quinta-feira, 10 de maio de 2018

Magnum – Lost On The Road To Eternity (2Cds – 2018)

Magnum - Lost On The Road To Eternity

Tudo Como Dantes No Quartel D’Abrantes
Por Trevas

O vigésimo disco de estúdio dos britânicos do Magnum é também aquele que marca a estreia de dois novos membros, o baterista Lee Morris, que ganhou destaque junto ao combo Doom Paradise Lost, no lugar do colaborador de longa data Harry James e, num caso muito mais surpreendente, o tecladista Rick Benton (um requisitado músico de estúdio) para o lugar de Mark Stainway, tecladista que acompanhava a banda desde 1980. Promessa então de que a banda traria novidades em seu som? Veremos.

Os bons velhinhos, Magnum 2018 
A primeira pista de que nada haveria de diferente na bolachinha vem com a arte cheia de auto referências de Rodney Matthews, pule de dez em se tratando de capas do Magnum. Outra pista residiria no fato do guitarrista e dono da pelota Tony Clarkin assinar pela enésima vez a produção e todas as composições. E, realmente, basta uma primeira rodada em músicas como a boa abertura Peaches And Cream e as subsequentes Show Me Your Hands e Storm Baby para ficar claro que a banda optou pelo mais do mesmo. Não que isso signifique exatamente algo ruim, tendo em vista se tratar de uma banda com sonoridade única.



O problema é que se não há nada que desabone a já vasta discografia dos caras, também há muito pouco que se destaque o suficiente para fazer desse novo trabalho algo de especial. A produção é excelente e todos os músicos jogam para o time e fazem bonito, mas Welcome To the Cosmic Cabaret, por exemplo, não tem nada que justifique seus oito minutos de duração. Without Love (ver vídeo), esbarra na breguice oitentista em seus versos irritantes, um mal do qual a banda eventualmente sofre, o que acaba minando um refrão bacana. You Wanna Be Someone é outra que fica aquém da capacidade de Clarkin como compositor, com a cara de outras quinhentas coisas que ele já escreveu.



Mas há também momentos acima da média, a orquestração e presença de Tobias Sammet na faixa título são uma tremenda bola dentro. Aliás, a participação do mentor e voz do Avantasia tem uma significativa importância. Fã incondicional da banda e da voz do tremendão Bob Catley (que canta bem como sempre aqui), Tobi é responsável por ter ressuscitado o interesse no Magnum para uma geração bem mais nova. No mais, Tell Me What You’ve Got To Say e Glory To Ashes se salvam da mediocridade da segunda metade do longo disco.





Veredito da Cripta

Lost On The Road To Eternity é o disco menos interessante dos nove que o Magnum lançou desde seu incansável retorno às atividades em 2002. Sem nada de novo a apresentar, com um andamento que resvala na monotonia e poucas composições capazes de se destacar num eventual repertório de shows futuros, este é um daqueles discos recomendados somente aos aficionados pela banda. Longe de ser ruim, é daqueles trabalhos medianos e facilmente esquecíveis, fadado a catar poeira até na coleção do fã mais ardoroso. Hora de mudar um pouco a fórmula.


NOTA: 6,69



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Disco Bônus da Edição Nacional

A edição nacional, da Shinigami Records, traz ainda um segundo disco, contendo quatro músicas ao vivo gravadas em 2017. As músicas escolhidas vieram todas do disco de inéditas anterior, o excelente Sacred Blood Divine Lies, e suas versões ao vivo são bem representativas do que o Magnum pode apresentar ao vivo hoje em dia. Muito bacana, só fica aquela pergunta no ar: por que diachos só quatro músicas e pouco mais de vinte minutos num disco bônus? Não dá para entender.


Gravadora: Shinigami Records (nacional).
Pontos positivos: produção cristalina, a grande voz de Bob Catley e a faixa título
Pontos negativos: repertório pouco inspirado e andamento monótono
Para fãs de: Hard Rain, Pretty Maids
Classifique como: Classic Rock, Melodic Rock





quinta-feira, 3 de maio de 2018

Glenn Hughes – Classic Deep Purple Live (29/04/2018 – Circo Voador – Rio de Janeiro/RJ)

             Glenn Hughes – Classic Deep Purple Live (29/04/2018 – Circo Voador – Rio de Janeiro/RJ)

Definitivamente: A VOZ!
Fotos e texto por Trevas


Noite de domingo, parto para assistir, pela quarta vez, uma das lendas vivas da história do rock: Mr. Glenn Hughes. O vocalista/baixista britânico, agora um senhor de 65 anos muito bem vividos, a grande maioria deles de grandes serviços prestados à música, é figura fácil na cidade. Embora a qualidade de Hughes como músico seja incontestável, nem sempre a dinâmica de seus shows corresponde, muito por conta de repertórios confusos diante de tanta coisa produzida junto a diferentes artistas com quem ele colaborou (Deep Purple, Trapeze, Pat Thrall, Black Sabbath, Phenomena...). Mas dessa vez o show seria calcado exclusivamente em material do Deep Purple, uma das bandas mais importantes da história. Promissor.

