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terça-feira, 9 de abril de 2019

Thunder – Please Remain Seated (CD-2019)


Trovão Retrô
Por Trevas

Os britânicos do Thunder andam com uma comichão criativa nos últimos tempos, e tome um lançamento em cima do outro para cima de fãs felizes. Mas dessa vez a ideia não me pareceu nada interessante, um disco inteiro de releituras acústicas para músicas do repertório da banda. Não sou nem um pouco fã de acústicos, e meu estômago embrulhou só de ouvir falar nesse lançamento. Mas o vocalista Daniel Bowes tratou de acalmar os ânimos ao dizer que a ideia, que nasceu em 2017 quando os caras retrabalharam Love Walked In, não era fazer meros rearranjos acústicos das canções, e sim reinventá-las. Para isso o quinteto criou 3 regras: trabalhar rápido, não buscar a perfeição e deixar o resultado bem diferente do original. Ainda assim fui checar o CD sem nenhum pingo de esperança e munido de uma rabugenta e confessa má-vontade.

Conselho de Classe de Alguma Universidade Britânica
E quando Bigger Than Both Of Us começa, parecendo saída direto de um pub esfumaçado da década de 1950 num filme noir qualquer, tive então a precisa noção de que os caras definitivamente forjaram algo realmente imprevisível. E inesperadamente gostoso de se ouvir.


O disco passa longe, muitíssimo longe de um acústico tradicional (na verdade tem guitarras e outras coisitas plugadas aqui e acolá), Graças à Odin, e também não cai na bobagem de representar um mero e preguiçoso Best Of disfarçado do Thunder. Números Como Future Train, Empty City e Miracle Man provavelmente pegarão de surpresa boa parte dos fãs de carteirinha, que precisarão tirar a poeira de suas bolachinhas para rever o esquecido material original.



E chega a ser curioso saber que a metodologia de trabalho que a banda escolheu para o novo trabalho exigiu espontaneidade, já que os arranjos, repletos de detalhes de pianos, backing vocals, trompetes e cordas, funcionam muito bem. Ah, de fato a produção tem uma dinâmica bem “ao vivo”, o que reforçaria a veracidade da "regra da rapidez" mas com qualidade sonora para lá de convincente.




E até mesmo quando os caras apelam para um dos bastiões de sua discografia, o hit manjado Low Life In High Places, já originalmente uma peça semiacústica, o resultado leva a música para um lugar totalmente inesperado, com um belo piano fazendo dobradinha com um trompete que te deixa esperando o Tom Waits aparecer.


Veredito da Cripta

Vejam só, temos em mãos um acústico que não faz minhas tripas revirarem, o que por si só deve ser um marco na história da música! Brincadeiras à parte, o Thunder conseguiu reinventar músicas “menores” de sua discografia, forjando uma obra que não parece nem um pouco um catadão preguiçoso. Um disco único e delicioso de se ouvir. Ponto para os coroas!


NOTA: 9,35


Visite o The Metal Club

Gravadora: BMG Records (importado)
Prós: ótimas músicas, arranjos bacanas
Contras: definitivamente não indicado para quem quer furar os tímpanos com distorção
Classifique como: Blues Rock, Classic Rock
Para Fãs de: Pubs esfumaçados e filmes noir...



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Thunder – Stage (Box Set – Blu Ray + 2Cds - 2018)

Thunder - Stage

Trovejando em Alta Definição
Por Trevas

Os britânicos do Thunder, aproveitando a surpreendentemente boa receptividade a seus dois discos pós retorno (Wonder Days e Rip It Up) andam tirando o atraso dos anos vividos na sombra, fazendo participações em tudo o que é festival e conseguindo alguns grandes shows como Headliners. A reverberação desse sucesso se faz bem mais intensa no próprio Reino Unido, e foi justamente numa arena abarrotada de fãs em Cardiff que os coroas resolveram registrar sua ótima forma nos palcos.

Os tiozões do pavê britânico

Stage – Apresentação

Stage foi lançado em diversos formatos, o mais completo sendo o Box Set aqui analisado, que compreende dois Cds e um Blu Ray. Como faço usualmente com os Box Sets aqui na Cripta, sempre separo um espaço para comentar a apresentação, já que a maioria dos que ainda compram mídias físicas são colecionadores e adoram esses detalhes. A versão Box Set para Stage tem uma apresentação simples, mas bonita: um digipack que se abre em várias abas, com os 3 discos encartados em miolos de acrílico comuns e resistentes e um livreto com belas fotos e informações técnicas sobre os itens encartados. Ah, e esqueça a capa sem graça, o esmero com a parte gráfica dá de mil nesta. Um pacote bonito, compacto e eficiente.

