Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Glenn
Hughes – Classic Deep Purple Live (29/04/2018 – Circo Voador – Rio de
Janeiro/RJ)
Definitivamente: A VOZ!
Fotos
e texto por Trevas
Noite de domingo,
parto para assistir, pela quarta vez, uma das lendas vivas da história do rock:
Mr. GlennHughes. O vocalista/baixista britânico, agora um senhor de 65 anos
muito bem vividos, a grande maioria deles de grandes serviços prestados à
música, é figura fácil na cidade. Embora a qualidade de Hughes como músico seja incontestável, nem sempre a dinâmica de
seus shows corresponde, muito por conta de repertórios confusos diante de tanta
coisa produzida junto a diferentes artistas com quem ele colaborou (DeepPurple, Trapeze, PatThrall, BlackSabbath, Phenomena...). Mas dessa vez o show seria calcado exclusivamente em
material do DeepPurple, uma das bandas mais importantes
da história. Promissor.
Cartaz da turnê
A abertura do show ficou por conta da banda carioca SeuRoque. Com o som
totalmente calcado no rock setentista, a banda alternou covers de clássicos (LedZeppelin e TheDoors) com músicas próprias em
português. Instrumentalmente a banda funciona muito bem, mas confesso que senti
que falta de algo nas composições próprias, em especial nas linhas vocais. Ainda assim,
um show divertido e que ganhou no mínimo o respeito da plateia, que já lotava o
CircoVoador como há muito eu não via.
Titia Hughes, carcaça carcomida, voz do além
Após uma introdução imitando transmissão de rádio, tocada no som
mecânico, Stormbringer é jogada
impiedosamente em nossas fuças. Um início avassalador, mas quem já acompanha os
shows de Hughes não viu novidade ali...ela viria sob a forma de Might Just take Your Life, seguida pela
bela SailAway e pelo clássico absoluto Mistreated.
Glenn canalizando agudos de outra dimensão
Esse tipo de repertório é uma faca de dois gumes, excelente no papel,
poderia muito bem ser um tiro no pé se a banda que acompanha Glenn não tivesse a pegada certa. Mas,
acreditem, os caras tocam muito e estavam muito bem ensaiados, e com os timbres
brilhantemente escolhidos. E o som da casa, perfeito como poucas vezes ouvi. A
comprovação veio logo após a pergunta do vocalista: vamos voltar comigo ao CaliforniaJam? Foi a deixa para executarem You Fool No One, com direito a emulação dos improvisos originais do
lendário show. SorenAndersen já é velho conhecido, e se não
é um virtuose da guitarra, casa muito bem com a proposta e tem muita pegada e
carisma. JayBoe manda bem demais nos teclados, e contou com o reforço de minimoog e hammond reais!
Mas o destaque mesmo ficou para o jovem chileno FerEscobedo, que
brilhou em um longo solo de bateria que bem poderia ter minado o andamento da
apresentação. Aliás, ele brilhou o show inteiro, a despeito do visual meio
sleaze e das caras e bocas, o garoto é de uma técnica e pegada invejáveis!
O fiel escudeiro, Soren Andersen
Glenn & Soren
Ah, e a voz do Rock? Essa não envelhece nunca, a despeito da carcaça
cada vez mais gasta de seu dono. Para falar a verdade, facilmente posso colocar
o que ouvi nessa noite como uma das performances vocais mais belas e
impressionantes que já pude testemunhar. O que Glenn fez essa noite em canções como This Time Around, Georgia On
My Mind (encerrando SmokeOnTheWater, como nos shows de sua era no Purple) e You Keep On Moving (essa de arrepiar cada pelo do corpo) é de uma
perfeição que parece vir de outro plano astral. A banda se despede sob intensos
aplausos de uma plateia maravilhada.
Sim, você o é, meu chapa
Mas havia mais. O quarteto retorna alguns minutos depois. Glenn deixa o baixo para alguém de sua
equipe técnica (sorry, não descobri quem é) e emenda uma versão de HighwayStar anos luz à frente do que o Purple consegue fazer hoje em dia. Aliás, ela podia ser intitulada
“Chupa Gillan”, mas isso é outra
história. O encerramento vem com a obrigatória Burn, um pouco desencontrada, mas que surte o efeito de um tornado no Circo Voador.
