Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Para quem ameaçou se
aposentar, LeifEdling, baixista e mentor do Candlemass,
parece incrivelmente ativo. Tão logo a banda retornou da bem-sucedida turnê de
promoção do último disco, já foi anunciado o lançamento de mais um EP, algo que tem se tornado corriqueiro
para a banda em tempos recentes.
A faixa título foi a última composta para TheDoorToDoom,
originalmente pensado como um disco duplo. Com produção finalizada, é uma faixa
legal, mas aquém de quase tudo que entro naquele disco.
O restante dos 20 minutos do EP
se resume a versões demo de faixas que não foram finalizadas para TheDoorToDoom. A qualidade da gravação não é
ruim, não, nem saberia se tratarem de versões demo caso não fosse informado no Release. Mas somente as boas SnakesOfGoliath e PorcelainSkull são músicas completas de fato, as restantes são meros
interlúdios instrumentais, de pouco mais de um minuto cada. SubZero e TheColdRoom são pequenas peças acústicas. Já Aftershock nada mais é do que uns barulhinhos pentelhos. Ao final
das contas, um material que não agrega muito à carreira dos veteranos, e só
fará a alegria dos fanáticos completistas de plantão. (NOTA: 6,77)
Confesso que o
anúncio do 12º disco de estúdio da lenda sueca do DoomMetal me deixou tão
animado quanto um convite para uma feijoada vegana à base de jiló. Não me
entendam errado, amo Candlemass e
acho a discografia dos caras matadora até DeathMagicDoom, de 2009. O problema é que, de lá para cá, o dono da bola, LeifEdling, parece ter perdido o rumo. Envolto em sérios problemas de
saúde (que praticamente encerraram sua jornada nos palcos), e titubeante em
encerrar ou não em definitivo as atividades do Candlemass, Leif passou
a compor e gravar discos para diversos projetos, com resultados diversos em
termos de qualidade. E essa inconsistência atingiu em cheio sua banda
principal, que teve uma aposentadoria melancólica (com o medíocre PsalmsForTheDead) interrompida por dois Eps algo burocráticos (na voz de MatsLevén). E se o anúncio de que o novo trabalho FullLength teria como
trunfo o retorno de JohanLängqvist (que eternizara sua voz no
clássico absoluto EpicusDoomicusMetallicus, de 1986) ao microfone parecia promissor, a arte gráfica
burocrática e o nome tacanho (DoortoDoom?!?Sério?!?)
me fizeram temer por mais um disco “para cumprir tabela”. Graças a Odin eu provei mais uma vez estar
epicamente enganado...
Leif and The Car Of Doom - Candlemass 2019
Microfonia a postos, riff
monolítico e andamento de tartaruga sifilítica. Bela introdução, mas Splendor Demon Majesty acelera e a ótima
voz de Johan (parecendo uma improvável
versão demoníaca de RoyKhan) nos joga na cara: com todo
respeito a MatsLevén e RobertLowe, o Candlemass achou novamente sua voz. Os arranjos épicos emulando uma
orquestra satânica pontuam dramaticamente uma faixa que talvez não soasse tão
perfeita nas vozes dos vocalistas citados. O clima de EpicusDoomicusMetallicus é conjurado na bela melodia,
declamada sobre um dedilhado misterioso na introdução, da apoteótica UnderTheOcean, que logo
assume um peso digno de um peido carregado do Godzilla.
Confesso que nesse exato momento eu estava a procurar meu cu, recém
caído da bunda, quando Astorolus – TheGreatOctopus (que nome
brilhantemente idiota!) varreu meus tímpanos da face da Terra. Ao longo das
décadas, muitos acusaram LeifEdling de fazer do Candlemass um eterno tributo ao BlackSabbath. Senhores,
vocês estão certos, mas fodam-se, solenemente. Pois Leif traz nessa faixa o próprio Iommi para carimbar sua obra, com um daqueles solos que só poderiam
ter saído do bigode do “criador” do heavymetal como o amamos.
