Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Originalmente publicado em
2018, esse é o trabalho autobiográfico de K.K. Downing, legendário
guitarrista do Judas Priest, escrito em parceria com o escocês Mark
Eglinton (responsável pelo livro sobre a MetalBlade e pelas
biografias de Nergal e RexBrown).
Apesar da carência de material
literário sobre o JudasPriest (uma de minhas bandas favoritas) à
época, relutei em adquirir o livro: resultado de uma agressiva campanha de
marketing na qual quase diariamente o guitarrista soltava alguma declaração
depreciativa em relação a seus ex-companheiros de banda. Cheirava a azedume e
dor de cotovelo gratuitos. Livros escritos assim raramente valem a pena. Coube
então ao meu amigo Moisés Cipriano fazer a resenha do livro para a Cripta, em
sua edição original.
Mas após viajar com o
ótimo Confess, do Halford, achei que era hora de encarar a versão
de K.K. sobre a história de uma das maiores bandas de Metal em todos os
tempos. O timing foi perfeito, pois a Estética Torta lançou o livro em
uma belíssima edição nacional, em capa dura e com tradução certeira. E que
ainda vem com cartão (bookplate) autografado pela própria lenda.
A bela edição nacional, com o bookplate autografado. Parabéns para a Estética Torta
Sobre o livro em si, me
surpreendi: o tom de Downing no geral é bem leve, ainda que franco,
mesclando lembranças de sua juventude e vida pessoal com detalhes sobre a
carreira do JudasPriest.
No comparativo com Confess,
HeavyDuty é sim um livro mais centrado no JudasPriest
do que a obra de Halford. Dito isso, nem de longe parece um livro
definitivo sobre a história da banda (MickWall, cadê você, meu
filho?!?!). A narrativa é bacana, mas K.K. decididamente não é um
contador de histórias tão divertido quanto o MetalGod.
E se o azedume não contaminou
o discurso de K.K. durante boa parte das 325 páginas de HeavyDuty,
o mesmo não pode ser dito de seu encerramento, com um capítulo confuso (assim
como o do Halford em Confess, sobre sua saída em 1991),
contraditório e repleto de mágoas, quase sempre direcionadas a GlennTipton.
Ou seja, temos em mãos uma
biografia honesta, mas sem nada de especial para quem já está acostumado a
livros do gênero. Um bom livro, mas que dificilmente cativará alguém que já não
seja muito fã do JudasPriest.(NOTA: 7,00)
Formato: Livro
Título Original: Heavy Duty:
Days & Nights In Judas Priest
Confess é o livro que conta a saga de um certo Robert John Arthur Halford, nascido e
criado em uma Birmingham do pós-guerra, no coração poluído do Black Country, para se tornar uma das
mais emblemáticas figuras da história do rock.
Eventualmente,
Rob Halford ganharia o mundo à
frente do Judas Priest, uma das
maiores bandas de Heavy Metal em
todos os tempos, uma verdadeira instituição britânica. A própria redefinição do
British Steel.
Mas
Confess definitivamente não é um
livro sobre o Judas Priest.
Confess é sobre a jornada de descobertas e auto
aceitação de um jovem criado em um lugar empedernido, em uma época cinzenta,
escapando do destino do chão das fábricas, e vivendo sonhos, por culpa do amor
à música.
O
livro justamente funciona melhor em sua primeira metade, quando Rob relembra sua infância e juventude,
e as desventuras da descoberta de sua homossexualidade (a aceitação viria
muito, mas muito mais tarde), de maneira bem-humorada e leve.
Na
segunda metade o livro ameaça entrar na cansativa seara da “saga do junkie”,
lugar comum em 10 a cada 10 biografias do mundo do rock.
Ainda
assim, escapa do marasmo devido ao “brilho no olhar “ com que o quase
septuagenário senhor conta até os momentos mais trágicos, espelhando a
conhecida personalidade “boa praça” do careca mais famoso da cena. Por exemplo,
dá pra sentir a empolgação do já milionário senhor narrando sua fanboyzice em encontros com Andy Warhol, Cher, Jack Nicholson, Jimmy Page, Freddie Mercury, Dio, Lemmy, Madonna, a própria Rainha e...Lady
Gaga?!?
Sua
faceta pacífica só se mostra esgotada no episódio em que o babaquara Axl Rose tenta impedir que o Judas use a Harley Davidson no show do Rock
In Rio II. Por pouco um show histórico quase não acontece...
