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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ozzy Osbourne – Ordinary Man (CD-2020)


Renascendo das Trevas

Por Trevas

Passando por uma sequência de problemas de saúde nos últimos anos, Ozzy parecia fadado a rumar para um melancólico, e dessa vez, involuntário, fim de uma longa carreira. Até que um acaso do destino mudou severamente o rumo dos acontecimentos. Andrew Watt, guitarrista que participou do breve projeto Retro Rocker California Breed, com Glenn Hughes, se tornou um dos produtores e compositores do momento no mundo da música Pop (emplacando Hits no topo das paradas com gente do naipe de Shawn Mendes e Camila Cabello). Seu novo desafio, um trabalho do Rapper do momento, um tal Post Malone. Durante a pré-produção, Andrew descobre que Malone divide em comum com ele o amor pela música de Ozzy. A dupla viaja que uma das novas canções bem poderia ter participação do Príncipe das Trevas. E então Watt esbarra com Kelly Osbourne em uma festa e combina de enviar a música para ela. Kelly bota a música para o papai dodói das ideias escutar, e o velho pira com o som. E Ozzy topa gravar uma participação. Mas ninguém imaginou no que isso renderia...

Ozzy & Watt

Take What You Want simplesmente se tornou a primeira música a trazer Ozzy a aparecer no Top 10 da Billboard em nada menos que 30 anos. Foi a deixa para Sharon farejar uma mina de ouro ali, some-se a isso a empolgação do marido em gravar novamente, e temos Andrew Watt como novo parceiro do comedor de morcegos favorito dos fãs de metal. Como é típico de produções do mundo Pop, a lista de músicos que participaram das gravações é extensa. Alguns deles, nomes conhecidos, como Slash, Chad Smith, Elton John, Duff McKagan e Tom Morello. Mas à época, ficou em aberto qual o direcionamento que a bolachinha seguiria. Teria Ozzy virado Rapper

Watt & Ozzy

Straight To Hell começa muitíssimo bem, com um riff totalmente Black Sabbath, apesar da desnecessária referência “All Right Now” ser a primeira coisa que sai da boca do príncipe das Trevas. A produção tem aquela pegada moderna, mas com menos quantidade daqueles efeitos na voz que Ozzy vinha usando já tinha alguns discos. Slash faz um solo bem bacaninha aqui, e dá para dizer que se trata de uma das aberturas mais promissoras de um disco do vocalista em muito tempo. A segunda faixa é uma balada, a bonitinha All My Life, e aqui já fica claro o teor autobiográfico do disco. Para quem reclamou da falta de um Guitar Hero na bolachinha, ouça o inspirado solo final, por Watt


Goodbye segue com mais uma referência ao passado Sabbathico de Ozzy, um metal grooveado com aquela aura Pop que o vocalista sempre imprimiu em seus trabalhos solo. A faixa título, uma baladinha à lá Beatles, traz lado a lado dois ícones imortais da história da música: Ozzy e Elton John. O resultado fica melhor no clipe, mas ainda assim funciona melhor que a média das melecosidades habituais do Príncipe das Trevas. Ah, e tem novamente Slash no solo.


Aí chegamos à cereja do bolo, Under The Graveyard é daquelas faixas que já nascem clássicas, mais uma que poderia bem figurar nos discos icônicos do vocalista, e se existirão turnês futuras, certamente ela estará no repertório. Falei em passado? Eat Me traz Ozzy na gaita, baixo pulsante e Riff encardido. Lembra aquelas coisas bacanudas do Alice Cooper da era Hey Stoopid (o que também a coloca numa pegada similar à encontrada em No More Tears, se pensarmos bem).


Today Is The End é outra grata surpresa, e certamente teria alta rotatividade nas rádios em décadas anteriores. Scary Little Green Man traz Tom Morello e um refrão grudento em uma faixa legal, mas que deixa a impressão de que poderia ter rendido mais. 


Holy For Tonight é mais uma balada, dessa vez não tão bonita, e que não fosse a produção moderna, bem poderia ter sido composta no início dos anos 1970. E aí entra o momento de desespero para os puristas: Post Malone divide os holofotes com Ozzy no suposto encerramento com a divertida e acelerada It’s A Raid. Mas a despeito de constar como Bonus Track, a já citada Take What You Want aparece em absolutamente todas as edições do disco, então de fato é ela que fecha o disco. Mas, a despeito de soar algo deslocada, não há nada que envergonhe aqui, se trata de um Pop caprichado com bela melodia.

