apenas o Manowar montou um stand próprio para seu merchandise e todos os stands contavam com máquinas para pagamento em cartão. Um stand de promoção do filme Mad Max inovou ao fazer maquiagens e penteados inspirados no visual pós apocalíptico do filme naqueles que se dispusessem a enfrentar uma fila de pelo menos meia hora. Também haviam barracas de revistas especializadas e de um selo de cds.

O Galpão do Rock
Stand Mad Max
Alimentação e bebida
Dezenas de stands e bares foram espalhados ao longo da Arena, e os caixas também estavam presentes em número satisfatório. Durante os shows foi bem tranquilo se alimentar ou comprar bebidas, as filas ficavam bem pequenas. O esquema de pagamento nos caixas consistia na conversão de uma quantia em fichas do festival (Monster Money), cada ficha equivalendo a R$3. Seria um esquema bem bacana, não fosse a maioria dos bares situados na arena limitados a receber o pagamento em dinheiro vivo, assim como todos os ambulantes. Esse fato, somado ao abusivo e estratégico valor de R$ 9 cobrado por uma simples lata da pavorosa Budweiser, resultou em uma picaretagem homérica: a maioria dos ambulantes, geralmente mais para o final do dia, vendia as latinhas a R$10. Quando interpelados, colocavam a desculpa na falta de troco de R$1,00. Os alimentos, em sua maioria sanduíches, também custavam bem caro. Uma pequena porção de batatas fritas valia R$12, um pacote médio de pipoca saía a R$10. A maioria dos sanduíches não ficava por menos de R$18. Foi instalada uma área gourmet concentrando os stands de comida e algumas mesas, que serviam de salvação aos pés cansados ao fim do dia.

Bares e lanchonetes em profusão
O (desvalorizado) dinheiro metálico
A área gourmet e suas mesinhas salvadoras
Som e palco
O som da grande maioria dos shows foi no mínimo muito bom, embora talvez um pouco baixo para aqueles que optaram por assistir mais de longe para se afastar da muvuca. As exceções se deram nos shows do Manowar e Malmsteen, no domingo. Provavelmente muito mais por culpa das bandas e suas trupes, ao que pareceu. Visualmente o palco estava muito bonito, com um grande telão ao fundo que engrandeceu até mesmo as apresentações iniciais de cada dia. A torre no meio da Arena atrapalhou um pouco a visibilidade e o palco baixo, somado aos não tão grandes três telões (dois laterais e um na torre) acabou por limitar a experiência para aqueles que assim como eu, são desprovidos de altura. De negativo, apenas destacaria a insistência do som mecânico em músicas do Pantera no sábado. Até os fanáticos pela banda devem ter saído enjoados de escutar as mesmas músicas.

Vista do palco no show do Kiss
PARTE II – OS SHOWS

Primeiro dia – 25.04.15

Cast do primeiro dia de festival
(perdi o primeiro show do festival, com o De La Tierra, por pura incompetência minha, mesmo)

Primal Fear
Do lado de fora numa fila infinita, meus ouvidos foram inaugurados nesse Monsters ao som do Primal Fear. Som perfeito, repertório aparentemente equilibrado e Ralph Scheepers gritando a todos os pulmões. Acho o careca fortão extremamente competente, mas muito chato. Prefiro mil vezes o patrão e baixista Matt Sinner cantando, mas quem é fã dos caras aparentemente teve todos os motivos para ficar feliz. Ah, cabe ressaltar que essa foi a estreia do Brasuca Aquiles Priester tocando com eles em território tupiniquim, e o cara tocou bem como sempre.

Coal Chamber
Um dos ícones do Nu Metal, rótulo que soa anacrônico diga-se, o Coal Chamber foi a primeira banda que pude conferir já dentro da arena. Começando com a matadora Loco, Dez Fafara e sua trupe pareciam algo deslocados no cast desse ano, mas fizeram um show honesto, e por isso mesmo receberam uma acolhida respeitosa e em alguns momentos até mesmo positiva. Algumas músicas do vindouro álbum de retorno adornaram o set, fazendo do show algo mais que uma viagem nostálgica aos anos de ouro do infame Nu Metal. Um show correto (NOTA 5).

