quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Soundgarden – Live From The Artists Den (Blu-Ray – 2019)



The Knights of the Soundtable Last Ride
Por Trevas

O Grunge nunca existiu. Sorry. Usaram um termo para colocar no mesmo balaio bandas tão díspares quanto um Nirvana, com sua agressividade Punk suja e até mesmo algo tosca, e um Soundgarden, com sua releitura algo soturna e bem pesada para o Rock dos anos 1970. E essa afirmativa não se trata em absoluto de um mero revanchismo de “Metaleiro”, não. Os próprios fãs de Heavy Metal mais instruídos já viram esse filme antes, mais especificamente com a famosa New Wave Of British Heavy Metal, uma cena que somente existiu nos jornais e revistas, mas nunca na vida real. Dito isso, temos em mãos o esperado registro ao vivo de uma das apresentações mais icônicas da banda, lançado de maneira póstuma (Cornell tirou sua própria vida em maio de 2017) em uma pletora de formatos, cada um mais apetitoso que o outro aos olhos dos colecionadores. Após flertar por um tempo com o Box Deluxe (somente para ver a realidade de um dólar acima de R$4,00 me esmagar de volta à minha insignificância), acabei por comprar a edição em Blu-Ray. O que não é nada mal, temos aqui nada mais nada menos que 29 canções, espalhadas em quase duas horas e meia de show. Ah, e somadas à meia hora de extras. Ao menos em termo de quantidade, não se pode reclamar nem um pouco. Resta saber se a qualidade está à altura da expectativa criada junto aos fãs.

O belo (e caro) Box Set
O show, realizado em fevereiro de 2013, foi transmitido ao vivo pela TV, mais um bem-sucedido capítulo da série Live From The Artists Den. A série promove shows especiais de artistas consagrados para um público restrito. A casa escolhida, o Wiltern, proporciona um cenário interessante. E está claramente forrada de fãs que realmente amam a banda, que por isso mesmo aposta num longo repertório, alternando clássicos, faixas do então recente King Animal (que soam bem melhores no palco, diga-se) e lados B tão obscuros quanto bacanas.



A performance da banda é vigorosa e repleta de dinâmica, com aquele ar de banda setentista que sempre separou o Soundgarden de seus contemporâneos. Chris Cornell é um daqueles talentos que serão lembrados décadas após sua partida, mas o restante do quarteto demonstra uma concisão e perícia respeitáveis. A Guitarra “gorda” de Thayl (em boa parte do set dividida com o próprio Cornell) destilando riffs encorpados, com o auxílio de uma cozinha para lá de forte e certeira (Cameron e Shepherd). Algumas versões são melhores que suas contrapartes de estúdio, outras nem tanto, mas todas tem vida e cara próprias, algo indispensável para um bom registro ao vivo.



A imagem na edição em Blu-Ray é perfeita. A edição, comportada, mas eficiente. E as tomadas são mais artísticas do que se esperaria de uma (geralmente burocrática) transmissão ao vivo. A iluminação é bela e o telão de fundo, funcional. Sobre o som, temos em mãos uma mixagem cristalina, mas que não perde a mão nem no punch nem naquele senso de urgência que se espera de um show de rock que se preze. Sobre os extras, temos entrevistas com o quarteto, um material que talvez não seja reprisado por muitos, mas fecha com esmero um pacote destruidor de uma das bandas mais idiossincráticas da história do Rock. Obrigatório. (NOTA: 10)



Gravadora: Universal Music (importado)
Prós: excelente show, som e imagem perfeitos
Contras: eu não tenho dinheiro para o Box Set...#xatiado
Classifique como: Heavy Rock
Para Fãs de: Alice In Chains, Black Sabbath


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Whitesnake – Flesh & Blood (CD-2019)




Do Baú da Serpente Cansada
Por Trevas

O lançamento do 13º disco de estúdio do combo multinacional capitaneado pelo lendário David Coverdale veio cercado de drama, qual uma novela mexicana. Coverdale alardeia aos quatro cantos que esse seria o trabalho definitivo da banda. Coverdale fica muito doente. O lançamento é adiado por meses e meses. Motivo? Não se sabe se foi exatamente a doença do líder do bando ou alguma treta com a gravadora. Enfim, Flesh & Blood é lançado. A capa, uma quase cópia da utilizada num Greatest Hits da banda na década de 1990. O que, confesso, me passou pouca confiança no que viria dali.

Coverdale e seus Jedis
Produzida por Coverdale, Hoekstra e Beach, com assessoria do engenheiro de som Michael McIntyre, a bolachinha começa murcha, com Good To See You Again remetendo a um pouco inspirado Lado B de Slide It In. Gonna Be Alright melhora um pouco a impressão, mas logo somos arremessados na farofesca Shut Up & Kiss Me. Um cacareco reminiscente da era Glam Metal tão genérico que chega a passar vergonha até diante dos piores momentos do Slip Of The Tongue, até então o pior disco da história da banda. Assustador que tenha sido escolhida como faixa de trabalho.



Hey You é bem melhor, ainda que os vocais dos versos me lembrem demais alguma outra música (não descobri qual, quem souber me avise). Bacana também é a Thinlizzyana Always & Forever, que me pregou uma peça num Blind Ear que fiz para a Roadie Crew (ainda a ser publicado). Coverdale sempre foi um mestre na arte das baladas, mas aqui passa longe, muito longe de acertar a mão. Difícil acreditar que When I Think Of You e After All possam melar cuecas e/ou calcinhas em qualquer planeta conhecido dessa galáxia.



Estou soando rabugento? Odiei o disco? Definitivamente não. Os músicos são excelentes, sempre há algo para admirar aqui e ali, e Coverdale ainda soa bem em estúdio. Mas suas novas parcerias nas composições passam longe de fazer justiça ao passado da banda. Beach e Hoekstra são grandes guitarristas, mas parecem atirar para todo o lado nas músicas escritas, na maioria das vezes sem acertar os alvos pretendidos. E nenhum deles consegue assumir o protagonismo como Guitar Hero no posto recém abandonado. Existem bons solos aqui, claro, mas nada que mereça um carimbo de qualidade de gente do quilate de Sykes, Moody, Galley, Vai e Aldrich.



O disco segue com músicas medianas como Trouble Is Your Middle Name, Get Up e a faixa título. Tropeça ainda mais na melecosidade da já citada After All. Mas tem também bons momentos, como em Well I Never (outra a invocar a transição dos anos 1970 para os 1980, possivelmente a melhor do bando), a soturna Heart Of Stone (enfim uma boa balada) e o fechamento inspirado com Sands Of Time. Ainda assim, nenhuma delas parece fadada a se tornar obrigatória nos sets dos shows vindouros. Enfim, Flesh & Blood é um daqueles trabalhos talhados para serem ouvidos como música de fundo, em segundo plano. Uma confortável colcha de retalhos que soa como uma compilação regravada de Lados B de eras diferentes da gloriosa carreira de Coverdale e sua trupe. (NOTA: 7,07)

Visite o The Metal Club


Gravadora: Hellion Records (nacional)
Prós: ótima produção, algumas boas faixas
Contras: parece um amontoado de Lados B de diferentes fases da banda
Classifique como: Hard Rock, Classic Rock
Para Fãs de: Foreigner, Eclipse


domingo, 1 de setembro de 2019

Amon Amarth – Berserker (CD-2019)




Mais Uma Pilhagem Bem-Sucedida
Por Trevas

O 11º trabalho de estúdio dos Vikings suecos do Amon Amarth chega num momento em que o quinteto navega seu Drakkar por águas curiosamente plácidas. Desde o lançamento de Twilight Of The Thunder God, em 2008, o que se viu foi o crescimento da banda no cenário, de maneira rápida e improvável. Ao ponto de assinarem com uma Major e se tornarem figuras constantes em qualquer festival do estilo que se preze, geralmente em posição de destaque. Definitivamente nada mal para um bando de grandalhões, hirsutos e feiosos, que usam de um Death Metal Melódico como canal para suas letras versando sobre mitologia nórdica e batalhas Vikings. Após o sucesso comercial (e de crítica) de Jomsviking, um de seus melhores trabalhos, o quinteto resolveu dar uma chacoalhada. Deixando Andy Sneap, o mago-produtor-fetiche de 10 entre 10 bandas de Metal, de lado, buscaram o premiado Jay Ruston (Stone Sour, Killswitch Engage, Anthrax e Meat Loaf) para capitanear as gravações do que viria a ser Berserker. Apesar de usar a lenda dos violentos guerreiros quase sobrenaturais aqui e ali, o disco não é conceitual, mas também não foge à temática padrão da banda. Aliás, o gigante vocalista Johan Hegg refuta que um dia a banda venha a abandonar as letras habituais. Estive pela Europa pouco após o lançamento de Berserker, estampado com destaque em grandes lojas (como a FNAC) e caríssimo mesmo para um lançamento. O disco vendeu que nem água. O show no GRASPOP foi fenomenal, uma superprodução amparada por um set list poderoso, com receptividade surreal por parte da plateia. Berserker figurou no Top 100 em nada mais nada menos que 20 países, repetindo o feito de atingir o topo das paradas alemães, como fizera Jomsviking. As resenhas ao redor do globo, majoritariamente positivas, indicam que a banda acertou seu machado no alvo novamente. Sucesso comercial à parte, lá vai a Cripta averiguar a fúria do alucinado guerreiro nórdico...

Prestobarba? Quer morrer moleque?

O valor alto cobrado pela bolachinha tem lá sua razão de ser, o belo e fino Digipack contém um encarte caprichado, repleto de liner notes explicando a inspiração histórica das letras. Aos primeiros instantes da abertura, com a poderosa Fafner’s Gold, logo se percebe também que Jay foi uma escolha acertada para a produção: um som cristalino e ao mesmo tempo poderoso. A bateria do estreante (em estúdio) Jocke Wallgren bem na cara, e Johan Hegg soando cavernoso como nunca (e esqueça as críticas de malas troozões reclamando de “vocais limpos” no disco, na verdade são alguns pequenos trechos declamados que nunca soam gratuitos). Fafner’s Gold é uma bela e promissora abertura.



Uma das faixas de trabalho, Crack The Sky é um hino Amonamarthiano virulento. Uma belezura midtempo feita para fazer os fãs pularem e cantarem junto à banda seu repetitivo, mas viciante, refrão.



É fácil encontrar por aí Bangers desiludidos com o Amon Amarth. Grande parte das reclamações são originárias da doença babacoide que atinge a ala Troozona dos fãs de Metal: toda vez que uma banda de coração alcança um sucesso grande demais e deixa de ser seu “tesourinho escondido”, a mesma “deixa de prestar”. Mas há sim aqui um fundo de verdade em algumas reclamações. Se outrora a banda se valia de um Death Metal Melódico de verdade, com traços de Metal Tradicional, hoje seu instrumental tem MUITO mais de Metal Tradicional, com os resquícios de Death Metal praticamente residindo no vocal de urso sifilítico de Johan. Mas convenhamos, você precisa ser um chato de galocha para conseguir não curtir uma belezura como a pesada e grudenta Mjolner, Hammer of Thor, um dos destaques do novo disco.



A tribal Shield Wall fez a felicidade da plateia ao vivo, moendo pescoços a torto e a direito, e sua versão em estúdio também bota em sério risco o mobiliário da sala. Valkyria chega e, ainda que boa o suficiente para não comprometer, empolga menos do que o material que a antecedeu.



Raven’s Flight foi a primeira faixa de Berserker a ser apresentada ao público. Pudera, talvez seja a melhor do disco, pesadíssima e forte candidata a clássico absoluto do Amon Amarth. Uma pena que daí para diante o trabalho perca um bocado de sua impressionante força.



E não é exatamente por que exista qualquer música ruim daqui em diante, todas são suficientemente boas para merecer seu espaço no bestiário dos suecos (vide a bela e diferente When Once Again We Can Set Our Sails). Talvez o grande erro da banda (e produtor) tenha sido não saber onde parar. Batendo quase uma hora de música, Berserker é de longe o trabalho mais longo da carreira dos suecos. E com uma produção poderosa, mas que forma uma parede de escudos sonora que pode cansar os ouvidos depois de uns 40 minutos, acaba minando o potencial do que poderia ser o melhor disco de toda a carreira do Amon Amarth. Ainda assim, estamos diante de um trabalho de respeito, que só deve consolidar ainda mais a reputação de um dos novos gigantes da cena. (NOTA: 8,61) 

Visite o The Metal Club


Gravadora: Metal Blade/Sony Music (Importado)
Prós: ótima produção, boas músicas
Contras: longo demais, perde força em sua reta final
Classifique como: Melodic Death Metal, Heavy Metal
Para Fãs de: Amorphis, At The Gates, Iron Maiden