Ozzy fez a escolha certa ao variar suas parcerias de composição (isso se acreditarmos que ele compõe algo), pois tudo aqui soa numa pegada bem mais interessante e viva que todo seu material pós No More Tears. E se o tom algo melancólico e autobiográfico indica um suposto fim de jornada, ela se dará em bom nível. Um disco que certamente ganhará mais admiradores no futuro, quando a troozice dos "fãs" amansar. Surpreendentemente legal. (NOTA:8,51)

Visite o The Metal Club

Gravadora: Sony Records (importado)

Prós: canções legais que fazem referência ao passado do Príncipe das Trevas

Contras: mais de uma balada no mesmo disco sempre incomoda

Classifique como: Heavy Metal, Hard Rock

Para Fãs de: Black Sabbath, Alice Cooper


sábado, 26 de maio de 2018

Ozzy Osbourne – No More Tours 2 (20/05/18 – Jeunesse Arena – Rio de Janeiro/RJ)

Flyer original da tour

Goodbye to Romance?
Fotos e texto por Trevas

O clima não era lá dos melhores. O evento foi transferido da péssima Apoteose para a distante Jeunesse Arena devido à baixa procura de ingressos, o que gerou também uma miríade de promoções conforme o show se aproximava. Os vídeos no YouTube evidenciavam que a qualidade do show, ao menos no que se refere à performance do dono da bola, anda variando muito. Some-se a isso a atitude estúpida da produção, que cedeu aos caprichos de uma prima donna da fotografia rocker, impedindo o trabalho dos fotógrafos locais, deixando os veículos de imprensa reféns do material do beócio-cujo-nome-não-citarei, com a alternativa de contar com fotos feitas à distância, como as que aqui apresentarei. É, a despedida (de novo?) de Mr. Madman dos palcos não parecia lá muito atraente.


As sirenes indicam: os Porcos da Guerra chegaram!
Mas caiu em meu colo um par especialíssimo de ingressos (valeu, Sá!!!), e lá fomos eu e Dressa comemorar meu aniversário ao som de um dos caras que eu mais escutei na minha juventude. Arena abarrotada, pontualmente o belo arranjo de telões inicia a reprodução de um filme muito do bem feito ao som de Carmina Burana. Logo Ozzy sobe ao palco, convocando sua banda e anunciando o show. Bark At the Moon toma de assalto nossos ouvidos e toda aquela balela que escrevi ali no primeiro parágrafo pareceu bosta de camelo diante do que se viu e ouviu.

Ozzy e Zakk, uma parceria para a eternidade

Mas como está Ozzy? O sequelado sessentão se movimenta com a graça de um senhor de 90 anos que acabou de soltar um lastro em seu fraldão geriátrico, verdade. Mas, convenhamos, isso pode ser dito sobre ele desde os 40 anos de idade, não é mesmo? A voz? Essa estava surpreendentemente boa e precisa, numa forma bem superior à da segunda perna da Scream World Tour (quando vi um errático show dele no Monsters) e melhor também do que na turnê de despedida do Black Sabbath. E o Madman, além de possuir a maior concentração de carisma por metro quadrado, tem a seu favor três trunfos, o primeiro deles um setlist matador, que permite emendar a sequência Mr. Crowley, I Don’t Know, Fairies Wear Boots e No More Tears, para somente então frear um pouco os ânimos com a baladinha Road To Nowhere.

