Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Bastava adentrar o sempre simpático Teatro
Rival para descobrir o tipo de acolhida que os suecos do Sabaton receberiam em sua primeira
passagem por solo carioca: pouco após o horário de abertura da casa, nenhuma
camisa ou Cd da banda sobrara na loja de merchandise. O clima de apreensão era
palpável no saturado ar de uma calorenta noite de quarta-feira, quando
pontualmente ás 20:30 as luzes se apagam sob o som mecânico de Final Countdown, do Europe. Logo os Suecos correm para suas
posições e tal qual um pelotão desses que ilustram suas letras, tomam de
assalto o palco, com a empolgante Ghost
Division executada a perfeição. Já na introdução da segunda música, To hell And Back, do novo disco,
percebia-se que o público não estava para brincadeira, cada palavra sendo
cantada em um coro potente e empolgado que arrancava sorrisos incontidos da
banda.
Recepção calorosa
A proficiência do Sabaton na
execução de seus instrumentos poderia indicar uma postura comportada no palco,
certo? Nada disso, a banda se movimenta e brinca bastante, em especial o vocalista
Joakim Brodén, com sua habitual
performance atlética anabolizada por doses cavalares de simpatia e carisma.
Logo após a apoteótica Carolus Rex, Brodén brinca sobre o perigo que eles
correm ao tentar aprender algumas palavras em português, dizendo que alguém
ensinara uma expressão em nossa língua nativa: “Pica dos galáxias”, disse o grandalhão
num impagável sotaque carregado, para risos gerais. Após a galhofa, Brodén diz que é o momento de nos
ensinar um pouco de Sueco, emendando então a versão para Gott Mit Uns em sua língua natal.
Brodén, um galhofeiro visivelmente feliz
Uprising e Attero Dominatus seguem para delírio
geral e então Brodén pega o celular de
um fã que vinha filmando o show, vira a câmera para fitar a plateia, filma o próprio
pênis e finge atender a uma ligação, dizendo “estou na porra de um show”. Ainda
em tom divertido, Brodén afirma que
jamais haviam visto uma recepção tão calorosa por uma plateia de um lugar nunca
antes visitado pela banda. Seu sorriso e gestos indicam que essa declaração
está longe de ser mera demagogia. A resposta do lisonjeado público é efusiva e
mesmo as novas Resist And Bite e Soldier Of 3 Armies são recebidas com
incrível empolgação. No intervalo entre as músicas, mais galhofa, Brodén teve sua calça rasgada no meio
de uma performance mais empolgada, diz se tratar de um ar condicionado peniano,
e que a única maneira dele parar de falar do próprio pênis seria começar logo a
tocar a próxima música. Swedish Pagans
encerra a primeira parte do set, e os fãs não dão o menor sinal de cansaço.
Pär Sundström e Chris Rörland
Hannes Van Dahl
Cobras Fumantes...
Os gritos de “Sabaton, Sabaton”
ainda ecoavam quando a banda recomeça o set com a estonteante Night Witches. Ao final da mesma, Brodén cita que a próxima música deveria
ter sido tocada ao vivo pela primeira vez em solo brasileiro. A grande ovação
indica que todos na casa já sabiam o que viria. E então Brodén anuncia em péssimo português: “A cobra Vai Fumaaaarrr”, e lá
temos Smoking Snakes, música feita
em homenagem à Força Expedicionária Brasileira (FEB), cantada em uníssono.
Destaque para a felicidade da banda ao ouvir o público cantar o trecho em
português da música. Impossível ficar impassível num momento desses. O momento
de euforia é coroado com Primo Victoria,
clássico mor dos suecos, seguido do tiro de misericórdia galhofeiro de Metal Crue, a divertida bobagem que
homenageia diversas bandas dos anos 1980 em sua letra.
Brodén e seu exército carioca
Ao
final do curto set (parcos 75 minutos) os imensos sorrisos de todos na casa,
seja na plateia ou no palco, parecem concordar que aquela expressão aprendida
pela banda se encaixaria bem para ilustrar o show: “PICA DAS GALAXIAS”
Curtas: California Breed – California Breed/ Gus G. – I Am The Fire
California Breed
California
Breed – California Breed - Deluxe Edition (Cd+DVD – 2014)
Depois da triste
lavagem de roupa suja via mídias digitais que marcou o fim do Black Country Communion (ver história
aqui na Cripta), Glenn Hughes
resolveu não perder tempo e começar um novo projeto. Com Jason Bonham a tiracolo, iniciou uma busca incessante por um
guitarrista prodigioso que pudesse estar à altura do desafeto Joe Bonamassa. Boatos do recrutamento
de figuras como Zakk Wylde e Richie Kotzen foram publicados aqui e
acolá, mas o posto foi finalmente ocupado pelo americano Andrew Watt, apenas 23 anos, mas alma totalmente vintage.
