quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Powerwolf – The Metal Mass (Box Set: 2Blu-Rays + 1 Cd)

Powerwolf - The Metal Mass
Lobinhos Encaixotados
Por Trevas

Tem coisas que parecem só acontecer no estranho mundo do Heavy Metal. Em 2003, um grupo de quatro amigos resolve criar uma banda de Power Metal, mas com grande apelo visual. Encontram um vocalista de canto lírico na Romênia (Karsten Brill, aka Attila Dorn). O fascínio do balofo cantor pela mitologia Romena e seus lobisomens e criaturas da noite fazem com que a banda ache um nicho que acompanha o impacto visual que tanto queriam: suas letras e temas fariam uma mescla de temas sacros e histórias sobre esses monstrinhos. Tudo cercado por um senso de humor para lá de negro.

Powerwolf, patrocinada por alguma marca de pasta d'água
Até aí, tudo bem, apenas mais um grupo de pessoas se divertindo em torno de uma ideia idiota. O que é surpreendente é que a banda em menos de 10 anos torna-se uma potência na cena europeia, com seus discos sempre bem posicionados na lista de mais vendidos em vários países. Mas o grande chamariz dos teutônicos sempre foi o impacto de suas apresentações ao vivo. E esse Box Set, lançado pela Napalm Records, vem com o intuito de aproveitar o Powerwolf em seu habitat natural, compilando três shows filmados em momentos diferentes da turnê de promoção de seu último disco, Blessed & Possessed. Como usualmente faço na Cripta, avaliarei o material em termos de apresentação visual (afinal, esse é um dos apelos dos Box Sets, não?) e conteúdo. Viajemos então com os lobisomens esquisitões.

Imagem da versão do box Set avaliada. Tem vários outros formatos no mercado.
Apresentação

A apresentação do box é impecável, um digibook de 46 folhas em papel de alta qualidade repleto de fotos caprichadas e contendo textos explicativos do contexto de cada um dos shows, com detalhes em preto e dourado. Nada de cartões para acondicionamento dos discos, daqueles que arranham o material: aqui há um miolo de acrílico para acondicionar o cd na capa e um miolo duplo para os dois Blu-rays na contracapa. O digibook fica acondicionado numa capa externa feita de papel cartão. Coisa fina e visualmente bem bolada. Como todo Box Set deveria ser.


Som/Vídeo

A mixagem em Stereo (não, o Neanderthal aqui não possui um Home Theater) é excelente para os três shows apresentados. A qualidade de som impecável também se faz presente no Cd, que representa o show de Oberhausen quase em sua totalidade, excetuando o solo de bateria. Já em relação à imagem, o padrão de qualidade já não se mostra tão estável assim. Nos dois festivais, as tomadas de palco são excelentes, bem nítidas e bonitas. Já algumas câmeras que mostram o público apresentam aquela granulação chata de se ver em um material de alta resolução. No mais, a edição é correta, até mesmo comportada demais. Enfim, em nenhum momento compromete ou compete por atenção com a performance da banda.

Já no show de Oberhausen, numa casa fechada, reside a grande decepção: as imagens não são granuladas, mas apresentam uma nitidez bem baixa em se tratando de um lançamento em HD. Se fosse apenas esse o show a ser lançado pela banda, em nada seria justificado o uso de mídia em Blu-Ray.


Live At Masters of Rock/Live at Summer Breeze

Os shows dos dois festivais apresentados são bastante parecidos em termos de repertório, performance da banda e participação do público. Por isso tratei eles no mesmo item aqui. O Power Metal com elementos sacros e humor negro da banda funcionam muito bem diante de um grande público. Todos os músicos são bons em seus instrumentos e Attila Dorn é um vocalista definitivamente único na cena, com seu treinamento em canto lírico jamais sobrepujando o peso das composições. A produção de palco também ajuda e os coros nos refrães praticamente pedem pela interação do público, que corresponde à altura. Talvez o grande diferencial entre os shows seja a desenvoltura de Attila maior perante ao público de língua alemã. No festival da República Tcheca, fica visível que o cara fica um pouco limitado na comunicação em inglês. 