Nadja e Dez falharam em conquistar o público
Rival Sons
Já enchi a bola do som dos caras na Cripta em outras ocasiões, mas confesso que não sabia muito o que esperar do show dos americanos, ainda mais se considerarmos que eles são desconhecidos do grande público. O som retrô dos caras parece ter conquistado em definitivo boa parte dos metalheads presentes, ainda que tenham insistido em duas ocasiões em jams um pouco longas demais para um festival. Facilita em muito o fato das músicas trazerem muito de Led, The Who, Doors e afins. Ah, e o afetadíssimo Jay Buchanan pode concorrer facilmente ao posto de vocalista revelação do evento, tamanha a qualidade de sua performance vocal. Um showzaço que deve ter angariado muitos novos fãs à banda (NOTA 8,5).

Rival Sons, a grande surpresa do festival (para aqueles que não leem a Cripta, claro)
Black Veil Brides
A inclusão do Black Veil Brides em meio a um cast tão tradicional certamente foi uma aposta arriscada. Amparados por um visual que fica em um meio termo entre o Motley e o gothic rock (lembrando uma versão juvenil do 69 Eyes), o BVB faz um som que em muito lembra uma versão de segunda divisão do Avenged Sevenfold. Tudo extremamente técnico e até mesmo com alguns momentos bem pesados, mas creio que o visual carregado e a aparência de Justin-Bieber-do-mal do vocalista Andy Biersack (disparado o ponto fraco da banda, diga-se) tenham jogado por terra as chances da banda em conquistar o Monsters. Mas aqui cabe uma ressalva, você tem todo o direito do mundo de não gostar dos caras, mas hostilizar e tacar garrafas no palco? Atitude desnecessária e infantil, que só mostra nossa incapacidade como público de curtir festivais. Os festivais de verão na Europa misturam desde Black metal a AOR sem que esse tipo de imbecilidade aconteça. Não quer assistir, o evento tem várias opções de diversão, vá curti-las e volte na hora do show que você tanto quer curtir. Também não concordo com a atitude do vocalista, de choramingar e fazer com que a banda encurte seu set. os babacas eram uma minoria e abandonar o palco foi um desrespeito ao não tão pequeno contingente (em sua maioria meninas) que foram ao evento só para ver o BVB. Ou seja, bola fora dos dois lados (NOTA 6).

Perdão, criançada, Tio Trevas não aprovou nem um pouco as vaias!
Motörhead
O mal-estar causado pelos problemas no show do BVB foi amplificado ao máximo quando um dos produtores do evento adentrou o palco para dar a temida notícia: Lemmy estaria com grandes problemas estomacais e teria sido impedido de tocar. As poucas vaias foram logo suplantadas por um ensurdecedor silêncio e por uma espontânea perplexidade. Um dos grandes bastiões do rock pesado mostrando a crua realidade, até as lendas uma hora enfrentam de frente sua mortalidade. O anúncio da corajosa Mimi-Jam entre ¾ do Sepultura junto a Mickey Dee e Phil Campbell pouco ajudou a diminuir a sensação de perda iminente: muito ali estavam no festival somente para ver o Lemmy, alguns por ser a primeira vez, a maioria por imaginar que aquela poderia ser a última chance de ver o tio Crocotó detonando. A Jam durou apenas três músicas e se representou um momento único na história do rock, poucos ali pareceram perceber. Andreas, com Paulo e Derrick fizeram um esforço bonito ao ajudar Mickey e Phil, mas tudo soou amargo demais aos ouvidos da ainda incrédula plateia.

O telão anunciando uma promessa não cumprida. Melhoras, tio Crocotó!!!
Judas Priest
Coube aos Metal Gods a tarefa árdua de restaurar o ânimo do público, e com um set ligeiramente aumentado em relação ao previsto, tomaram as rédeas da Arena Anhembi com propriedade. Um Rob Halford que até dois anos atrás estava em uma situação bastante delicada de saúde que quase o impediu de andar em definitivo, agora andava pelo palco cantando absurdamente bem, mesmo do alto de seus 63 anos. O repertório, que trouxe boas novas faixas (Dragonaut, a muito bem recebida Halls Of Valhalla e Redeemer Of Souls) com clássicos absolutos (Victim Of Changes) e algumas surpresas (Love Bites, Jawbreaker e Devil’s Child) agradou a todos, fazendo deste um dos melhores shows que já presenciei da banda, e certamente um dos destaques do festival. The Priest is Back!! (NOTA 9).

