Para os malucos(as) que como eu tem prazer em destrinchar as histórias que permeiam a trilha sonora que escolhemos para nossas vidas. E quantas histórias interessantes se escondem em cada esquina desse vasto mundo do rock! Vocês encontrarão por aqui resenhas de shows, discos, livros, dvds (blu-rays) e notícias comentadas sobre o mundo do rock. Espero que vocês gostem e visitem sempre ou eventualmente. Eu, certamente, me divertirei muito escrevendo aqui.
Sexto álbum do combo suíço
que mistura Death Metal Melódico com doses cavalares de Folk, Origins é um trabalho conceitual
baseado na mitologia celta. Para quem não conhece o som dos caras, é algo como se
o Skyclad tivesse um rebento com o At The Gates.
Eluveitie 2014
A maioria das músicas conta com os vocais ásperos e totalmente Death
Metal do líder Chrigel Glanzmann e
uma tonelada de instrumentos diferentes (hurdy gurdy, harpa, gaita de foles,
violinos), mas volta e meia somos agraciados com os belos vocais (graças a
Odin, nada operísticos) da multi-instrumentista Anna Murphy. Curiosamente alguns dos destaques residem exatamente
nesses momentos, como em The Call Of The
Mountains (vídeo abaixo).
Não que os momentos pesados não tenham lá sua força, Virunus, King (ver vídeo abaixo) e Sucellos
são excelentes. Mas vez ou outra dá a impressão de que os andamentos das faixas
mais pesadas as tornam parecidas demais e ficamos esperando justamente pelos
momentos com maior melodia.
Saldo Final
Independente
do conceito (as letras têm trechos em outras línguas, para quem se interessar),
Origins é um disco bem interessante
e conseguiu que a banda ficasse em primeiro lugar nas paradas de seu país e na
Billboard Heatseeker norte americana (além de um sexto lugar na Alemanha). Um
feito e tanto se considerarmos que o trabalho em muito flerta com o metal
extremo. Teremos a oportunidade de checar os suíços ao vivo em 2015, com datas
já agendadas para Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.
NOTA: 7,5
Prós:
Bela mistura de
death metal com fortes elementos folk.
Contras:
Um pouco longo
demais com algumas faixas mais diretas se assemelhando um bocado.
Dezoito anos de
estrada, e o Orange Goblin já havia
se acostumado ao papel de mero figurante na cena metálica mundial. No próprio Reino Unido a banda desfrutava de
um status menor, um bando de ogros simpáticos e batalhadores que fazem discos
simples e divertidos de heavy metal. Os eternos postulantes a reis do
underground britânico. A cada disco lançado um curto cronograma de shows que algumas
bandas teriam vergonha de chamar de turnê – tudo para poder conciliar as
atividades musicais com empregos comuns. Entregadores de material de
construção, vendedores de sanduíches em estádios – nem de longe o glamour que
se imagina de uma banda com discos lançados em outros países.
Orange Goblin - Ben Ward mostra seus bons modos
Contas a pagar, famílias a sustentar, talvez fosse o momento de deixar o
hobby de lado e encaram a realidade. Lançado em 2012, A Eulogy For The Damned seria o canto do cisne para o Orange Goblin. Se o disco não causasse
uma miraculosa reviravolta, o quarteto abraçaria a aposentadoria sem grande
alarde. Era ou vai ou racha. E não é que foi? Sucesso de crítica e venda (ok,
relativo, mas os caras entraram no top 100 britânico, ora bolas), A Eulogy entrou na lista de melhores
discos do ano de várias revistas especializadas ao redor do globo, catalisando
o interesse de mercados anteriormente não explorados pelos shows dos caras. Até
uma bem sucedida turnê pelos Estados Unidos eles conseguiram. Com um ano e meio
de turnê previamente agendados, os quatro ogros se viram diante de uma decisão
difícil: a de encarar o sonho e largar seus empregos em prol de uma
profissionalização definitiva do Orange Goblin.