A produção do disco é seca, pesada e sombria, como pede o figurino. O
produtor, MarcusJidell, já trabalha com Edling (também como guitarrista) tem um
tempo, seja no Avatarium (ele é
esposo da cantora, que faz backing vocals aqui) ou no DoomsdayKingdom), então
sabe exatamente como agradar bem o patrão. E o rapaz tira um ótimo som, sem
frescuras, potencializando o poder de fogo dos veteraníssimos Mappe e Lars (guitarras) e JanLindh. Mas nem só de trauletadas vive a
bolachinha, que tem na viajante balada BridgeOfTheBlind um de seus
mais belos momentos, coroando o retorno estelar de Mr Längqvist.
A pressão retorna em Death’sWheel, com aquela queda de andamento no
refrão bem típica da banda, uma faixa que parece saída do pesadíssimo disco
homônimo de 2005. Até aqui TheDoorToDoom soa tão perfeito
que até a boa BlackTrinity parece representar uma enganosa
“queda” de qualidade. E se você acha que estou exagerando sobre o quanto Johan
fez bem à banda, ouça a nova rendição para HouseOfDoom e contemple o quanto ela soa absurdamente melhor que na versão
do Ep homônimo. Logo em seguida a belíssima
e épica TheOmegaCircle encerra os
49 minutos da bolachinha com maestria, nos lembrando mais uma vez que estamos
diante de um dos grandes momentos da carreira da banda.
Veredito
da Cripta
Épico, Doom e Metal para
caralho. Se você ama heavy metal, faça um favor a vossa existência patética e
corra atrás de uma cópia desse CD, que é desde já um dos melhores trabalhos de
toda a discografia do Candlemass. Fortíssimo
candidato a disco do ano!
Se um dia alguém
ousar escrever um livro sobre a história do DoomMetal, pode apostar
que alguns capítulos deverão ser reservados aos suecos do Candlemass. Um dos pioneiros e ícones do gênero, infelizmente a
banda tem sofrido com uma estranha síndrome de morto-vivo. Envolto em uma série
de problemas de saúde, o líder, baixista e compositor de 99% do que os caras já
fizeram, LeifEdling, anunciou o encerramento das atividades do Candlemass, lá em 2012. Segundo reportado
à época, ele queria que a banda parasse no topo, antes de começar a lançar
discos “meia-boca” (como aliás foi o fraco canto do cisne, PsalmsForTheDead). O fim não durou muito. A banda continuou a excursionar aqui
e acolá, com Leif raramente subindo
aos palcos e o microfone sendo entregue ao amigo e colaborador eventual MatsLevén (Therion, Malmsteen). E em comemoração dos 30
anos do disco de estreia, em 2016, lançaram até mesmo um bom Ep, DeathThyLover. Eis que sou pego de surpresa ao
me deparar com mais um Ep lançado na
surdina, HouseOfDoom, que inclusive
ganhará edição nacional. Vamos ver o que nosso adorável zumbi aprontou dessa
vez.
Leif e sua trupe
A faixa título é Candlemass clássico, não traz
absolutamente nada de novo ou excepcional, mas deve agradar quem estava com
saudade do som único dos suecos.
FlowersOfdeception
sonoramente até remete ao ótimo disco de retorno da formação clássica, mas sofre
do mesmo mal que aflige boa parte das composições atuais de Leif em seus muitos projetos
diferentes, uma certa preguiça nos refrães. Uma pequena decepção, só para não
perder o trocadilho. A acústica e climática Fortuneteller eleva o nível, mas tem cara de quem funcionaria melhor
em algum disco do Avatarium. DollsOnAWall é uma curta e desinteressante
instrumental que encerra enigmaticamente os parcos 19 minutos de música desse Ep.
Veredito
da Cripta
Seis anos atrás LeifEdling anunciara o fim do Candlemass
dizendo que não queria que a banda passasse a lançar discos meia-boca. Caro Leif, era melhor ter mantido o caixão
fechado, pois meia-boca é exatamente o termo que define com precisão esse HouseOfDoom. Recomendado somente
para os tarados pela banda e completistas de plantão.
