Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Falar sobre o passado
do Scorpions é balela, não teria
absolutamente nada de novo a acrescentar. A maior banda de rock alemã em todos
os tempos tem lá seus mais de 100 milhões de discos vendidos na carreira e sua
fama transcende em muito o nicho do rock pesado. O fato é que o avassalador
sucesso dos anos 1980 esmoreceu um pouco nos meados da década seguinte, e os caras
viveram um ciclo alternando reinvenção (às vezes com sucesso, como em Face The Heat e Humanity, às vezes beirando a catástrofe, como no horroroso Eye II Eye) com apelação para os velhos
clássicos em formatos diferentes (também com resultados diferentes, Acoustica é uma bomba inclemente, mas Moment Of Glory tem seu charme).
Escorpiões vestindo Lycra? Ah os anos 1980!!!
Após essa fase confusa e já começando a enxergar o fim da linha (Klaus Meine e Rudoplh Schenker já estão se aproximando dos 70), os teutônicos
resolveram fazer as pazes com seu passado e concentraram seus esforços no Hard
Rock que fizera sua fama. Vieram o legalzinho Unbreakable e os ótimos Humanity
e Sting In The Tail. Esse último
então supostamente o canto do cisne, seguido de uma turnê de despedida algo
acidentada devido a problemas nas cordas vocais de Klaus.
Ok,
respeitando a cartilha dos clichês do mundo do rock, os alemães cancelaram a
aposentadoria e desde então vem fazendo shows e novamente remexendo o catálogo
pregresso em formatos diversificados (regravações em Comeblack e novamente acústicos pela MTV).
Remexendo o passado
Após
rearranjar algumas faixas antigas para o show acústico para a MTV, a banda resolveu abrir o baú e
mexer em faixas inacabadas. A intenção era trabalhar algumas dessas ideias e
lançar sem muito alarde, como um presente para os fãs. Mas ao trabalhar nessas
faixas com os produtores Martin Hansen
e Mikael "Nord" Andersson
(que já vinham trabalhando com o Scorpions
desde Sting In The Tail), acabaram
por optar lançar um disco inteiro, misturando ideias antigas e novas faixas.
O Disco
A
premissa parece interessante, mas uma pena que pouco disso transpareça no
resultado final. Só para se ter noção, das 12 faixas presentes, nada menos que
5 foram compostas integralmente pela dupla de produtores. Ou seja, a imagem
vendida de que estamos lidando com pérolas perdidas dos anos 1980 é pura
balela. Mas nada disso importaria caso as músicas fossem bacanas. Mas não é o
que acontece.
Going Out With a Bang é uma faixa algo
bluesy e sem muito brilho, muito pouco para uma abertura de disco. Já We Built This House (ver vídeo) é o típico
Scorpions que muitos aprenderam a
amar (ainda que curiosamente seja escrita pelos produtores), uma power ballad
bonita e marcante, com algo da parceria com Desmond Child.
Rock My Car efetivamente é uma
das músicas retrabalhadas do passado. Bem e é apenas...passável. A balada House Of Cards faz um papel melhor, é
bonitinha, ainda que nada especial. All
For One é um rockão direto e curto, bacana e com algo de Kiss em um dos riffs. A simplicidade
rocker continua com a boa Rock’n’Roll
Band, que perde um pouco por contar com um refrão preguiçoso. A dupla Catch Your Luck And Play e Rollin’ Home parece parte daquelas
músicas sem pegada de discos menores como Pure
Instinct e Eye II Eye, aguadas e
facilmente esquecíveis.
2015, sessão de fotos num asilo em Hannover?
O peso retorna apenas um pouquinho com Hard Rockin’ The Place, mas o disco só recuperou mesmo minha
atenção com a bonitinha Eye Of the Storm
(ver vídeo), balada composta durante as sessões do subestimado Humanity. O bom Boogie The Scratch tem algo de Alice Cooper em sua aura, o que
definitivamente é muito bom. Sem muito alarde, o repertório da edição normal encerra
com a sem graça Gypsy Life, faixa
inicialmente composta para o acústico da MTV.
Dá para entender o porquê de ter ficado de fora. A edição limitada ainda conta
com quatro faixas bônus, mas não tive acesso à essa versão.
