domingo, 15 de novembro de 2020

King Witch – Body Of Light (CD-2020)


 

Conjurando Os Deuses Antigos da Escócia

Por Trevas

Quando voltei de minha viagem para a Escócia, em 2018, vim com a mala abarrotada de guloseimas musicais. Na busca por novidades da cena local, fui menos bem-sucedido do que esperava. Excetuando pela “descoberta” de uma banda de Doom Metal vinda de Edimburgo. Que, para minha sorte, lançara seu disco de estreia exatamente no mês em que lá estive. Voltei com Under The Mountains, um debut encardido, que logo se tornou um dos meus favoritos daquele ano. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que, dois anos depois, a banda teria seu segundo disco lançado aqui no Brasil, em bela edição da Hellion Records? Obviamente corri atrás de minha cópia assim que saiu.

Isso é true, até a foto é Doom

Após uma intro climática, a faixa título assombra nossos ouvidos com um dos Riffs mais encardidos desse 2020. De cara, a voz de Laura Donnelly, despida das toneladas de efeitos do primeiro disco, toma a frente, numa performance hercúlea que se repetiria por todo o disco. Ao final da faixa fica impossível também não se impressionar com a destreza da cozinha formada pelo estreante Rory Lee (baixo) e pelo polvo grotesco Lyle Brown.


A produção, dessa vez dividida entre o guitarrista Jamie Gilchrist e Kevin Hare, acerta no tom, com um punch absurdo e modernidade sem descaracterizar as origens do tipo de som que a banda faz, um Doom Metal com veia épica e bem dark. As letras, estas são calcadas no folclore celta, em especial nas lendas da bela Escócia, como na monstruosa Of Rock And Stone, que narra as desventuras de Beira, a deusa do inverno e mãe de todos os deuses, na mitologia local.



Quando eu chamo o som dos escoceses de Doom Metal, talvez esteja simplificando um bocado a coisa. Embora Call Of the Hunter soe tão Candlemass clássico que Laura até pareça aqui e acolá com um Messiah Marcolin de saias, o rolo compressor Witches Mark, por exemplo, já tem bem mais de um híbrido entre Motörhead e Mastodon



Elementos setentistas permeiam timbres, a pegada da cozinha e a voz de Laura (ver Order From Chaos), e a modernidade aparece nos arroubos que remetem (ainda que levemente) ao Sludge de bandas como Mastodon e Baroness. Independente disso, o que torna Body of Light absurdo é que não há, exceto pelo curto interlúdio acústico Solstice II, um minuto de descanso para os ouvidos. Decibéis inspirados permeiam pérolas Doom Metal como Solstice I/She Burns e o encerramento apoteótico com os mais de 10 minutos de Beyond The Black Gate. Colossal e obrigatório! (NOTA: 10)

Visite o The Metal Club

Gravadora: Hellion Records (nacional)

Prós: um verdadeiro massacre Doom

Contras: uma hora de disco pode ser demais...

Classifique como: Doom Metal

Para Fãs de: Candlemass, Avatarium, Death Penalty


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Magnum – The Serpent Rings (CD-2020)


 

O Veneno da Velha Serpente

Por Trevas

Longa estrada já percorreu esse combo britânico, The Serpent Rings é simplesmente o 21º trabalho de estúdio em uma carreira que remete ao longínquo ano de 1972. O mais impressionante é imaginar que quase metade desses trabalhos foi lançada em anos recentes, mais precisamente após o retorno da banda, após alguns anos de hiato, em 2002. Se essa alma prolifica algo tardia já é incomum, mais incomum ainda é o fato de que, afora os curtos anos de flerte com o Mainstream, entre a segunda metade dos anos 1980 e início dos 1990, a banda nunca foi tão popular. Aproveitando a liberdade artística dos dias atuais e surfando nessa nova onda de popularidade, o mentor, guitarrista e principal compositor do MagnumTony Clarkin - optou por manter essa hercúlea rotina de trabalho e, enquanto falamos desse disco, já foi anunciado que a banda está preparando o próximo, programado para início de 2022.