Ian Astbury, torcedor do Everton e ávido por qualquer partida de futebol disponível em sua
TV, ficou impressionado quando o argentino Tevez,
ao comemorar um gol marcado pela Juventus,
levantou sua camisa e, ao invés de exibir um anúncio comercial qualquer, exibiu os
dizeres “Ciudad oculta”, uma
referência a suas origens pobres nos subúrbios de BuenosAires. Daí vem a
inspiração para HiddenCity, segundo trabalho dos veteranos desde
que Ian anunciara que a banda não
mais gravaria um disco inteiro. Ironia do destino, se quando eles lançaram o
ótimo Choice of Weapon (ver resenha aqui) eu comemorei o fato da banda ter voltado atrás em sua decisão, dessa vez
tenho que admitir que preferia que eles tivessem abortado a ideia de lançar mais discos.
Duffy pensando "que porra esse cara está cantando?"
A
verdade é que o material aqui parece algo sem direcionamento. Mesmo em
seus melhores momentos, como nas boas Hinterland
(ver vídeo), DarkEnergy, NoLoveLost e na bonitinha Birds of Paradise, esse Hidden City fica longe de ser
memorável. Os riffs de BillyDuffy estão lá, mas não parecem ser o
centro das atenções na produção errática do igualmente errático BobRock. E é a voz desgastada de Astbury
que puxa o barco, mas dessa vez sem o mesmo brilho dos discos anteriores. Ian parece se preocupar mais em
balbuciar suas poesias do que propriamente criar linhas melódicas de
qualidade. Um bom exemplo disso é a chata e presunçosa DeeplyOrderedChaos, que faz companhia a fraquíssima SoundAndFury na ala
desinteressante do disco. Aliás, músicas desinteressantes que se fazem presentes
em número maior do que as inspiradas, fazendo desse HiddenCity o pior disco
da banda desde o equivocado “disco do bode”. Um trabalho indicado única e
exclusivamente aos fanboys mais ardorosos.
Confesso, quando Leif Edling anunciou a extinção do Candlemass ao lançar PsalmsForTheDead (Ver resenha aqui), eu fui um dos
tolos que acreditaram. Aquele lançamento mostrava uma banda cansada e abaixo do
potencial. Eis que, como acontece em 90% dos casos no mundo do rock, pouco
tempo depois fomos agraciados com a notícia de que não só a banda não
encerraria as atividades, como também lançaria um novo Ep. O vocalista aqui é MatsLeven, o mesmo que vem segurando as
pontas ao vivo (muito bem, por sinal). E esse Ep de quatro faixas e pouco mais de 20 minutos é um representante
muito mais digno do poder de fogo dos Suecos do que fora Psalms.
Candlemass, quando o patrão Leif não está no departamento médico
A
faixa título é um daqueles clássicos instantâneos, enquanto SleepingGiant e Sinister&Sweet, se não atingem esse nível de excelência, ao menos passam
longe de serem desinteressantes. A instrumental TheGoose é a típica
música que faria um fã de power metal melódico cortar os pulsos, mas que com
certeza vai conquistar os Doomheads de plantão. Enfim, não há nada de novo
aqui, Leif está pregando para os
convertidos. Mas, cara, como isso é legal!
NOTA: 8,54
Indicado
para: Fãs de metal tocado à velocidade de uma tartaruga sifilítica, mas pesado
como um elefante obeso;
Fuja
se: velocidade for o que move teu amor pelo metal;
Segundo trabalho após
o retorno de Belladonna ao Anthrax, ForAllKings começa promissor, com a épica
introdução Impaler preparando o
terreno para a veloz e efetiva You Gotta
Believe. Monster At The End
também acerta o tom, com refrão bacana, ainda que soe algo repetitiva. A
bolachinha sofre a partir daí com um sério problema de alternância no padrão de
qualidade, revezando faixas boas como Suzerain
(ótimo solo do estreante JonathanDonais), Defend/Avenge, This Battle
Chose Us e especialmente Blood Eagle
Wings (outro belo momento de Donais
e disparado a melhor música do disco, ver videoclipe), medianas como a faixa
título, All of Them Thieves e Evil Twin (primeira faixa de trabalho)
com outras bem fraquinhas, como a pentelha Breathing
Lightning (com seu rabicho instrumental irritante Breathing Out).
