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sábado, 9 de junho de 2018

Black Label Society – Grimmest Hits (Cd-2018)

Black Label Society - Grimmest Hits
Canções Para o Ceifador
Por Trevas

Décimo disco de inéditas do combo liderado pelo hirsuto Zakk Wylde, Grimmest Hits vem ao mundo pouco após o grandalhão ter retomado seu lugar ao lado do padrinho Ozzy. Também é o primeiro trabalho pesado de Zakk após o reencontro com seu lado acústico na apenas passável segunda parte do clássico Book Of Shadows. Se considerarmos que o BLS nunca primou por grande versatilidade em seu som, fica a curiosidade se haveria influência desses dois fatos em Grimmest Hits.


Zakk e sua turma de inimigos do barbeador

Trampled Down Below tem início climático carregado pelo baixo de John DeServio, seguido de um ataque guitarrístico à lá Black Sabbath. A voz de Zakk, com aqueles toques de inspiração explícita do madman, estão mais limpos do que em outros tempos e o ótimo solo coroa um belo pontapé inicial. Toneladas de Southern Rock permeiam o disco, como em Seasons Of Falter, mostrando que o BLS soube enfim colocar um pouco de versatilidade em seu som consagrado. Som consagrado do BLS é bem o que temos em Betrayal (ver vídeo), mas a produção, arranjos e timbres trouxeram um algo à mais ao disco mesmo quando ele nada mais faz que repetir fórmulas. Isso sem falar que mr. Wylde parece ter reencontrado sua melhor forma após ter deixado de lado a biritagem, todos os solos do disco são absurdamente matadores!



O leitor atento já deve ter percebido que há algo de sorumbático em todos os títulos das músicas, e talvez seja justamente esse senso de trevosidade que tenha norteado o nome da bolachinha. Mas quem segue Zakk nas mídias sociais sabe bem o quanto o cara tem um espírito galhofeiro, então até mesmo o impagável encarte, que traz o ceifador em diversos momentos cotidianos hilários, faz troça com a temática sisuda. Room Of Nightmares (ver vídeo) e A Love Unreal (que solo!) são BLS tradicional em sua melhor forma, e bem poderiam estar em Mafia ou Blessed Hellride.


A produção, capitaneada pelo próprio patrão, é seca e sombria, ainda que aposte bastante numa bem-vinda dinâmica pouco comum aos trabalhos anteriores, casando muito bem com o clima das composições.  Um exemplo bem claro do que escrevi é Disbelief, que começa tipicamente BLS e dá uma bela caída semiacústica no pré refrão, depois adicionando uma camada de guitarras que evoca até mesmo o som Stoner clássico. Maturidade que chama, né? Illusions Of Peace é outra pedrada com riff inspirado e talvez as apenas bacaninhas Bury Your Sorrow e Nothing Left To Say devessem ter ficado de fora, até para não diluir o poderio do restante do disco em quase uma hora de música, o que é um bocadinho longo para esse tipo de som.


Veredito da Cripta

Grimmest Hits é uma surpreendente jornada por todo o espectro de influências musicais que permeiam a carreira de Zakk Wylde, temperada com o som típico do Black Label Society, para forjar um dos mais inspirados trabalhos da banda. Tivesse o disco encerrado com umas três músicas a menos e estaríamos diante de um dos melhores do ano. Recomendo.  



NOTA: 8,51

Visite o The Metal Club
Gravadora: eOne Music (importado).
Pontos positivos: um dos discos mais variados de Zakk, grandes solos
Pontos negativos: poderia ter uns 10 minutos a menos
Para fãs de: Ozzy Osbourne, Black Sabbath, Clutch
Classifique como: Southern Metal



terça-feira, 20 de maio de 2014

Black Label Society – Catacombs Of The Black Vatican (Cd/2014)

Black Label Society - Catacombs Of The Black Vatican
Capitão Caverna Ataca Novamente
Texto por Trevas

Zakk Wylde mudou. O gigante beberrão que parece ter nascido do cruzamento de um urso com um campeão Viking é desde o final da década de 1980 um dos poucos heróis da guitarra prontamente reconhecíveis por todas as tribos dentro do mundo do rock.