Apresentado a Glenn Hughes por ninguém
menos que Julian Lennon, Watt conquistou a confiança do veterano
de imediato, e o falastrão workaholic não tardou a alardear aos quatro ventos
que lançaria seu melhor trabalho em todos os tempos. Coisa que Glenn faz toda semana, claro.
Bonham, Hughes e Watt, antes de lavar roupa suja
Com Dave Cobb na produção, o
trio partiu rapidamente para o estúdio e gravou 13 canções (uma somente na
edição deluxe) diretas e que reverenciam o retro-rock em voga atualmente (não
por acaso, Cobb fora responsável pelo
premiado Pressure And Time do Rival Sons). Elementos da carreira solo
de Hughes, doses homeopáticas de Zeppelin, bons riffs, vocalizações
inspiradas e uma bateria bem na cara fazem dessa estreia um disco agradável,
mas que começa a perder sua força a partir de sua segunda metade.
Faixas como The Way, Sweet Tea, The Grey e Midnight Oil
se destacam dentre as mais roqueiras, enquanto Chemical Rain reina solitária dentre as mais calmas. A edição
deluxe traz ainda uma faixa bônus, Solo, bem interessante, além de um DVD contendo
um making of correto e os clipes para The Way e Sweet Tea, nada que vá fazer
muita falta.
Gostaria
de poder dizer se tratar de uma estreia promissora de um grande projeto, mas
pouco depois do lançamento da bolachinha, Jason
brigou com Hughes, de maneira
idêntica ao ocorrido no entrevero Hughes-Bonamassa,
com Joey Castillo (ex-Queens Of The Stone Age) assumindo as
baquetas. O futuro da banda atualmente está em cheque, mas mesmo que esse venha
a ser o único rebento do California
Breed, merece uma conferida.
NOTA: 7,5
I Am The Fire
Gus
G. – I Am The Fire (Cd-2014)
Kostas Karamitroudis (aka Gus G) já havia brilhado junto aos headbangers
mais fiéis com o Dream Evil e
capitaneando o Firewind (ver história
aqui na Cripta), mas foi só ao virar o mais novo escudeiro de Ozzy Osbourne que seu talento nas seis
cordas foi finalmente reconhecido por um público mais amplo.
Gus G
Aproveitando os holofotes e as atividades de Ozzy junto ao Black Sabbath,
Gus se uniu a alguns colegas e
produziu seu primeiro trabalho solo. E quem esperava um Cd típico de guitarrista
virtuose, cheio de temas instrumentais autoindulgentes, quebrou a cara: I Am The Fire é um disco calcado em sua
maioria em canções Hard/Heavy, oitentista em intenção, apesar da ótima produção
que dá um toque preciso de modernidade à obra.
Com bela arte de capa pelo brasileiro Gustavo Sazes, o disco traz solos e riffs inspiradíssimos do
guitarrista grego, o que era de se esperar. Mas o destaque mesmo fica para os músicos
convidados. Mats Levén (Therion, Candlemass, Malmsteen)
comanda os vocais nas ótimas My Will Be
Done e Blame It On Me dentre
outras. O duo Devour the Day marca
sua participação na faixa título, a mais moderna do pacote.
Billy Sheehan e David Ellefson fazem companhia a Gus nas duas faixas instrumentais do
disco, e Jeff Scott Soto revive o Talisman em Summer Days.
Ainda
nas participações especiais vocais, temos Jacob
Bunton (Adler), Tom Englund (Evergrey) e Alexia Rodriguez
(Eyes Set To Kill), além do gaiato Michael Starr (Steel Panther) se levando a sério em Redemption. I Am The Fire
é um disco muito bom, muito bem produzido e bem mais variado e acessível que os
trabalhos anteriores de Gus G. Uma
bela estreia cujo sucesso (aliado à saída do vocalista Apollo) já põe em dúvida o futuro do Firewind.