Ozzy e seu atentado aos epiléticos

O segundo trunfo é a cozinha destruidora formada por Tommy Clufetos e Blasko (com Adam “filhodocara” Wakeman quebrando um galho por vezes no teclado, por vezes numa segunda guitarra). O terceiro trunfo atende pelo nome artístico Zakk Wylde. O cruzamento de viking com urso grizzly é um show à parte. Longe da birita, sua performance está enfim à altura de sua fama, e o cara consegue até mesmo carregar o show nas costas quando o velho comedor de morcegos se ausenta por mais de dez minutos. Segurar as pontas com um medley instrumental calcado nas partes dos solos das músicas, caminhando ogrescamente entre uma ponta a outra do chiqueirinho debulhando com a guitarra às costas como quem passeia com o totó no parque? Não, não é para qualquer um. Zakk é uma lenda viva e sua presença faz enorme diferença se comparado aos shows com o excelente Gus G e o competente Joe Holmes. Mas nem tudo são flores. Se visualmente os canhões laser e telões formavam um espetáculo imponente, o som da Jeunesse Arena se mostrou confuso para tudo que não fosse bateria ou voz. E ainda que os pouco mais de 80 minutos de show tenham sido extremamente divertidos, é difícil aceitar um setlist tão reduzido (se contarmos os solos de guitarra e bateria) na despedida mundial de um dos maiores ícones da história do Heavy Metal. Deixou a sensação de que faltou muita coisa a ser tocada. Ainda assim, ao término do show, a saída da Arena era só sorrisos, uma multidão feliz por ver um de seus ídolos saindo de cena de maneira para lá de honrosa. Longe de ter sido um show perfeito, mas Ozzy e sua trupe certamente nos brindaram com uma noite muito divertida! (NOTA:8,50)


























terça-feira, 28 de abril de 2015

Monsters Of Rock 2015 - Arena Anhembi - São Paulo (25 e 26.04.15)



Monsters Of Rock 2015
Texto e fotos por Trevas

Realizado nos dias 25 e 26 de abril na Arena Anhembi, o festival desse ano focou seu cast majoritariamente em bandas veteranas, apostando num público um pouco mais velho (e potencialmente mais apto a consumir). Separei a resenha em duas partes, a primeira focada na estrutura em si, a outra nas performances das bandas.

PARTE I – O FESTIVAL

O festival Monsters Of Rock, marca famosa na Europa da década de 1980, sempre esteve diretamente correlacionado ao heavy Metal e Hard Rock. Aqui no Brasil, foi realizado algumas vezes na década de 1990, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. Assisti duas edições, a última em 1998. Essa edição foi apoteótica, contando com Korzus, Dorsal, Glenn Hughes, Saxon, Savatage, Dream Theater, Manowar, Megadeth e Slayer. Um cast para lá de caprichado. Ano passado o evento voltou a ser realizado, centrado numa mistura de duas eras diferentes do rock pesado, confrontando nomes como Limp Bizkit e Whitesnake. Pela segunda vez sediado na Arena Anhembi, como é comum em eventos desse porte, o Monsters 2015 viveu entre erros e acertos.

Ingressos
Primeiro ponto negativo dessa edição, foi um absoluto parto adquirir ingressos pela internet. Os preços, pouco convidativos de início, logo se tornaram abusivos conforme os lotes de ingressos se sucederam. Aliás, esse esquema de lotes com preços diferenciados me parece realmente ridículo.

Acesso
Principal ponto negativo para muitos, pois no sábado a média de espera na fila para adentrar a Arena foi de uma hora e meia. Inexplicavelmente, quando nos aproximávamos do único portão aberto (19), tudo transcorria velozmente e ficamos sem entender o motivo de tanta retenção. O problema poderia ter sido resolvido com uma melhor orientação ao longo da fila, ou melhor ainda, com outro portão de acesso disponibilizado. No domingo tudo transcorreu sem entraves e adentrei a Arena em menos de 2 minutos, ainda que o número do público tenha sido o mesmo do dia anterior. Nas catracas, outro problema, ao contrário do anunciado no site, os funcionários impediam a entrada de água em embalagens plásticas.

Próximo à fila, o jeitinho brasileiro: uma casa oferecendo o prazer de uma cagada por preço módico
Atividades
Um espaço chamado Galpão do Rock trouxe dezenas de stands vendendo acessórios e roupas ligadas à cultura rocker, dentre outras atividades. Ao longo da Arena também tivemos a disposição um stand de venda de vinil e diversos stands vendendo merchandise das principais bandas do festival e do próprio evento. Os preços variaram de R$60 (as camisetas mais vagabundas) a salgados R$250 (moletons). Apenas o Manowar montou um stand próprio para seu merchandise e todos os stands contavam com máquinas para pagamento em cartão. Um stand de promoção do filme Mad Max inovou ao fazer maquiagens e penteados inspirados no visual pós apocalíptico do filme naqueles que se dispusessem a enfrentar uma fila de pelo menos meia hora. Também haviam barracas de revistas especializadas e de um selo de cds.