Rob fazendo graça com a bengala, uiuiui
Ozzy Osbourne
Com meu combalido joelho em frangalhos, presenciei metade do show do Madman, o suficiente para perceber três coisas: 1. Gus G, Blasko e Clufetos formam um time e tanto, certamente uma das melhores formações da banda do Ozzy, e o tempo dará razão a isso; 2. O repertório quase idêntico ao da última passagem do comedor de morcegos por aqui, privilegiando material do Sabbath em detrimento aos sons da carreira solo, absolutamente difícil de entender, tendo em vista a passagem do BS por aqui recentemente; 3. Das quatro vezes que vi Ozzy em ação, essa foi disparado a pior em relação a performance vocal. Fairies Wear Boots e War Pigs foram absolutamente assassinadas. Bom, de qualquer maneira, trata-se sempre de um show divertido e impactante, em especial para os marinheiros de primeira viagem (NOTA 7).

Ozzy trazendo seu manicômio a São Paulo
Segundo dia – 26.04.15

Cast do segundo dia do evento
Dr. Phoebes
Desconhecia o trabalho dos caras e presenciei apenas o final, com presença de uma dançarina fazendo um número de pole dance no palco. Pareceu um rock pesado e competente, e obviamente foi bem recebido pelo público presente. Ponto para os caras, mas não tenho como avaliar.

Dr. Phoebes e sua arma secreta
Steel Panther
Difícil expressar em palavras o grau de diversão que esses caras proporcionaram sem parecer um pouco bobo. O show do Steel Panther poderia ser resumido em um esquete de comédia, todos na banda tem seu papel e o desempenham com louvor e a profusão de piadas de baixo calão com enorme foco nas referências sexuais poderia causar alguns narizes torcidos. Mas tudo isso ainda é adornado com músicas excelentes tocadas por músicos bem acima da média, então se você não é fã da gaiatice, pode ainda assim curtir o som. Bom, e no ramo das gaiatices, nada mais próprio (ou seria impróprio?) que piadas sobre a sexualidade e idade avançada de alguns dos caras (todos eles figurinhas carimbadas da cena Californiana), sobre o tamanho diminuto dos membros dos membros e até mesmo uma impagável sacaneada dos insuportáveis solos de baixo do bobalhão Joey De Maio. Some isso tudo com uma profusão de belos peitos sendo mostrados e temos aí um dos grandes shows do evento todo (NOTA 9).

p.s.: Só não consegui até agora entender a garota chorando horrores no refrão de Community Property (cheque a letra e entenda...).

Satchel e Starr detonando no monsters
Yngwie Malmsteen
O sueco grandalhão sempre teve o talento proporcional a seu ego, e ele tem um ego Godzillico. Então, mesmo sabendo que os bons tempos ficaram bem para trás, estava bastante curioso em conferir o show de um dos maiores guitarristas em todos os tempos. Problemas técnicos intermináveis atrasaram um bocado o início do show, e quando o mesmo teve início, que decepção, Malmsteen conseguiu cagar os solos da fantástica Rising Force. E a banda do cara parece um apanhado de xepa da feira, disparado a pior formação que ele já teve. Um tecladista (bom) que pessimamente se desdobra nos vocais e uma cozinha meia boca. Mas o que impressiona mesmo é o desleixo do outrora mestre do rock neoclássico com seus timbres e solos, comendo muitas notas e fazendo muita pose e pouco som. Um fiasco completo (NOTA 2).

Malmsteen 2015, apenas um borrão do que já foi um dia...
Unisonic
Qualquer coisa com Kiske nos vocais me faz querer estar em uma caverna isolada no Afeganistão, milhas de distância de qualquer emissão sonora. Mas respeito Kai Hansen, que acho um bom guitarrista e um puta showman. Bom, o Unisonic não me fez mudar de ideia sobre o Kiske. Um metal europeu para lá de melódico e pasteurizado, como era de se esperar. Mas claro, tudo muito bem tocado. Kiske envelheceu, mas sua voz não sentiu tanto, atingindo uma maturidade que em muito lembra o que aconteceu com o Geoff Tate (Queensrÿche). Acredito que os fãs de metal melódico, afeitos a esses shows bonitinhos e de certa forma distantes do conceito do Heavy metal não tenham nada a reclamar. Eu aproveitei e assisti o show à distância, comendo um bacon burguer, que tem muito mais potássio, atitude e energia em 200 gramas de carne do que em uma hora de show dos caras (NOTA 6).

Accept
Precisou outro combo alemão para mostrar aos garotos leite com pera como se faz. O Accept aproveitou cada um dos minutos de sua apresentação para destilar em alto e bom tom todos os bons clichês do heavy metal clássico. Guitarras esporrentas, bateria cavalar, baixo competente e um vocal que parece ter feito gargarejo com cerol entoando petardos que usam sim de melodia, mas na medida certa, sem Abdicar do peso. A reta final, com Teutonic Terror (recente e já clássica) e Balls To The Wall levantou até defunto. E Mark Tornillo definitivamente faz com que a ausência do anão UDO mal seja sentida. Em suma, o Accept veios em muito alarde e simplesmente destroçou, fazendo aquele que muito consideraram ser o melhor show do festival. Matador! (NOTA 10).