Cartaz da turnê
A abertura do show ficou por conta da banda carioca Seu Roque. Com o som totalmente calcado no rock setentista, a banda alternou covers de clássicos (Led Zeppelin e The Doors) com músicas próprias em português. Instrumentalmente a banda funciona muito bem, mas confesso que senti que falta de algo nas composições próprias, em especial nas linhas vocais. Ainda assim, um show divertido e que ganhou no mínimo o respeito da plateia, que já lotava o Circo Voador como há muito eu não via.


Titia Hughes, carcaça carcomida, voz do além


Após uma introdução imitando transmissão de rádio, tocada no som mecânico, Stormbringer é jogada impiedosamente em nossas fuças. Um início avassalador, mas quem já acompanha os shows de Hughes não viu novidade ali...ela viria sob a forma de Might Just take Your Life, seguida pela bela Sail Away e pelo clássico absoluto Mistreated.


Glenn canalizando agudos de outra dimensão
Esse tipo de repertório é uma faca de dois gumes, excelente no papel, poderia muito bem ser um tiro no pé se a banda que acompanha Glenn não tivesse a pegada certa. Mas, acreditem, os caras tocam muito e estavam muito bem ensaiados, e com os timbres brilhantemente escolhidos. E o som da casa, perfeito como poucas vezes ouvi. A comprovação veio logo após a pergunta do vocalista: vamos voltar comigo ao California Jam? Foi a deixa para executarem You Fool No One, com direito a emulação dos improvisos originais do lendário show. Soren Andersen já é velho conhecido, e se não é um virtuose da guitarra, casa muito bem com a proposta e tem muita pegada e carisma. Jay Boe manda bem demais nos teclados, e contou com o reforço de mini moog e hammond reais! Mas o destaque mesmo ficou para o jovem chileno Fer Escobedo, que brilhou em um longo solo de bateria que bem poderia ter minado o andamento da apresentação. Aliás, ele brilhou o show inteiro, a despeito do visual meio sleaze e das caras e bocas, o garoto é de uma técnica e pegada invejáveis!


O fiel escudeiro, Soren Andersen


Glenn & Soren

Ah, e a voz do Rock? Essa não envelhece nunca, a despeito da carcaça cada vez mais gasta de seu dono. Para falar a verdade, facilmente posso colocar o que ouvi nessa noite como uma das performances vocais mais belas e impressionantes que já pude testemunhar. O que Glenn fez essa noite em canções como This Time Around, Georgia On My Mind (encerrando Smoke On The Water, como nos shows de sua era no Purple) e You Keep On Moving (essa de arrepiar cada pelo do corpo) é de uma perfeição que parece vir de outro plano astral. A banda se despede sob intensos aplausos de uma plateia maravilhada.

Sim, você o é, meu chapa

Mas havia mais. O quarteto retorna alguns minutos depois. Glenn deixa o baixo para alguém de sua equipe técnica (sorry, não descobri quem é) e emenda uma versão de Highway Star anos luz à frente do que o Purple consegue fazer hoje em dia. Aliás, ela podia ser intitulada “Chupa Gillan”, mas isso é outra história. O encerramento vem com a obrigatória Burn, um pouco desencontrada, mas que surte o efeito de um tornado no Circo Voador. Todos os membros da banda abraçam o chefe de maneira carinhosa e verdadeira. Hughes, visivelmente emocionado, agradece com aquela paz de guru esotérico e promete um retorno para o ano que vem. Ninguém arreda o pé, os aplausos seguem efusivos enquanto a banda e seu líder permanecem no palco. E posso dizer então, que, mesmo já tendo visto o Purple “oficial” uma penca de vezes, pela primeira vez vi uma banda fazer justiça a seu legado musical. E assim termina um dos maiores espetáculos que já tive a sorte de presenciar. Uma noite perfeita (NOTA: 10)




Nós é que temos que agradecer, obrigado, tia Glenn

terça-feira, 1 de maio de 2018

Pain Of Salvation + Reckoning Hour (26/04/2018 - Teatro Rival – Rio de Janeiro/RJ)