Saldo Final
Após
dois ótimos discos de inéditas, infelizmente o Scorpions errou a mão. Return
To Forever passa muito longe de ser um disco ruim ou irritante, mas talvez
sofra de um mal pior: é insosso, daqueles discos que você coloca para tocar
enquanto faz alguma coisa e nem percebe a passagem das músicas. Possivelmente
poucos se lembrarão dele no meio da longa discografia da banda. Não, não há
sequer uma faixa aqui que mereça um espacinho no set dos shows vindouros. Espero
que esse não venha a ser o último da carreira dos caras, pois nesse quesito
eles estavam muito melhor servidos com o delicioso Sting In the Tail.
NOTA: 6
Indicado
para:
Fãs
incondicionais e aqueles afeitos à roquinhos Rádio Cidade.
Fuja
se:
Se
estiver atrás de músicas mais vigorosas.
Classifique
como: Hard Rock, Melodic Rock
Para
Fãs de: Scorpions, Alice Cooper, Def Leppard.
Maio de 2010, recebo a ligação de um amigo e
companheiro de banda. A voz do outro lado da linha trazia com ela todas as
sombras de Mordor reunidas. Prendo minha respiração, enquanto a voz titubeante
faz rodeios e não chega à evidentemente macambúzia noticia, e espero pelo pior. Finalmente a mensagem é passada “cara, o
Dio morreu”. Fiquei surpreso e tive vontade de rir, dentre todos os cenários
macabros que meu cérebro conseguira produzir desde que atendi o telefonema,
esperava a fatalidade dentro do meu círculo social, e de certa forma fui tomado
de imenso alívio. Brinquei um pouco com a situação e desliguei o telefone. Demorou
cerca de cinco minutos até que me sentisse como se realmente a fatalidade
tivesse se abatido sobre algum amigo próximo. Ronnie James Dio nunca soube de
minha existência, mas sua voz falava comigo desde meus 16 anos de idade. Lembro-me
como se fosse hoje: estava em São Paulo, entro no carro de um de meus tios, ia
com ele até a galeria do rock, com dinheiro separado para comprar os discos
faltantes a minha coleção do Iron Maiden. A fita começa a rodar uma introdução que
trazia uma fala de O Mágico de Oz, seguida de um rebuliço instrumental, e então
um riff matador. Eu era fanático por Purple e em especial Ricthie Blackmore e
reconheci o estilo do guitarrista de imediato. Quando achei que já era a melhor
coisa que eu escutara até então, entra uma voz arrebatadora que me fez esquecer
Ricthie Blackmore. A música era Kill the King, naquela versão do ao vivo On
Stage. A voz, Ronnie James Dio. E repentinamente Bruce Dickinson já não me
parecia mais o cara. E então eu soube que eu precisava escutar tudo o que
aquele enigmático e gnomesco vocalista havia gravado. Meu dinheiro saiu do colo
do insepulcro Eddie para a aquisição dos três discos de estúdio do Rainbow.
O grande amigo que nunca conheci
Stand Up And Shout
Wendy Dio fora casada com Ronnie James Dio por quase
três décadas. Embora já separados quando Ronnie adoeceu, foi ela quem ficou ao
lado do vocalista até os últimos instantes. Única empresária que Dio teve em sua
carreira, Wendy criou em conjunto com o já enfermo músico o Stand Up And Shout
Cancer Fund, instituição filantrópica que tem como alvo angariar recursos para
investir em pesquisas relacionadas à cura e tratamento do câncer. Em seu leito
de morte, Ronnie deixou uma missão nas mãos de sua companheira, todos os
lançamentos póstumos que levassem sua marca deveriam deixar 100% da arrecadação
atrelada ao fundo. Um ato que demonstrou que Dio manteve sua famosa nobreza até
o último suspiro. Um verdadeiro legado de um pequeno grande homem.