Não é todo dia que temos a
oportunidade de realizar um daqueles desejos (sonho é uma palavra meio forte)
de moleque. A perspectiva de finalmente assistir ao Fates Warning ao vivo me
colocou num estágio de ansiedade pré show que não sentia desde que fui a São
Paulo conferir Ritchie Blackmore e sua efêmera encarnação noventista para o
Rainbow.
Não, o Fates Warning nunca
figurou exatamente no rol de minhas bandas favoritas em todos os tempos, mas
sempre ficou alí, na espreita, como que integrante do cast de coadjuvantes de
luxo em quase todos os momentos de minha vida musical.
Lembro até hoje de
meu primeiro contato com o som dos caras, provavelmente em 1993 – aluguei um
disco duplo na Video & Game Center, às cegas. O disco duplo incluía dois
títulos da banda: Awaken The Guardian (1986) e No Exit.(1988). Embora o título
e arte gráfica do primeiro é que tenham me atraído a apostar na banda, foi o
segundo disco que me conquistou de imediato. A assombrosa intro à capella,
seguida da feroz e complexa Anarchy Divine, além de faixas como Silent Cries,
adornadas por um trabalho de guitarra épico e a voz melodiosa de Ray Alder
mostraram um novo reino musical que o imberbe Trevas ainda não conhecia. Nascia
ali o gosto pelo Prog Metal, um subgênero que me acompanhou por anos a fio.
Fates Warning à época de Inside Out
Desse subgênero, o FW é considerado pioneiro, ao lado do Queensrÿche.
Apesar de seu Prog Metal raramente apresentar características herméticas e
exibicionistas, curiosamente a banda apenas resvalou no Mainstream, tendo sido
relegada ao estatus de Cult, ao contrário do Queensrÿche e do filhote Dream
Theater, que alcançaram invejável sucesso comercial.
No Exit - meu primeiro contato com a banda
Aos poucos arrebatei todos os títulos dos caras que eu encontrava
(quando minha mesada permitia). E embora tivesse adorado de primeira obras como
Perfect Symmetry e Parallels, foi Inside Out (de 1994) que se tornou meu xodó.
Primeiro disco dos caras que tive a oportunidade de adquirir assim que lançado,
é tido como uma obra menor na carreira da banda, por ter sido a primeira vez em
que o FW repetiu a fórmula em dois trabalhos seguidos. Inside Out é sim uma
espécie de continuação para o bem-sucedido Parallels, embora sabe-se lá por
que, eu me identifique muito mais com a continuação do que com o original.
Inside Out - meu favorito
Eternamente no meu top 10, Inside Out fez com que, mesmo após eu renegar
o Prog Metal de meu cardápio musical, eu continuasse acompanhando a banda a
cada lançamento.
Overload
Music Fest
A oportunidade de
assistir os caras veio com o Overload Music Fest, primeiro festival organizado
pela produtora homônima. Festival que aqui no Rio apresentou quatro bandas
divididas em dois dias: Alcest e God Is An Astronaut no dia 04 de setembro,
Fates Warning e os noruegueses do Swallow The Sun no dia 05. Coube então ao
escandinavos a abertura do evento numa sexta feira de clima ameno e público
escasso no sempre agradável Teatro Rival.
Folder do Evento
Swallow
The Sun
Cerca de 100 pessoas estavam
dentro da casa no momento em que teve início o show do STS, a maioria movida
apenas por curiosidade e alguns poucos fãs de fato, que cantavam cada palavra
com fervor.
Aparentando algum nervosismo, o sexteto destilou um set pesado e arrastado, calcado num Doom com
elementos de Death Metal que por vezes parece uma versão competente e moderna
do My Dying Bride (ainda que sem o refinamento das composições dos britânicos).
Apesar de poucos
conhecerem as músicas, o STS conquistou rapidamente o usualmente cético público
Prog Metal, e era comum ver gente perguntando se havia material de merchandise
ou cd dos caras à venda. Ou seja, se a banda tinha como objetivo angariar novos
fãs em território não explorado, seu bom show (de aproximadamente 40 minutos) cumpriu
a missão com louvor.
Let there Be Doom -Swallow The Sun no Rival (por Trevas)
Fates Warning
A diferença de postura do Fates Warning para outras bandas do estilo
pode ser vista já desde o início do show. Sem muita frescura, os caras sobrem
ao palco, pegam seus instrumentos e já começam a descer a lenha, com a faixa de
abertura do disco atual, a excelente One Thousand Fires. A faixa seguinte, One,
vigorosa e direta, já garantiu o público nas mãos dos americanos.