Todos os membros da banda abraçam o chefe de maneira carinhosa e verdadeira. Hughes, visivelmente emocionado,
agradece com aquela paz de guru esotérico e promete um retorno para o ano que
vem. Ninguém arreda o pé, os aplausos seguem efusivos enquanto a banda e seu líder
permanecem no palco. E posso dizer então, que, mesmo já tendo visto o Purple “oficial” uma penca de vezes,
pela primeira vez vi uma banda fazer justiça a seu legado musical. E assim termina um
dos maiores espetáculos que já tive a sorte de presenciar. Uma noite perfeita (NOTA: 10)
Vamos colocar dessa
maneira, se você não faz ideia de quem é GlennHughes, gaste um pouco seu tempo no Google e Youtube, depois faça uma sessão de autoflagelação e só então volte
aqui, seu herege!!!! Brincadeiras à parte, a despeito das impecáveis credenciais
do britânico nas bandas por onde passou, como um artista solo GlennHughes trilha um caminho para lá de confuso.
Glenn Hughes (primeiro à esquerda) e uma promissora banda britânica chamada Deep Purple...
Me considero um fã dos discos solo de Mr. Hughes, mas às vezes tenho a forte impressão e que ele mesmo não
tem tanta certeza da excelência de seus produtos. A cada lançamento Glenn faz a mesma bobagem, diz à
imprensa que o que o disco novo (ou projeto novo/banda nova) é a melhor coisa
desde a invenção da batata frita, e que finalmente ele está se encontrando,
para esquecer o que veio antes. Aí ele lança o disco e o material é constantemente
ignorado em seus shows, sempre inflados de jams em cima de músicas de seu
passado no Trapeze e DeepPurple (não que isso seja exatamente ruim). Enfim, parece que Glenn não entende que tem fãs próprios,
que curtem o material que ele faz. E não são poucos. Seria falta de confiança?
Não sei. Mas parece que essa insegurança permeia a falta de direcionamento dos
discos, que por vezes se perdem no equilíbrio entre as referências à música
negra e ao rock de quem ele diz ser a voz.
Glenn, 2016 - cada vez mais parecido com minha sogra...
Enfim,
novamente prometendo “o disco que os fãs querem ouvir” e um “trabalho voltado
totalmente para o rock, o disco mais pesado que já fez”, Glenn solta seu
primeiro trabalho solo em oito anos. Vamos ver se dessa vez nosso amigo cumpriu
a promessa...
Ressoando a bolachinha
Heavy começa o disco de maneira...ehr...pesada...dã.
Com a bateria de ChadSmith marcando o ritmo como uma
marreta, traz o tio Glenn com um
miado soul nos versos só para gastar o gogó de maneira visceral em seu refrão
simples, direto e eficiente.
MyTown é deliciosa, lembrando um bocado o trabalho do CaliforniaBreed, mas com um GlennHughes soando ainda melhor e mais
encorpado. Aqui já sentimos a produção e mixagem perfeitos do guitarrista SorenAndersen junto ao exigente patrão. Flow tem um pouco do material moderno do Ozzy em sua estrutura, com um belo upgrade, claro. Destaque para os
Hammond muito bem colocado de LachDoley (Lach Doley Group).
Let It Shine aparece para nos
lembrar de que se trata de um disco do Glenn
Hughes, uma ótima faixa que sem o peso da produção poderia bem estar num Feel, por exemplo. Steady começa com uma empolgante introdução no hammond e um ritmo que fez lembrar as participações de Hughes nos discos do Guitar Hero JohnNorum. O refrão baladesco nos pega de surpresa, mas ainda assim a
faixa arrebenta.
God of Money é mais sombria do
que a maioria das faixas do material, e talvez por isso, é um dos destaques,
excelente de cabo a rabo. E o que dizer da atuação de SorenAndersen? HowLong traz mais alguns dos grandes riffs que o sueco tira da cartola
com facilidade. Parece aquela mistura Funk/hard do Stormbringer, catapultada para os anos 2000. Excelente.
