domingo, 11 de dezembro de 2016

Dee Snider – We Are The Ones (Cd-2016)

Dee Snider - We Are the Ones (Cd-2016)
Dee Goes Modern
Por Trevas

Dee Snider é a voz do Twisted Sister – bom, isso quase todo mundo sabe.  Mas, sem medo de incorrer em algum exagero, posso dizer que mesmo fora dos palcos ele sempre foi também a personificação da traveca louca e perigosa que interpretou durante boa parte de sua carreira. Língua ferina e atitudes tresloucadas sempre fizeram seu estilo, tornando difícil delimitar onde termina o personagem e onde começa o Dee real. We Are the Ones é apenas o terceiro disco solo do estadunidense sessentão, e afora parte do material da estreia com Dont Let The Bastards, Dee nunca apostou num resultado de fácil assimilação. Ao menos não para os fãs do Hard/Heavy encardido de sua banda original. Não ia ser agora que ele ia mudar.

Seria o Jandirão apenas mais um rostinho bonito? 
Para o novo disco, Dee cooptou como aliado o produtor/compositor Damon Ranger. Se você é um fã de Metal, dificilmente saberá que é o cara. Eu também não fazia ideia. Bom, o cara é para lá de premiado, tem nas costas nada mais nada menos que um Oscar e um Grammy, dentre outras dezenas de prêmios. O problema é o teor das obras premiadas, a trilha sonora do sacal Vida de Pi e discos com o mala mor Kanye West não costumam animar muito esse escriba que vos fala. Aqui, além da produção, Damon ainda co-assinou boa parte das composições, além de tocar baixo e guitarra em várias das músicas. Estranho? Sim. Mas não me dei por vencido, fui escutar sem preconceito o novo disquinho do clone da Jandira.

A faixa título é um paraíso Punk Rock, parece até um hino esquecido do Misfits refeito para os novos tempos. A produção é realmente moderna, mas bem encorpada, e Dee soa virulento como sempre, entoando mais um de suas odes aos desajustados desse mundo.


Over Again é rock moderno radiofônico, mas muito bem feito. Close to You nos faz lembrar a fase Dragontown/Brutal Planet do Alice Cooper, sem muito brilho. Já a pop Rule the World é grudenta e excelente, trazendo um Dee cantando mais limpo que no resto do material.


A próxima faixa é a já bastante falada versão voz e piano para We’re Not Gonna Take It. A princípio, odiei a releitura. Não costumo ser muito fã de releituras acústicas para faixas de veia rocker. Mas depois da quarta audição a interpretação bacana de Dee acabou me conquistando. Continuo achando que não era um movimento lá muito necessário, mas ficou bacaninha.


Crazy For Nothing
é um Hard bem típico e, apesar de não ser excelente e da produção atual, não deve assustar os fãs mais tradicionais. Believe é um Poppy Punk que poderia fazer sucesso na trilha sonora da Malhação, tivesse uma voz menos encardida no comando. Head Like a Hole é um Metal Industrial, originalmente composto por Trent Reznor (Nine Inch Nails) que ficaria confortável na voz de Rob Zombie e Marilyn Manson. E convenhamos, se ficaria boa na voz limitada desses caras, fica ainda melhor com um vocalista de verdade. Com refrão inspirado, mostra-se um dos destaques da bolachinha.

Jandirão 2016

Bom, e se você quer odiar esse disco de qualquer jeito, sua faixa é Superhero. Uma josta adocicada tão ruim que poderia bem estar na trilha sonora de algum filme melequento da Disney. Argh!!!! Para encerrar o disco, uma balada algo sombria com a voz de Dee tomando para si o centro das atenções. So What é a própria demonstração da complexidade da personalidade niilista de Mr. Snider. Do cara que confrontou Tipper Gore nos anos 1980, anunciou o apoio ao xenófobo Donald Trump na recente campanha e, durante a própria campanha deu puxão de orelha no candidato, retirando seu apoio, agora ele apoia um grupo de ambientalistas no clipe desta música, um grupo que lutou contra a exploração de um importante aquífero, sofrendo as consequências sob a forma de abuso dos policiais escalados para conter uma pacífica manifestação. Esse é o doido do Dee Snider e o Cd traz parte dessa maluquice aos nossos ouvidos.


Saldo Final

O vocalista afirmou em algumas entrevistas que esse seria um disco que não faria a cabeça dos fãs de Heavy Metal. Bom, We Are The Ones certamente não é o que esperaríamos de um disco do Twisted Sister, mas não assusta tanto assim, lembrando o clima dos discos mais modernos do Alice Cooper e até mesmo o ótimo Live to Win do Paul Stanley.  Não é um disco perfeito e tem lá uns cacarecos no meio, mas no geral me soou bastante divertido e até mesmo viciante. Ponto para o Dee!