Live In Oberhausen

Realizado em uma casa fechada, com público bem menos numeroso que nos shows supracitados, Oberhausen não perde em nada em relação à participação dos fãs. Na verdade, a proximidade até facilitou a captação de áudio dos mesmos. E talvez exatamente por isso tenha sido o show escolhido para figurar no cd. Entretanto, a produção de palco da banda fica imensamente prejudicada pela qualidade de imagem consideravelmente inferior. Enfim, vale como complemento de um pacote maior, mas é o menos interessante dos shows encartados para se ver em vídeo.


Extras

O primeiro Blu-Ray traz um documentário sobre a passagem da banda pelo Summer Breeze Festival. Temos ainda uma compilação dos Videoclipes oficiais do Powerwolf.
O documentário sobre o Summer Breeze deve ser bacana, mas a ausência de legendas em qualquer língua e meu completo desconhecimento do idioma alemão me impedem de tecer maiores comentários sobre seus 12 minutos de duração. Como pode um lançamento em pleno 2016 ainda ter uma falha dessas? Difícil responder.

Os quatro videoclipes são bastante bem feitos e seguem a temática visual profano jocosa escolhida pelos alemães.

No segundo Blu-Ray o material extra consiste num documentário supostamente sobre a turnê de Blessed & Possessed. Na verdade os 53 minutos de duração discorrem desde os primórdios da banda até a referida turnê. Ao contrário do que acontece no primeiro disco, o material aqui é narrado em inglês (com legendas em alemão). As entrevistas com a banda também se fazem na língua da Rainha, e não são lá muito complicadas de entender para quem tem um conhecimento razoável de conversação. Certamente um documentário que vale uma conferida, ainda mais pelo senso de humor que permeia a narrativa.


Saldo Final
Temos nada mais nada menos que 417 minutos dos lobinhos alemães encaixotados nos três discos, o que por si só já seria digno de nota. De negativo, apenas a falta de legendas no documentário sobre o Sumer Breeze e a qualidade baixa das imagens do show de Oberhausen. Nada que tire o brilho da grande maioria do material apresentado nesse ótimo Box Set. Altamente recomendável.

NOTA: 90

Pontos positivos: Os dois shows dos festivais são excelentes.
Pontos negativos: baixa qualidade de vídeo do show de Oberhausen. Falta de legendas em parte do material extra.
Para fãs de: Sabaton, Running Wild, Rage, Accept
Classifique como: Power Metal  

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fates Warning – Theories Of Flight – Deluxe Edition (2 Cds – 2016)

Fates Warning - Theories of Flight
Voando Alto
Por Trevas

Prólogo: Um Pioneiro Cult

Pioneiros do infame Progressive Heavy Metal, os estadunidenses do Fates Warning nunca conseguiram o sucesso comercial de seus colegas mais famosos (Queensrÿche e Dream Theater). Tendo iniciado sua trajetória com uma sonoridade derivada da NWOBHM e da vertente americana do Power Metal, logo evoluíram (evolução=mudança, ok?) para uma seara bem mais complexa, gerando um dos mais incensados rebentos dos primórdios do Prog Metal, Awaken the Guardian. A saída do vocalista John Arch veio em conjunto com uma mudança de estilo, cada vez mais progressivo e sofisticado. Embora a crítica trate todos os trabalhos da banda com carinho, os temas introspectivos e soturnos, associados à uma ética de trabalho algo errática e com pouco tino comercial talvez sejam os culpados pela banda ter ficado eternamente relegada à árida “Terra das Bandas Cult”.