Wendy e Ronnie - eternos amigos
Desde então alguns títulos já foram lançados com
essa finalidade, em sua maioria explorando o vasto arquivo de gravações ao vivo
nunca lançadas pelo vocalista. Em 2012, Wendy começou a trabalhar na ideia de
um disco tributo, trazendo artistas famosos, cujo nome trouxesse um peso à
causa que ela abraçou. Discos tributo ao Dio não são exatamente uma novidade, e
em 1999 já havia sido lançado o ótimo Holy Dio, trazendo a nata do segundo
escalão metálico em versões em sua maioria muito boas para os clássicos da
carreira do anão (e.g.: Blind Guardian; Grave Digger, Doro, Fates Warning...).
Mas quando foi anunciado que o tributo atual trazia gente como Motörhead,
Scorpions, Anthrax e em especial Metallica, entendi o quão alto Wendy havia
mirado. Contando com a excelente arte de capa de Marc Sasso, This Is Your
Life foi lançado com grande expectativa. O legal é que o disco foi alçado
diretamente à 25ª posição na parada da Bilboard, feito assombroso em se
tratando de material relativo a um artista já falecido e que desde a longínqua década
de 1980 não fazia parte do mainstream. Sinal de que a boa música nunca morre.
A excelente arte de Marc Sasso para o disco
This Is Your Life - Faixa a faixa:
Anthrax - Neon Knights
Os nova-iorquinos já haviam homenageado Dio em
2011, incluindo uma versão de Heaven And Hell em seu set na turnê do Big 4. Mas
essa rendição de Neon Knights ficou bem mais bacana. Baseada em parte na original
de estúdio, em parte na versão estendida costumeiramente apresentada pelo Black
Sabbath ao vivo, cabe aqui destacar a voz de Belladonna, que ao menos em estúdio
vem soando melhor que em seus tempos de sucesso com a banda. Ah, curiosamente,
o guitarrista solo nessa faixa ainda é Rob Caggiano, que pouco depois disso
abandonaria o posto para assumir as cordas no Volbeat. Um ótimo início.
Tenacious D – The Last In Line
A banda piada liderada pelos comediantes Jack
Black e Kyle Gass sempre teve ligação estreita com Ronnie. Jack era amigo
pessoal do gnomo e o D já havia homenageado o vocalista em seu primeiro disco,
com uma música intitulada...Dio! Ah, e os artistas trocaram favores algumas
vezes, com os comediantes participando do clipe de Push (de Killing the Dragon)
e Ronnie aparecendo no filme da dupla, The Pick Of Destiny. A versão para Last
In Line é bem legal, mais curta que a original,com a voz peculiar de Black
guiando a canção com maestria. O solo de flauta substituindo o icônico original
de guitarra foi um toque bem bolado.
Black, Gass e Dio: Tenacious Dio?
Adrenaline Mob – The Mob Rules
Existem dois vocalistas da atualidade que fazem justiça
ao trono deixado vago por Ronnie. Um é o norueguês Jorn Lande e o outro é o estadunidense
Russel Allen, que capitaneia o Adrenaline Mob. The Mob Rules foi gravada para o
EP Covertà, quando Mike Portnoy ainda fazia parte da banda, e é tão fiel à
original quanto avassaladora. Um dos destaques do disco.
Corey Taylor, Christian Martucci,
Russ Parrish, Roy Mayorga – Rainbow In The Dark
Corey Taylor, o espoleta que lidera o Stone Sour
e o Slipknot fez questão de participar do tributo. Fã confesso de Dio, juntou
seus colegas de Stone Sour a Russ Parrish (ex- Fight) e gravou a toque de caixa
essa surpreendentemente boa versão para a música mais famosa da carreira solo
de Ronnie. Com boa performance vocal por parte de Corey e uma linha de guitarra
substituindo o teclado original com maestria, Rainbow In The Dark pode ser uma
porta de entrada para a molecada se interessar pelo catálogo do Dio. (Nota do Trevas: li em alguns lugares que Satchel, dos gaiatos do Steel Panther participa dessa faixa. No encarte ele não vem listado, qual foi então minha surpresa ao descobrir que Satchel e o sumido Russ Parrish são a mesma pessoa!!!!)
Halestorm – Straight Through The
Heart
Uma das promessas do Hard/Heavy da atualidade, o
Halestorm optou por fazer uma versão crua, sem a refinada produção que guiou
seu último disco. Uma escolha acertada, a música ganhou uma cara nova, em parte
pela pegada atual em outra pela excelente e poderosa voz de Lzzy Hale. Outra
pedrada certeira.