NOTA: 8,01


Pontos positivos: extremamente diversificado e com Dee em ótima forma
Pontos negativos: tem uma ou duas porcarias, e a produção pode assustar a velha guarda
Para fãs de: a fase Modern Metal do Alice Cooper e o Live to Win do Paul Stanley
Classifique como: Modern Hard Rock

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Saxon – Let Me Feel Your Power (Box Set – 2Cds + Blu-Ray – 2016)

Saxon - Let Me Feel Your Power
Overdose Saxônica
Por Trevas

Mais um disco do Saxon no mercado, mais uma incessante turnê...e mais um lançamento ao vivo. Dá para reclamar? Se você, como eu, já teve a oportunidade de ver a banda ao vivo, já sabe a resposta – claro que não! O saxon sempre detonou ao vivo, e os anos não fizeram nenhum efeito deletério no show dos caras:

Biff parece um ser mitológico de 789 anos de idade concebido através de CGI, mas canta com vigor e tesão de um moleque de 20. Da mesma forma, chega a ser inacreditável que Nigel Glockler por pouco não partiu desta para a melhor recentemente, tamanha a vontade com que trucida seu kit. Nibbs Carter sempre encontra seu espaço para seu baixo aparecer em meio a fúria dos britânicos e Paul Quinn e Doug Scarratt formam uma das duplas mais perfeitas do estilo, guitarristas competentes e que jogam para o time, sem arroubos de virtuosismo. E toda a crueza e honestidade do show estão refletidos em uma edição sem frescuras e sem retoques. As pequenas imperfeições estão ali e a mixagem não deixa o som com aquela cara de trilha sonora refeita em estúdio. Esse é o padrão que o Saxon já segue a tempos em seus lançamentos ao vivo e não deve causar nenhum estranhamento aos fãs.


O show principal mostra o Saxon abrindo para o Motörhead na Alemanha, em uma arena abarrotada.  O Set de cerca de uma hora explora os clássicos de sempre misturados a sons do bom Battering Ram. E, convenhamos, músicas como Queen of Hearts, Destroyer e The Devil’s Footprints funcionam bastante bem nos palcos, obrigado. Embora seja claro desde o início que todo mundo ali está feliz com a abertura do Saxon, fica óbvio também que boa parte da arena está guardando suas energias para o show principal, a explosão de energia esperada com o set avassalador só efetivamente se mostrando na trilogia clássica final, com Wheels Of Steel, Denin and Leather e Crusader.


Embalagem e apresentação

O pacote, que inclui um Blu-Ray e dois Cds, vem em um bonito Digipack, em formato e especificações absolutamente idênticos aos de Heavy Metal Thunder, que compilava apresentações do Saxon em diferentes edições do Wacken. Ao que parece é o padrão para lançamentos desse tipo feitos pela gravadora alemã UDR. O livreto é bonito e informativo e existem também edições desse lançamento com o vídeo em DVD.


Áudio e Vídeo
Se a banda está soando boa como sempre, o registro em áudio e vídeo já merece alguns senões. A opção pela crueza na mixagem casa perfeitamente com o Metal tradicional da banda, mas o áudio não aparece suficientemente alto e claro como se esperaria em um lançamento em Blu-Ray (embora extremamente satisfatória para sua contraparte nos dois Cds inclusos). A imagem também tem problemas, embora tenhamos câmeras suficientes para tornar o material interessante, elas sofrem com a saturação de cores, em especial o azul e roxo, que dominam a iluminação do show principal. Quando a iluminação ajuda, vemos imagens cristalinas e em alta definição.

Material Bônus
Temos ainda dois outros shows inclusos tanto no Blu-ray quanto nos Cds. De um show em Brighton, temos 3 excelentes lados-B não presentes nos outros dois sets: Eye of the Storm, Requiem e Battalions of Steel. A qualidade de som e imagem é bastante boa (melhor que no show principal do pacote) e deixa a gente com vontade de assistir ao show na íntegra. O segundo show-bônus é o que possui maior repertório, 19 músicas, gravado em Chicago (sendo que destas,16 músicas estão presentes em Cd). Difícil entender o porquê deste show não ser considerado o prato principal do pacote. Um show completo e excelente!


Saldo Final

Mais um pacote ao vivo do Saxon para lá de recheado, que deve atender tanto aos curiosos que querem ter algo representativo dos caras (um Best Of) quanto aos fãs de carteirinha e colecionadores de plantão.


NOTA: 9,00


Pontos positivos: Mais de duas horas de uma das melhores bandas de heavy tradicional em cima dos palcos.
Pontos negativos: Algum material redundante nos sets e problemas com a iluminação no show da Alemanha. É o 789º lançamento ao vivo dos caras.
Para fãs de: Iron maiden, Judas Priest, Motörhead
Classifique como: Heavy Metal

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Fallujah – Dreamless (Cd – 2016)

Fallujah - Dreamless
Viagem ao Mundo Dos Sonhos Robóticos
Por Trevas

A banda californiana Fallujah surgiu em 2007, e brincou durante um tempo com uma sonoridade que pode ser relacionada a cena deathcore. Embora tenha ganho alguma reputação na cena underground, foi só quando passou a adotar elementos atmosféricos que a banda começou a efetivamente encontrar sua voz. O Ep Nomadic foi o primeiro trabalho a trazer um estilo com cara própria. E em 2014, com o lançamento de The Flesh Prevails, o nome Fallujah deixou em definitivo de ser alvo de mera curiosidade, com resenhas excelentes na mídia especializada ao redor do globo e um aumento considerável de propostas para shows.