Awaken the Guardian, uma espécie de Meca do início do prog metal
Particularmente, não sou um grande entusiasta do Metal Progressivo, em especial após a popularidade do Dream Theater ter tornado o mesmo sinônimo de mero exibicionismo e elitismo musical. Mas o Fates Warning figura desde sempre entre minhas bandas favoritas. A explicação? A preocupação em valorizar sempre conteúdo ao invés da forma. A técnica apurada para o FW serve, salvo raras exceções, apenas para realçar canções inteligentemente construídas. Aliás, é o que fazia a diferença entre o Rock Progressivo de qualidade e as bandas derivativas que fizeram o estilo virar uma caricatura esquecida ao final da década de 1970 (renascendo sob nova forma e inspiração no Neo Prog oitentista).

Fates Warning circa Parallels (1992)
Mas a despeito de gostar de todos os trabalhos dos caras, desde o longínquo Inside Out (de 1994) que o Fates Warning vem lançando discos bacanas, mas que por um motivo ou outro falham em se tornar memoráveis o suficiente para rivalizar com os clássicos. Sinceramente eu já não esperava que isso fosse acontecer. Até que esbarrei com Theories Of Flight (aqui analisado em sua edição Deluxe, contendo um disco bônus encartado em belo digipack)...

Analisando As teorias de Vôo

O disco começa de uma maneira diferente, com From the Rooftops (ver vídeo) e seu início calmo ornados pela voz bonita de Alder e belos solos de Matheos. Lá pelos 2:00 a faixa se transforma numa pancadaria marcada pela bateria agressiva do monstro Jarzombek (Halford, Riot) e grandes melodias vocais. O guitarrista Frank Aresti, colaborador de longa data (na verdade, ex-membro), faz uma participação no ótimo solo final. Uma grande música que já mostra que o disco vem com uma pegada diferente.


Seven Stars confirma aquilo que o bom ouvinte já sabe, o Fates Warning em muito se diferencia de seus pares no árido terreno do Prog Metal por valorizar climas e melodias tanto ou mais do que a mera complexidade instrumental. O refrão aqui é daqueles que bem poderia fazer história numa rádio se de posse de uma banda de AOR.



A produção, nas mãos de Jim com mixagem do onipresente Jens Bogren, é um show à parte, talvez nenhum disco da banda tenha soado com tanto punch quanto esse. Ao que parece, a experiência recente de Jim Matheos com John Arch (vocalista da fase mais heavy metal da banda) reacendeu uma chama há muito esquecida. O “patrão” está pegando bastante pesado nos riffs e trazendo solos bem mais agressivos do que vinha fazendo. Ajuda também o enfoque de Jarzombek nas linhas de bateria, bem mais metálico e moderno do que o usual da banda. Duvida? Escute então a trauletada que é SOS, uma faixa vigorosa, mas que não dispensa um belo refrão na conta do para lá de inspirado Ray Alder. Um de meus vocalistas favoritos, o “chicano” faz nessa bolachinha uma de suas melhores performances da carreira.

Fates Warning 2016 (Joey Vera com seu eterno cabelo Cascão)
The Light And Shade Of Things é o primeiro dos dois épicos om mais de 10 minutos do disco. De início calmo e repleto de fraseados climáticos algo Gilmourianos, a música transmuta em um mamute enfurecido após os 3 minutos, num dos melhores momentos de toda a carreira dos estadunidenses. Ficarei extremamente surpreso se não vier a se tornar um clássico de presença obrigatória nos futuros shows.

White Flag é tão direta e pesada que talvez engane um incauto ouvinte. Já é uma faixa excelente por si só, mas ainda tem o requinte de crueldade de trazer um duelo de solos entre o monstro Mike Abdow (que faz as guitarras solo nos shows atuais da banda) e o membro honorário Frank Aresti. The Stars Our Eyes Have Seen parece misturar as melodias bonitas e radiofônicas de Parallels e Inside Out com um arranjo para lá de agressivo, em outro petardo impressionante.