Back From the Abyss é o primeiro
rebento dessa nova era, um salto para o desconhecido.
Conceito e Arte Gráfica
A ideia inicial do
disco era que o mesmo fosse gravado durante a infindável turnê (o abismo do
título). Não funcionou. Aproveitando o momento, tão logo a banda terminou seu
último show já agendou tempo em estúdio. Com Ben Ward trabalhando no empresariamento do Scorpion Child, o restante da banda compôs boa parte do material
sem ideias concretas para as melodias, que foram adicionadas poucos dias antes
do encerramento das sessões de gravação. Para marcar o renascimento do OG, foi convidado para criar a arte
gráfica, o mesmo artista responsável pela capa do primeiro disco dos caras: Martin Hanford. A arte acabo ficando
bastante semelhante à capa de Final
Frontier, do Iron Maiden. Como
também são londrinos, os ogros resolveram manter a arte, como uma espécie de
homenagem aos ídolos. Para a produção, repetiram a dobradinha com Jamie Dodd.
O Disco
Sabbath Hex (vídeo abaixo), abertura do disco e primeira
música de trabalho, é o típico som do Goblin,
direto e algo tosco, mas diversão garantida. Tem toda pinta que funcionará
muito bem ao vivo. Übermensch é
legal, mas não traz lá nada de muito novo ao repertório habitual dos londrinos.
O disco absolutamente engrena com a vigorosa The Devils Whip, uma homenagem explícita e bem vinda ao Motörhead que funciona quase como se
tivessem feito um reboot para Iron Fist.
A voz rouca e grosseira de Ben Ward,
diga-se, facilita bastante a tarefa de fazer referência a Lemmy e sua trupe. Demon
Blues evoca um vampiro com escopeta nas mãos e anfetamina nas veias em um
momento para lá de inspirado, com um refrão daqueles que talvez tenha faltado
em parte da discografia da banda.
A genial Heavy Lies The Crown
consegue misturar um clima setentista que por vezes remete ao Thin Lizzy a um final completamente
True Metal. Com direito ao grandalhão Ward
entoando “To Vallhalla” sobre os riffs mastodônticos de Joe Hoare!! Into the Arms Of
Morpheus (com o baixo de Millard
bem ao estilo Geezer) soa um pouco
mundana comparada à faixa anterior, mas após a terceira audição te desafio a
não cantar junto Praise The Valium.
Mythical Knives começa com um belo e
climático dedilhado, descambando para ótimos riffs e um refrão marcante que faz
dela um dos destaques do disco. Bloodzilla
é acelerada, com uma performance visceral do baterista Chris Turner. Nesse ponto fica claro que a evolução da banda em
muito se deve à aposta em um pouco mais de dinâmica, o material está bem mais
diversificado, dentro dos padrões permitidos para ogros, claro. A produção busca
com sucesso o equilíbrio, o disco soa muito bem, mas não fica polido demais,
até porque não combinaria em nada com a proposta do OG.
Orange Goblin 2014 - Ogros profissionais
The Abyss traz pitadas de efeitos sonoros que
fazem referência de leve ao passado mais stoner dos caras, uma faixa bacana marcada
por bons riffs e que é seguida por Titan,
uma instrumental que também não faz feio. Blood
Of them é o típico épico OG, com
ótimos riffs, andamento contagiante, bateria bacana e uma melodia simples coroada
pela performance ogrona e efetiva de Ward.
Apesar do longo título, The Shadow Of
Innsmouth é uma curta instrumental híbrida, estilisticamente entre o stoner
e o doom, que encerra o disco de maneira diferente e bem bolada.
Saldo Final
O
primeiro rebento da fase profissional do Orange
Goblin é uma ode ao ogro pride, um disco de heavy metal com toques
equilibrados de stoner e doom que deve angariar novos fãs para os londrinos sem
em nenhum momento desagradar quem acompanha a banda desde sempre. Como dito
pela Classic Rock Magazine, um Orc’n’roll
de respeito!