Accept fazendo mais um gol para a Alemanha!

Manowar
O show no Monsters Of Rock de 1998 corou triunfalmente o Manowar no coração dos headbangers nacionais. Eu estava lá, e gaiatices à parte, foi destruidor! Que diferença... o Manowar até começou muito bem, mas chafurdou seu bom repertório num som horroroso. Em quase todo o show o que se ouviu foi o sempre ótimo Eric Adams cantando em cima das linhas de bateria, entrecortado por solos de guitarra e o pior som de baixo que já ouvi. Poderia se culpar o som do evento, mas curiosamente Accept veio antes, som perfeito, Judas veio depois, som perfeito... E o babacão do Joey de Maio com suas bravatas soa como o Steel Panther, só que com uma pequena grande diferença: ele se leva à sério. Absolutamente triste. E o cara ainda tirou onda por falar português, talvez se esquecendo que os gaiatos da Califórnia já tinham falado algumas piadas em bom português horas antes. O sentimento de vergonha alheia tomou conta de muitos, e olha que o público estava bem receptivo. Na plateia, uma profusão de gorilas musculosos sem camisa, se abraçando e chorando, bêbados e provando que o excesso de testosterona se aproxima demais da veadagem absoluta. Assistindo essa apresentação e tentando lembrar o último disco razoável dos caras, me peguei pensando que é hora de programar a aposentadoria: talvez seja melhor dividir o preço do psiquiatra com o Malmsteen. Pífio! (NOTA 4)

p.s.: Ah, sim, teve a participação de Robertinho do Recife, mas ao que parece poucos entenderam quem era.

Judas Priest
Assistir dois shows seguidos de qualquer banda pode ser um pouco desanimador, certo? Sim, mas a fase do Judas está tão boa que fiz questão de ver tudo de novo. Uma ou duas músicas foram trocadas em relação ao show da noite anterior (saiu Love Bites, infelizmente) e Halford estava um tiquinho menos inspirado. Ainda assim um grande show que terminou com uma performance apoteótica de Painkiller seguida de Living After Midnight, a música mais Kiss que o Judas já fez. Muito bom. (NOTA 8)

Kiss
Com quase uma hora de atraso, o Kiss assombra o palco com o costumeiro festival pirotécnico. As pessoas esquecem que fosse somente pela pirotecnia, o Kiss não teria tamanho longevidade e/ou adoração na cena. O grande trunfo dos caras são as músicas: Detroit Rock City, Creatures Of the Night, Psycho Circus, Deuce, God Of Thunder...até mesmo Parasite deu as caras!!! Um show perfeito, certo? Infelizmente não. Paul Stanley está com um físico privilegiado em sua idade, mas ao contrário de Halford, seus 63 anos transparecem por inteiro em sua voz. O cara mal consegue falar, quanto mais entoar os hinos imortais da banda. A voz de Gene também já viveu dias melhores e fica impossível nãos sentir uma pontada de desapontamento em relação ao que se ouviu ontem, a despeito da superprodução e do repertório muito bem escolhido. Ainda assim, um show para lá de empolgante (NOTA 7)

Gene, lá do topo do mundo!
Saldo Final
O triste imprevisto em relação ao Motörhead não pode ser levado em consideração, assim como a má forma de algumas atrações. Ao que pude constatar com quem compareceu na edição do ano passado, o Monsters Of Rock melhorou em termos de estrutura e o som beirou a perfeição na maioria dos shows. A diversidade de stands e afins tornou a experiência de passar o dia no meio de nossos iguais, curtindo um monte de coisas que fazem referência ao universo que tanto amamos, ao som de grandes bandas, uma oportunidade única. E o melhor, em território brasileiro! Particularmente, reencontrei em mim uma paixão pelos shows que vinha aos poucos esmorecendo. O melhor ponto foi a sensação de igualdade, as bandas que tocaram no início da tarde dispondo de ótimo som e do telão fantástico. Afora os já relacionados entraves na organização, o grande ponto negativo foi a notada ausência de nomes brasucas no cast. Sem nenhuma patriotada, temos nomes que podiam muito bem entrar no lugar da galera xepa da feira, como atualmente são o Manowar e Malmsteen. Que venha a edição 2016!!