UOUOUIEIEI...Ovelha e sua trupe, 2020

The Serpent Rings marca a estreia de Dennis Ward (Pink Cream 69, Unisonic, Place Vendome), substituindo o baixista Al Barrow. Mas, para minha surpresa, não é o estadunidense quem assume a produção aqui, e sim o patrão Clarkin. Que escreveu todas as músicas e letras, claro. A bolachinha abre com Where Are You Eden?, um belo exemplar da sonoridade atual da banda. Talvez com a guitarra mais na cara do que no mediano disco anterior. Ah, para quem não conhece o trabalho do Magnum, explicar o estilo dos britânicos não é lá uma tarefa muito fácil. Aura mística, canções baseadas num vocalista que prima muito mais pelas belas melodias e timbres do que pelos gritos e agressividade (o clone do Ovelha, Bob Catley) e uma impressionante capacidade de misturar Hard, Heavy, AOR e Progressivo sem soar forçado – essa é a melhor definição do som do Magnum. E isso tudo está presente aqui.


Seguimos com You Can’t Run faster Than Bullets, e a impressão de um álbum mais guitarrístico se confirma, com sua letra sombria ganhando vida na bela voz de Bob Catley, que se já mostra sinais de esgotamento ao vivo (pudera, são 73 anos bem vividos), ainda cumpre seu papel com maestria em estúdio. Bob, aliás, dá um show na ótima Madman Or Messiah, que tem algo do Uriah Heep atual. Um dos trunfos de Clarkin é sua capacidade de construir pequenos épicos, repletos de luz e sombra, como The Archway Of Tears. A princípio menos impressionante, a faixa de trabalho, Not Forgiven, dá uma guinada em seu refrão. Vale ressaltar que tio Clarkin anda meio cabreiro, as letras são boas e bem encardidas por uma certa descrença e raiva.


A épica e progressiva faixa título é bonita e algo climática, com as orquestrações dando a ela uma aura de filme à lá Senhor dos Anéis. Sabiamente, ela vem seguida pela rocker House Of Kings, que mesmo aparentando maior simplicidade, abre caminho para um interlúdio de piano, um sax encardido e belo solo de guitarra. Uma daquelas coisas que somente a maturidade traz aos grandes compositores. Seja lá que bicho mordeu a banda, o marasmo do disco anterior pouco se faz presente aqui, e até nas faixas que despertam um certo Deja Vu, como Man e The Great Unknow, há momentos interessantes. Um disco inspirado e cheio de nuances só poderia encerrar com uma faixa como Crimson On The White Sand, com Bob tirando um coelho vocalístico da cartola e mostrando que nunca é tarde para aprender novos truques. Mais um belo trabalho do Magnum, que tirou a má impressão deixada pelo disco anterior. Vale uma conferida! (NOTA: 8,90)

Visite o The Metal Club

Gravadora: Shinigami Records (Nacional)

Prós: clima soturno, músicas bonitas e repletas de dinâmica

Contras: sempre reclamo de discos longos, então...

Classifique como: AOR, Prog Rock

Para Fãs de: Demon, Ten, Avantasia

domingo, 8 de novembro de 2020

Kamelot - I Am The Empire: Live From The O13 (Box Set: Blu-ray + DVD + 2Cds – 2020)


 

Recheado e Caprichado

Por Trevas

Quase 14 anos após o lançamento do apoteótico One Cold Winter’s Night, um dos home vídeos mais bacanas já lançados, o combo multinacional de Power Metal Kamelot volta ao formato com um show especial, gravado em Tilburg, na Holanda, em 2018. A versão aqui analisada é a do Box Set, contendo Blu-ray, Cds e DVD, mas como habitual, existem diversos outros formatos (com lançamento nacional, inclusive).

Apresentação

O Box Set segue o formato tradicional para lançamentos do gênero: um Digipack enclausurado em Slipcase. Cada banda do Digipack com miolos de plástico sobrepostos para encaixe dos disquinhos. O encarte é bonito, mas tudo segue um padrão repetido inúmeras vezes. Os Menus são bonitos, mas tive alguma dificuldade de navegação pelo joystick do PS4. Uma apresentação bacana, mas não há nada diferente aqui.

Feuer Frei! 