O Galpão do Rock
Stand Mad Max
Alimentação e bebida
Dezenas de stands e bares foram espalhados ao longo da Arena, e os caixas também estavam presentes em número satisfatório. Durante os shows foi bem tranquilo se alimentar ou comprar bebidas, as filas ficavam bem pequenas. O esquema de pagamento nos caixas consistia na conversão de uma quantia em fichas do festival (Monster Money), cada ficha equivalendo a R$3. Seria um esquema bem bacana, não fosse a maioria dos bares situados na arena limitados a receber o pagamento em dinheiro vivo, assim como todos os ambulantes. Esse fato, somado ao abusivo e estratégico valor de R$ 9 cobrado por uma simples lata da pavorosa Budweiser, resultou em uma picaretagem homérica: a maioria dos ambulantes, geralmente mais para o final do dia, vendia as latinhas a R$10. Quando interpelados, colocavam a desculpa na falta de troco de R$1,00. Os alimentos, em sua maioria sanduíches, também custavam bem caro. Uma pequena porção de batatas fritas valia R$12, um pacote médio de pipoca saía a R$10. A maioria dos sanduíches não ficava por menos de R$18. Foi instalada uma área gourmet concentrando os stands de comida e algumas mesas, que serviam de salvação aos pés cansados ao fim do dia.

Bares e lanchonetes em profusão
O (desvalorizado) dinheiro metálico
A área gourmet e suas mesinhas salvadoras
Som e palco
O som da grande maioria dos shows foi no mínimo muito bom, embora talvez um pouco baixo para aqueles que optaram por assistir mais de longe para se afastar da muvuca. As exceções se deram nos shows do Manowar e Malmsteen, no domingo. Provavelmente muito mais por culpa das bandas e suas trupes, ao que pareceu. Visualmente o palco estava muito bonito, com um grande telão ao fundo que engrandeceu até mesmo as apresentações iniciais de cada dia. A torre no meio da Arena atrapalhou um pouco a visibilidade e o palco baixo, somado aos não tão grandes três telões (dois laterais e um na torre) acabou por limitar a experiência para aqueles que assim como eu, são desprovidos de altura. De negativo, apenas destacaria a insistência do som mecânico em músicas do Pantera no sábado. Até os fanáticos pela banda devem ter saído enjoados de escutar as mesmas músicas.

Vista do palco no show do Kiss
PARTE II – OS SHOWS

Primeiro dia – 25.04.15

Cast do primeiro dia de festival
(perdi o primeiro show do festival, com o De La Tierra, por pura incompetência minha, mesmo)

Primal Fear
Do lado de fora numa fila infinita, meus ouvidos foram inaugurados nesse Monsters ao som do Primal Fear. Som perfeito, repertório aparentemente equilibrado e Ralph Scheepers gritando a todos os pulmões. Acho o careca fortão extremamente competente, mas muito chato. Prefiro mil vezes o patrão e baixista Matt Sinner cantando, mas quem é fã dos caras aparentemente teve todos os motivos para ficar feliz. Ah, cabe ressaltar que essa foi a estreia do Brasuca Aquiles Priester tocando com eles em território tupiniquim, e o cara tocou bem como sempre.

Coal Chamber
Um dos ícones do Nu Metal, rótulo que soa anacrônico diga-se, o Coal Chamber foi a primeira banda que pude conferir já dentro da arena. Começando com a matadora Loco, Dez Fafara e sua trupe pareciam algo deslocados no cast desse ano, mas fizeram um show honesto, e por isso mesmo receberam uma acolhida respeitosa e em alguns momentos até mesmo positiva. Algumas músicas do vindouro álbum de retorno adornaram o set, fazendo do show algo mais que uma viagem nostálgica aos anos de ouro do infame Nu Metal. Um show correto (NOTA 5).

Nadja e Dez falharam em conquistar o público
Rival Sons
Já enchi a bola do som dos caras na Cripta em outras ocasiões, mas confesso que não sabia muito o que esperar do show dos americanos, ainda mais se considerarmos que eles são desconhecidos do grande público. O som retrô dos caras parece ter conquistado em definitivo boa parte dos metalheads presentes, ainda que tenham insistido em duas ocasiões em jams um pouco longas demais para um festival. Facilita em muito o fato das músicas trazerem muito de Led, The Who, Doors e afins. Ah, e o afetadíssimo Jay Buchanan pode concorrer facilmente ao posto de vocalista revelação do evento, tamanha a qualidade de sua performance vocal. Um showzaço que deve ter angariado muitos novos fãs à banda (NOTA 8,5).