Stage, o Box Set
Qualidade de Áudio e Vídeo

O Thunder é composto por um bando de senhores que mais parecem professores saídos de uma reunião de classe. Mas ainda assim os adereços são mínimos no palco, simples e sem nenhuma estrutura cenográfica típica de shows de arena. Só que o jogo de luzes é absurdamente bonito e eficaz, proporcionando um belo visual. A qualidade de captação de imagem, provinda de uma penca de câmeras, é fenomenal, das melhores que já vi. As tomadas são bonitas e a edição é ágil sem parecer histérica, combinando bem com o som classudo do Thunder. O áudio também tem uma qualidade absurda, tanto na edição do Blu Ray quanto nos Cds, e conta com o trunfo de uma mixagem que deixa tudo perfeitamente equilibrado, inclusive a participação dos Galeses, animadíssimos. Perfeição técnica absoluta.



Repertório e Performances

O Thunder tem o costume de explorar bem seu material ao vivo, então nada mais normal do que o lançamento atual esteja recheado de músicas de seus dois últimos Cds. Que bom que o material de Wonder Days é excelente e que as músicas de Rip It Up funcionem melhor ao vivo que em estúdio. Mas longe de ser um disco fabricado apenas para fãs neófitos, temos belezuras como River Of Pain, I Love You More Than Rock’n’Roll, Dirty Love, Backstreet Symphony e Love Walked In brilhando em momentos oportunos no excelente repertório de pouco mais de hora e meia (e que é o mesmo nos Cds).



Sobre as performances, a banda soa ainda melhor que no ótimo lançamento ao vivo anterior All You Can Eat. Ben Matthews (que também assume os teclados quando necessário) e Luke Morley tem feeling escrito nos dedos. A cozinha de Chris Childs e Harry James é de uma classe e precisão invejáveis, e Daniel Bowes...bom, o animado tiozão é um daqueles casos raros de voz que parece ficar melhor com o passar dos anos. Com seu estilo que lembra um Paul Rodgers com timbre mais agudo, transpirando feeling e interpretação, Bowes pode bem ser considerado um dos vocalistas mais subestimados de sua geração. Ah, e a plateia galesa, conforme eu já escrevi ali em cima, essa mostra imensa devoção por cada música da banda, o que completa uma mistura muito boa.


Extras

Além da escolha do áudio (Stereo ou DTS-HD Master Audio 5.0), temos um punhado de entrevistas com a banda em seu Tour Bus. Um material bacana, até pela simpatia e franqueza dos músicos, mas que raramente será acessado por grande parte do público mais de uma vez. Ainda assim, uma adição que mal não faz.


Veredito da Cripta

Stage é um daqueles Home Videos feitos na medida para ganhar alta rotação nos Home Theaters da vida, delicioso de se ver e ouvir, tudo pensado e executado tecnicamente com muito esmero. Obrigatório na coleção de qualquer fã da banda que se preze.


NOTA: 10


Gravadora: ear music (Importado)
Prós: Um pacote audiovisual que beira a perfeição
Contras: absolutamente nada a dizer contra
Classifique como: Blues Rock, Classic Rock
Para Fãs de: Free, Bad Company


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Thunder – Rip It Up (Cd-2017)

Thunder - Rip It Up (Cd-2017)

Rabugice Inspirada
Por Trevas

Quem tem acompanhado a carreira dos britânicos do Thunder sabe bem que o sucesso do disco de retorno, Wonder Days (de 2015) pegou a todos de surpresa, principalmente os membros da banda, que já não tinham grandes esperanças em reviver o breve momento mainstream que alcançaram na década de 1990. Claro que toda vez que uma banda lança um disco acima da média acaba por criar uma expectativa de repetir o feito. E por vezes isso gera uma desconfortável pressão. Com os ombros carregados dessa pressão, os veteranos fizeram um singelo e contraditório pacto: o de não repetir a fórmula que deu certo em Wonder Days. Segundo o vocalista Daniel Bowes afirmou em entrevista à Classic Rock, Wonder Days celebrava a nostalgia. E a banda não quer ser somente nostálgica, quer também mostrar que tem futuro e não só passado.

Vamos à peleja, então...


Os velhinhos rabugentos na foto promocional da turnê do Reino Unido - 2017


A Zepelliana No One Gets Out Alive já joga em nossa cara a cristalina e bem pensada produção do disco, bem caprichada, mesmo. A música é honesta e consegue entreter, mas tal como a faixa título que vem em seguida, não chega a empolgar.