POS - Cartaz do Show

In The Passing Light Of...Night...
Fotos e Texto Por Trevas

É sempre interessante notar a diferença entre os públicos dos vários subgêneros dentro do rock. No curto espaço de tempo passado na fila do teatro Rival, fiquei todo ouvidos só captando os diálogos alheios. Se no show do Slash, com seu público “roqueiro de rádio cidade” que vai ao show por duas ou três músicas batidas sem se importar com a qualidade do espetáculo em si, isso me rendeu uma imensa sensação de que o rock realmente estava fadado à morte lenta e dolorosa, no caso do público do POS, foi o contrário. A garotada, que em sua maioria tem aquela pinta de quem fazia a festa nas lanhouses da vida, conversava avidamente sobre a carreira de sua banda favorita, parecendo conhecer cada nuance dos discos e até mesmo de assuntos não tão obrigatórios. Isso sem perder o humor. Em determinado momento ouço a seguinte tirada: “O único Ragnar bom era viking e já está morto”. Gargalhadas se seguiram e só então eu, longe de ser fanboy dos suecos, me toquei que corria no ar a apreensão de como seria o show (adiado de fevereiro por problemas de saúde com o dono da bola, Daniel Gildenlöw) com a “nova” formação, ainda não testada, com Johan Hallgren retomando seu lugar na guitarra (e voz), justamente em substituição ao tão mal falado multi-instrumentista Islandês Ragnar Zolberg. Dentro da casa, tomei meu lugar para o show da sempre competente banda carioca Reckoning Hour.


Reckoning Hour

O quinteto, cujo som fica muito distante do praticado pela banda principal da noite, bem poderia correr o risco de uma recepção desfavorável. Mas a Reckoning Hour tem toneladas de peso e talento, e vem se mostrando uma máquina para lá de azeitada em cima dos palcos cariocas.

JP, o gogó feroz dos excelentes cariocas


Destilando um Metal Moderno que não fica a dever em nada à muitos expoentes gringos do gênero, logo os rapazes conquistam o público, com as boas músicas de seus dois trabalhos amplificadas por um primor técnico e muito carisma. Quando me perguntam sobre renovação na cena brasuca, nem penso muito, um dos primeiros nomes que me vem à mente é o da Reckoning Hour: uma bandaça que merece alçar voos cada vez maiores. (NOTA:8)

Lucas Brum, um dos guitarristas da Reckoning Hour



Pain Of Salvation

Quando se fala em Prog Metal, muita gente (esse escriba inclusive) logo relaciona o rótulo à músicas frias e sem alma executadas por robozinhos assexuados travestidos de músicos. Tudo o que o Rock não precisa. Mas esse estereótipo passa longe da obra e dos shows do POS. Aqui emoção e feeling ficam em primeiro plano, a despeito do cuidado com detalhes técnicos. Full Throttle Tribe abre magistralmente o set, e chega a impressionar a desenvoltura da banda em eu primeiro show desde janeiro desse ano.

Daniel e Flea

Daniel, o dono da bola, descalço e vestindo uma roupa que você não usaria nem para ajudar seu avô a pintar a sala, arranca suspiros da mulherada a cada intervalo de música, e sua felicidade por estar de volta à ativa é contagiante. E a confiança no novo disco é tamanha que o set seguiu com Reasons (que acho péssima, mas o público cantou palavra por palavra) e a belíssima Meaningless. A recepção? Cada vírgula das novas músicas era bebida pela plateia, que se não lotou o Teatro Rival, fez compensar os lugares vazios com invejável devoção. E essa energia circulava, com a banda, em chamas, catapultando em nossas faces o momento mais rocker da noite, com a setentista (e excelente) Linoleum.

Daniel Mendigato Gildenlöw


Daniel, o mendigato, pode não ser o fenômeno vocal que alguns dos discos da banda apregoam, mas está tão bem assessorado vocalmente por todos os membros do POS que pouco isso afeta o resultado final - quase tudo o que se ouve das complexas linhas melódicas em estúdio é reproduzido ao vivo. Hallgren, recentemente reintegrado ao bando, é quase tão ovacionado quanto o patrão. Pudera, o irmão gêmeo do Flea toca e agita muito, além de ser um dos destaques vocais. Aliás, todos os membros dessa formação tocam eximiamente bem, mas com muita pegada e clara vontade expressa nos rostos. E até os erros eram recebidos com sorrisos por todos, seja no palco, seja na plateia. Fica fácil se divertir quando a banda mostra tamanho carinho pelo que faz.

Johan compenetrado

O repertório buscou representar quase toda a carreira dos suecos, mesmo com a preferência pelo novo disco. Ashes e Rope Ends arrancaram lágrimas de muitos e o set inicial terminou com a Excelente On A Tuesday, com impressionante contribuição vocal do exímio baterista Leo Margarit. Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, juraria que a voz do cara sai de dentro de uma estonteante loura escandinava. Um falsete e tanto! O bis se deu com a faixa título do novo trabalho, aparentemente já elevada a clássico pelos fãs. Doze músicas e 100 minutos depois, com muitos sorrisos e uma energia palpável no ar, a banda se despede. E pela reação do público, podem retornar ano após ano sem medo. Um grande show. (NOTA:9)