Aos
pudicos, um alerta, Rob é bastante
“gráfico” ao narrar suas descobertas sexuais, preparem-se para ouvir bastante
sobre punhetas e boquetes em desconhecidos em banheiros públicos, e descubram
que também nos EUA há uma estranha
relação entre Forças Armadas e o armário...enfim...
Os
fãs de Judas Priest terão sua cota
de anedotas, possivelmente algumas poucas delas inéditas, mas certamente
ficarão frustrados se encararem a leitura como uma dissecação da história da
banda e suas relações internas. Nesse ponto Rob é bem político e algo evasivo.
Há,
por exemplo, uma clara licença poética sobre sua saída da banda e sobre a
entrevista que o levou à se assumir para o mundo. Assim como um certo eufemismo
nos eventos que levaram à decisão de KK
de se desligar da mesma.
Mas
prefiro analisar o livro pelo que ele é, uma história incomum de um personagem
igualmente incomum, e contada de forma muito divertida.
Leitura
das boas.
Mas
o livro definitivo sobre a história do Judas
Priest, esse ainda está por ser escrito.
Texto por Moisés Cipriano (mentor e fundador do The Metal Club)
Moisés, nosso convidado especial
Para quem gosta de heavy metal,
Judas Priest é uma entidade e encontra-se normalmente no topo das bandas
preferidas. Foi essa a razão que me fez correr atrás de um livro que explicasse
mais em detalhes as origens da banda. E nada como ler diretamente do fundador,
do membro mais antigo da banda, daquele que pegou o nome emprestado e definiu o
visual da banda. O livro, em inglês, se chama Heavy Duty – Days and Nights in
Judas Priest. O livro contém uma série de fotos legais no meio dele que não me
atrevo a rebater, por questões de direitos.
O objetivo dessa resenha não é
traduzir o livro, pois seriam quase 300 páginas, mas sim dividir algumas
histórias que guardarei na memória e fazer um pequeno resumo desse belo livro
que, por enquanto, não possui sua versão em português.
- K.K. Downing nasceu como
Kenneth Downing Jr., ou Ken, em 27 de outubro de 1951 em Black Country, West
Bromwich, Inglaterra.
- Ken ficou louco com o som da
guitarra de Jimi Hendrix, em especial, Foxy Lady. Ele teve o privilégio de ver
alguns shows do mestre quando jovem e isso o influenciou bastante o querer
tocar guitarra.
- O ambiente em sua casa era
hostil. Não havia amor. Seu pai o proibia de interagir com outras crianças por
motivos psicológicos. O cara era um vagaba e apostava o que conseguia do
governo em cães e cavalos. Eram pobres e moravam um pouco afastados, na região
central da Inglaterra em um ambiente industrial. Bem Heavy, né?
- Com amigos, fez uma viagem
louca pela Europa, foi parar na Alemanha e, quando finalmente, retornou à sua
cidade, perdeu o bom emprego de cozinheiro que tinha em um bom hotel.
- Al Atkins já tinha um nome na
cena local e junto com K.K compuseram as primeiras canções do Judas Priest. Sem
novidade. Todo mundo já sabia.
- Após alguns shows com Al
Atkins, a falta de grana falou mais alto para quem já estava em outra fase da
vida. Sem vocalista, K.K. recebeu a dica de uma amida da namorada e bateu na
porta de Rob Halford.
- O contrato para a gravação do
1º álbum Rocka Rolla foi conseguida através da ralação dos shows e antes da
entrada de Glenn Tipton na banda. Momento bom para entrar numa banda. O Budgie
era uma das bandas parceiras para as quais o Judas abria os shows.
- Junto com o esforço e alegria
de um primeiro contrato e primeiro álbum, veio a decepção da mixagem ruim.
Lição aprendida sobre a importância da mixagem logo de cara.
- E a grana? Que grana? Veio
então com o 2º álbum Sad Wings of Destiny? Sem chance. A coisa só começou a
entrar de leve quando trocaram para Sony/CBS e gravaram Sin After Sin. Com ele,
fizeram uma pequena tour no U.S.
- A relação difícil com Tipton
vem dos primórdios com a divisão injusta dos solos e inicio do domínio de
Tipton sobre a banda. O perfil de K.K. nunca foi de confronto dado tudo que
passou e teve que enfrentar dentro de casa quando criança.