NOTA: 8,5
Prós:
Direto e sem
frescuras, mas sem soar demasiadamente tosco.
Contras:
Direto e sem
frescuras, não deve agradar quem busca algo muito trabalhado.
Classifique
como: Heavy Metal, com elementos de stoner e doom
Vinte anos se
passaram desde que o Machine Head
marcou seu nome na história do heavy metal com o lançamento do matador Burn My Eyes. Quem vê a banda
estampando as capas dos meios de imprensa especializados ao redor do globo pode
ter a impressão de que os californianos tiveram uma carreira repleta de
glórias. Ledo engano, Robb Flynn e
sua trupe trilharam uma estrada para lá de tortuosa.
O clássico Burn My Eyes
A banda nasceu da ruptura de Robb
Flynn com a Vio-lence, em 1991.
Robb rapidamente se uniu ao amigo Adam
Duce, um adolescente problemático que havia recentemente pego gosto pelo baixo.
Duce indicou seu amigo de infância Logan Mader para a guitarra e o
baterista Tony Constanza assumiu as
baquetas. Os quatro gravaram uma demo sem muita expectativa, demo esta que
parou nas mãos de um executivo da Roadrunner.
Um contrato foi oferecido, Chris Kontos
assumiu a bateria e Burn My Eyes foi
gravado, se tornando o disco de estreia mais vendido da história da Roadrunner, 400.000 cópias justamente
em um período onde o Grunge havia praticamente sepultado a cena metálica.
Burn My Eyes revitalizara o
Thrash Metal, mas a partir daí a banda envolveu-se em escolhas para lá de
polêmicas. Não dá para dizer que o segundo disco, The More Things Change (já com Dave
McClain na bateria) seja ruim, mas sua abordagem com muito mais groove
falhou em impressionar os fãs mais xiitas, a despeito de possuir faixas como Ten Ton Hammer.
The Burning Red adicionou ao som do Machine Head elementos do então imberbe
(e infame) Nu Metal. Para deleite da Roadrunner,
e desespero dos puristas, o disco vendeu horrores (em muito puxado pelo sucesso
de The Blood, The Sweat, The Tears).
A mudança também se fez notar nas atitudes e no visual da banda, cada vez mais
próximas da estética Adidas comum à época. Internamente, as coisas desmoronavam
rapidamente. Robb, Duce e Mader chafurdavam cada vez mais em metanfetamina, com esse último
perdendo o posto após inúmeras brigas e ausências a ensaios e até mesmo shows. Mas
foi uma infeliz coincidência que quase pôs um ponto final na outrora promissora
carreira dos californianos.
Machine Head em sua controversa fase Pula-pula
Apostando novamente no som do momento, o Machine Head gravou o fraco Supercharger.
A aposta da Roadrunner e da banda
era que o disco seria um sucesso entre os novos headbangers. E possivelmente
repetiria ou suplantaria a vendagem do lançamento anterior, não fosse a
coincidência citada anteriormente: o videoclipe para o primeiro single, Crashing Around You, trazia cenas de
vários edifícios desmoronando. Lançados poucos dias após o atentado de 11 se
setembro, o clipe e single foram banidos. A Roadrunner, que investira pesado na banda, resolveu rescindir o
contrato (lançando ainda o ao vivo Hellalive
para cumprir tabela). De postulantes a novos deuses do metal, os rapazes do Machine Head foram abandonados à
própria sorte. O vício em drogas e crescente conflito interno em nada ajudaram.
A história parecia chegar ao fim.
Ressurgimento das
Cinzas
Robb Flynn encontrou em sua esposa e filhos a força para
vencer o vício e em um misto de desespero e obstinação, resolveu tentar um recomeço.