Lzzy trazendo um toque feminino ao tributo
Motörhead & Biff Byford –
Starstruck
Amigo pessoal de Ronnie desde os anos 1970,
Lemmy não podia ficar de fora dessa festa. E não podia ser outra a escolha,
Strastruck fala sobre um tema tipicamente Motörhead – a história de uma
insaciável groupie. A participação do monocelha Biff Byford (do Saxon), cuja
voz parece não envelhecer nunca, dividindo os microfones com Lemmy deixou essa
versão com uma aura toda especial.
Scorpions – The Temple Of The King
A rendição dos alemães para a bela balada The
Temple Of The King é um daqueles casos nos quais temos a impressão de que a
música poderia muito bem ter sido escrita por eles, tamanha a identificação.
Outro grupo que tinha uma boa relação de amizade com Dio, os Scorpions tomam
para eles uma das músicas mais inspiradas do Rainbow. É de arrepiar.
Gnomos gêmeos? Dio e Klaus
Doro - Egypt (The Chains Are On)
Outro caso no qual a música se encaixa
perfeitamente com o estilo do artista que a coveriza, Egypt já havia aparecido no
excelente tributo Holy Dio. Doro, outra amiga de longa data do baixinho, dá uma
vida toda nova à faixa com seu vocal rouco e algo sexy. Volta e meia a alemã adiciona
essa mística canção em seus set lists.
Doro e Dio - a realeza do metal
Killswitch Engage – Holy Diver
Gravada em 2007, especialmente para uma edição
da Kerrang!, essa versão para a música título do primeiro disco solo do Dio
ganhou notoriedade na época, em especial pelo seu hilário clipe, que fazia
troça com o tosco e icônico original. Ainda trazendo o excelente vocalista Howard
Jones em sua line up, o KSE foi responsável por apresentar Ronnie Dio e sua
música para a garotada fã da NWOAHM. Talvez a versão soe estranha aos ouvidos
mais puristas. Particularmente, acho excelente.
Glenn Hughes, Craig Goldy, Rudy Sarzo, Scott Warren & Simon Wright –
Catch The Rainbow
Bem, Hughes foi um dos melhores amigos de
Ronnie, tendo até mesmo dividido um apartamento com o gnomo nas épocas de vacas
magras. Foi ele o escolhido por Wendy para o concerto do Heaven And Hell que
homenageou seu marido (em conjunto com Jorn lande, que acabou por se
desentender com ela). Escoltado por ex-colegas de banda de Dio, Hughes acaba
exagerando demais no tempero soul de sua interpretação, deixando a bela música um
pouco estranha. Não ficou exatamente ruim, em absoluto, mas confesso que demorei
algumas audições até me acostumar.
Oni Logan, Jimmy Bain, Rowan Robertson & Brian Tichy - I
O bom vocalista Oni Logan, famoso por ter feito
parte do Lynch Mob, faz um trabalho bacana nessa excelente faixa do subestimado
Dehumanizer. Um pouquinho respeitosa demais à original, a faixa acaba chamando
mais a atenção por trazer de volta aos holofotes Rowan Robertson, que aos 19
anos apareceu ao mundo como o guitarrista prodígio que gravou o mediano Lock Up
The Wolves do Dio.
Rob Halford, Doug Aldrich, Jeff Pilson, Vinny Appice, Scott Warren – Man
On The Silver Mountain
Outra faixa a trazer um vocalista lendário escoltado
por ex-colegas de Ronnie, Man On The Silver Mountain causa estranhamento a princípio.
O metal god, a exemplo de quando capitaneou improvisadamente o Black Sabbath
por dois shows, dá um pouco a impressão de que não está muito à vontade, mas na
volta do solo ele acaba por se soltar mais e tudo se encaixa. De qualquer forma,
a pegada da música ficou bem legal, com Aldrich brincando com o riff original
no início da música, e após algumas audições acabei me acostumando e achando
ótimo o cover.