Rival Sons, a grande surpresa do festival (para aqueles que não leem a Cripta, claro)
Black Veil Brides
A inclusão do Black Veil Brides em meio a um cast tão tradicional certamente foi uma aposta arriscada. Amparados por um visual que fica em um meio termo entre o Motley e o gothic rock (lembrando uma versão juvenil do 69 Eyes), o BVB faz um som que em muito lembra uma versão de segunda divisão do Avenged Sevenfold. Tudo extremamente técnico e até mesmo com alguns momentos bem pesados, mas creio que o visual carregado e a aparência de Justin-Bieber-do-mal do vocalista Andy Biersack (disparado o ponto fraco da banda, diga-se) tenham jogado por terra as chances da banda em conquistar o Monsters. Mas aqui cabe uma ressalva, você tem todo o direito do mundo de não gostar dos caras, mas hostilizar e tacar garrafas no palco? Atitude desnecessária e infantil, que só mostra nossa incapacidade como público de curtir festivais. Os festivais de verão na Europa misturam desde Black metal a AOR sem que esse tipo de imbecilidade aconteça. Não quer assistir, o evento tem várias opções de diversão, vá curti-las e volte na hora do show que você tanto quer curtir. Também não concordo com a atitude do vocalista, de choramingar e fazer com que a banda encurte seu set. os babacas eram uma minoria e abandonar o palco foi um desrespeito ao não tão pequeno contingente (em sua maioria meninas) que foram ao evento só para ver o BVB. Ou seja, bola fora dos dois lados (NOTA 6).

Perdão, criançada, Tio Trevas não aprovou nem um pouco as vaias!
Motörhead
O mal-estar causado pelos problemas no show do BVB foi amplificado ao máximo quando um dos produtores do evento adentrou o palco para dar a temida notícia: Lemmy estaria com grandes problemas estomacais e teria sido impedido de tocar. As poucas vaias foram logo suplantadas por um ensurdecedor silêncio e por uma espontânea perplexidade. Um dos grandes bastiões do rock pesado mostrando a crua realidade, até as lendas uma hora enfrentam de frente sua mortalidade. O anúncio da corajosa Mimi-Jam entre ¾ do Sepultura junto a Mickey Dee e Phil Campbell pouco ajudou a diminuir a sensação de perda iminente: muito ali estavam no festival somente para ver o Lemmy, alguns por ser a primeira vez, a maioria por imaginar que aquela poderia ser a última chance de ver o tio Crocotó detonando. A Jam durou apenas três músicas e se representou um momento único na história do rock, poucos ali pareceram perceber. Andreas, com Paulo e Derrick fizeram um esforço bonito ao ajudar Mickey e Phil, mas tudo soou amargo demais aos ouvidos da ainda incrédula plateia.

O telão anunciando uma promessa não cumprida. Melhoras, tio Crocotó!!!
Judas Priest
Coube aos Metal Gods a tarefa árdua de restaurar o ânimo do público, e com um set ligeiramente aumentado em relação ao previsto, tomaram as rédeas da Arena Anhembi com propriedade. Um Rob Halford que até dois anos atrás estava em uma situação bastante delicada de saúde que quase o impediu de andar em definitivo, agora andava pelo palco cantando absurdamente bem, mesmo do alto de seus 63 anos. O repertório, que trouxe boas novas faixas (Dragonaut, a muito bem recebida Halls Of Valhalla e Redeemer Of Souls) com clássicos absolutos (Victim Of Changes) e algumas surpresas (Love Bites, Jawbreaker e Devil’s Child) agradou a todos, fazendo deste um dos melhores shows que já presenciei da banda, e certamente um dos destaques do festival. The Priest is Back!! (NOTA 9).

Rob fazendo graça com a bengala, uiuiui
Ozzy Osbourne
Com meu combalido joelho em frangalhos, presenciei metade do show do Madman, o suficiente para perceber três coisas: 1. Gus G, Blasko e Clufetos formam um time e tanto, certamente uma das melhores formações da banda do Ozzy, e o tempo dará razão a isso; 2. O repertório quase idêntico ao da última passagem do comedor de morcegos por aqui, privilegiando material do Sabbath em detrimento aos sons da carreira solo, absolutamente difícil de entender, tendo em vista a passagem do BS por aqui recentemente; 3. Das quatro vezes que vi Ozzy em ação, essa foi disparado a pior em relação a performance vocal. Fairies Wear Boots e War Pigs foram absolutamente assassinadas. Bom, de qualquer maneira, trata-se sempre de um show divertido e impactante, em especial para os marinheiros de primeira viagem (NOTA 7).