Anthrax vivendo dias cinzentos
A
rifferama de Scott Ian está lá, tal
como o rolo compressor do subestimado CharlieBenante. FrankieBello está um
pouco afundado na mixagem e o novato Donais
reserva para os fãs solos bem feitos e funcionais. Já a produção, essa me
pareceu um pouco murcha, tal qual a atuação de Belladonna, repetitiva e algo burocrática. Ok, nunca fui grande fã
do caboclo, mas confesso que a performance dele em WorshipMusic havia
calado parcialmente minha boca, mostrando uma voz bem mais encorpada que no
passado. Aqui já me parece a atuação de um músico ligado no piloto automático.
Independente da produção e voz, o resultado final de ForAllKings está longe de ser ruim. Mas é um
inegável passo atrás em se considerando a dobradinha We’ve Come for You All e Worship
Music.
NOTA: 7,20
Indicado
para: fãs de thrash com fortes toques de metal tradicional;
Fuja
se: preferir um thrash mais encorpado e malvado;
Os finlandeses do 69 Eyes viveram a gangorra comum a
muitos grupos que começam a galgar um patamar de sucesso maior que o nicho
deles comporta. A banda já havia balançado entre o Gótico e o Sleaze quando Gothic Girl se tornou febre nas rádios
e boates escandinavas. Era o som que apropria banda rotulara como Goth’n’Roll. Rapidamente o ótimo disco Blessed Be foi catapultado ao topo das
paradas de sucesso e os caras se viram transformados de um “guilty pleasure” escondido
no underground a uma banda incensada pela grande mídia. O disco seguinte, Paris Kills, manteve a toada,
garantindo um contrato bastante bom com a EMI
e uma dobradinha de discos (Devils/Angels) com ampla distribuição e
vendagem ao redor do globo.
Os Vampiros de Helsinki, chegando um pouco atrasados para a onda emo
Daí
para frente, a banda entrou numa crise de identidade, ora buscando um certo
retorno às origens (com o bom Back In
Blood), ora apostando ainda mais no Mainstream (com o fraco X). UniversalMonsters parece
ter sido pensado para trazer um certo equilíbrio à carreira da banda, e o fez
com sucesso. Se o disco começa numa toada boa, mas previsível (com a quadrilha
que começa com Dolce Vita e termina
com Lady Darkness), e ameaça desandar
de vez com a irritante MissPastis, é impossível resistir à
excelência do trio formado por ShalowGraves, Jerusalem (ver vídeo) e Stiv&Johnny – três das melhores músicas que os vampiros de Helsinki já
gravaram. Daí para frente o que viesse já seria lucro, mas Never e Blue ainda são
faixas tão bacanas que até podemos perdoar o desleixado encerramento com Rock ‘n’ Roll Junkie. Um disco bem
legal, que deve trazer os Vampiros de volta aos inferninhos ao redor do
planeta.
NOTA: 8,04
Indicado
para: fãs de Hard Rock e Gothic Rock;
Fuja
se: a idéia de um caboclo personficando Elvis cantando Gothic Rock te soar um pesadelo;
Classifique como: Gothic
Rock, Hard Rock, Goth’n’Roll
Um dos baluartes (e pioneiros) do
DoomMetal, o Candlemass é
daquelas bandas que amo e que já havia riscado da minha lista de show a
assistir. Imaginei que nunca os veria por aqui. Vejam só, depois da banda ter
anunciado o fim das atividades eis que não só sou surpreendido pela notícia de
uma turnê de retorno, mas também com o anúncio de que essa turnê passaria pelo
Brasil, com uma data no Teatro Odisseia.
Odisseia, te odeio!