Glenn rindo da cara de quem duvidou da qualidade do novo disco
Curiosamente,
é justo quando Glenn soa mais
próximo de seus trabalhos atuais que a bolachinha cai de produção. WhenIFall é para lá de
mediana, a despeito da produção ter caprichado no arranjo e Landmines, outra com cara do Feel (e que conta até com solo com
talkbox), é boa, mas soa um pouco deslocada no contexto. StumbleandGo faz o disco voltar ao nível do
início, um rockão excelente nos moldes do CaliforniaBreed, com belo solo de Soren e bateria marcante de PontusEgborg. Pontus, aliás,
que volta a perder seu posto para Chad
justamente no encerramento com a boa e viajante Long Time Gone.
Saldo Final
Dessa
vez não dá para acusar o velho Glenn
de mais uma infrutífera estratégia e atrapalhada de marketing. Mr. Hughes prometeu e nos entregou: Resonate é seu disco mais pesado. E, mais que isso, realmente é de
longe um dos melhores discos de sua extensa carreira. Resta esperar que a
repercussão perante crítica e público seja boa o suficiente e que finalmente o
britânico finque as esporas nesse nicho. Pois se ele lançar mais discos como
esse, vai ser difícil alguém dizer que ele vive do passado.
NOTA: 8,95
Bônus da Edição Deluxe
A
bela edição deluxe, lançada no Brasil, conta com um digipack muito bem feito,
uma faixa bônus e um DVD contendo dois videoclipes e um making of. A faixa
bônus é uma bela balada com violão e cello. Os vídeos do DVD são bacanas, mas
nada que valha o esforço. Já o making of é curto e objetivo, mostrado cenas das
gravações do disco no estúdio de Soren Anderssen na Dinamarca entremeadas com
entrevistas com os envolvidos. Não há legendas, mas Glenn fala um inglês de
fácil compreensão, quase didático. Enfim, um material extra bem-vindo, mas
longe de ser obrigatório.
Pontos positivos: um disco
pesado e muito bem produzido, trazendo Glenn em plena forma
Pontos negativos: faz você
pensar por que diabos ele não lança mais discos nessa pegada
Maio de 2010, recebo a ligação de um amigo e
companheiro de banda. A voz do outro lado da linha trazia com ela todas as
sombras de Mordor reunidas. Prendo minha respiração, enquanto a voz titubeante
faz rodeios e não chega à evidentemente macambúzia noticia, e espero pelo pior. Finalmente a mensagem é passada “cara, o
Dio morreu”. Fiquei surpreso e tive vontade de rir, dentre todos os cenários
macabros que meu cérebro conseguira produzir desde que atendi o telefonema,
esperava a fatalidade dentro do meu círculo social, e de certa forma fui tomado
de imenso alívio. Brinquei um pouco com a situação e desliguei o telefone. Demorou
cerca de cinco minutos até que me sentisse como se realmente a fatalidade
tivesse se abatido sobre algum amigo próximo. Ronnie James Dio nunca soube de
minha existência, mas sua voz falava comigo desde meus 16 anos de idade. Lembro-me
como se fosse hoje: estava em São Paulo, entro no carro de um de meus tios, ia
com ele até a galeria do rock, com dinheiro separado para comprar os discos
faltantes a minha coleção do Iron Maiden. A fita começa a rodar uma introdução que
trazia uma fala de O Mágico de Oz, seguida de um rebuliço instrumental, e então
um riff matador. Eu era fanático por Purple e em especial Ricthie Blackmore e
reconheci o estilo do guitarrista de imediato. Quando achei que já era a melhor
coisa que eu escutara até então, entra uma voz arrebatadora que me fez esquecer
Ricthie Blackmore. A música era Kill the King, naquela versão do ao vivo On
Stage. A voz, Ronnie James Dio. E repentinamente Bruce Dickinson já não me
parecia mais o cara. E então eu soube que eu precisava escutar tudo o que
aquele enigmático e gnomesco vocalista havia gravado. Meu dinheiro saiu do colo
do insepulcro Eddie para a aquisição dos três discos de estúdio do Rainbow.