Áudio e Vídeo

Quem já assistiu a banda ao vivo sabe do esmero técnico que envolve suas apresentações. Em se tratando de um show especialmente feito para a gravação de seu novo ao vivo, era de se esperar algo ainda mais grandioso. E é isso que encontramos aqui: uma qualidade absurda de vídeo, com inúmeras câmeras, nenhuma imagem granulada que seja, edição perfeita e momentos visuais de cair o queixo. A produção do show ainda garante um palco belo, pirotecnias bem colocadas e um ou outro arroubo de teatralidade (embora em menor grau que em One Cold Winter’s Night).



O áudio é ótimo, e os Cds merecem sim a aquisição, mas confesso que na primeira audição demorei a entrar no clima da mixagem. Embora hoje nem saiba mais explicar o porquê.

Performances e Repertório

O show do Kamelot é absurdamente redondo, e tecnicamente absurdo. Alex Landenburg, o mais novo membro, é um baterista para lá de competente para o estilo. Oliver Palotai toma tanto os holofotes com seus teclados quanto o eficiente patrão Thomas Youngblood. Sean Tibbets brinca bastante no palco, ainda que suas linhas de baixo raramente apareçam tanto. E Tommy Karevik é o clone perfeito de Roy Khan. A semelhança nos timbres chega a assustar. Mas, apesar de tecnicamente ser possivelmente até melhor que seu antecessor, sinto a falta de um pouco mais de feeling em suas interpretações. Da mesma maneira, apesar de, como Roy, não ter pinta de cantor de Metal, ele segura bem como frontman, mas fica um pouco a sensação de algo meio robotizado em sua performance.



E, por falar em robôs, vamos entrar num ponto sensível aqui; é impressionante o quanto temos material pré-gravado no show do Kamelot. Das compreensíveis partes orquestradas até quase todos os backing vocals, essas camadas extras deixam tudo com cara de que estamos ouvindo o próprio CD ao vivo. Das bandas que conheço, somente o Nightwish exagera mais do que eles nas backing tracks. O quanto esse uso é interessante ou beira a trapaça, deixo para cada um analisar.



Temos também um punhado de participações especiais nesse show: Lauren Hart (Once Human); Alissa White-Gluz (Arch Enemy); Elize Ryd (Amaranthe); Charlotte Wessels (Delain), Sascha Paeth (ex-Heavens Gate, Avantasia) e o quarteto feminino de cordas Eklipse. Todos os convidados têm seu espaço e fazem bonito, engrandecendo o show, como esperado.

Sobre o repertório, aqui jaz o suposto único ponto fraco do pacote. A intenção, exposta nas entrevistas bônus, era a de focar no material posterior ao último Home Vídeo. Com ao menos uma música dos cinco trabalhos de estúdio lançados a partir de então. Uma ideia válida, mas que demonstra o quanto a banda decaiu criativamente com o passar do tempo. Não que os discos com Karevik não tenham lá seus bons momentos, em especial as músicas de Haven (de longe o melhor dos discos atuais), mas até esses números empalidecem quando confrontados com os poucos clássicos espalhados pelo set (March Of Mephisto, When The Lights Are Down e Forever). Na verdade, apanham até dos momentos de discos menores da era Khan, como Rule The World e The Great Pandemonium. Mas a plateia presente não composta de fãs eventuais, e acaba por cantar de tudo, feliz e participativa.


Extras

O pacote é caprichado aqui: temos um extenso documentário (cerca de 30 minutos) sobre o show, com muito espaço para os fãs e convidados especiais. Tudo muito bem feito e interessante. Outro item é um apanhado de imagens de bastidores da turnê norte americana, com cerca de 15 minutos. Menos interessante, é daqueles que você dificilmente assistirá mais de uma vez. Para fechar, temos todos os videoclipes da fase Karevik (10 no total), todos contando com produção de ponta.

Veredito Final

Completo e feito com imenso esmero, I Am The Empire é um pacote que há de ganhar alta rodagem nos aparelhos dos fãs da fase atual do Kamelot. Poderia reclamar da falta de material antigo, mas como essa é exatamente a proposta desse ao vivo, seria julgar o trabalho justamente pelo que ele não intenciona ser. Um Home Vídeo tecnicamente perfeito. (NOTA: 10).

 

Gravadora: Napalm Records (importado)

Prós: um pacote recheado e tecnicamente absurdo

Contras: repertório baseado na fase atual, backing tracks em profusão

Classifique como: Heavy Metal, Power Metal

Para Fãs de: Angra, Conception