Ozzy & Zakk ao final dos anos 1980
Tão notória quanto sua proficiência no manejo das seis cordas é o apreço do barbudo por quantidades de birita capazes de causar a extinção em massa do restante dos mamíferos. Inicialmente considerado um fato totalmente compatível com sua imagem, a beberagem excessiva deixou de ser bem recebida quando, como ocorrera com Eddie Van Halen e Michael Schenker, começou a afetar a qualidade das apresentações (e composições) do músico americano.

Hey, você não tem álcool, tem?
Discos pouco inspirados tanto com o BLS (o fraquíssimo Shot To Hell) quanto com Ozzy (Black Rain e Down to Earth) e apresentações aquém da capacidade não fizeram com que Zakk mudasse seus hábitos. Para isso foi necessário um tremendo choque de ordem. Quase simultaneamente Zakk foi demitido da banda de Ozzy e diagnosticado com uma anomalia sanguínea que causa a formação de coágulos. Informado por um médico de que o consumo etílico somado ao seu problema de saúde garantiria uma passagem certeira somente de ida para o vale dos pés juntos, Zakk resolveu de maneira abrupta parar de maltratar o fígado.

Pela primeira vez dando uma ligeira pausa em sua produção musical, Zakk parece ter recuperado, junto com a saúde, o senso de avaliação. A verdade é que Order Of the Black, de 2010, primeiro disco composto e gravado pós sobriedade, retomou o padrão de qualidade de outrora. Ao vivo, Zakk voltou a cantar bem (dentro de suas limitações) e a tocar da maneira que os fãs esperam (ver resenha do show no Vivo Rio em 2012).


Após o lançamento de um disco ao vivo (com versões em DVD e BD) com releituras semi-acústicas para o BLS, Zakk retomou os trabalhos de estúdio, não sem percalços: o fiel escudeiro Nick Catanese resolveu trilhar seu próprio caminho. Dessa feita, Zakk assumiu a gravação de todas as guitarras do novo rebento, assim como da produção e até mesmo do conceito gráfico. O nome do disco é uma homenagem ao estúdio caseiro de Zakk, chamado Black Vatican. Segundo ele, as ditas catacumbas seriam as músicas. Vamos a elas, então.

Visitando as Catacumbas

Perguntado pela Metal Hammer UK sobre a sonoridade do novo álbum, o sempre gaiato Zakk não pestanejou: “As novas músicas soam exatamente como todas as outras que já gravamos, só que com títulos diferentes”...
Fields Of Unforgiveness é uma canção Mid Tempo tipicamente BLS, que parece exemplificar que talvez Zakk não estivesse brincando na afirmação acima. Algo nela me lembra um bocado a fase inspirada do grupo, entre Blessed Hellride e Mafia. A gravação é estupenda e o solo e os vocais mostram o quanto a sobriedade trouxe o grandalhão de volta ao jogo. A primeira faixa de trabalho, My Dying Time reforça a ideia de uma retomada dos melhores momentos do BLS. Aqui Mr. Wylde reverencia sua fé na econômica letra (o cara é quase tão lacônico quanto Max Cavalera) e nos traz mais um solo memorável. Um dos destaques do disco.


A boa Believe é setentista em seu riff, seu groove e sua linha melódica, talvez fruto da influência dos arranjos do ao vivo Unblackened. Esse novo enfoque pós o sucesso do lançamento semi-acústico permeou também a criação da segunda música de trabalho do disco: a ótima balada Angel Of Mercy, que além de um lindo solo, traz a voz de Zakk bem mais próxima dos bons tempos do Pride & Glory.