- O visual da banda na década de
70 era disparate. A imagem e as roupas que definiram o heavy metal vieram de
K.K. Downing. Ele definiu a imagem do Judas e a imagem do metal. Halford
comprou logo de cara a ideia das roupas de couro, tachas e chicote. Por que
será?
- O Judas sempre valorizou as
bandas de abertura assim como foi valorizado pelas bandas do início do
movimento no início da década de 70. Mas a treta com o Maiden foi real. Segundo
a versão deles, Paul Di’ Anno e cia eram meio metidos e intrusos, o que nunca
favoreceu uma boa relação entre as
bandas.
- Ibiza na Espanha foi o paraíso
onde foram gravados Point of Entry, Screaming for Vengeance, Defenders of the
Faith e outros.
- Assim como li em outros livros,
a importância do US Festival e a ostentação de chegar de helicóptero e ver um
planeta inteiro em um festival é inesquecível para os músicos que fizeram parte
do festival.
- Turbo foi polemicamente um
sucesso. Sintetizadores não foram um problema só para o Judas. Ahhh conhecem
Top Gun? Pois é, a banda não topou entrar na trilha do filme. Bola murcha.
- A banda sempre soube e
respeitou a posição sexual de Rob Halford. Bola dentro.
- A tour com Motorhead e Alice
Cooper foi o fim da banda. Desgaste de relacionamento, confusões, brigas e
acidente no palco determinaram a saída de Halford antes mesmo de K.K. entregar
sua própria carta de demissão - carta essa que só seria entregue muitos anos
depois em sua aposentadoria do Judas.
- Ralph Scheepers foi sim
cogitado. Ripper entrou e foi importante para a banda. Manteve a chama acesa e
fez seu papel da melhor forma possível. Profissional na entrada e saída.
- Com o retorno de Halford, a
banda voltou com força nos festivais e lançou Angel of Retribution que continha
material da fase Screaming for Vengeance como, por exemplo, Judas Rising, que
quase virou o título do álbum, o que estaria totalmente com a temática
metal-religiosa da banda ao longo dos anos.
- Nostradamus é um álbum bem
valorizado por K.K que, segundo ele, não funcionou ao vivo e perdeu uma grande
oportunidade cênica e teatral que poderia ter marcado ainda mais o Judas.
- O livro termina com a carta de demissão
ou aposentadoria em Abril de 2011. Será? Termina com algumas histórias da vida
como ela foi pós-Judas e algumas frustrações superáveis em especial com o
documentário Heavy Metal Britannia onde K.K. não foi convidado para contar a
origem do metal na Inglaterra industrial. Eu assisti ao documentário e
recomendo.
- Em resumo, um metaleiro com
infância difícil, guerreiro, riffeiro, determinado, que ajudou as mulheres e
pessoas que passou pela sua vida e, mais do que tudo, contribuiu para a
solidificação do heavy metal e de sua imagem.
Novamente com atraso, chega
mais uma lista de melhores do ano.
Faço essa lista desde 2012 e
confesso que embora eu sempre me pegue impressionado com a qualidade do
material ao final de cada um dos anos, dessa vez me surpreendi demais. 2018 foi
o ano em que minha nota de corte para o 20º colocado foi tão alta que quase
estendi a lista para 25 ou 30.
Sim, pois o resultado final
deixou de fora discos excelentes de gente respeitável, como Unleashed, Imago
Mortis (o melhor disco Brasuca de 2018), Metal Church, Burning Witches, Clutch
e grande elenco...
Mas lista é assim mesmo,
sujeita a falhas, supostas injustiças e muito xingamento gratuito à progenitora
do infame “redator” hehehehe
Claro que preparei também uma
Playlist no Spotify com uma música de cada disco avaliado por aqui, para quem
quiser fazer uma tardia retrospectiva sonora de 2018.
No mais, espero que se
divirtam.