Ozzy trazendo seu manicômio a São Paulo
Segundo dia – 26.04.15

Cast do segundo dia do evento
Dr. Phoebes
Desconhecia o trabalho dos caras e presenciei apenas o final, com presença de uma dançarina fazendo um número de pole dance no palco. Pareceu um rock pesado e competente, e obviamente foi bem recebido pelo público presente. Ponto para os caras, mas não tenho como avaliar.

Dr. Phoebes e sua arma secreta
Steel Panther
Difícil expressar em palavras o grau de diversão que esses caras proporcionaram sem parecer um pouco bobo. O show do Steel Panther poderia ser resumido em um esquete de comédia, todos na banda tem seu papel e o desempenham com louvor e a profusão de piadas de baixo calão com enorme foco nas referências sexuais poderia causar alguns narizes torcidos. Mas tudo isso ainda é adornado com músicas excelentes tocadas por músicos bem acima da média, então se você não é fã da gaiatice, pode ainda assim curtir o som. Bom, e no ramo das gaiatices, nada mais próprio (ou seria impróprio?) que piadas sobre a sexualidade e idade avançada de alguns dos caras (todos eles figurinhas carimbadas da cena Californiana), sobre o tamanho diminuto dos membros dos membros e até mesmo uma impagável sacaneada dos insuportáveis solos de baixo do bobalhão Joey De Maio. Some isso tudo com uma profusão de belos peitos sendo mostrados e temos aí um dos grandes shows do evento todo (NOTA 9).

p.s.: Só não consegui até agora entender a garota chorando horrores no refrão de Community Property (cheque a letra e entenda...).

Satchel e Starr detonando no monsters
Yngwie Malmsteen
O sueco grandalhão sempre teve o talento proporcional a seu ego, e ele tem um ego Godzillico. Então, mesmo sabendo que os bons tempos ficaram bem para trás, estava bastante curioso em conferir o show de um dos maiores guitarristas em todos os tempos. Problemas técnicos intermináveis atrasaram um bocado o início do show, e quando o mesmo teve início, que decepção, Malmsteen conseguiu cagar os solos da fantástica Rising Force. E a banda do cara parece um apanhado de xepa da feira, disparado a pior formação que ele já teve. Um tecladista (bom) que pessimamente se desdobra nos vocais e uma cozinha meia boca. Mas o que impressiona mesmo é o desleixo do outrora mestre do rock neoclássico com seus timbres e solos, comendo muitas notas e fazendo muita pose e pouco som. Um fiasco completo (NOTA 2).

Malmsteen 2015, apenas um borrão do que já foi um dia...
Unisonic
Qualquer coisa com Kiske nos vocais me faz querer estar em uma caverna isolada no Afeganistão, milhas de distância de qualquer emissão sonora. Mas respeito Kai Hansen, que acho um bom guitarrista e um puta showman. Bom, o Unisonic não me fez mudar de ideia sobre o Kiske. Um metal europeu para lá de melódico e pasteurizado, como era de se esperar. Mas claro, tudo muito bem tocado. Kiske envelheceu, mas sua voz não sentiu tanto, atingindo uma maturidade que em muito lembra o que aconteceu com o Geoff Tate (Queensrÿche). Acredito que os fãs de metal melódico, afeitos a esses shows bonitinhos e de certa forma distantes do conceito do Heavy metal não tenham nada a reclamar. Eu aproveitei e assisti o show à distância, comendo um bacon burguer, que tem muito mais potássio, atitude e energia em 200 gramas de carne do que em uma hora de show dos caras (NOTA 6).

Accept
Precisou outro combo alemão para mostrar aos garotos leite com pera como se faz. O Accept aproveitou cada um dos minutos de sua apresentação para destilar em alto e bom tom todos os bons clichês do heavy metal clássico. Guitarras esporrentas, bateria cavalar, baixo competente e um vocal que parece ter feito gargarejo com cerol entoando petardos que usam sim de melodia, mas na medida certa, sem Abdicar do peso. A reta final, com Teutonic Terror (recente e já clássica) e Balls To The Wall levantou até defunto. E Mark Tornillo definitivamente faz com que a ausência do anão UDO mal seja sentida. Em suma, o Accept veios em muito alarde e simplesmente destroçou, fazendo aquele que muito consideraram ser o melhor show do festival. Matador! (NOTA 10).