A rifferama invocada reaparece em Heart Of Darkness, que apesar da intensidade soa um pouco como mais do mesmo. Nela percebe-se o bom trabalho do baterista atual da banda, Chad Zseliga, que forma uma bela dupla com o já veterano baixista John DeServio. Os dois trazem o groove na cara de Beyond The Down, outra faixa que mantém a pegada do disco em alta, mas sem se destacar. A balada Scars tem aquela pontinha de Southern Rock que vez ou outra permeia os discos de Zakk, inclusive com um solo com um timbre limpo (e slide) raro de se encontrar em trabalhos do BLS.

Olhar perdido no horizonte, lembrando saudosista dos tempos de manguaça
Damn The Flood é um típico Stoner Metal, à lá Orange Goblin, bem feito e empolgante – ah, e o solo fritado é muito bom. Resquícios de Black Sabbath e pitadas de Alice In Chains temperam as ótimas I’ve gone Away (mais acelerada) e Empty Promises (meio Doom). A certeza de que estamos diante de um dos melhores trabalhos da banda esmorece perante a chatice da terceira balada da bolacha, a desnecessária Shades Of Gray. A edição regular do disco termina aí, e sortudo é aquele que agarrou a edição limitada, pois a alucinante Dark Side Of The Sun merecia lugar facilmente no repertório do lançamento menos abastado. Diria inclusive se tratar da melhor música do pacote todo. A outra faixa bônus, The Nomad, é uma balada com certo clima épico, dezenas de vezes melhor que Shades Of Gray. Difícil entender a não inclusão dessas duas no lançamento regular.

Saldo Final
Catacombs vem sendo tratado pela crítica especializada como o melhor e mais completo trabalho do BLS até o momento. Talvez tenham razão, e embora Zakk ainda não tenha atingido com o BLS o patamar de qualidade de seus outros projetos, Pride & Glory e Book Of Shadows, esse Catacombs é seu trabalho mais bem cuidado, executado e variado em muito tempo. Altamente recomendado, em especial na edição limitada.

NOTA: 8

Prós:
Ótimos solos, refrães grudentos e boa produção.

Contras:
Por vezes dá aquela sensação de dejà-vú. Shades Of Gray é bem chatinha.

Classifique como: Heavy Metal, Stoner Metal

Para Fãs de: Ozzy, Black Sabbath, Alice in Chains, Pride & Glory

Ficha Técnica
Banda: Black Label Society
Origem: EUA
Disco (ano): Catacombs Of the Black Vatican (2014)
Mídia: CD
Lançamento: EntertainmentOne (Importado)

Faixas (duração): 11 (47’)/ 13 (54’) na edição limitada*.
1. Fields of Unforgiveness; 2. My Dying Time; 3. Believe; 4. Angel Of Mercy; 5. Heart Of Darkness; 6. Beyond The Down; 7. Scars; 8. Damn The Flood; 9. I’Ve Gone Away; 10. Empty Promisses; 11. Shades Of Gray; 12. Dark Side Of The Sun*; 13. The Nomad*.

Produção: Zakk Wylde
Arte de Capa: John Irwin Design (Ideia - Zakk Wylde)

Formação:
Zakk Wylde – voz, guitarra piano;
John DeServio – baixo;
Chad Zseliga – bateria.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Re-Machined – A Tribute to Deep Purple’s Machine Head (CD - 2012)



They All Came Out To Montreux

Uma Justa Homenagem


O mais virtuoso dos grupos que compõe a Santa Trindade Britânica dos primórdios do Metal (completam a lista o Led Zeppelin e o Black Sabbath), o Deep Purple conta com um punhado de discos clássicos em sua extensa discografia, talhada ao longo de quatro décadas quase ininterruptas de existência. Por isso mesmo, uma eventual discussão sobre o melhor disco do Purple pode render horas de acalorados papos de bar. Na minha opinião a escolha parelha seria entre Burn (1974) e In Rock(1970). Mas se existem dúvidas sobre qual seria o melhor disco da banda, poucos ousariam discordar qual foi o disco de estúdio mais importante para a carreira da banda. Esse disco foi Machine Head, que em 1972 apresentou ao mundo dois dos maiores hinos da história do rock, Highway Star e Smoke On The Water, que contém o provável riff de guitarra mais conhecido do mundo em todos os tempos.