O grande amigo que nunca conheci
Stand Up And Shout
Wendy Dio fora casada com Ronnie James Dio por quase
três décadas. Embora já separados quando Ronnie adoeceu, foi ela quem ficou ao
lado do vocalista até os últimos instantes. Única empresária que Dio teve em sua
carreira, Wendy criou em conjunto com o já enfermo músico o Stand Up And Shout
Cancer Fund, instituição filantrópica que tem como alvo angariar recursos para
investir em pesquisas relacionadas à cura e tratamento do câncer. Em seu leito
de morte, Ronnie deixou uma missão nas mãos de sua companheira, todos os
lançamentos póstumos que levassem sua marca deveriam deixar 100% da arrecadação
atrelada ao fundo. Um ato que demonstrou que Dio manteve sua famosa nobreza até
o último suspiro. Um verdadeiro legado de um pequeno grande homem.
Wendy e Ronnie - eternos amigos
Desde então alguns títulos já foram lançados com
essa finalidade, em sua maioria explorando o vasto arquivo de gravações ao vivo
nunca lançadas pelo vocalista. Em 2012, Wendy começou a trabalhar na ideia de
um disco tributo, trazendo artistas famosos, cujo nome trouxesse um peso à
causa que ela abraçou. Discos tributo ao Dio não são exatamente uma novidade, e
em 1999 já havia sido lançado o ótimo Holy Dio, trazendo a nata do segundo
escalão metálico em versões em sua maioria muito boas para os clássicos da
carreira do anão (e.g.: Blind Guardian; Grave Digger, Doro, Fates Warning...).
Mas quando foi anunciado que o tributo atual trazia gente como Motörhead,
Scorpions, Anthrax e em especial Metallica, entendi o quão alto Wendy havia
mirado. Contando com a excelente arte de capa de Marc Sasso, This Is Your
Life foi lançado com grande expectativa. O legal é que o disco foi alçado
diretamente à 25ª posição na parada da Bilboard, feito assombroso em se
tratando de material relativo a um artista já falecido e que desde a longínqua década
de 1980 não fazia parte do mainstream. Sinal de que a boa música nunca morre.
A excelente arte de Marc Sasso para o disco
This Is Your Life - Faixa a faixa:
Anthrax - Neon Knights
Os nova-iorquinos já haviam homenageado Dio em
2011, incluindo uma versão de Heaven And Hell em seu set na turnê do Big 4. Mas
essa rendição de Neon Knights ficou bem mais bacana. Baseada em parte na original
de estúdio, em parte na versão estendida costumeiramente apresentada pelo Black
Sabbath ao vivo, cabe aqui destacar a voz de Belladonna, que ao menos em estúdio
vem soando melhor que em seus tempos de sucesso com a banda. Ah, curiosamente,
o guitarrista solo nessa faixa ainda é Rob Caggiano, que pouco depois disso
abandonaria o posto para assumir as cordas no Volbeat. Um ótimo início.
Tenacious D – The Last In Line
A banda piada liderada pelos comediantes Jack
Black e Kyle Gass sempre teve ligação estreita com Ronnie. Jack era amigo
pessoal do gnomo e o D já havia homenageado o vocalista em seu primeiro disco,
com uma música intitulada...Dio! Ah, e os artistas trocaram favores algumas
vezes, com os comediantes participando do clipe de Push (de Killing the Dragon)
e Ronnie aparecendo no filme da dupla, The Pick Of Destiny. A versão para Last
In Line é bem legal, mais curta que a original,com a voz peculiar de Black
guiando a canção com maestria. O solo de flauta substituindo o icônico original
de guitarra foi um toque bem bolado.
Black, Gass e Dio: Tenacious Dio?
Adrenaline Mob – The Mob Rules
Existem dois vocalistas da atualidade que fazem justiça
ao trono deixado vago por Ronnie. Um é o norueguês Jorn Lande e o outro é o estadunidense
Russel Allen, que capitaneia o Adrenaline Mob. The Mob Rules foi gravada para o
EP Covertà, quando Mike Portnoy ainda fazia parte da banda, e é tão fiel à
original quanto avassaladora. Um dos destaques do disco.