Fates Warning (Por Pablo)
A banda atualmente conta
apenas com Ray Alder e o líder Jim Matheos em sua formação fixa, o restante dos
músicos atuando como contratados. Mas engana-se aquele que tirar disso a
conclusão de que a formação atual fica a dever ao passado da banda.
Ray Alder, por Daniel Croce
O baixista Joey Vera (do
Armored Saint e Anthrax) já toca com os caras desde o final da década de 1990,
sempre mostrando sua competência e pegada no baixo e ajudando Alder nos backing
vocals.
Vera e seu cabelinho Cascão (por Daniel Croce)
Bobby Jarzombeck (Halford,
Sebastian Bach) tem a hercúlea missão de substituir o monstro Mark Zonder, e o
faz com precisão cirúrgica, replicando cada detalhe dos pratos amalucados das
versões originais, e ainda por cima acrescentando um toque pessoal na pegada e peso.
Uma performance que por si só valeria o show.
Bobby concentrado (por Daniel Croce)
O virtuoso Michael Abdow é o
caçula da banda e vem substituindo Frank Aresti na atual turnê. O cara, que tem
fuça de garoto ainda, empunha sua guitarra de sete cordas com maestria,
efetuando boa parte dos belos e complexos solos da banda e adaptando para o
instrumento a maioria das passagens de teclado. Uma agradável surpresa.
Abdow, por Daniel Croce
Os veteranos Matheos
e Alder dispensam maiores apresentações. Jim tem uma pegada e timbre únicos,
marcas registradas do som do FW. Curiosamente restringe sua performance à
maioria das bases e uns poucos solos. Engraçado perceber que ele parece não ter
envelhecido nem um pouco nas últimas décadas, sempre com a mesma carranca
sisuda e a vasta cabeleira cacheada.
Matheos, Vera e Jarzombeck (Por Pablo)
Ray Alder (sobrenome verdadeiro, Balderrama) também pareceria ter bebido
da mesma fonte da juventude, não tivesse resolvido ostentar uma portentosa
barba grisalha. Sua performance vocal beira a perfeição, embora os agudos
estratosféricos do material de Parallels tenham ficado para trás. Além de ótimo
vocalista, o cara é bastante simpático e tem uma puta presença de palco, algo
raríssimo (muito mesmo) em se tratando do estilo.
Alder comandando o show (por Daniel Croce)
Diga-se de passagem, o
feeling da banda ao vivo tem muito mais a dever ao Heavy metal do que ao prog.
Apesar da complexidade das músicas, o set nunca passa perto do mero
exibicionismo e o feeling e momento são colocados à frente da perfeição
asséptica que por vezes contamina as bandas de Prog metal.
O set escolhido se ateve ao
material de Perfect Symmetry em diante, com ao menos uma canção de cada disco presente
no show.
Point Of View, Life In Still
Water e a épica The Eleventh Hour representaram Parallels, fazendo muito
marmanjo berrar a plenos pulmões. Through Different Eyes foi a estrela de
Perfect Symmetry. O novo álbum, além da abertura, foi representado por Firefly
(cantada por todos) e I Am. FWX se fez presente com a quase pop
Another Perfect Day. Já a música-disco A Pleasant Shade Of Gray teve quatro de
suas partes executadas (como elas soam melhor ao vivo, hein?).
Matheos, o dono da bola (por Daniel Croce)
Talvez o único ponto
razoavelmente fora da curva tenha sido Pieces Of Me, que se não é ruim, fica a
dever ao restante do repertório. Monument (de Inside Out) fechou a primeira
parte do set, e o encore veio com uma versão um pouco editada para a bela Still
Remains (de Disconnected), totalizando uma hora e quarenta de espetáculo.
Público e banda se despedem
um do outro em êxtase, cada qual torcendo em seu íntimo que outra noite dessas
não demore tanto a se repetir.
P.s.: De negativo,
apenas o pouco público. E nesse caso, mando um recado aos fãs de Prog Metal que
se estapeiam para ver o soporífero show do Dream Theater: façam um favor a si
mesmos, chafurdem na discografia do Fates Warning e da próxima vez assistam os
caras. Já vi o DT em ação por três vezes em palcos e eras diferentes e o FW
engole os caras com farinha. Como se diz no Facefuck: “Fica a dica”.