Aviso ao incauto leitor, se quiser saber mais
sobre o show em si, pule esse parágrafo, um mero muro de lamentações em relação
ao local do show. Já falei trocentas vezes aqui e repetirei quantas vezes for:
como o Teatro Odisseia é ruim! Além da visibilidade precária para os gnomos
(meu caso), o som é bem ruim 789% das vezes. Mas além disso somos sempre
obrigados a conviver com a inexplicável fila na entrada mesmo quando a casa
está vazia, além dos preços medonhos das cervejas vendidas por lá. E os preços
dos ingressos não acompanham a falta de qualidade do local, vide o valor quase
equivalente para se assistir o Symphony X no Circo (com som e estrutura um
bilhão de vezes superiores). Até compreendo a falta de opções de casas de shows
desse porte, mas após ter assistido My
Dying Bride, Sabaton e Anneke no ótimo Teatro Rival (de
capacidade semelhante e bem próximo dali) fica difícil aceitar pagar caro no
Odisseia, sorry.
Backdrop digital projetado ao fundo do palco
A Missa Negra
Bom, vamos ao que interessa: às 21:20 a marcha
fúnebre toma de assalto os combalidos ouvidos de um público majoritariamente de
meia idade. E dali para frente o que se viu foi uma missa negra onde cada
palavra e até mesmo guitarra emitidos pelos pastores sombrios eram fielmente
replicados pelos súditos. Um raro caso onde 100% da plateia conhecia o material
executado de cabo a rabo.
Candlemass e seus súditos
Começar
a apresentação com a dobradinha Mirror
Mirror e Bewitched foi como
anotar um gol de bicicleta logo aos 5 minutos de jogo. O que viesse dali para
frente já deixaria todo mundo feliz. Mas felizes mesmo ficaram os suecos ao ver
a nova Prophecy ser cantada com
tanta avidez quanto os clássicos. O cinquentão MatsLeven (Malmsteen, Atvance, Therion, Krux) pode não ser a escolha que eu faria para a banda, mas mantém
seu gogó afiadíssimo, executando à sua maneira algo estridente músicas de todas
as fases com resultados melhores do que RobertLowe conseguiu.
Mats Levén recuperando o fôlego com o gigante Lord K ao fundo
Muitos
foram surpreendidos pela ausência do patrão LeifEdling no palco. Acometido
por enfermidade, Leif vem abdicando
dos palcos não só com o Candlemass
quanto com o Avatarium. Aqui no
Brasil o escolhido para representar Mr. Edling
foi o carismático grandalhão Lord K
(nome artístico do sueco KenthaPhillipson, multi-instrumentista do Project Hate). O resto da banda, os
comparsas de longa data Mats
"Mappe" Björkman (único original no palco) e Jahn Lindh demonstravam imensa felicidade de estar ali, ainda mais
após os problemas no show da Argentina, onde a apresentação foi interrompida
por quedas de luz e teve que ter seu som diminuído por solicitação da polícia
local. O canhoto Lars Johansson,
outro membro da formação clássica, debulhou sua guitarra com aquela sonoridade
típica dos grandes guitarristas dos primórdios do Heavy Metal.
Lars, ou como disse Mr. Croce, o canhotinha de ouro do Candlemass
Sobre
o repertório, é bem complicado resumir 30 anos de uma banda de Doom Metal,
repleta de longas músicas, em cerca de uma hora e meia de apresentação.
Belezuras obrigatórias como A Sorcerer's
Pledge e At the Gallows End se
misturaram com algumas surpresas como Emperor
Of the Void (faixa de abertura do melhor disco da fase Lowe, mas curiosamente a de pior recepção) e A Cry From the Crypt (Cripta, alguém falou Cripta???). Claro que
cada um dos presentes tem suas preferidas e faria opção diferente, mas garanto
que se jugarmos o show pelo que foi tocado (e não pelo que não foi), colheremos
só sorrisos. Sorrisos esses que quase viraram choro compulsivo quando a banda
iniciou a estupenda Solitude. Nela fica
claro que Mats tem problemas nas
partes mais graves das músicas, mas ninguém deu a mínima, ele nem precisava se
esforçar, o público cantou a plenos pulmões cada sílaba. O fim da missa se
aproximava, e após aquela encenação básica, a banda finge estar atendendo
excepcionalmente a pedidos dos fãs (eles fizeram isso em todos os shows da
turnê, mas poxa como nos sentimos especiais, hehehe) e então executam Samarithan. E fez-se Doom, e cada um
dos presentes voltou para casa feliz com a aula sombria que presenciou. Um showzaço
(NOTA 9).
