Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Supergrupos, um
assunto que suscita uma das raras unanimidades dentro da imprensa musical: de
modo geral, eles raramente dizem ao que vieram e se vão tão rapidamente quanto
foram anunciados, sem deixar muitas saudades. E o que é pior, ao menos aos
olhos dos idealizadores: o sucesso comercial quase nunca paga a conta da soma
dos egos envolvidos. O selo italiano Frontiers,
discordando disso tudo, se especializou em juntar astros da cena MelodicRock, AOR, Hard Farofa de eras (e glórias) passadas
em combos que devem estar dando algum retorno, pois a fórmula se mantém ano após
ano. No geral, o resultado das empreitadas da Frontiers nesse nicho sempre soa pasteurizado e sem alma aos meus
ouvidos, então não me empolguei nem um pouco quando anunciada a junção de Robin Mcauley (MSG, GrandPrix, Survivor), JeffPilson (Dokken, Foreigner, Dio), RebBeach (Winger, Whitesnake, Dokken) e MattStarr (MrBig, AceFrehley).
Cisne geriátrico?
Mas quando esbarrei com o vídeo (e primeiro single), justamente para a
faixa título, meu queixo ímpio foi ao chão e lá ficou. Shake The World é facilmente uma das faixas mais legais de Hard/Heavy deste 2020. Bom, geralmente esses catadões tem sempre uma
música de destaque, mantive meu cinismo, que felizmente durou somente até
perceber que as quatro primeiras faixas são todas igualmente excelentes!
Não, o quarteto definitivamente não reinventa a pólvora aqui, e o que
temos é um Hard/Heavy que poderia
muito bem ter sido assinado pelo Scorpions
da era Crazy World/Face The Heat. O
irlandês RobinMcauley ficou razoavelmente fora dos holofotes, mas sua ótima voz,
essa não envelheceu um dia sequer desde os tempos do MSG! A cozinha Pilson/Starr soa infalível para esse tipo de
som. E a despeito da minha pinimba épica com o Winger, sei bem que Reb
é um monstro da guitarra. E aqui ele faz o serviço com maestria, em uma
sonoridade que remete justamente à era de ouro dos Shredders. A produção de Pilson
é coisa de craque, repleta de punch
e com modernidade na medida certa. E talvez o pulo de gato desse projeto em
relação a outros semelhantes da gravadora resida no fato de que todas as
composições foram escritas pelo quarteto, e não pelos pistoleiros de aluguel
tradicionais da Frontiers.
Não que isso faça que o disco seja perfeito, o meio da bolacha tem uns
momentos mais caidinhos, como a balada xarope Make It There e a mediana The
Rock That Rolled Away. Mas a reta final retoma a força de seu início, em
especial com as excelentes. Shake The
Wold é prova cabal de que supergrupos podem sim funcionar, um disco que
resgata aquela arte fronteiriça de Hard/Heavy,
que possivelmente agradará tanto os afeitos à farofagem explícita quanto aos
fãs de metal tradicional, com uma roupagem digna dos tempos atuais. Um dos
discos mais divertidos do ano. (NOTA: 9,21)
Uma das maiores
potências da onda de Melodic Hard Rock
escandinava, a banda H.e.a.t alçou
voos maiores de popularidade ao dar um passo aparentemente midiático: em 2010 adicionou
à sua formação o vocalista/ator vencedor do Ídolos Sueco de 2009, ErikGrönwall, que também havia acabado de emplacar um single no
primeiro lugar das paradas locais. Se a banda já vinha bem, daí para frente
subiu de estatus, lançando uma sequência de discos muito bem avaliados, até dar
um “passo em falso” com Into The Great
Unknown, disco de 2017 que apostava demais em uma incursão no mundo da
música Pop/Mainstream atual. Ainda que longe de ser um disco ruim, o trabalho
acabou por alienar boa parte dos fãs, o que explica o título de seu mais
recente trabalho, H.e.a.t II. Uma
volta às origens? Provavelmente.
Bora farofar?
Totalmente produzido pelo tecladista JonaTee e pelo
guitarrista DaveDalone, o disco abre com a totalmente hard
oitentista Rock Your Body, uma faixa
energética, mas com refrão preguiçoso e bem clichê, talvez como uma carta de
intenções – estamos de volta ao terreno conhecido. Outras coisas que ficam
claras no ato são: a qualidade da produção, com ótimo punch e o toque exato de modernidade; e o quanto Erik melhora a cada disco – o que esse cara
está cantando é um arregaço!