Como nem tudo é perfeito, o disco ameaça dar uma escorregada, ainda que de leve, justamente quando o Fates Warning tenta soar como uma banda de Prog Metal qualquer. Isso acontece no segundo épico do disco, The Ghosts of Home, que dilui boas ideias (inclusive do baixo do sempre bacana Joey Vera) naqueles típicos “piruliruli-pirulirulu-pim-pom-pum” que fazem os onanistas musicais adularem o Dream Theater e suas cópias. Mas ainda assim a faixa acaba se salvando com sua linha melódica bastante diferente e até mesmo alegre para os padrões usualmente melancólicos da banda.
O disco encerra seus 52 minutos na faixa título, uma daquelas peças instrumentais misteriosas e climáticas que se tornaram marca registrada de Jim Matheos.

Saldo Final

Theories of Flight é o melhor disco do Fates Warning no mínimo desde Inside Out. Pesado e inspirado, o disco deveria ser usado como exemplo de como o Prog Metal ainda pode sim soar relevante e nada caricato (viu Dream Theater???). É também um fortíssimo candidato a melhor disco de 2016. Obrigatório!  

NOTA: 9,85

Pontos positivos: grandes músicas, ótimas performances e produção perfeita
Pontos negativos: Nada a destacar
Para fãs de: Prog Metal sem profusão de convenções
Classifique como: Prog Metal

Disco Bônus:

O segundo disco traz seis faixas em formato acústico. Os arranjos são simples, mas cuidadosos e o formato só vem a corroborar a qualidade das melodias vocais das músicas da banda. São três faixas próprias e três covers. As belas Firefly, Seven Stars e uma surpreendente versão para Another Perfect Day fazem as vezes do bestiário Fateswarniano aqui representado.  As três covers que completam o disco bônus tem origens tão díspares que só vem a mostrar o grau de ecletismo dos caras da banda. A primeira é Pray Your Gods, gravada em 1991 por Toad the Wet Sprocket. Quase tão soturna quanto a bela original, mostra-se uma escolha tão surpreendente quanto acertada. Adela é a improbabilíssima curta versão para uma música de Joaquim Rodrigo, o virtuose espanhol responsável pelo Concerto de Aranjuez. Rain, do Uriah Heep definitivamente é a única das escolhas que deve soar coerente aos ouvidos da maioria dos fãs. Enfim, em uma época em que os materiais bônus geralmente chafurdam num monte de entulho redundante (versões demo das músicas do disco ou versões ao vivo mal gravadas), há de se considerar que o Fates Warning fez uma aposta bem bacana aqui. Uma pena que as seis faixas contabilizem pouco mais de vinte minutos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Curtas: Gary Moore, Lacuna Coil, Deftones, Sunstorm

Gary Moore, Lacuna Coil, Deftones, Sunstorm

Curtas: Gary Moore, Lacuna Coil, Deftones, Sunstorm

Gary Moore - Live At Bush Hall 2007 (Cd-2016)
Gary Moore – Live at Bush Hall 2007 (Cd-2016)

O Baú do Tio Moore

Lançado originalmente lá fora em 2014 numa edição que logo saiu de catálogo, esse é o relançamento brasuca de mais um ao vivo do cara de Morcego. Gravado às vésperas do lançamento de Close as You Get, disco de 2007, temos aqui o registro de um show bem diferente. Primeiramente, o show fez parte de uma promoção de uma rádio britânica, e os 400 felizardos presentes no evento compõe o hall de vencedores dessa promoção. E outro fator que fez desse show único é que seu set está calcado majoritariamente no repertório do disco novo. Que bacana que Close As You Get é muito bom, como vemos nas ótimas If The Devil Made Whiskey, Eyesight to the Blind, I Had a Dream, Trouble at Home e na versão para Thirty Days de Chuck Berry. Claro que estamos falando de um Gary em sua fase Blueseira, mas os fãs de seu lado mais hard tem uma ótima versão de Don’t Believe a Word, clássico do Thin Lizzy, para se divertir um pouco. De resto, um disco muito bem gravado, com ótima performance vocal e guitarrística do irlandês. O único senão fica por conta da participação do público, bastante tímida, obviamente por conta do número de espectadores e pelo clima intimista do show. Um grande lançamento que nos deixa esperançosos de que o baú do tio Moore ainda esteja repleto de belezuras ao vivo.