Rob e Dio gravando Stars
Metallica – Ronnie Rising Medley
Quem me conhece sabe que não tenho nenhum apreço
pela banda comercialmente mais bem sucedida da história do metal. Para variar,
os ególatras condicionaram sua participação no tributo a não ficarem restritos
a uma única música. Torci o nariz. Quando me disseram que o medley, que inclui
trechos de Light In The Black, Tarot Woman, Stargazer e Kill The King (todas do
Rainbow), estava matador, fui escutar cheio de preconceito. Quebrei retumbantemente
minha fuça implicante. Alucinante desde a introdução, o medley traz o Metallica
com uma fúria e perícia que não são vistos nos caras desde sei lá quando. E Hetfield
conseguiu driblar de maneira brilhante suas limitações vocais, trazendo soberbamente
músicas bastante complicadas de cantar ao seu característico estilo. Até mesmo
a escolha da manjada Kill The King (que 789 bandas já coverizaram) tem que ser
perdoada, é a melhor rendição para essa música que ouvi afora a original. Só para
não dizer que perdi o sangue nos olhos e o veneno na língua, a passagem de Tarot
Woman para Stargazer podia ter sido melhor elaborada, mas pedir que Lars replicasse
a mítica introdução criada por Cozy Powell com alguma decência é um pouco
demais, não? De qualquer maneira, num disco com nível bastante elevado, o
Metallica conseguiu sobressair, tenho que dolorosamente admitir.
Dio – This Is Your Life
Talvez a única coisa que preste em
Angry Machines, de longe o pior disco solo de Dio, this Is Your Life é uma
balada belíssima. Com sua letra ganhando um significado tocante perante a morte
de nosso ídolo, chega a dar arrepios ouvir a majestosa voz de Ronnie versar
sobre a efemeridade de nossa existência. E sua performance nessa faixa serve
para nos lembrar do imensurável talento que perdemos.
Saldo Final
Um excelente disco, repleto de
talento e coração, feito para uma causa nobre e homenageando o maior vocalista
que o heavy metal já ouviu. Preciso dizer mais?
O pequeno grande rei viverá para
sempre através da atemporalidade de sua música.
E nós mortais temos que celebrar
seus feitos, hoje e sempre. Agora me dá licença que vou escutar o disco de
novo!
NOTA: 9,5
Prós:
Repleto de artistas consagrados, do passado
e da atualidade. Todas as versões transpiram respeito e prazer em fazer parte
da homenagem.
Para quem não conhece, Herman Rarebell foi o baterista da era de maior sucesso comercial
do Scorpions, tendo tocado com os caras de 1977 a 1995. Não somente Herman marcou época como um dos
bateristas mais vigorosos do hard rock
nos anos 1980, como também ajudou a escrever vários dos clássicos da banda,
além de ter contribuído com muitas das letras por possuir um conhecimento de
inglês “menos ruim” que seus colegas de Hannover.
Herman Maltratando as Peles nos anos 1980
Pois
bem, ao final do ano passado, Herman
resolveu compartilhar suas memórias sobre esses anos junto ao Scorpions com o
mundo, com a ajuda de Michael Krikorian,
que além de jornalista é diretor da fundação Rock And Roll Remembers, criada para ajudar figuras públicas
outrora proeminentes na cena rocker
e que hoje passam por dificuldades.
O livro, originalmente lançado em
inglês, sob o título “And Speaking About
Scorpions...”, foi recentemente publicado pela Panda Books no Brasil, contando com uma boa tradução de Gus Monsanto (que é um tremendo
vocalista de metal) e notas na badana de capa e na contracapa escritas
respectivamente por Bruno Sutter (o
humorista e músico conhecido pelo personagem Detonator) e por Felipe
Machado (jornalista e guitarrista do Viper).
O prefácio fica por conta de Dieter
Dierks, o proverbial “sexto Scorpion”,
produtor que trabalhou com a banda em seu período mais prolífico.
Mas quem espera pela típica
biografia de astro do rock vai encontrar algo um pouco diferente nesse livro. A
narrativa é pouco linear e em muito se assemelha a uma conversa de bar, bem
informal, sem se preocupar muito com a exatidão e detalhes das histórias
contadas. Além do mais, fica evidente desde o início o egocentrismo de Herman, e pouco ou nada é exposto sobre
pensamentos, comportamentos e/ou histórias envolvendo outro membro da banda.