Prólogo -Surge a máquina Sueca
do Juízo Final Um
dos baluartes do doom metal na década de 1980, o Candlemass fez sua fama ao misturar o peso sombrio e monolítico dos
primórdios doBlack Sabbath com o
então novo metal europeu. Após um início bombástico com o excelente Epicus Doomicus Metallicus, os suecos
liderados por Leif Edling (baixista
e compositor de 99% do material da banda) acharam sua voz sob a rotunda forma
do maluquete Messiah Marcolin, uma
gigante e desgrenhada figura que se vestia de monge. Dono de voz e carisma
muito acima da média, Messiah levou
a banda a uma sequência de trabalhos obrigatórios na discografia de qualquer fã
de metal (Nightfall, Ancient dreams e Tales Of Creation).
Candlemass - Messiah ao centro em sua glória capilar
Isso até que os egos começaram a
falar mais alto que a música, culminando com a saída de Messiah, em 1990. Nãos em deixar para trás o monstruoso registro ao
vivo Candlemass – LIVE.
A banda prosseguiu sob a forma de
uma espécie de projeto solo de Leif Edling,
lançando discos cada vez mais experimentais (discos esses desprezados sem eu
tempo, mas que ganharam estatus “cult” recentemente), até que desapareceu do
mapa em 1999.
No início dos anos 2000, pegando
carona na onda de reuniões de formações clássicas de bandas de metal, eis que o
improvável acontece: Messiah retorna
ao Candlemass.
Candlemass 2002 - o retorno
Uma
turnê de retorno matadora foi o prenúncio do lançamento de um dos melhores
discos da banda, uma pedrada homônima produzida pelo mestre Andy Sneap e que se tornou um dos
melhores discos de 2005 (ver vídeo para Black Dwarf):
Mas
logo a personalidade insana de Messiah
entraria novamente em choque com a tirania assumida de Leif Edling. No momento em que adentravam o estúdio para gravar o
sucessor de Candlemass, o monge maluco
pelou fora do barco.
Messiah colocou o terninho e foi procurar emprego
A Nuclear Blast, gravadora da banda à época, tentou demover Messiah e convencê-lo ao menos a
concluir as gravações. Chegaram a oferecer um ótimo contrato para um disco solo
para o balofo, mas sem sucesso.
Parecia tudo perdido...
Candlemass redivivo – De novo!
Mas o obstinado Leif Edling convenceu a Nuclear Blast que seu material era forte o
suficiente para sobreviver à mudança dramática de formação. Substituto? Robert Lowe, excelente vocalista americano que há alguns anos já
emprestava sua voz a um filhote do Candlemass,
o bom Solitude Aeturnus.
Robert "Leôncio" Lowe
Com
voz única e poderosa, aliada a excentricidade visual comparável à do Messiah, Robert Lowe conquistou de cara quase todos os fãs da banda.
Facilitou em muito o fato dos discos subsequentes, King Of The Grey Islands e Death
Magic Doom apresentarem material que rivalizava facilmente com os clássicos
de outrora.
A banda com Robert Lowe
Mas, após a boa fase, somos pegos
de surpresa com duas notícias:
A primeira, o Candlemass lançaria seu disco
derradeiro, encerrando suas atividades ao final da turnê.
A segunda, dada logo após o anúncio da data de
lançamento do disco, é ainda mais triste. Robert
Lowe fora chutado da banda, sob a estranha acusação de que suas
performances ao vivo não vinham atingindo um padrão de qualidade aceitável (ver link da página oficial):
Resignado, corri atrás de uma
cópia do canto de cisne de uma das bandas que mais gosto, ansiando fortemente
que tal canto fizesse justiça a carreira brilhante da mesma.
Psalms for The Dead foi lançado em vários formatos. O formato aqui
analisado conta com o CD original e um DVD. Como não existem faixas bônus, o
conteúdo extra do DVD será analisado após a resenha. O pacote em si é bonito,
um digibook contendo letras e fotos interessantes. A arte gráfica segue o
padrão dos últimos discos, sombria, simples e efetiva.