NOTA: 8,50

Pontos positivos: ótimas rendições para as músicas de Close as you get e alguns clássicos
Pontos negativos: plateia bem no fundo na mixagem.
Para fãs de: Joe Bonamassa, Rory Gallagher
Classifique como: Blues Rock


O saudoso cara de morcego, debulhando sua guitarra
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Lacuna Coil - Delirium (Cd-2016)
Lacuna Coil – Delirium (Cd-2016)

Bendita Loucura

O oitavo disco de estúdio dos italianos foi elaborado em situação extremamente incomum. O baixista Marco Coti Zelati ficou boa parte da turnê de divulgação de Broken Crown Halo no estaleiro, utilizando esse período de férias forçadas para exercitar seus talentos como compositor. Em paralelo, os italianos sofreram com uma espécie de demissão coletiva, com os membros de longa data Cristiano "Criz" Mozzati, Cristiano "Pizza” e Marco "Maus" Biazzi abandonando o barco no período de um ano. Tempos sombrios, temática sombria. Os vocalistas Cristina Scabbia e Andrea Ferro resolveram aproveitar o surto criativo de Zelati, e escolheram como tema central do novo trabalho explorar os recônditos mais sombrios da mente humana. Loucura, depressão e os horrores dos tratamentos psiquiátricos e suas instituições num passado não muito distante figuram nas letras de Delirium.


A temática trevosa acabou por gerar o disco mais pesado e sombrio da banda. Andrea Ferro tem aqui sua melhor e mais brutal performance até hoje (lembrando em algumas partes o Burton C Bell) e faixas como The House of Shame e as viciantes My Demons, Ghost in the Mist, Broken Things e Take Me Home bebem em iguais proporções das fontes do Metalcore, Groove Metal e Gothic Metal. Cris Scabbia também mudou em parte sua maneira de cantar, como fica evidente nos agudos estratosféricos da excelente faixa título. As guitarras são um caso à parte. Enquanto Zeloti gravou praticamente todas as bases, os solos ficaram ao encargo de músicos convidados, que trouxeram solos mais trabalhados do que o habitual. Entre os convidados, a surpresa fica por conta de Myles Kennedy, no belo solo da boa balada Downfall. Enfim, Delirium não é um retorno às origens, como foi vendido em declarações para a imprensa. O disco é ainda mais sombrio e pesado que os trabalhos mais antigos da banda, mas bastante moderno e bem mais sofisticado. Eis que da escuridão absoluta e da loucura surge o provável melhor trabalho do Lacuna Coil. Muito bom!

NOTA: 8,71

Pontos positivos: disco mais sombrio da banda, com a melhor performance vocal de Andrea Ferro até hoje
Pontos negativos: sua produção algo saturada pode causar cansaço.
Para fãs de: Paradise Lost, Delain, Within Temptation
Classifique como: Gothic Metal, Metal Moderno

Cris quer saber se você já tomou seu remedinho hoje
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Deftones - Gore (Cd-2016)
Deftones – Gore (Cd-2016)

Beleza Americana

Supostamente Gore é o disco que marcou a dissidência entre o guitarrista Stephen Carpenter e o vocalista Chino Moreno, por conta do direcionamento musical menos pesado forçado pelo último. A polêmica foi amplamente ventilada nos meios de comunicação especializados e parecia antecipar uma mudança drástica na sonoridade dos estadunidenses, talvez o único exemplar do moribundo Nu Metal a ainda contar com grande aceitação por parte da crítica. Mas ao colocar a bolachinha para rodar, fiquei com a impressão de que tudo não passou de um grande embuste, estratégia de marketing para chamar a atenção num mercado cada vez mais saturado de lançamentos. Não, Gore não é ruim, não mesmo. Mas sua sonoridade também não representa nada de tão novo na discografia Deftoniana. Diria que parece um cruzamento entre o comercial e direto (e ótimo) Diamond Eyes e o diversificado (e muito bom) Koi No Yokan. As melodias estranhas e ainda assim grudentas de Chino estão lá, fazendo de músicas algo incomuns como Prayers/Triangles, Hearts/Wires e (L)Mirl potenciais hits. Aliás, sou só eu ou alguém mais consegue ver o paralelo entre as linhas melódicas de Chino e as da Islandesa Bjork?