Deep Purple - MK II (1972)

Produzido por Martin Birch, Machine Head representaria o disco mais maduro da banda até então, encontrando um meio termo entre a fúria de In Rock e a musicalidade de Fireball. Smoke On The Water se tornaria a maior marca da banda, ainda que Machine Head só tenha se tornado um sucesso absoluto de vendas por conta da versão ao vivo desta música inclusa no seminal Made In Japan, registro considerado por muitos um marco dos shows de rock.

O Icônico Machine Head
Em comemoração aos 40 anos do disco, a excelente Classic Rock Magazine preparou um baita pacote, uma edição especial contando com matérias sobre a gravação do disco, entrevistas com membros do Purple (inclusive a última entrevista com Jon Lord antes de seu falecimento), além de entrevistas com artistas famosos influenciados pela banda (Lars Ulrich, Satriani, Bruce Dickinson, Joe Elliot...). A cereja do bolo atende pelo nome de Re-Machined, um disco tributo inicialmente encartado com a revista (e que atualmente já pode ser adquirido separadamente) contando com um plantel de respeito reinterpretando as músicas desse clássico do rock, cada qual à sua maneira.

O Apetitoso Pacote da Classic Rock
Re-Machined Passo a passo

Além das músicas de Machine Head executadas em sua ordem original, o tributo traz algumas “faixas-bônus”, sob a forma de versões alternativas para duas músicas (Smoke on The Water e Highway Star) e uma releitura para o B-side When A Blind Man Cries, clássica música gravada nas sessões originais na Suíça, mas deixada de fora da versão final do disco por mais um capricho do genioso maluquete Ricthie Blackmore.

Curiosamente Re-Machined começa justo com uma das “faixas-bônus”, uma releitura bastante inspirada para Smoke On The Water, sob a batuta de Santana (originalmente gravada para o disco de covers Guitar Heaven, do próprio Mexicano). Tremei, puristas, Santana coloca sua marca latina em um dos mais famosos estandartes do Hard/Heavy e o fez com a ajuda de Jacoby Shaddix, do (ugh) Papa Roach, na voz. Nada a reclamar aqui, a dupla nos entregou uma releitura muito boa, que consegue mostrar personalidade e ao mesmo tempo uma boa dose de respeito à original.

A versão de Smoke On The Water de Santana apareceu originalmente nesse disco

O repertório original tem então início com uma versão ao vivo de Highway Star executada com muita garra e classe pelo supergrupo com nome mais idiota do mundo, o Chickenfoot. Todos demonstram ótima performance, valendo destacar dois pontos: Sammy Hagar, aos 65 anos, tem um gogó para lá de privilegiado e é uma pena que Satriani não tenha sido efetivado no Purple em 94, pois fica claro e evidente que ele teria levado a banda a um patamar muito mais interessante que aquele mala do Steve Morse.

O Pé-de Galinha, ê nome horroroso

A Funky e pouco lembrada pérola Maybe I’m A Leo não poderia ter ficado em melhores mãos, com Glenn Hughes cantando e tocando magistralmente, ancorado pelo ótimo Chad Smith (Chickenfoot, Red Hot Chilli Peppers) na bateria e por Luis Maldonado (que já atuou como dublê de um fugido Michael Schenker em discos do UFO) na guitarra.

Hughes e Chad - Espero que tenham demitido a personal stylist




Zakk Wylde surpreende ao se recusar a executar uma óbvia releitura meramente porrada e suja para Pictures Of Home (minha favorita do Machine Head), música com maior potencial metálico do disco original. Ao invés de sentar a pua, Zakk levou seu Black Label Society a uma execução muito mais próxima do estilo Southern Metal praticado no Pride And Glory. Uma bela bola dentro.