Fallujah - The Flesh Prevails
Claro que isso também desperta uma imensa pressão para que a banda lance um trabalho que minimamente seja capaz de replicar o frisson do disco anterior. Lançado com uma forte campanha de Marketing para os padrões da cena, com as belíssimas artes de capa do genial Peter Mohrbacher estampadas em dezenas de produtos nas lojas especializadas, Dreamless encara um vasto mar de ouvidos atentos, com muito a provar.


Face of Death abre os trabalhos mostrando bem o que nos espera no restante do álbum. Belos arranjos atmosféricos são repentinamente quebrados por riffs monolíticos em tempos complexos e um trabalho de bateria surrealmente detalhado (pelo autômato Andrew Baird). As melodias de guitarra (cortesia de Brian James e Scott Cairstairs) são o que se esperaria do space rock em seu último update e são bastante bonitas. A voz de Alex Hoffman (também responsável pelos sintetizadores) é de um gutural impressionante, mas frio, parece vinda de um robô com intenções malignas.

A produção de Zack Ohren (Cattle Decapitation, Six Feet Under) deixa o som com uma qualidade absurda, e é responsável direto e louvável pelo fato da massa sonora cheia de detalhes não canse nossos ouvidos numa audição intensa de 55 minutos. E isso se faz muito importante, tendo em vista que Dreamless tem uma unidade de temas tão forte que soa quase como uma única e gigantesca viagem a um universo desconhecido.


Adrenaline é uma pancada na orelha que termina em outro momento etéreo, preparando o terreno para a excelente The Void Alone. Faixa que conta com a perfeita inclusão da angelical voz de Tori Letzler e nos expõe a uma falha na geralmente bem pensada massa sonora dos californianos: a pouca variação das linhas vocais robóticas de Hoffman fazem com que os melhores momentos da bolachinha de longe sejam as passagens instrumentais ou as músicas onde ele contracena com vozes femininas.


Por sorte esses momentos se repetem, como na subsequente (e ótima) Abandon, que consegue soar imensamente épica em pouco mais de quatro minutos, dessa vez contando com Katie Thompson fazendo um contraponto aos urros. 


Scar Queen chega perto de parecer uma música mais normal, com vida própria dentro da sensação de continuidade do álbum, que volta com a etérea e quase completamente instrumental faixa título e, que nos brinda com um descanso na quantidade de informações musicais (e vejam só, dá até espaço para o baixo de Robert Morey) e com mais uma bela participação de Tori e Katie.


A força de Prodigal Son reside em seus belos solos, e Amber Gaze traz uma diversidade bem-vinda nos riffs, dá até para imaginar ela sendo uma releitura Techno metal para alguma música antiga do My Dying Bride, o que é bom e estranho.

Fallujah - não, não são ETs...são só nerds, mesmo
Fidelio é um curto interlúdio com samplers de diálogos e um piano que preparam nossos ouvidos para a monstruosa e complexa Wind For Wings, engrandecida em muito pela participação de Tori e Mike Semesky (Cynic) nas vozes limpas. Les Silences é uma bela instrumental tão carregada na eletrônica que escutada à parte dificilmente alguém relacionaria a uma banda de Heavy Metal. Lacuna encerra o disco de forma apoteótica, com Katie Thompson me fazendo imaginar se não é melhor a banda assumir logo que deve efetivar um(a) segundo(a) vocalista para que coisas bacanas como essa funcionem ao vivo.


Saldo Final

Confesso que tive imensa dificuldade em resenhar Dreamless. Desde a primeira audição eu tive certeza da imensa qualidade do disco. Entretanto, é um trabalho que, por mais moderno que seja, demanda o anacrônico e difícil ato de parar qualquer atividade paralela e se dedicar por completo a sua audição para o disco possa ser apreciado com toda sua miríade de detalhes. Um disco difícil, mas muito bem feito, e que soa recompensador aqueles que decidirem embarcar de corpo e alma em sua estranha viagem a um universo desconhecido.  

NOTA: 9,08

Pontos positivos: disco complexo, pesado e muito bem estruturado, te transporta para um cenário futurista e viajante
Pontos negativos: Hoffman soa algo monocórdio, e as músicas fazem muito mais sentido no contexto do disco do que sozinhas
Para fãs de: Meshuggah, Architects
Classifique como: Progressive Death Metal, Djent, Modern Metal