Quanto ao material sonoro, lá
vamos nós:
Entoando os Salmos
Logo nos primeiros instantes de Prophet fica claro que peso não faltará
à bolacha. A faixa é um tanto mais veloz que de costume, tal qual If I Ever Die na abertura do álbum
anterior. Clima épico, boas linhas de voz, mas coroadas por um refrão algo
preguiçoso, ótimos solos e o som de hammond, todos esses pontos se destacam em Prophet e seriam uma constante no
restante disco. Uma boa faixa de abertura, certamente.
Passamos a The Sound Of Dying Demons.A bateria marcando o tempo seguida de um
riff soturno e distorcido parece uma óbvia referência a Iron Man, mas há de se
lembrar, a própria existência do Candlemass
é uma eterna referência (e reverência) ao som do Black Sabbath. Os teclados criando um clima de filme de terror ou
ficção científica de baixo orçamento fazem ressurgir resquícios do Candlemass de Dactylis Glomerata ou From the
13th Sun (cortesia de Carl Westholm,
que fez parte da banda nessa época). Mais um refrão preguiçoso e repetitivo
(estaria o Candlemass ouvindo muito
o Iron Maiden atual?). Dispensável.
Começo a temer pelo restante do disco.
Começa Dancing in The Temple (of the Mad Queen Bee), uma faixa atípica.Algo
acelerada, curta e nada melancólica (ao menos para os padrões da banda), a
faixa vale novamente pelos ótimos solos.Forçando bastante a barra, poderíamos
fazer um paralelo desta música com as influências neoclássicas de Tales Of Creation.
Waterwitch começa pesada e promissora, sua estrutura épica
lembrando bastante outras faixas da atual encarnação do Candlemass. Mas nada a salva de mais um refrão modorrentamente
preguiçoso – “Waterwitch, Waterwitch, Waterwicth...”. Fica a clara impressão
que o chefão, compositor, letrista e baixista Leif Edling já viveu dias mais criativos.
Leif, pouco antes de soltar os cachorros...pobre Lowe
O clima de desesperança não é
algo incomum e necessariamente ruim em um disco de doom metal, exceto quando se
trata de desesperança na capacidade da banda em fazer um bom disco. Mas o jogo
ainda não havia terminado, e as coisas começariam a melhorar. Consideravelmente,
diga-se.
Reminiscências do passado do Candlemass com Messiah Marcolin podem ser encontradas em The Lights Of Thebe, cujo clima oriental misterioso leva o típico
carimbo de excelência da banda. Ótima música, que marca uma considerável
reviravolta de qualidade no restante da bolacha.
A faixa título é o tipo de
material que esperava escutar desde que apertei o play em meu aparelho de som
para fazer essa resenha: riffs monolíticos, solos inspirados, belas linhas
melódicas e refrão marcante. Tudo isso coroado pelo peso típico do doom metal. Forte candidata a clássico.
Outro início com marcação de
bateria e logo somos presenteados com um riff que parece saído de Vol4, do Black Sabbath – The Killing
Of The Sun tem algo que a deixa no meio tempo entre o doom tradicional e o
Stoner. Matadora.
Efeitos que novamente remetem aos
álbuns mais experimentais da banda iniciam Siren
Song, deixando-a com algo de Uriah Heep,
o que não pode ser considerado um insulto. Algo como um remake deRainbow Demon, conta com uma ótima
performance de todos e solo de teclado, cortesia de Per Wiberg (Spiritual
Beggars, Opeth).
O disco se encerra com a boa Black As Time. A descontar a
desnecessária introdução falada, que ao invés de criar um clima sombrio parece
mais saída de algum esquete perdido do Monty Python, Black As Time literalmente fecha o caixão do Candlemass com alguma dignidade funesta.
Sobre os desempenhos individuais,
o Candlemass sempre primou em jogar
para a equipe. Leif Edling e Jan Lindh formam uma cozinha precisa e
funcional, primando em imprimir o peso monolítico que faz parte da marca
registrada da banda. A produção, sob a batuta do chefão Edling, é bastante boa.