O bando do velho Zakk

Bem, nem tudo são flores. Kings Of Chaos, supergrupo montado especialmente para o tributo e que conta com Joe Elliot (voz, Def Leppard), Steve Stevens (Guitarra - Billy Idol), Duff McKagan (baixo - Guns And Roses) e Matt Sorum (The Cult, Guns And Roses), simplesmente não consegue transformar a já não tão boa Never Before (disparada a menos legal de Machine Head) em algo além de burocrático.

Kings Of Chaos - Supergrupo superchato

Mas “burocrático” seria um mega elogio para o Flaming Lips, que assassinou de maneira covarde e brutal Smoke On The Water. Realmente não consigo acreditar que a banda tenha tido algum intuito aqui além de soar absolutamente irritante. Uma das piores releituras que uma boa música já recebeu na história do rock.

Flaming Shits, ops, Lips

Por sorte logo em seguida temos o artista do momento, Joe Bonamassa, capitaneando com maestria Lazy, contando com a ajuda das privilegiadas cordas vocais de Jimmy Barnes (Cold Chisel). Barnes, a quem só conheci tardiamente, mais exatamente no último disco de Bonamassa, Driving Towards The Daylight, é um monstro e em conjunto com o belo trabalho do guitarrista americano transforma Lazy na provável melhor releitura desse disco.

Bonamassa (primeiro à direita), sua banda e Jimmy Barnes (à frente, de vermelho xadrez)

Bruce Dickinson já declarou algumas vezes seu apreço por Ian Gillan, e aqui tem sua chance de prestar homenagem a seu ídolo. Uma pena que a chance foi desperdiçada, pois o Iron Maiden não consegue emplacar sua Space Truckin’, que soa emperrada e prá lá de burocrática, com uma performance especialmente desinspirada do próprio Bruce. Bruce Dickinson que, diga-se de passagem, não canta realmente bem em estúdio com o Iron desde Brave New World. Como o vocalista vive desancando em entrevistas o produtor Kevin Shirley, adotado pelo resto da banda desde o já citado disco de retorno, começo a achar que Bruce não se esforça mais em estúdio por pura pirraça, mesmo.

A donzela podia ter acertado como na versão para Massacre  do Thin Lizzy, não?

Outro grande fã declarado de Deep Purple, Lars Ulrich chegou a oferecer uma montanha de dinheiro para reunir o MK III do Purple, se oferecendo inclusive para assumir a bateria caso Ian Paice não quisesse se indispor com seus companheiros do Purple atual. Aqui ele tem a chance de homenagear a MK II, surpreendentemente escolhendo o B-Side When A Blind Man Cries. A escolha pode ser considerada surpreendente por se tratar de uma balada na qual o grande destaque fica por conta da interpretação vocal belíssima de Gillan. James Hetfield, reconhecidamente um vocalista prá lá de limitado, poderia passar vergonha aqui. Mas não é o que acontece, o Metallica se sai muito bem, obrigado, mesmo com James se esforçando tanto que de início fica até difícil reconhecer sua voz.

É, James, que sufoco!

A última faixa, uma segunda versão de Highway Star, conta com um line-up de peso: Steve Vai, Glenn Hughes, Chad Smith e Lachlan Doley (que toca com Jimmy Barnes). Entretanto, nem Hughes nem Vai acertam o tom aqui, fazendo uma releitura que se não compromete, também não chega a lugar nenhum.



Saldo Final

Como tradicionalmente acontece em tributos do gênero, Re-Machined é marcado por altos e baixos. Fortuitamente, com a exceção ao bolo fecal expurgado pelo Flaming Lips, temos aqui um disco de audição bastante agradável, que merece uma chance pela qualidade musical e não somente pela curiosidade em torno dos grandes nomes envolvidos.


NOTA – 7,5


Ficha Técnica

Título (ano de lançamento): Re-Machined – A Tribute to Deep Purple’s Machine Head (2012)

Mídia: CD

Gravadora: Eagle (Importado)

Faixas: 10

Duração: CD – 52’

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Black Label Society – Vivo Rio/RJ (24.11.12)



Pelas Barbas do Profeta!
Texto: Trevas
Fotos do Show por David de Oliveira

Prólogo – Zakk, ontem e hoje

Numa chuvosa tarde de sábado me encaminhei ao Vivo Rio para corrigir uma de minhas mais evidentes falhas curriculares, assistir a um dos maiores guitarristas de Hard/ Heavy em todos os tempos ao vivo.  