Saudações
Trevas
A PLAYLIST
Blu-Ray/DVD
Sim, o outrora
promissor mercado de Blu-rays e DVDs, que chegou (ainda que momentaneamente) a
servir de válvula de escape para as Gravadoras diante da crescente queda de
venda dos Cds, diminuiu
estrondosamente. A enxurrada de Home-vídeos do início dos anos 2000
praticamente secou. O bom disso é que as bandas perceberam que precisam colocar
algo realmente especial e relevante nesse restrito mercado. Esse ano tivemos
alguns bons exemplos, como o documentário/show The Pursuit Of Vikings, do AmonAmarth. Ou MesseNoire, que coloca
toda a capirotagem do Behemoth
apresentando sua obra máxima ao vivo. Ainda tivemos o ineditismo de ver um show
completo do Ayreon saindo do papel
no ótimo AyreonUniverse. E a habitualmente confusa mistura orquestra/banda de rock
enfim funcionando com SymphonicTerror, do Accept. Mas nada se comparou ao esmero dos lusos do Moonspell com o para lá de abrangente Lisboa Under The Spell: uma
megaprodução em três atos divididos entre os clássicos Wolfheart, Irreligious e
o então último trabalho, Extinct. Um
pacote que ainda conta com ótimos extras e que merece o título de melhor
lançamento audiovisual de 2018.
Bomba
e Decepção
Sempre bom lembrar a
diferença entre bomba e decepção: algo só nos decepciona quando desse algo
esperamos bons resultados. Da bomba não necessariamente esperamos nada. E esse
ano tivemos algumas decepções que não chegam a ferir os ouvidos: MachineHead perde o pé no confuso Catharsis,
Doro entrega um disco duplo bem sem
graça, Magnum e Kamelot enfim erram o alvo após anos e anos de bons serviços
prestados. Ah, e StevePerry faz de seu
improvável retorno uma viagem adocicadamente sonolenta. Mas se as decepções não
mataram ninguém, não posso falar o mesmo da bomba inconteste de 2018: uma josta
triplamente qualificada, um horror Lovecraftiano vomitado das profundezas do
mau-gosto chamado The Three Tremors!
Roubando a ideia original abandonada nos anos 2000, de unir três grandes
vocalistas de Metal (Dio+Halford+BruceDickinson), alguém
teve a infeliz sacada de fazer uma versão disso, só que comprada no AliExpress: os insuportáveis cacarejadores SeanPeck (Cage, Denner/Shermann) e TimOwens (JudasPriest e outros 789 projetos de onde é
sempre demitido) se juntam ao subestimado HarryConklin (JagPanzer) num disco
absolutamente impossível de ser ouvido por mais de torturantes dois minutos.
Sinceramente, nem latido de poodle soa tão irritante e intragável.
Três decepções e uma aberração
Os 20 Melhores:
20. Saxon – Thunderbolt
A primeira metade dos
curtos quarenta minutos de Thunderbolt é tão arrasadora que chega a empalidecer
(injustamente) o restante do disco. Mais um ótimo trabalho de uma das bandas
mais prolíficas e equilibradas de sua geração.
19. Behemoth – I Loved You At
Your Darkest
O sucessor do
brilhante The Satanist é de uma fúria e perfeição absurdos. Mais direto e menos
inventivo, ILAYD definitivamente não é tão genial quanto seu irmão, mas ainda
assim está facilmente entre os melhores discos dos poloneses.
18. Halestorm – Vicious
O Halestorm estava
nos devendo um Cd à altura de seus poderosos shows. Estava. Vicious enfim
mostra ao mundo um som encorpado e com produção que faz justiça a natureza
rocker e rebelde do quarteto. E Lzzy, essa coloca novamente suas garras de fora
e vai galgando espaço aos poucos no panteão das grandes mulheres da história do
Rock. Um baita disco.
17. We Sell The Dead – Heaven
Doesn't Want You And Hell Is Full
E de onde eu menos
esperava saiu um disco simples, único e viciante. Um disco conceitual unindo
figuras tão díspares Niclas Engelin (guitarrista do In Flames, Engel e
Passenger), Apollo Papathanasio (voz, ex-Firewind, atual Spiritual Beggars),
Jonas Slättung (baixo e voz, Drömriket) e Gas Lipstick (bateria, ex-HIM). Difícil
dizer se há conteúdo para se levar o We Sell The Dead para além desse álbum de
estreia, mas se ficar só nele, a junção dos suecos já terá valido à pena.
16. King Witch - Under The
Mountain
Imensamente suja e
intensa em seus parcos 43 minutos, Under The Mountain é uma estreia para lá de
invejável e promissora desse barulhento quarteto escocês. Recomendadíssimo para
qualquer fã de Doom Metal que se preze!