Corey Taylor, Christian Martucci,
Russ Parrish, Roy Mayorga – Rainbow In The Dark
Corey Taylor, o espoleta que lidera o Stone Sour
e o Slipknot fez questão de participar do tributo. Fã confesso de Dio, juntou
seus colegas de Stone Sour a Russ Parrish (ex- Fight) e gravou a toque de caixa
essa surpreendentemente boa versão para a música mais famosa da carreira solo
de Ronnie. Com boa performance vocal por parte de Corey e uma linha de guitarra
substituindo o teclado original com maestria, Rainbow In The Dark pode ser uma
porta de entrada para a molecada se interessar pelo catálogo do Dio. (Nota do Trevas: li em alguns lugares que Satchel, dos gaiatos do Steel Panther participa dessa faixa. No encarte ele não vem listado, qual foi então minha surpresa ao descobrir que Satchel e o sumido Russ Parrish são a mesma pessoa!!!!)
Halestorm – Straight Through The
Heart
Uma das promessas do Hard/Heavy da atualidade, o
Halestorm optou por fazer uma versão crua, sem a refinada produção que guiou
seu último disco. Uma escolha acertada, a música ganhou uma cara nova, em parte
pela pegada atual em outra pela excelente e poderosa voz de Lzzy Hale. Outra
pedrada certeira.
Lzzy trazendo um toque feminino ao tributo
Motörhead & Biff Byford –
Starstruck
Amigo pessoal de Ronnie desde os anos 1970,
Lemmy não podia ficar de fora dessa festa. E não podia ser outra a escolha,
Strastruck fala sobre um tema tipicamente Motörhead – a história de uma
insaciável groupie. A participação do monocelha Biff Byford (do Saxon), cuja
voz parece não envelhecer nunca, dividindo os microfones com Lemmy deixou essa
versão com uma aura toda especial.
Scorpions – The Temple Of The King
A rendição dos alemães para a bela balada The
Temple Of The King é um daqueles casos nos quais temos a impressão de que a
música poderia muito bem ter sido escrita por eles, tamanha a identificação.
Outro grupo que tinha uma boa relação de amizade com Dio, os Scorpions tomam
para eles uma das músicas mais inspiradas do Rainbow. É de arrepiar.
Gnomos gêmeos? Dio e Klaus
Doro - Egypt (The Chains Are On)
Outro caso no qual a música se encaixa
perfeitamente com o estilo do artista que a coveriza, Egypt já havia aparecido no
excelente tributo Holy Dio. Doro, outra amiga de longa data do baixinho, dá uma
vida toda nova à faixa com seu vocal rouco e algo sexy. Volta e meia a alemã adiciona
essa mística canção em seus set lists.
Doro e Dio - a realeza do metal
Killswitch Engage – Holy Diver
Gravada em 2007, especialmente para uma edição
da Kerrang!, essa versão para a música título do primeiro disco solo do Dio
ganhou notoriedade na época, em especial pelo seu hilário clipe, que fazia
troça com o tosco e icônico original. Ainda trazendo o excelente vocalista Howard
Jones em sua line up, o KSE foi responsável por apresentar Ronnie Dio e sua
música para a garotada fã da NWOAHM. Talvez a versão soe estranha aos ouvidos
mais puristas. Particularmente, acho excelente.
Glenn Hughes, Craig Goldy, Rudy Sarzo, Scott Warren & Simon Wright –
Catch The Rainbow
Bem, Hughes foi um dos melhores amigos de
Ronnie, tendo até mesmo dividido um apartamento com o gnomo nas épocas de vacas
magras. Foi ele o escolhido por Wendy para o concerto do Heaven And Hell que
homenageou seu marido (em conjunto com Jorn lande, que acabou por se
desentender com ela). Escoltado por ex-colegas de banda de Dio, Hughes acaba
exagerando demais no tempero soul de sua interpretação, deixando a bela música um
pouco estranha. Não ficou exatamente ruim, em absoluto, mas confesso que demorei
algumas audições até me acostumar.