Jeffery Phillip Wiedlandt, gerado em 1967, de fato nasceu para o mundo em 1987, quando já com o nome artístico Zakk Wylde, substituiu Jake E. Lee na banda do Madman Ozzy Osbourne. O então magro e alto rapaz loiro cravou ali o início de uma duradoura parceria com o comedor de morcegos, tendo sido responsável pelo seu maior sucesso comercial, o disco No More Tears.


Zakk antes de comer espinafre e jogas as giletes fora, em 88

Compositor prolífico, Zakk ocupou seu tempo livre entre os espaçados discos com Ozzy e respectivas turnês inicialmente com o Pride And Glory, projeto de Southern Metal que daria origem ao mais pesado e sujo Black Label Society. Entretanto, com o crescimento desse projeto e aumento exponencial da fama do guitarrista, sucesso esse ancorado em uma mistura de talento, carisma e imagem forte, muitos começaram a perceber o óbvio: havia muito pouco de Ozzy nas músicas de Ozzy (sempre foi assim, ora bolas). Some-se a isso o fato de muitos moleques que pouco ou nada sabem (ou não se interessam em saber) da importância histórica de Ozzy para o metal irem aos shows mais para ver Zakk em ação e tivemos então a escolha óbvia – Zakk é convidado a se retirar da banda.

Muitas barbas e músculos depois
Quanto à minha falha curricular, já havia assistido ao Ozzy por duas vezes. Mas na primeira, em 1995, Joe Holmes (que tocara com Dave Lee Roth) assumira as cordas no lugar do já prodigioso e ainda nada anabolizado pupilo e na vez mais recente (esse ano) Gus G, outro prodígio, se adonara do mesmo posto. Dessa vez, tão logo soube da apresentação no Rio de Janeiro, me apressei em garantir meu ingresso.

Darwin projetando a evolução de Zakk?
Tamuya Thrash Tribe

Como de costume, o ingresso e material de divulgação do evento não traziam maiores informações sobre os horários das atrações da noite, o que fez com que eu perdesse parte do set da promissora banda de Thrash/Death Tamuya Thrash Tribe. Esbanjando profissionalismo e apresentando um punhado de boas músicas, a banda foi muito bem recebida pelo público, que até então não enchia metade da casa. E a julgar a qualidade e potência do som dos caras, aparentemente foi permitido à banda a utilização quase completa do som da casa (eu acho, não estou certo). Cabe ressaltar que havia um estande vendendo material da banda no saguão do Vivo Rio e ao final da noite não foi incomum esbarrar com pessoas já ornadas com camisas do TTT. Tomara que a banda vingue, qualidade para isso os caras tem.

TTT - Futuro promissor
Berserkers Movidos à Cerveja Sem álcool

O que vimos em seguida foi uma rápida ação militar dos roadies do BLS para restabelecer a organização do palco para a atração principal. Próximo de 22:30h o som mecânico da casa é tomado por uma portentosa introdução (2001 – Uma Odisséia no Espaço), seguida de sons de sirene. Os integrantes da banda tomam seus postos e então seu hirsuto líder inicia os trabalhos com o ótimo riff de Godspeed Hellbound, seguida de Destruction Overdrive (ver essas duas no vídeo abaixo) e Bored To Tears. Há algo de errado. O som está absurdamente embolado, a voz de Zakk totalmente sem definição, sendo quase impossível distinguir as frases. E pior, a guitarra do grandalhão aparece com volume lá em baixo, sendo encoberta em diversos momentos pelo ótimo e fiel escudeiro Nick Catanese.