15. Lucifer – Lucifer II
Lucifer II é um demônio
completamente diferente daquele conjurado por Sadonis e sua trupe no primeiro
trabalho. Menos pesado e solene, mais melodioso e versátil. A única linha que
une por completo os dois discos é a da qualidade, que se mantém para lá de
alta. Outro excelente trabalho de uma das melhores bandas da atualidade.
14. Powerwolf – The Sacrament
Of Sin.
O Power Metal,
geralmente um pária aos ouvidos deste escriba aqui, acabou por ganhar um
representante na minha lista de melhores discos de 2018. Sacrament Of Sin é o
renascimento dos lobisomens teutônicos e provável postulante a melhor trabalho
de suas carreiras. Um disco deliciosamente brega e divertido.
13. Rolo Tomassi – Time Will
Die And Love Will Bury It
Se você anda a procura de uma
banda única, encontrou. Aqui a parada é densa e para lá de complexa, exigindo
bastante do ouvinte. Pode não parecer um prato para todos, e realmente não é.
Mas para quem curte, ainda que vez ou outras, sons desafiadores, e estiver
disposto a embarcar na viagem dos irmãos Spencer, eis um trabalho cuja audição
pode se tornar imensamente gratificante.
12. Corrosion Of Conformity –
No Cross No Crown
Parece que o longo
hiato só fez bem ao casamento Pepper Keenan/COC. No Cross No Crown é um disco
que beira a perfeição e que deixará os fãs de Stoner/Southern com lágrimas nos
olhos. Figura certa nas listas de melhores do ano, a audição desse novo disco
não é somente recomendada, é uma obrigação.
11. Wytch Hazel – II: Sojourn
O segundo Full-length
dos britânicos do Wytch Hazel é um deleite aos ouvidos mais afeitos à
sonoridade de eras passadas: guitarras dobradas com a cara do Thin Lizzy,
melodias simples e grudentas com aquela cadência algo folk de um Jethro Tull e
uma cozinha impressionante. Tudo na bolachinha cheira à anos 1970, e se a
abertura com Devil Is Here não for o suficiente para te convencer que os caras
falam à sério, tente sobreviver ao ataque seguinte, com Save My Life.
Impossível, não? Que bom que não são exceções à regra num disco surpreendente e
matador.
10. Uriah Heep – Living The
Dream
Living The Dream é
uma grata surpresa, um disco repleto de criatividade e vigor vindo de uma banda
com tantas décadas de estrada nas costas. Talvez seja o sangue novo trazido já
a alguns discos por Gillbrook e Rimmer, talvez seja o dedo do produtor. Seja lá
o que for, esse ingrediente secreto faz desse Living The Dream um dos melhores
discos da história Heepiana pós fase clássica. Excelente!
09. Fifth Angel – The Third
Secret
Os estadunidenses
acertaram em cheio nesse disco de retorno, atualizando seu Hard & Heavy
tipicamente oitentista para a era atual, com uma produção moderna e com punch
suficiente para derrubar um mamute. Sinceramente, não me lembro de um comeback
tão impactante desde o já clássico Blood Of The Nations do Accept.
08. Earthless – Black Heaven
Black Heaven é o
melhor disco de Retro-Rock que escuto desde o fenomenal Hisingen Blues, do
Graveyard. E esse não é um elogio tolo. Uma adição obrigatória à coleção e
qualquer fã de rock setentista que se preze.
07. Khemmis – Desolation
O terceiro disco em
três anos do Khemmis (algo incomum para os dias atuais) é excepcional, como
fora seu antecessor. Se em Hunted eles encontraram seu som, aqui eles
consolidam o mesmo com muita personalidade, galgando terreno para fora do
underground e se tornando também uma de minhas bandas favoritas da atualidade.
Fenomenal.
A PARTIR DE AGORA, CONSIDERO TODOS OS DISCOS EMPATADOS
Satan – Cruel Magic
Quantas bandas
conseguem depois de um hiato tão longo replicar a magia de seus primórdios em
uma trinca de discos tão forte? Um fenômeno raro, mas aqui o Satan ainda foi
mais longe, buscando toques de progressivo e de timbres setentistas para
produzir algo ainda mais raro: um disco único. Nada soa como esse Cruel Magic.