Oni Logan, Jimmy Bain, Rowan Robertson & Brian Tichy - I
O bom vocalista Oni Logan, famoso por ter feito
parte do Lynch Mob, faz um trabalho bacana nessa excelente faixa do subestimado
Dehumanizer. Um pouquinho respeitosa demais à original, a faixa acaba chamando
mais a atenção por trazer de volta aos holofotes Rowan Robertson, que aos 19
anos apareceu ao mundo como o guitarrista prodígio que gravou o mediano Lock Up
The Wolves do Dio.
Rob Halford, Doug Aldrich, Jeff Pilson, Vinny Appice, Scott Warren – Man
On The Silver Mountain
Outra faixa a trazer um vocalista lendário escoltado
por ex-colegas de Ronnie, Man On The Silver Mountain causa estranhamento a princípio.
O metal god, a exemplo de quando capitaneou improvisadamente o Black Sabbath
por dois shows, dá um pouco a impressão de que não está muito à vontade, mas na
volta do solo ele acaba por se soltar mais e tudo se encaixa. De qualquer forma,
a pegada da música ficou bem legal, com Aldrich brincando com o riff original
no início da música, e após algumas audições acabei me acostumando e achando
ótimo o cover.
Rob e Dio gravando Stars
Metallica – Ronnie Rising Medley
Quem me conhece sabe que não tenho nenhum apreço
pela banda comercialmente mais bem sucedida da história do metal. Para variar,
os ególatras condicionaram sua participação no tributo a não ficarem restritos
a uma única música. Torci o nariz. Quando me disseram que o medley, que inclui
trechos de Light In The Black, Tarot Woman, Stargazer e Kill The King (todas do
Rainbow), estava matador, fui escutar cheio de preconceito. Quebrei retumbantemente
minha fuça implicante. Alucinante desde a introdução, o medley traz o Metallica
com uma fúria e perícia que não são vistos nos caras desde sei lá quando. E Hetfield
conseguiu driblar de maneira brilhante suas limitações vocais, trazendo soberbamente
músicas bastante complicadas de cantar ao seu característico estilo. Até mesmo
a escolha da manjada Kill The King (que 789 bandas já coverizaram) tem que ser
perdoada, é a melhor rendição para essa música que ouvi afora a original. Só para
não dizer que perdi o sangue nos olhos e o veneno na língua, a passagem de Tarot
Woman para Stargazer podia ter sido melhor elaborada, mas pedir que Lars replicasse
a mítica introdução criada por Cozy Powell com alguma decência é um pouco
demais, não? De qualquer maneira, num disco com nível bastante elevado, o
Metallica conseguiu sobressair, tenho que dolorosamente admitir.
Dio – This Is Your Life
Talvez a única coisa que preste em
Angry Machines, de longe o pior disco solo de Dio, this Is Your Life é uma
balada belíssima. Com sua letra ganhando um significado tocante perante a morte
de nosso ídolo, chega a dar arrepios ouvir a majestosa voz de Ronnie versar
sobre a efemeridade de nossa existência. E sua performance nessa faixa serve
para nos lembrar do imensurável talento que perdemos.
Saldo Final
Um excelente disco, repleto de
talento e coração, feito para uma causa nobre e homenageando o maior vocalista
que o heavy metal já ouviu. Preciso dizer mais?
O pequeno grande rei viverá para
sempre através da atemporalidade de sua música.
E nós mortais temos que celebrar
seus feitos, hoje e sempre. Agora me dá licença que vou escutar o disco de
novo!
NOTA: 9,5
Prós:
Repleto de artistas consagrados, do passado
e da atualidade. Todas as versões transpiram respeito e prazer em fazer parte
da homenagem.
O mais virtuoso dos grupos que compõe a Santa Trindade
Britânica dos primórdios do Metal (completam a lista o Led Zeppelin e o Black
Sabbath), o Deep Purple conta com
um punhado de discos clássicos em sua extensa discografia, talhada ao longo de
quatro décadas quase ininterruptas de existência. Por isso mesmo, uma eventual
discussão sobre o melhor disco do Purple
pode render horas de acalorados papos de bar. Na minha opinião a escolha parelha
seria entre Burn (1974) e In Rock(1970). Mas se existem dúvidas
sobre qual seria o melhor disco da banda, poucos ousariam discordar qual foi o
disco de estúdio mais importante para a carreira da banda. Esse disco foi Machine Head, que em 1972 apresentou ao
mundo dois dos maiores hinos da história do rock, Highway Star e Smoke On The
Water, que contém o provável riff de guitarra mais conhecido do mundo em
todos os tempos.