Engana-se quem acreditou que a produção do experiente Matt Hyde (Monster Magnet, Machine Head, Slayer, Slipknot...) deixaria a banda soar leve demais (vide porradas como Doomed User). As guitarras de Stephen Carpenter estão ali, destilando riffs à sua maneira peculiar, mas dessa vez experimentando um pouco mais, como nas dobras Ironmaideanas de Pittura Infamante e da belíssima Phantom Bride, essa última com participação do monstro Jerry Cantrell. Talvez o grande diferencial e maior charme de Gore seja o senso algo cinemático do material, que faz com que seus 51 fantasmagóricos minutos venham a fluir agradavelmente de forma contínua, ainda que as faixas tenham vida própria para o ouvinte casual. Um disco bonito e estranho que conta com ótima arte gráfica em seu lançamento nacional e que figura como forte candidato a entrar nas listas de discos do ano ao redor do globo.   

NOTA: 8,74

Pontos positivos: melodias vocais belas e intrincadas, boa cadência dando senso de continuidade na audição do disco
Pontos negativos: experimental demais a alguns ouvidos
Para fãs de: Bjork, Tesseract, Korn
Classifique como: Nu Metal, Metal Alternativo, Metal Moderno


Chino e sua trupe, aprontando muita confusão na sessão da tarde
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Sunstorm - Edge of Tomorrow (Cd-2016)
Sunstorm – Edge of Tomorrow (Cd-2016)  

Tempestade de Farofa

Edge of Tomorrow é o quarto rebento do projeto AOR capitaneado pelo veterano vocalista Estadunidense Joe Lynn Turner (Rainbow, Deep Purple, Malmsteen). Dessa vez o “Seu Peruca” resolveu reformular por completo a banda que o acompanha. Ao invés da base do Pink Cream 69, Joe cooptou um bando de pistoleiros de aluguel do selo AOR Frontiers, tendo à frente o tecladista e compositor Alessandro Del Vecchio, ser onipresente nos lançamentos atuais da gravadora italiana. A sonoridade, supostamente mais pesada que nos discos anteriores, na verdade está bastante próxima ao estilo de composição de Del Vecchio, que assina quase todas as faixas (com exceção de uma contribuição de Jim Peterik, do Survivor na oitentista The Sound of Goodbye): ou seja, uma sonoridade que geralmente lembra um Journey um pouco mais melancólico e rocker.


As faixas, aliás, são todas legais, ainda que raramente memoráveis. Os melhores momentos ficam com Heart of the Storm e a faixa título. Joe pode ser persona non grata para os fãs de Deep Purple e Rainbow, mas continua reinando absoluto quando se trata desse estilo mais comercial de Hard Rock. A banda toda é muito boa, mas quem brilha na parte instrumental é o guitarrista Simone Mularoni, que destila riffs e solos muito bem arquitetados e até mesmo mais vigorosos do que se esperaria. A produção, sob a batuta de Del Vecchio, é aquela tipicamente polida e algo plástica, tão característica dos trabalhos da Frontiers, fato que já começa a incomodar. Enfim, um bom disco, divertido e cliché até a medula e que irá agradar em cheio aos fãs de um AOR old school.

NOTA: 7,93

Pontos positivos: boas interpretações de Joe e ótimos solos de Mularoni
Pontos negativos: produção pasteurizada e canções bacanas, mas bem manjadas
Para fãs de: produções típicas da gravadora Frontiers
Classifique como: AOR, Melodic Hard Rock


Tio Joe, boquiaberto com o novo lançamento das Perucas Lady