Primordial – Exile Amongst The
Ruins
A crise de meia idade
fez um imenso bem aos Irlandeses. Diante da necessidade de se reinventar, o
Primordial conseguiu criar uma obra densa e difícil de ser rotulada. Um
trabalho daqueles que acabam por proporcionar uma atmosfera absolutamente
imersiva, um louvável e incomum resultado. Um dos melhores discos de 2018 e
forte concorrente a disco de cabeceira deste escriba aqui.
Ghost – Prequelle
Pouco após o
lançamento do medíocre Infestissumam, cravei que seja lá qual magia o Ghost
tivesse, ela havia sido efêmera, concentrada apenas no espetacular álbum de
estreia e se esvaído rapidamente a partir dali. Como de costume, uma previsão
estúpida. Prequelle é ainda mais espetacular que Opus Eponymous, justamente por
conseguir reinventar a banda em um cenário quase Pop Rock, sem abandonar os
elementos de Heavy Metal, Progressivo e Classic Rock explorados até então. Um
álbum perfeito, daqueles raros, sobre o qual falaremos daqui a 20 anos, com
melodias tão simples e grudentas que ficamos estarrecidos por ainda não terem
sido inventadas antes.
Orange Goblin - The Wolf Bites
Back
Bom, se os ingleses
queriam realmente provar ao mundo seu valor com seu 9º disco, conseguiram. The
Wolf Bites Back é ao mesmo tempo o disco mais visceral, versátil e inspirado da
carreira dos caras. Um petardo de um Heavy Metal feio, ogroide e delicioso que
veio direto para o topo de minha lista de melhores de 2018.
Amorphis – Queen Of Time
Uma das bandas mais
originais de sua geração, o Amorphis finalmente encontrou um novo sopro de vida
nos últimos dois discos. Queen Of Time é realmente bombástico e ambicioso, como
seus membros haviam prometido. Mas está muito longe e sucumbir ao exagero e
pompa de alguns artistas que resolvem incorporar elementos alienígenas em
profusão ao seu som. Pesado, solene e sofisticado, Queen Of Time não é só um
dos melhores discos de 2018. Aos poucos está também se tornando um forte
postulante a um dos meus discos favoritos em todos os tempos.
Judas Priest – Firepower
O Heavy Metal em sua
vertente mais tradicional parecia esquecido no tempo, as velhas bandas do
estilo vivendo de raros lampejos (com exceções...ok, Accept e Saxon?), e as
novas se limitando a copiar de forma pálida e diluída o que já fora feito
melhor no passado. Aí vem um dos titãs do estilo e lança, aos mais de 40 anos
de estrada, uma obra que não só se contenta em não fazer feio frente ao
passado, como também é capaz de rivalizar com os melhores momentos de sua
vitoriosa carreira. Firepower não é só o melhor disco do Judas Priest em
décadas. É também o melhor disco de Metal Tradicional que escutei nos últimos
cinco anos (talvez mais). Se esse realmente for o canto de cisne de uma das
maiores bandas em todos os tempos, será uma saída triunfal de cena. Forte
candidato a futuro clássico.
A
segunda edição do festival SolidRock trouxe ao Brasil três bandas
representando três escolas diferentes do som que amamos: levando a bandeira do Hard/ClassicRock, temos o
multinacional BlackStarRiders, o pouco falado (por aqui) SpinOff do ThinLizzy, uma das bandas de rock mais influentes da história.
Aos
fãs dos anos 1990 e do grunge (um rótulo odioso forjado pela imprensa que colocou
no mesmo saco bandas que nada tem em comum em termos de sonoridade, mas fazer o
quê), temos o AliceInChains,
provavelmente o mais pesado expoente daquela cena e que vive um indiscutível
segundo auge criativo.
E
para quem ama Heavy Metal, a cereja do bolo, que tal um revigorado JudasPriest, inventor de 90% dos maneirismos audiovisuais do gênero, com
um show para lá de caprichado amparando um dos melhores discos de sua extensa
carreira?
Pois
é, foi com ouvidos esfomeados que eu e minha esposa e parceira de perrengues
musicais rumamos para o longínquo Km De
Vantagens Hall (maldita seja essa josta de NamingRights) para
conferir esse trio, que se apresentou no Rio sem a chancela do festival citado
(sei lá o porquê).