Mas a “ode invertida” à curtição nos bastidores do show business She Likes the Cocaine coloca o disco definitivamente nos trilhos – uma faixa midtempo que cresce ainda mais com a deliciosa adição de elementos vocais gospel totalmente contraditórios à excelente letra, um efeito sutil de sarcasmo britânico que nos faz lembrar que estamos lidando com uma banda inteligente.




A balada Right From the Start chega aos ouvidos para lembrar também que, a despeito da voz não necessariamente bela, Bowes tem um poder de interpretação admirável. Feeling puro que faz a faixa, simples em sua essência, se tornar um dos pontos do disco. Ah, e Luke Morley e Ben Matthews definitivamente estão à anos luz de serem guitarristas tecnicamente invejáveis, mas o belíssimo solo ao final da música mostra que isso pouco importa quando se tem bom gosto e criatividade.





Shakedown vem com uma carga de modernidade em seu refrão, contrastando com a sua levada de bateria repleta de cowbell, cortesia do preciso e simples Harry James (sempre jogando para o time), e com a malandragem old school da voz de Bowes. Heartbreak Hurricane eleva o nível da bolachinha ao máximo, com um ótimo arranjo (que cozinha bacana a dessa banda) realçando a beleza da linha melódica, com Daniel soando em alguns momentos como o brilhante Klaus Meine. Excelente.




O baixo pulsante de Chris Childs e um belo Hammond criam o clima de pub esfumaçado perfeito para que voz e solos bem pensados façam da bluesy In Another Life mais uma pequena pérola Thunderiana. Impressionante como arranjos fazem milagres. De um momento para outro somos jogados do pub esfumaçado para uma canção tipicamente AOR anos 1980. Mas a ótima The Chosen One passa longe de soar ultrapassada, graças aquela pegada encardida que sempre diferenciou o Thunder de boa parte das insípidas bandas do hard de sua época.


The Enemy Inside tem um clima mais para cima, a despeito do peso de sua letra, uma característica típica da banda, de usar a intenção de uma música como um acentuador de seu inteligente sarcasmo. Uma faixa menor dentro do alto padrão do disco, mas que de certa forma contribui como um certo “alívio cômico” depois de uma sequência de faixas densas. O clima rocker prossegue na bacana Tumbling Down e seu riff que parece andar em círculos. O clima de desesperança e humor negro embutido nas letras do disco tem seu ápice na balada There’s Always A Loser, que remete aos momentos mais soul de Paul Rodgers nos primeiros (e mais inspirados) discos do Bad Company.



Saldo Final

A intenção do Thunder em não repetir a fórmula de Wonder Days se mostra muito mais sutil do que o esperado, já que musicalmente o que temos aqui é o mais puro Hard encardido de outrora. A diferença é muito mais temática: se o disco anterior funcionava como uma celebração ao passado, Rip It Up parece muito mais um exercício de desesperança perante um presente repleto de nuvens escuras. Mas como já pontuei anteriormente, a banda se utiliza muito bem de seu humor tipicamente britânico. O resultado é um disco rabugentamente bonito e bem feito, que demora um pouquinho para engrenar, mas quando o faz, acaba por garantir um daqueles trabalhos para figurar em listas de melhores do ano dentro do estilo. Altamente recomendado.


NOTA: 8,49



Gravadora: ear Music (Importado)
Pontos positivos: inteligente e com belos arranjos e ótimas melodias
Pontos negativos: contraindicado a quem tem alergia a sarcasmo
Para fãs de: Deep Purple, Free, Bad Company
Classifique como: hard Rock, Blues Rock, Classic Rock













segunda-feira, 16 de maio de 2016

Thunder – All You Can Eat (2Cds + 1 DVD)

Thunder - All You Can Eat


Cardápio Caprichado

Por Trevas

Provavelmente não existe fora do reino Unido uma base de fãs aficionados pelo Thunder. Lembro que o Iron chegou a tentar fazer a banda emplacar levando ela a tiracolo em uma das turnês mundiais, mas os caras nunca conseguiram replicar no resto do mundo a fama que obtiveram em sua ilha de origem. Mas eis que o lançamento de Wonder Days no ano passado trouxe um pouco de luz na esquecida carreira dos simpáticos britânicos, que aproveitaram o momento para lançar um ambicioso pacote ao vivo. São dois Cds e um DVD contendo uma porção de material, separados como se fossem parte de uma refeição de uma pequena cantina: o cd 1 é a entrada, o 2 o prato principal e o DVD (ou Blu-Ray), a sobremesa. Vamos analisar aqui cada um deles sem eparado. Bon apetit!