Por outro lado, o que também fica bastante
evidente é o senso de humor aguçado do baterista bonachão, tudo aqui é contado,
ao menos na maior parte do livro, com uma leveza e descontração contagiantes. Em
poucas páginas você quase acredita que pode pedir a nova rodada de cerveja
alemã para curtir a conversa com seu mais novo amigo.
Herman nos dias de hoje
E logo ficamos sabendo que Herman nasceu Erbel, mas que devido a uma incompreensível inaptidão dos ingleses
em pronunciar seu sobrenome corretamente, o Erbel virou Rarebell. E foi
na Inglaterra também onde Herman passou
a ser chamado Herman Ze German.
E que tal saber que Herman só foi fazer teste para a banda
quando ambos estavam na Inglaterra, por conta de um esbarrão casual em um pub
britânico com o maluco teutônico Michael
Schenker, irmão caçula de Rudolph
Schenker.
Outras curiosidades aparecem ao
longo do livro, como o surpreendente teor jovial da conversa da banda com Mikhail Gorbachev (que conhecia
bastante bem o material da banda) às vésperas de um dos pontos mais importantes
da história recente.
Scorpions e Gorbachev
Mas grande parte do livro se
passa em devaneios de Herman Ze German
sobre a indústria musical, suas idiossincrasias e armadilhas, seja no terreno
das finanças, seja no pantanoso terreno das relações conjugais (e como as
mesmas são afetadas por esse meio). Herman
destila seu humor politicamente incorreto sobre esses pontos, além de dar
diversas dicas aos jovens músicos do que fazer e do que não fazer, sempre
exemplificando com seus próprios erros e acertos durante a carreira. E não
faltam também piadas sobre o bebum Pete
Way (baixista do UFO e
reconhecidamente um dos maiores junkies da indústria) e sobre a proficiência
oral das groupies americanas. Aliás, quem gosta de histórias sobre drogas e
devassidão, não deve ficar assanhado. Há até um capitulo inteiro sobre o
assunto, mas nada próximo do que pode ser encontrado em outras biografias do gênero,
afinal, o autor preferiu não expor nomes na maioria dos casos.
Só que em sua reta final o baterista estraga
toda a leveza do papo de botequim, como aquele bêbado que passou um pouco
demais da conta, começando a ficar inconveniente. E então, com um amargor muito
mal escondido em relação a sua saída da banda, passa a atacar com acusações de
ganância e traição Klaus e Rudolph, a quem dizia parágrafos antes
amar como irmãos, pontuando os ataques com requintes de egocentrismo, já que
afirma que a banda após sua saída não emplacou mais nenhum hit, o que talvez
diga algo sobre a sua real importância na história dos Scorpions.
Reunião dos velhos escorpiões em 2006, Herman de vermelho
Saldo Final
Apesar da queda em seus últimos
dois capítulos, a leitura em geral é bastante dinâmica e divertida, ainda que
seja carente em detalhes históricos.
Meu gosto pelas biografias
musicais se deve principalmente ao pano de fundo histórico que as mesmas
costumam trazer com maestria e onde aprendemos como os cenários político,
econômico e social modulam o surgimento
e morte de estilos e subestilos musicais. E não encontrei nada disso por aqui,
as referências históricas são mínimas e mesmo a citação a outras bandas e
músicos contemporâneos ocorre de forma esporádica e superficial (ah, há um
gratuito espancamento do Girlschool e
um tapa de luva de pelica no Bon Jovi).
Ou seja, um livro legal, com um
enfoque bem diferente do tradicionalmente encontrado em obras do gênero, mas
que fica muito longe de ser uma obra definitiva se seu objetivo for de fato
conhecer a história da maior banda de rock teutônica em todos os tempos.
NOTA: 6,5
Ficha Técnica
Título: Scorpions – Minha História
Em Uma das Maiores Bandas de Todos os Tempos.
Título original: And Speaking Of Scorpions...
Autor: Herman Rarebell, com Michael Krikorian
Ano: 2012
Tradução: Gus Monsanto
Páginas: 280
Lançamento nacional Panda Books, selo da Editora
Original Ltda