Black Star Riders
Às 19h em ponto é
chegado o momento da primeira atração da noite, o BlackStarRiders, que sobe ao palco sem muito
alarde. Combo multinacional que começou suas atividades em dezembro de 2012,
como uma espécie de continuação criativa do legado do ThinLizzy, o quinteto
começa com os dois pés no acelerador, mandando duas faixas do ótimo disco de
estreia em sequência, seguindo as mesmas com o clássico Jailbreak, a música que elevara o TL ao status de titã do rock décadas atrás. A banda é uma máquina
tão azeitada que nem corda de guitarra estourando e baixo pifando a fase ativa
foram capazes de fazer os caras perderem a compostura. Pudera, o quinteto pode
ser composto por peças pouco reconhecidas aqui debaixo da linha do Equador, mas
tem toneladas de experiência nas costas. O baterista ChadSzeliga é um dos
muitos pistoleiros de aluguel “descobertos” pelo ursão ZakkWylde, que tem mão
cheia para escolher bons músicos. O bom baixista RobbieCrane tem extenso
currículo, que inclui gente como Ratt
e LynchMob. Esquentando o banco deixado por DamonJohnson para a
chegada futura de ChristianMartucci (do StoneSour), temos LukeMorley (do subestimado combo britânico de Blues Rock, Thunder) que faz bonito nas seis cordas,
eclipsando parcialmente seu colega mais famoso. O que chega a ser curioso
quando o tal colega atende pelo nome de ScottGorham, o lendário axeman californiano do ThinLizzy, que até está lá no palco, mas como tem ficado evidente de uns
anos para cá tem deixado cada vez mais o protagonismo na banda em outras mãos. Mais
especificamente, nas mãos tatuadas de RickyWarwick, frontman, guitarrista e principal compositor do BSR, que detona com sua bela voz (com
influência explícita do saudoso PhilLynnot) e muito carisma (pudera, o
cara já fez parte do NewModelArmy e conquistou o Reino Unido com o TheAlmighty na década
de 1990). Ricky se recusa a deixar a
banda, evidentemente desconhecida de boa parte do público, assumir o status de
mero coadjuvante, comandando as ações com muita energia nos parcos 45 minutos de show munido
de doses beneficamente equilibradas de simpatia e marra. E o resultado valeu o
esforço, os aplausos ao final da apresentação foram muito além daquelas palmas
respeitosas e protocolares. O quinteto sai do Metropolitan (esqueçam o nome idiota que a casa assumiu, por favor)
com a certeza de ter angariado mais uma penca de fãs. Um pequeno grande show (NOTA: 9,00)
Com dois imensos e
polêmicos praticados de iluminação em cada lado da bateria, o quarteto
estadunidense começa seu set com a poderosa CheckMyBrain. Sim, iniciar o show em um
festival com uma música que nem é do disco mais recente nem da fase clássica
diz muito sobre o caráter do AliceInChains,
uma banda única que sempre trilhou um caminho igualmente único sem nunca
comprometer seu som ou postura sob os ditames da mídia. A reverberação positiva
pela maioria esmagadora do público que já enchia a casa (que nessa noite chegou
a uns 70% da lotação, presumo) a esse surpreendente início de show mostra que o
tortuoso caminho escolhido pelo renascido quarteto colheu seus frutos,
aparentemente deixando para trás a envelhecida picuinha dos fãs de Metal/hard em
relação à “geração Seattle”.
Mas
se criativamente só tenho boas palavras a escrever sobre o AIC, já não consigo ser tão entusiasta do show dos caras. O peso
monolítico das músicas em suas versões de estúdio diminui consideravelmente no
ambiente dos palcos. Talvez o exímio JerryCantrell, com seu timbre
idiossincrático e encardido, sinta falta de companhia. Não ajuda em muito o
baixo do sempre preciso MikeInez estar enterrado na mixagem (para
desespero do bom SeanKinney) e a guitarra eventual de DuVall parecer meramente cenográfica.
Em determinado momento de um solo, visivelmente Cantrell olhou para o frontman
com aquela cara de “caralho, cadê o som da sua guitarra?”. Mas esteve longe de ser um show ruim. O
repertório foi montado lotado de clássicos entremeados com bem selecionados
números dos (grandes) discos recentes, todos muito bem recebidos e cantados a
plenos pulmões pelos fãs. Uma banda competente
e precisa, mas que deixa a nítida sensação de que as faixas originais de
estúdio têm mais energia do que suas contrapartes ao vivo. Ah, e nem adianta tentar culpar o “novato”. WilliamDuVall merece um capítulo à parte, com sua esguia silhueta e
portentoso afro (ok, não dá para não deixar de citar a semelhança dele com um
jovem Hélio de La Peña), o cara é um
achado. União rara de um grande talento com carisma e visual de rock star, o AliceInChains conseguiu o
pacote completo. Some a isso o fato da banda sempre prestar sua emocionante
homenagem ao saudoso LayneStaley e as viúvas dificilmente poderão
reclamar do que a banda se tornou. Enfim, um show competente e bem feito de uma
banda que simplesmente funciona melhor em estúdio (NOTA: 7,50).