Deep Purple - MK II (1972)
Produzido
por Martin Birch, Machine Head
representaria o disco mais maduro da banda até então, encontrando um meio termo
entre a fúria de In Rock e a
musicalidade de Fireball. Smoke On The Water se tornaria a maior
marca da banda, ainda que Machine Head
só tenha se tornado um sucesso absoluto de vendas por conta da versão ao vivo
desta música inclusa no seminal Made In
Japan, registro considerado por muitos um marco dos shows de rock.
O Icônico Machine Head
Em comemoração
aos 40 anos do disco, a excelente Classic
Rock Magazine preparou um baita pacote, uma edição especial contando com
matérias sobre a gravação do disco, entrevistas com membros do Purple (inclusive a última entrevista
com Jon Lord antes de seu
falecimento), além de entrevistas com artistas famosos influenciados pela banda
(Lars Ulrich, Satriani, Bruce Dickinson,
Joe Elliot...). A cereja do bolo
atende pelo nome de Re-Machined, um
disco tributo inicialmente encartado com a revista (e que atualmente já pode ser adquirido separadamente) contando com um plantel de
respeito reinterpretando as músicas desse clássico do rock, cada qual à sua
maneira.
O Apetitoso Pacote da Classic Rock
Re-Machined Passo a passo
Além das músicas de Machine Head executadas em sua ordem
original, o tributo traz algumas “faixas-bônus”, sob a forma de versões
alternativas para duas músicas (Smoke on
The Water e Highway Star) e uma
releitura para o B-side When A Blind Man
Cries, clássica música gravada nas sessões originais na Suíça, mas deixada
de fora da versão final do disco por mais um capricho do genioso maluquete Ricthie Blackmore.
Curiosamente Re-Machined começa justo com uma das “faixas-bônus”, uma releitura
bastante inspirada para Smoke On The
Water, sob a batuta de Santana
(originalmente gravada para o disco de covers Guitar Heaven, do próprio Mexicano). Tremei, puristas, Santana coloca sua marca latina em um dos
mais famosos estandartes do Hard/Heavy e o fez com a ajuda de Jacoby Shaddix, do (ugh) Papa Roach, na voz. Nada a reclamar
aqui, a dupla nos entregou uma releitura muito boa, que consegue mostrar
personalidade e ao mesmo tempo uma boa dose de respeito à original.
A versão de Smoke On The Water de Santana apareceu originalmente nesse disco
O repertório
original tem então início com uma versão ao vivo de Highway Star executada com muita garra e classe pelo supergrupo com
nome mais idiota do mundo, o Chickenfoot.
Todos demonstram ótima performance, valendo destacar dois pontos: Sammy Hagar, aos 65 anos, tem um gogó
para lá de privilegiado e é uma pena que Satriani
não tenha sido efetivado no Purple
em 94, pois fica claro e evidente que ele teria levado a banda a um patamar
muito mais interessante que aquele mala do Steve
Morse.
O Pé-de Galinha, ê nome horroroso
A
Funky e pouco lembrada pérola Maybe I’m
A Leo não poderia ter ficado em melhores mãos, com Glenn Hughes cantando e tocando magistralmente, ancorado pelo ótimo
Chad Smith (Chickenfoot, Red Hot Chilli
Peppers) na bateria e por Luis
Maldonado (que já atuou como dublê de um fugido Michael Schenker em discos do UFO)
na guitarra.
Hughes e Chad - Espero que tenham demitido a personal stylist
Zakk Wylde surpreende ao se recusar a executar uma óbvia
releitura meramente porrada e suja para Pictures
Of Home (minha favorita do Machine
Head), música com maior potencial metálico do disco original. Ao invés de
sentar a pua, Zakk levou seu Black Label Society a uma execução
muito mais próxima do estilo Southern
Metal praticado no Pride And Glory.