Daí para frente, o disco é um deleite aos fãs de MelodicHardRock: impossível ficar indiferente ao
apelo da dupla DangerousGround e ComeClean. Já Victory e We Are Gods nos lembram que, apesar da banda ter aberto mão das
fortes incursões no Pop contemporâneo, isso não quer dizer que não são capazes
de soar modernos dentro de sua proposta. Não estamos em absoluto diante de um
mero simulacro de potências do Melodic Hard
Rock/AOR oitentista.
Adrenaline e One By One são mais duas pérolas típicas
do estilo, grudentas e viciantes, certamente faria sucesso nas festinhas à lá Starfuckers que existiam no Rio. E até
a xaropagem habitual das geralmente intragáveis baladas que o AOR produzem fica num patamar aceitável
de breguice com Nothing To Say.
Heaven Must Have Won An
Angel é
tão Journey que juro que fui
conferir se não se tratava de um cover. A energia retorna com força total com as
duas últimas faixas, a boa Under The Gun
e a sensacional Rise, a provável
melhor do pacote, com uma pegada mais heavy e moderna, encerrando de forma
fenomenal um dos melhores discos do estilo que você escutará esse ano. (NOTA;9,25)
O mundo dos fãs do
Metal e do Rock Progressivo adora histórias de heróis desconhecidos, pequenos
tesouros que, em períodos pré-internet, eram guardados a sete chaves, já que a
divulgação ampla desses trabalhos tiraria o poder de “sou fodão e só eu
conheço/tenho isso”. O tesouro perderia seu valor se sua existência caísse nas
mãos dos fãs mundanos que gostam do que todo mundo gosta. São as amadas “bandas
cult”. Na verdade, a grande maioria dessas bandas definitivamente foi relegada
a um segundo plano na história por alguma razão concreta, seja ela artística
(sonoridade bacana, mas sem nada de diferente de outros contemporâneos,
sonoridade à frente do gosto da época, sonoridade realmente ruim...) ou profissional
(falta de profissionalismo dos membros, substâncias demais causando problemas,
problemas com gravadoras e contratos ruins...). Quando eu era moleque, Frost And Fire, disco de estreia do CirithUngol era tido como uma das pérolas das pérolas dos discos “Cult”. Não
irei mentir, mas achei o disco uma bosta quando escutei, muito por conta do
vocal esquisito de TimBaker. Acreditei ser mais um disco
alçado à um status importante só por que não era fácil de achar.
O "lendário" Frost & Fire
Anos se passaram e acabei dando uma segunda chance à banda. TimBaker continuou soando esquisito aos meus ouvidos, mas é inegável
que a banda tinha uma cara bem própria e um charme tosco que unia os mundos do emergente
Metal oitentista com o legado que o BlackSabbath deixara na década anterior. A
banda lançou mais três (bons) discos em dez anos, encerrando suas atividades
justamente por problemas contratuais, somados à mudança de interesse na cena Rocker com a chegada do HairMetal ao mainstream e o
posterior surgimento da cena de Seattle.
Os rostinhos bonitos do Cirith Ungol em 2020
Uma mania que costuma andar de mãos dadas com o culto à bandas
desconhecidas, é a de ressuscitar as mesmas para reaparecimento em shows
comemorativos em festivais. E foi com uma proposta de um festival que o CirithUngol retornou, em 2015. Quatro dos membros originais (com reforço
do novato baixista JarvisLeatherby) fizeram shows concorridos, que
renderam um ótimo ao vivo. A receptividade foi tão boa que optaram por entrar
em estúdio e adicionar um quinto rebento de estúdio à discografia, ForeverBlack. Com produção da banda junto à ArmandAnthony
(guitarrista do NightDemon), o disco abre com uma introdução
épica que nos joga direto para a ferocidade da excelente LegionsArise. A
impressão que temos é de que o tempo mal passou. Ao menos em termos de intenção
e sonoridade, já que a produção (precisa e orgânica) faz TimBaker soar muito
mais poderoso que no passado (mas ainda esquisito), e a banda, mais pesada e
concisa.
Quem busca novidades, aqui não as encontrará. Se eu dissesse se tratar
de um disco nunca lançado gravado logo após ParadiseLost, você
acreditaria. Longe de ser um demérito, aquela mescla de BlackSabbath com NWOBHM tem grandes chances de ainda
acalentar os corações dos Headbangers,
e as composições podem raramente atingir o patamar de novos clássicos (posto
que LegionsArise e FireDivine podem requerer facilmente), mas
também nunca passam perto de fazer feio. Um disco de retorno honesto e recheado
de um Heavy metal cru, empolgante e sem frescuras. Uma ótima pedida! (NOTA: 8,42)