O Box em sua versão DVD


Starter

A banda teve a sacada de gravar os dois ensaios que antecederam a apresentação do Brooklyn Bowl no estúdio Rak 1, de maneira ininterrupta, tanto em vídeo quanto em áudio. Nos dois ensaios foram tocadas 14 músicas e nenhum overdub ou correção foi feita nesse lançamento. Nem precisa, nenhum dos caras é exatamente um virtuose, mas são todos extremamente afiados. E o melhor, as músicas são excelentes. Há espaço também para algumas covers, muito bem executadas, para Superstition (Stevie Wonder), I’m Down (Beatles), The Rocker (Thin Lizzy), Up Around The Bend (Creedence Clearwater Revival) e a dobradinha Be Good To Yourself e The Stealer (ambas do Free). No encarte é citado que o set acústico constante desses ensaios ainda verá a luz do dia...veremos.



Main Course
Temos aqui mais quatorze músicas, dessa vez interpretadas ao vivo com uma plateia para lá de participativa no já citado Brooklyn Bowl. A perfeição da apresentação anterior obviamente não se repete aqui, mas cara, ganha-se em contrapartida um clima contagiante devido a interação do simpático Danny Bowes, que comanda os fãs com maestria, além de cantar muito! O bacana é que apenas 6 músicas se repetem nos dois discos, ao contrário do que costuma acontecer em compilações de apresentações da mesma tour. Àqueles que costumam comprar a Classic Rock britânica, cabe um alerta, oito das músicas dessa apresentação já apareceram em um Cd encartado em uma edição da revista.

Thunder a caminho da cantina...


Dessert

A sobremesa vem caprichada e demanda que o incauto consumidor tenha reservado um considerável espaço em sua rotunda pança.

Para início de conversa, a base da sobremesa é um extenso documentário sobre as gravações de Wonder Days. Cerca de uma hora de um documentário que registra a trajetória de uma banda esfacelada quando um estafado Danny Bowes resolveu desistir da música para se dedicar a um emprego (muito bem remunerado) comum e que aos poucos se recupera quando o próprio vocalista percebe que a música jamais o abandonou. A edição é muito boa e intercala entrevistas individuais e coletivas com imagens de estúdio e de shows. O único problema reside na falta de legendas somada ao sotaque ultracarregado dos caras, que pode ser de difícil compreensão aos ouvidos menos treinados 

O restante vem em três apresentações ao vivo, onde podemos ver a excelência da banda nos palcos, com som e imagem de extrema qualidade. Danny Bowes e sua trupe são figuras bem engraçadas de se ver: um punhado de tiozões, vestidos como tiozões, com cortes de cabelo de tiozões, mas que chutam bundas com mais força que a maioria dos posers de plantão por aí. Te garanto que muita gente que escutar primeiro os discos ao vivo sem nunca ter visto os caras irá tomar um bruta susto.

Tiozões envenenados

O primeiro dos shows é uma curta apresentação no Loud Park, onde participativos nipônicos curtem fervorosamente as 6 músicas apresentadas, com destaque para as ótimas River of Pain e Wonder Days.


As duas apresentações seguintes são trechos daquelas contidas nos dois cds. Sete músicas são da apresentação ao vivo em estúdio e seis do show no Brooklyn Bowl. São absolutamente três apresentações com climas bem distintos e a única crítica cabível seria o fato das apresentações em estúdio e no Brooklyn Bowl não estarem presentes integralmente.


Mas até mesmo isso foi bem pensado, já que das 19 músicas que totalizam as três apresentações, não há sequer uma repetição. Talvez seja apenas uma falha do meu reprodutor de DVDs, mas reparei que a sessão de estúdio e o show do Brooklyn Bowl não rolam em sequência, tenho que selecionar uma a uma as músicas que quero assistir. Mas chamar isso de defeito num pacote tão bem pensado e executado seria uma tremenda injustiça.


Cabe lembrar que analisamos a versão em DVD, mas tem também um pacote que vem com essas belezuras num confeitado Blu-Ray.

Saldo Final

All You Can Eat é um programa altamente indicado aos apreciadores de uma gastronomia requintada e variada. Aos que não curtem o sabor do Thunder, talvez cause indigestão. Mas garanto que tem tudo para agradar aqueles que nunca prestaram atenção à banda e os fãs? Ah, esses vão se empanzinar várias vezes com a guloseima! Um ao vivo perfeito!

NOTA: 10