E apesar de toda a pancadaria sonora, havia algo a mais no ar (ou a menos), um Zakk inicialmente menos comunicativo que o normal parecia refletir o estado de espírito da equipe da banda, que segundo relatos não confirmados, estaria com os nervos à flor da pele por conta dos problemas que levaram ao cancelamento do show de Fortaleza e adiamento de outra data em Porto Alegre.

Menos mau que o bom John DeServio (baixo) e o sempre eficaz Nick tenham simpatia e carisma suficientes para driblar a postura algo apática do patrão, interagindo com o público com gestos, olhares e sorrisos, enquanto Zakk repetia o rito termina a música, vira as costas e começa a próxima.

BLS detonando
Muita gente reclamou do set escolhido para a turnê atual, mas achei a seleção válida, exceção feita à próxima da noite, Berserkers, que considero uma das mais fracas da banda. Zakk começou a se soltar um pouco somente no hit Bleed For Me, incitando à platéia a soltar o gogó com socos desferidos no ar. A partir desse gesto o show começou a engrenar de vez. The Rose Petalled Garden poderia ser considerada uma grata surpresa, se hoje em dia não fosse tão fácil apagar surpresas consultando a internet antes de um show. Zakk senta frente a um teclado para executar uma pequena peça que logo se torna a bela In This River, em uma rendição não muito feliz devido à combalida voz do gigante. Mas há de ressaltar o espaço dado a Nick, que assume as guitarras por completo durante esse número, e a homenagem à Dimebag Darrel, através de duas imagens do falecido guitarrista do Pantera estendidas sobre as paredes de amps.

Enquanto Madonna e Lady gaga trocam de figurinos durante o show...
...Zakk troca de guitarras, cada uma mais animal que a outra...
Forever Down faz a banda retomar o peso, seguida de um acapachante momento solo de Zakk, onde ele mostra com imensa facilidade que pode colocar quase todos os guitarristas que um dia ousaram tocar heavy metal no bolso de uma de suas jaquetas de motociclista. Não bastasse parecer o rebento da improvável união carnal de um Viking com um urso Grizzly, Zakk tem uma sonoridade e pegada únicos, unindo uma brutalidade impressionante com uma técnica para lá de surreal. Sei que muita gente torce o nariz para a música do BLS, mas é inegável o talento de seu mentor.

E por falar em imagem, não dá para deixar de notar a qualidade da iluminação do show e do cuidado com o visual, com o casamento do backdrop interessante, a parede de amps e até mesmo o indefectível pedestal de microfone utilizado pelo líder da banda. Até mesmo o gesto de Zakk brindando aos céus e bebendo sua cerveja está lá, ainda que saibamos que ele não pode mais beber e que a cerveja cenográfica em questão não passa de uma hedionda Schin sem álcool (reza a lenda que o camarim estava forrado desse treco). Quisera que o esmero com o som tivesse sido semelhante, pois apesar de uma considerável melhora, a guitarra de Zakk chegou até o final da apresentação em volume abaixo do ideal.

Mais uma do harém do homem urso
Compensando o ritmo algo titubeante da primeira metade da apresentação, a partir da boa Parade Of The Dead o que vimos foi um arregaço sonoro atrás do outro: Overlord, Blessed Hellride, Suicide Messiah e as já clássicas Concret jungle (única coisa que presta no pavoroso Shot To Hell) e Stillborn, tocadas sem parar e com Zakk novamente empolgado, quase fizeram o público esquecer a ausência de Fire It Up e do já costumeiro não retorno da banda para a apresentação de um bis.

Saldo Final

Zakk Wylde é uma lenda, está cercado de bons músicos e possui em seu catálogo um punhado de grandes hinos metálicos (isso ainda abrindo mão de material valioso gravado com Ozzy, Pride And Glory e carreira solo). Uma pena que o show demorou um pouco a engrenar e que o som nunca ficou realmente bom durante todo o set.

De qualquer maneira, é um espetáculo bastante indicado aos amantes de grandes riffs e solos e assistir a um dos grandes guitarristas em todos os tempos deveria ser matéria obrigatória em qualquer escola do rock que se preze.




SETLIST: