Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Fotos (exceto a do ingresso) por Luciana Pires (aqui vai o agradecimento aà ela e à Be Magic!)
Prólogo – Carrrrnaval,
festa da Carrrne...
Quarta feira de noite.
Lapa. Semana anterior ao carnaval. Um cenário hostil que deveria limitar o
público em um evento envolvendo duas bandas que, embora morem nos corações dos Bangers mais experientes, nunca
figuraram nem em sonhos no Mainstream
ou até mesmo no primeiro escalão do estilo, certo? Errado. Muito errado.
Uhuuu - Um cast improvável! Thanks Scelza & Be Magic
Sacred Reich:
Graças à Odin, quando o SacredReich abriu o seu
set de 11 músicas com AmericanWay, o TeatroOdisseia já se
encontrava abarrotado. Mas quantidade não é qualidade, diria o banger com dor
de cotovelo que perdeu o show. Sorry, mané, além de encher a casa, o público
cantou cada uma das músicas, deixando o roliço e extremamente simpático PhilRind com uma aura de colegial que ganhou um beijo da menina mais
bonita da turma. E Rind e sua
trupe fizeram por onde, cada música sendo tocada com tesão e precisão
consideráveis. O som estava perfeito, calando minha habitual rabugice contra a
casa de shows carioca. E quando o set chegou à derradeira SurfNicaragua, sobrou a
impressão de que poderíamos assistir ao SacredReich madrugada adentro sem cansar.
Excelente! (NOTA: 9)
Phil Rind(o) á toa!! (foto por Luciana Pires)
Exciter:
Ver a formação
clássica da canadense Exciter sobre
um palco é como ligar uma máquina do tempo e voltar décadas na linha histórica
do HeavyMetal. Os jovens senhores se vestem e se comportam como se ainda
vivessem os anos 1980. Para nossa sorte e deleite, claro. A ferocidade e
velocidade com que JohnRicci e AllanJames atacam seus
instrumentos, cheios de pose e com aquela fúria controlada que a experiência
trouxe (afinal, garotos com metade da idade deles ficariam moídos com muito
menos esforço), só não impressionam mais do que a capacidade de DanBeehler (clone do Calibos
do FúriadeTitãs original) em
tocar feito um rolo compressor e ainda por cima berrar com qualidade bastante aceitável.
Dan "Calibos" Beehler descendo a lenha!! (foto por Luciana Pires)
O set é recheado de clássicos e vi muito marmanjo ébrio quase indo ás
lágrimas ao poder urrar a plenos pulmões clássicos do Thrash/SpeedMetal como I Am The Beast, PoundingMetal e Violence and Force. A reclamar, apenas o corte no set list (ver
foto), 5 músicas mais curto do que nos outros shows em território tupiniquim.
Mas se faltaram músicas, não faltou empenho. Mais um show matador (NOTA: 9). Parabéns aos produtores, que
apostaram alto com esse cast numa
semana improvável, mas nos entregaram uma noite memorável. Os bangers cariocas agradecem.
Ricci e James - máquina do tempo metálica! (foto por Luciana Pires)
Tamuya Thrash Tribe - The Last Of The Guaranis (Cd-2016)
Programa De Índio
Por
Trevas
Meu primeiro contato
com TamuyaThrashTribe (ou TTT) aconteceu de surpresa. Uma grata
surpresa, diga-se. Fui ao Vivo Rio em 2012 assistir ao show do BlackLabelSociety, banda de ZakkWylde. Quando adentrei a casa o TTT já estava no palco, detonando um set curto, mas bem poderoso.
Dois anos depois, tive a oportunidade de rever o show dos caras minada pela
falta de informações sobre o horário de início do show, que abriu a estrondosa
passagem do AmonAmarth pelo CircoVoador. Show
perdido, aproveitei para garantir uma cópia do EpUnited, primeiro
rebento dos cariocas. United é um
disco bacana, um bom cartão de visitas de uma promissora banda. Mas quem viu ao
menos um pouco de qualquer show dos caras, com seu Thrash Metal + DeathMetalMelódico que em muito lembra o dos já
citados Vikings suecos, sabia de
cara que a banda tinha muito mais a mostrar. E então um dia fui surpreendido
pelo anúncio da arte de capa do que seria o disco de estreia, intitulado TheLastOfTheGuaranis. E sim, tinha cheiro de coisa especial.
Arte Gráfica e
Conceito:
O anúncio da
impactante arte gráfica, uma belíssima e sombria ilustração da artista plástica
IsabelleAraujo, baseada em ideias do vocalista/guitarrista LucianoVassan e inspirada nos trabalhos do premiado fotógrafo SteveMcCurry já mostrava em parte o conceito por detrás do disco. A emblemática
capa traduz em uma só imagem o acachapante índice de suicídio entre os povos
indígenas, fruto de conflitos por terras onde a cultura e os valores religiosos
dos nativos são violentados em prol do lucro do homem branco. The Last Of The Guaranis chafurda
tematicamente nas entranhas de alguns desses conflitos desde suas origens,
remetendo aos seus desdobramentos na violência urbana que encontramos hoje nas
grandes cidades. Forte, não. Mas de boas intenções (e pretensões) o inferno
está cheio, e de nada adiantaria o belo conceito se não estivesse acompanhado
de uma boa contraparte musical. Para nossa sorte e deleite, a parte musical não
fica nem um pouco atrás...
Arte Gráfica da Edição Especial (capa/contracapa)
Música:
O disco abre
mostrando suas raízes, com um hipnótico cântico indígena entoado pelo CoraldeCriançasGuarani. Logo somos jogados de um
ambiente aparentemente pacífico para o olho de uma tempestade. Nessa
tempestade, a dita voz de Nhanderú é
expressa pelo trovão, ou como dizem os donos dessa terra, Tupã-Cinunga. Musicalmente o TTT
surge como o trovão expresso na letra, matador, uma versão tupiniquim perfeita
dos suecos do AmonAmarth. A voz de LucianoVassan (que
escreve boa parte do material e também toca guitarra), inclusive, lembra a de
um imberbe JohanHegg. O apoteótico interlúdio em tupi
vem nos lembrar que não estamos nem de longe falando de meros copistas.
O ponto (ou cantiga) de umbanda, BradodeXangô (na voz da Mãe de Santo GleydsGranden), faz o perfeito contraponto
com a ferocidade de Senzala/Favela. Essa música traz elementos
tribais (ao longo do disco, vários percussionistas convidados auxiliam o
excelente baterista BrunoRabello), guitarras que lembram os sons
mais pesados do ParadiseLost e letras em inglês e português
para fazer a correlação entre o fim da escravatura e o início da favelização e
segregação racial aliada ao constante desmerecimento dos valores culturais afrodescendentes.
Confesso não ter nenhuma simpatia pelo MarceloD2, mas sua participação nessa
música cai como uma luva, ajudando a criar o clímax de um possível novo
clássico do metal nacional. A destacar, a bela produção de SidneySohnJr, que consegue equilibrar a crueza
com diversos elementos exóticos que engrandecem em muito o resultado final.
TTT - 2016
TheLastBallOfTheEmpire é mais direta e tem menos
chances de assustar os fãs mais ortodoxos de Metal. As guitarras cortantes de Vassan e LeonardoEmanoel erguidas
imponentemente sobre a base monolítica da cozinha formada por Rabello e João Paulo Mugrabi (baixo). Nela sinto
pela primeira vez um dos pequenos problemas do disco, a pronúncia do inglês de Vassan. Longe de ser macarrônico,
provavelmente só incomodará os muito detalhistas ou os native speakers. Mas
esse é um dos poucos pontos que consigo enxergar onde a banda pode evoluir, até
por que a qualidade do material é tanta que os mercados internacionais devem
estar na programação. A excelente faixa título é outra a trilhar um caminho
mais AmonAmarth, com adicionais tribais e alguns momentos meio DinoCazares na guitarra.
A voz de JoãoCavalcanti (filho de Lenine e vocalista do Casuarina), dá vida a perfeita Vinte e Cinco, que serve de introdução
à Violence And Blood (ver vídeo),
numa das melhores fusões música brasileira/Metal que se tem notícia desde Roots do Sepultura. Apoteótica! A
Call From Xapuri e Conjuration
são muito boas, mas empalidecem um pouco perante o restante do material. O
disco se encerra de maneira mais calma, com a balada Urutau’sCry mostrando
que o gogó de Vassan ainda se faz
muito mais eficiente nos momentos mais violentos do que nos de maior sutileza. Hàhè’m nos apresenta à bela voz de ZahyGuajajara, naquela que pode ser definida como uma The Great Gig In The Sky, do PinkFloyd, se a mesma fosse cantada em tupi por uma banda de metal.
Exótico? Absolutamente. Mas cara, funciona muito bem!
Saldo Final
The Last Of the Guaranis é um ousado trabalho desde sua
concepção gráfica até sua execução musical. Acredito piamente que tem muita banda
boa no cenário rocker brasileiro colocando nas prateleiras físicas ou digitais
uma penca de bons lançamentos. Mas não me lembro a última vez que fiquei tão
admirado com um disco de estreia de uma banda de Heavy Metal brasuca como fiquei
com este Cd. Só o tempo dirá, mas apostaria sem medo que The Last Of the Guaranis será lembrado
no futuro como um dos grandes clássicos de nossa música pesada. Um dos melhores
discos desse belo ano para a música pesada que foi 2016!
NOTA: 9,10
Pontos
positivos: excelentes integração entre o Metal e música brasileira
Pontos
negativos: pode assustar os bangers mais ortodoxos
Para
fãs de: Amon Amarth, Sepultura
Classifique como: Melodic Death Metal, Thrash
Metal
Bônus
da Edição Especial:
Quem comprou o disco
antecipadamente pelo Site do TTT
recebeu em mãos um belo pacote em formato DVD/Digipack, contendo um encarte
caprichado e um segundo Cd. Esse
segundo Cd é a versão remasterizada
do EpUnited, com a cozinha regravada pela formação atual e duas faixas
bônus acústicas. Como eu falei no início da resenha, United representou um cartão de visitas bacana do potencial da
banda. Mas nem de perto faz frente ao material do novo disco. Ainda assim, um
ótimo complemento, ainda mais por conta do formato, que valoriza bastante a
bela arte gráfica. Coisa de primeiro mundo.
Curtas: Vader, Axel Rudi Pell,
Avenged Sevenfold, Crowbar
Por Trevas
Vader - The Empire
Vader
– The Empire (Cd-2016)
Death
Imperial
Poucas bandas da idade
da polonesa Vader (quase 3 décadas)
podem se gabar de ter uma extensa discografia (só de estúdio são 14 discos) que
prima por um incrível padrão de qualidade. Os caras simplesmente não tem disco
ruim e The Empire está aí para esfregar isso na nossa cara. Se você já havia
ficado feliz com a bifa na oreia que é AngelsOfSteel, primeira faixa de trabalho, não terá do que reclamar do
restante do disco. O que ouvimos aqui é um DeathMetalOldSchool com os
tradicionais elementos de HeavyMetal que o líder Piotr (responsável pelas guitarras e voz) sempre fez questão de
imputar aos seus sons.
A produção, com imenso punch e
ao mesmo tempo imprimindo uma qualidade sonora absurda em meio à desgraceira,
merece destaque absoluto. A proficiência de MarekPajak (guitarras),
TomaszHalicki (baixo) e JamesStewart (bateria) junto ao patrão
também é impressionante. Mas nem produção nem os músicos seriam suficientes
para garantir um jogo ganho e o que realmente vale aqui são as músicas. Prayer To the God Of War carrega nas
nuances mais heavy, já Genocidius é
uma pedrada nos tímpanos. Feel My Pain
é contagiante, e os 33 minutos da bolachinha se encerrariam com imensa
ferocidade com a inspirada Send Me Back
To Hell. Encerraria. Mas na edição brasileira ainda temos o EpIronTimes incluso. Descartada a desnecessária
repetição de Prayer... e Parabellum, cujas versões no Ep são as mesmas do disco, recebemos de
presente duas covers: uma PiescIStal,
que Piotr gravara em 2006 junto ao PanzerX, e uma respeitosa e matadora rendição para Overkill do...ah, nem preciso dizer, né? Padrão de qualidade Vader- Um puta disco, como sempre!
Logo no primeiro dos
45 minutos da bolachinha, mais especificamente na entrada da excelente FallingWhileRising (ver vídeo),
já sabemos o que esperar de KirkWindstein e sua trupe – uma tijolada Doom/Sludge de respeito. O disco marca o retorno do baixista original
após 16 anos de ausência, ToddStrange. O trabalho, 11º rebento do Crowbar, parece querer de certa forma
reverenciar os primórdios da banda, quando Todd
ainda arcava com os graves, carregando a mão no Doom mais classudo. PlasmicandPure, por exemplo, é como uma encarnação zumbi do BlackSabbath. Mas as influências de hardcore não foram esquecidas, não.
A rápida I Am The Storm é virulenta
como pede o estilo.
A produção de DuanneSimoneaux, parceiro de longa data de Kirk (tanto no Crowbar
quanto no Down), faz aquele
equilíbrio preciso entre a sujeirada necessária para a massa sonora da banda e
a clareza nos momentos mais trabalhados, como na excelente e Jerrycantrelliana SurvivingTheAbyss. A faixa
título, que praticamente compila em seus parcos 4 minutos todas as
características do Crowbar, já merece
ganhar espaço nos sets vindouros. O disco tem lá seus momentos menos inspirados,
mas não tem erro – se tua praia é um peso monolítico e sujismundo, vá na fé que
tio Kirk sabe das coisas! Recomendo!
NOTA:
8,26
Pontos
positivos: peso abissal
Pontos
negativos: tem lá duas faixas mais marromenos no caminho
Disco do guitarrista
alemão Axel Rudi Pell é que nem
filme da sessão da tarde: você geralmente já sabe o que vai acontecer, é clichê
para cacete, mas ainda assim, dependendo do estado de espírito, pode divertir
sem maiores problemas. Convenhamos, não ia ser agora, no 17º disco de estúdio,
que a história iria mudar. A intro desnecessária está ali (dessa vez, com clima
circense), a faixa de abertura que você jura já ter ouvido antes (Fire), também. Mas não vamos ser tão
chatos, tem também um punhado de boas músicas.
Game
Of Sins é um ótimo exemplar do épico obrigatório dos caras, assim
como When the World Says Goodbye. E Sons In the Night nos mostra que a
banda até consegue ser vigorosa quando quer. Uma pena que eles ainda insistam
nas baladas xaropescas de gosto para lá de duvidoso, como a irritante Lost In Love. O mais legal é que a
edição nacional, cortesia da Shinigami,
traz a excelente releitura para All
Along the Watchtower (Bob Dylan,
imortalizada pelo Hendrix). Dentro dos
trocentos discos iguais do Axel Rudi
pell, esse é da leva dos inspirados. Se você é fã, corra e garanta o seu.
A banda que os
Troozões amam odiar está de volta. E camaradas, vocês podem pensar o que quiser
dos estadunidenses, mas os moleques tem colhões de aço. Peitando uma gravadora
major, resolveram simplesmente fazer o que parecia impossível nos tempos de
discos que vazam meses antes de ir ás prateleiras – lançaram seu novo álbum ás
escuras, sem anuncio prévio. Para isso contaram com uma estratégia que envolveu
a difusão de inúmeras notícias falsas pela internet, com participação
ativíssima do colega e lutador de WWEChrisJericho (Fozzy), que até
mesmo criou um disco fictício apara a banda, VoltaicOceans (nome
adaptado de uma música do theCult). A estratégia culminou na
projeção do logo da banda em pontos diferentes das grandes cidades dos EUA e em um show em cima de um edifício.
Durante o show os discos começaram a ser distribuídos às lojas, sem que ninguém
se desse conta disso. A estratégia teve um resultado interessante. TheStage vendeu menos da metade do disco anterior na semana de
lançamento (atingindo o primeiro lugar da mesma maneira), mas manteve a vendagem
no topo por mais semanas do que o normal. De resto, TheStage traz como
novidade a estreia de BrooksWackerman (BadReligion), na
bateria, além de tratar de conceitos baseados em Inteligência artificial e astrofísica.
Parece que a garotada cresceu, enfim.
TheStage, o épico que abre o disco e
primeira faixa de trabalho, lida com a história de um homem que questiona os
desígnios do universo e com a ideia de destino pré-determinado. Uma música
excelente, repleta de belos solos e com uma interessante construção que leva a
um desfecho apoteótico. Uma abertura incomum, mais um ponto para a audácia dos
caras. Paradigm é outra excelente faixa,
que mostra o distanciamento do caminho mais OldSchool do disco
anterior, como comprova a não tão legal SunnyDisposition, com seus metais em meio
ao caos. GodDamn e CreatingGod são bons libelos antirreligiosos. Angels é uma bela balada, que não
aprece chupada do Guns And Roses,
vejam só. Simulation começa lenta e
se desenvolve numa sequência de altos e baixos, de maneira a lembrar uma
evolução dos sons que a banda fazia em CityOfEvil. Higher é excelente
e mostra o quanto MattShadows evoluiu como vocalista, soando
bem mais versátil que em seus primórdios com aquele trinado anasalado. RomanSky traz elementos orquestrais bem casados com a proposta viajante,
que fez lembrar algo no novo Nightwish.
FermiParadox pode ter momentos instrumentais inspirados, mas fica abaixo
do restante do disco. E se iniciar um disco com uma faixa de 8 minutos já é
meio esquisito, que tal fechar o mesmo com um épico de quase 16? Bom, Exist tem de tudo, solos
impressionantes, passagens que remetem ao Metallica
antigo, passagens vocais baladescas e discurso de NeilDeGrasseTyson...certamente não é a obra prima
que a banda imaginou, mas tem momentos interessantes. Em suma, um disco tão
corajoso quanto a estratégia para seu lançamento. Bola dentro para o A7X!