Com
o palco menos ornado de plataformas e estruturas mecanizadas do que em outras
ocasiões, o quinteto britânico apostou acertadamente num visual baseado em
projeções no imenso telão de fundo para adornar sua apresentação. Obviamente só
foi possível atestar isso após a queda da bela cortina aos primeiros acordes da
potente Firepower. Se a banda já
havia se mostrado revigorada na turnê anterior, que marcara a efetivação de RichieFaulkner e a recuperação de RobHalford após uma operação delicada
que o salvou das dores lancinantes nas costas com as quais havia convivido por
quase duas décadas, dessa vez a energia que emanava do palco se fazia quase
palpável.
Que o diga a sequência
quase inacreditável com RunningWild, Grinder, Sinner e TheRipper, cantadas de uma maneira tão
perfeita que se calhasse de fechar os olhos eu bem poderia acreditar que Rob, do alto de 67 anos bem vividos,
havia rejuvenescido uns 30 anos! A deusa do metal, muito mais solta no palco
que em qualquer momento nos últimos 15 anos, estava em chamas. Mas não estava
sozinho.
Halford, imponente
Faulkner, exatamente 30 anos
mais novo que o patrão, quicava pelo palco, assumindo um protagonismo muito bem-vindo,
em especial quando lembramos que a banda teria que suplantar a ausência de GlennTipton, impossibilitado de excursionar por conta dos efeitos da
doença de Parkinson. Seu substituto (provisório), AndySneap (os cornos do
JasonStatham), um guitarrista reconhecidamente técnico, agitava, mas de
maneira comedida, como que respeitosamente mostrando que em nenhum momento
intenciona “pegar o lugar” de um dos maiores ícones do gênero. IanHill, o StênioGarcia Headbanger, fazia o mesmo papel
que faz desde o início da banda, e ScottTravis, esse estava muito mais
empolgado do que em qualquer outra das 7 vezes que vi a banda, inclusive
brincando com a plateia ao microfone. A diferença de postura fica ainda mais
clara quando lembramos que, desde a época do Ripper, a banda sistematicamente dava intervalos grandes entre uma
música e outra. Aqui, os intervalos se resumiram a dois, para lá de mínimos.
Faulkner, em chamas
E quando uma banda como o Judas
está com fogo nas ventas, amparada por um som perfeito (ainda que muito alto) do
Metropolitan, resta um grande setlist em mãos para termos uma noite memorável. E os caras são, das
veteranas do metal, uma das bandas que mais resgata pérolas de sua discografia.
E tome belezuras como DesertPlains, NightComesDown e FreewillBurning (com
uma anacrônica, mas inofensiva, homenagem ao Senna no telão, politizada de forma abobalhada por veículos de
imprensa conservadores) dividindo terreno com as excelentes músicas do Firepower (NoSurrender, LightningStrike e RisingFromRuins), todas recebidas efusivamente pela mesma plateia que aplaudira
o AliceInChains antes. Isso
sim é bonito de ver. Uma pena que na reta final o repertório (mais curto do que
nas últimas turnês, uma exigência da idade?) acaba por descambar para as
obviedades, como HellBentForLeather, BreakingTheLaw, Painkiller, LivingAfterMidnight e You’ve Got Another Thing Coming. Não que isso seja exatamente ruim,
cada uma dessas “obviedades”, merecedoras de espaço cativo no panteão dos grandes
hinos do Metal, tendo feito o público quicar e cantar com emoção. Que é o que
importa, afinal. E Painkiller, essa
ganhou a melhor rendição que já vi a banda fazer dela ao vivo. Ao final do
show, um dos melhores que já presenciei do Judas,
os tradicionais sorrisos e agradecimentos e uma mensagem no telão “The Priest Will Be Back”. Que os Deuses
do Metal assim permitam! (NOTA:10)