Uma bela bola dentro.
O bando do velho Zakk
Bem,
nem tudo são flores. Kings Of Chaos,
supergrupo montado especialmente para o tributo e que conta com Joe Elliot (voz, Def Leppard), Steve Stevens
(Guitarra - Billy Idol), Duff McKagan (baixo - Guns And Roses) e Matt Sorum (The Cult, Guns And Roses), simplesmente não
consegue transformar a já não tão boa Never
Before (disparada a menos legal de Machine
Head) em algo além de burocrático.
Kings Of Chaos - Supergrupo superchato
Mas
“burocrático” seria um mega elogio para o Flaming
Lips, que assassinou de maneira covarde e brutal Smoke On The Water. Realmente não consigo acreditar que a banda
tenha tido algum intuito aqui além de soar absolutamente irritante. Uma das
piores releituras que uma boa música já recebeu na história do rock.
Flaming Shits, ops, Lips
Por
sorte logo em seguida temos o artista do momento, Joe Bonamassa, capitaneando com maestria Lazy, contando com a ajuda das privilegiadas cordas vocais de Jimmy Barnes (Cold Chisel). Barnes, a
quem só conheci tardiamente, mais exatamente no último disco de Bonamassa, Driving Towards The Daylight, é um monstro e em conjunto com o belo
trabalho do guitarrista americano transforma Lazy na provável melhor releitura desse disco.
Bonamassa (primeiro à direita), sua banda e Jimmy Barnes (à frente, de vermelho xadrez)
Bruce Dickinson já declarou algumas vezes seu apreço por Ian Gillan, e aqui tem sua chance de
prestar homenagem a seu ídolo. Uma pena que a chance foi desperdiçada, pois o Iron Maiden não consegue emplacar sua Space Truckin’, que soa emperrada e prá
lá de burocrática, com uma performance especialmente desinspirada do próprio Bruce. Bruce Dickinson que, diga-se de passagem, não canta realmente bem
em estúdio com o Iron desde Brave New World. Como o vocalista vive
desancando em entrevistas o produtor Kevin
Shirley, adotado pelo resto da banda desde o já citado disco de retorno,
começo a achar que Bruce não se
esforça mais em estúdio por pura pirraça, mesmo.
A donzela podia ter acertado como na versão para Massacre do Thin Lizzy, não?
Outro
grande fã declarado de Deep Purple, Lars Ulrich chegou a oferecer uma
montanha de dinheiro para reunir o MK
III do Purple, se oferecendo
inclusive para assumir a bateria caso Ian
Paice não quisesse se indispor com seus companheiros do Purple atual. Aqui ele tem a chance de
homenagear a MK II,
surpreendentemente escolhendo o B-Side When
A Blind Man Cries. A escolha pode ser considerada surpreendente por se
tratar de uma balada na qual o grande destaque fica por conta da interpretação
vocal belíssima de Gillan. James Hetfield, reconhecidamente um
vocalista prá lá de limitado, poderia passar vergonha aqui. Mas não é o que
acontece, o Metallica se sai muito
bem, obrigado, mesmo com James se
esforçando tanto que de início fica até difícil reconhecer sua voz.
É, James, que sufoco!
A última
faixa, uma segunda versão de Highway
Star, conta com um line-up de peso: Steve
Vai, Glenn Hughes, Chad Smith e Lachlan Doley (que toca com Jimmy
Barnes). Entretanto, nem Hughes
nem Vai acertam o tom aqui, fazendo
uma releitura que se não compromete, também não chega a lugar nenhum.
Saldo Final
Como tradicionalmente acontece em
tributos do gênero, Re-Machined é
marcado por altos e baixos. Fortuitamente, com a exceção ao bolo fecal
expurgado pelo Flaming Lips, temos
aqui um disco de audição bastante agradável, que merece uma chance pela
qualidade musical e não somente pela curiosidade em torno dos grandes nomes
envolvidos.
NOTA – 7,5
Ficha Técnica
Título (ano de lançamento): Re-Machined – A Tribute to Deep
Purple’s Machine Head (2012)