Todos os instrumentos aparecem em igual destaque e o peso e punch são quase
palpáveis.
Os guitarristas Mats "Mappe" Björkman e Lars “Lasse”Johansson podem não ser
reconhecidos individualmente pela técnica apurada. Entretanto, quando juntos,
são responsáveis por algo raro no metal atual: solos daqueles que ficam na
memória tanto quanto as melodias vocais. E talvez abraçando o que seria a
última oportunidade em deixar sua marca para a posteridade, a dupla é o
destaque absoluto do disco.
Quanto ao demissionário Robert Lowe, ele faz o melhor com o que foi dado (leia-se, as melodias
algo repetitivas criadas pelo chefe para os refrãos), cantando cada frase com a
maestria que lhe é peculiar. Poucas vezes uma banda acertou tão em cheio no
substituto de um vocalista de renome e é uma pena que não seja ele a
excursionar nesta que deve ser a ultima turnê da banda.
Saldo Final
Em se tratando do alto padrão de
qualidade dos últimos três discos, aliado à grande expectativa criada por
(supostamente) se tratar do derradeiro capítulo de uma das melhores bandas
escandinavas em todos os tempos, é impossível não chegar a terrível conclusão:
Psalms For The Dead é tranquilamente o disco mais fraco desde o
retorno da banda em 2005.
Mas se não será lembrado como um
dos melhores discos do Candlemass,
também fica a milhas de distância de ser considerado um disco ruim. Em suma, Psalms For The Dead é um bom disco de
doom metal em sua vertente mais
tradicional. O disco dificilmente deixará algum fã descontente, mas a
irregularidade do material nele contido talvez seja a prova cabal de que esse é
o momento certo para se aposentar.
NOTA:7
DVD da Edição Limitada:
Intitulado Let There Be Doom, o material do DVD é constituído
de um making of do álbum intercalado com cenas do 70.000 Tons of Metal, o famigerado cruzeiro com shows de metal. Logo
de início somos avisados que um dos guitarristas, Lars “Lasse”Johansson não pode participar do cruzeiro por problemas
familiares. Logo de início, um problema – não há legendas. E tome cenas em línguas
escandinavas e alemão. E mesmo os diálogos em inglês são de difícil
compreensão, o sotaque dos caras (com exceção do americano Robert) é
complicado. Algumas cenas da gravação do disco ou da sessão de fotos para o
mesmo se salvam com muita boa vontade. No mais, são pouco mais de 25 minutos de
imagens ruins e perfeitamente dispensáveis. Não vale tempo (para quem faz
download) e muito menos dinheiro (para quem compra). Passe longe!
Curiosidade:
Para a turnê de despedida foi
confirmado MatsLevén no posto de
vocalista. Para quem não conheceMats
já integrou o próprio Candlemass (e
outros dois projetos de Edling: Krux e Abstrakt Algebra), além de ter participado de discos e turnês com o
Therion, Yngwie Malmsteen, At Vance,
dentre outros. Dotado de boa performance de palco, sua extensão vocal só fica
aquém de sua capacidade em irritar tímpanos alheios. Uma pena que tenha que
terminar assim. Para diminuir o fiasco, foi anunciado também que Per Wiberg arcará com as partes de
teclado dessa derradeira turnê.
Ficha Técnica
Banda (Nacionalidade): Candlemass
(SUE)
Título (ano de lançamento): Psalms
For the Dead (2012)
Mídia: CD
Gravadora: Napalm Records (Importado)
Faixas: 9
Duração: 50’
Faixas:
1. Prophet; 2. The Sound of Dying Demons; 3. Dancing
In The Temple; 4. Waterwitch; 5. The Lights Of Thebe; 6. Psalms For the Dead;
7. The Killing Of The Sun; 8. Siren Song; 9. Black as Time;
Rotule como: Doom Metal
Indicado para: Fãs de metal tocado à velocidade de uma tartaruga sifilítica, mas pesado como um elefante obeso.