Accept fazendo mais um gol para a Alemanha!

Manowar
O show no Monsters Of Rock de 1998 corou triunfalmente o Manowar no coração dos headbangers nacionais. Eu estava lá, e gaiatices à parte, foi destruidor! Que diferença... o Manowar até começou muito bem, mas chafurdou seu bom repertório num som horroroso. Em quase todo o show o que se ouviu foi o sempre ótimo Eric Adams cantando em cima das linhas de bateria, entrecortado por solos de guitarra e o pior som de baixo que já ouvi. Poderia se culpar o som do evento, mas curiosamente Accept veio antes, som perfeito, Judas veio depois, som perfeito... E o babacão do Joey de Maio com suas bravatas soa como o Steel Panther, só que com uma pequena grande diferença: ele se leva à sério. Absolutamente triste. E o cara ainda tirou onda por falar português, talvez se esquecendo que os gaiatos da Califórnia já tinham falado algumas piadas em bom português horas antes. O sentimento de vergonha alheia tomou conta de muitos, e olha que o público estava bem receptivo. Na plateia, uma profusão de gorilas musculosos sem camisa, se abraçando e chorando, bêbados e provando que o excesso de testosterona se aproxima demais da veadagem absoluta. Assistindo essa apresentação e tentando lembrar o último disco razoável dos caras, me peguei pensando que é hora de programar a aposentadoria: talvez seja melhor dividir o preço do psiquiatra com o Malmsteen. Pífio! (NOTA 4)

p.s.: Ah, sim, teve a participação de Robertinho do Recife, mas ao que parece poucos entenderam quem era.

Judas Priest
Assistir dois shows seguidos de qualquer banda pode ser um pouco desanimador, certo? Sim, mas a fase do Judas está tão boa que fiz questão de ver tudo de novo. Uma ou duas músicas foram trocadas em relação ao show da noite anterior (saiu Love Bites, infelizmente) e Halford estava um tiquinho menos inspirado. Ainda assim um grande show que terminou com uma performance apoteótica de Painkiller seguida de Living After Midnight, a música mais Kiss que o Judas já fez. Muito bom. (NOTA 8)

Kiss
Com quase uma hora de atraso, o Kiss assombra o palco com o costumeiro festival pirotécnico. As pessoas esquecem que fosse somente pela pirotecnia, o Kiss não teria tamanho longevidade e/ou adoração na cena. O grande trunfo dos caras são as músicas: Detroit Rock City, Creatures Of the Night, Psycho Circus, Deuce, God Of Thunder...até mesmo Parasite deu as caras!!! Um show perfeito, certo? Infelizmente não. Paul Stanley está com um físico privilegiado em sua idade, mas ao contrário de Halford, seus 63 anos transparecem por inteiro em sua voz. O cara mal consegue falar, quanto mais entoar os hinos imortais da banda. A voz de Gene também já viveu dias melhores e fica impossível nãos sentir uma pontada de desapontamento em relação ao que se ouviu ontem, a despeito da superprodução e do repertório muito bem escolhido. Ainda assim, um show para lá de empolgante (NOTA 7)

Gene, lá do topo do mundo!
Saldo Final
O triste imprevisto em relação ao Motörhead não pode ser levado em consideração, assim como a má forma de algumas atrações. Ao que pude constatar com quem compareceu na edição do ano passado, o Monsters Of Rock melhorou em termos de estrutura e o som beirou a perfeição na maioria dos shows. A diversidade de stands e afins tornou a experiência de passar o dia no meio de nossos iguais, curtindo um monte de coisas que fazem referência ao universo que tanto amamos, ao som de grandes bandas, uma oportunidade única. E o melhor, em território brasileiro! Particularmente, reencontrei em mim uma paixão pelos shows que vinha aos poucos esmorecendo. O melhor ponto foi a sensação de igualdade, as bandas que tocaram no início da tarde dispondo de ótimo som e do telão fantástico. Afora os já relacionados entraves na organização, o grande ponto negativo foi a notada ausência de nomes brasucas no cast. Sem nenhuma patriotada, temos nomes que podiam muito bem entrar no lugar da galera xepa da feira, como atualmente são o Manowar e Malmsteen. Que venha a edição 2016!!