Com o escudeiro Adam Duce e Dave McClain ao seu lado, escolheu Phil Demmel para o posto de guitarrista
e produziu sozinho o novo disco. Após dezenas de negativas em território
americano, Through The Ashes Of Empires
foi lançado na Europa. Os primeiros instantes da faixa de abertura, Imperium, já deixavam claro que o Machine Head havia voltado com sangue
nos olhos, abandonando para trás o modismo e os experimentos. A receptividade pela
mídia europeia fez com que a Roadrunner
USA resolvesse oferecer um novo contrato à banda em sua terra natal. A
presença no top 200 da Billboard marcaria o triunfo de Robb e o renascimento do Machine
Head.
Mas os californianos queriam mais. Após longa turnê e buscando inspiração
no Rush (em especial A Farewell To Kings), o Machine Head entra em estúdio para
gravar o ambicioso The Blackening.
Lançado em 2007, o disco conquistou a imprensa especializada e os
fãs europeus, com o mesmo alcançando o top 20 em vários países daquele
continente. Sua força residiu no casamento entre ferocidade e técnica, com
quase todas as músicas atingindo mais de 7 minutos de duração. Trilhando a
linha tênue entre a pretensão e a genialidade, o disco conquistou muitos novos
fãs para a banda.
Após uma turnê ainda mais longa que a anterior, é lançado Unto the Locust, em 2011. O disco
beirava a perfeição, com os eventuais exageros estilísticos de The Blackening dando lugar a temas
muito bem estruturados e de uma maturidade incomum, sem perder o peso
avassalador. Pela primeira vez o Machine
Head adentrou o top 25 da Billboard e em vários países da Europa a banda
chegara ao Top 5. Unto The Locust
não só manteve a boa fase, representou uma palpável evolução. Passada mais uma
turnê de sucesso, as relações internas se deterioram ao ponto da expulsão do
outrora fiel escudeiro Adam Duce. Em
meio ao turbilhão, Robb finalmente
anuncia seu novo rebento. Sinceramente, me peguei pensando: como seguir uma
sequência de discos tão fortes? Teria a boa fase chegado ao fim? Estava
preparado para a decepção, mesmo que de leve.
O Disco
Tal como I Am Hell no disco anterior, Now We Die inicia com arranjos
floreados. Dessa vez ao invés de um coral temos um quarteto de cordas que a
princípio soa estranho, mas acaba por dar um charme à música. Utilizada como primeiro
single, Now We Die segue o mesmo
padrão do material de Unto The Locust,
com estrutura épica, pesada sem abrir mão de um refrão memorável.
A primeira impressão, de continuidade na estética musical do disco
anterior, cai por terra já com Killers
& Kings, uma faixa direta que traz em seu refrão óbvia referência ao
Thrash oitentista, com gang vocals e tudo. Excelente e que deve ter presença garantida
nos shows dessa turnê. Ghost Will Haunt
My Bones ressuscita o Machine Head
de Through The Ashes Of Empires com
seu grande senso melódico aliado a muito peso.
Night Of The Long
Knives,
apresentada como segunda música de trabalho do disco, transmuta em violência
sonora os sangrentos assassinatos cometidos pelos seguidores do imbecil Charles Manson. A “Família Manson”, em
agosto de 1969, ao matar a atriz Sharon
Tate, quatro de seus amigos e o casal LaBianca,
sepultou também a utopia da geração do Verão do Amor e com ela toda a cultura
Hippie. Obviamente o ponto de vista de Robb
é ácido e esmiúça a patética capacidade humana de seguir cegamente a cultura do
ódio. Confesso que quando o Lyric Video fora lançado, Night Of the Long Knives não mexeu comigo. Mas após umas três
audições logo se tornou uma de minhas favoritas.
Sail Into The Black começa atmosférica,
com um fantasmagórico canto gregoriano adornado por um igualmente sombrio piano
coroando a maturidade de Robb Flynn
como compositor e arranjador. A segunda
metade de seus oito minutos de duração traz um riff monolítico, de um peso
absurdo. Mais uma grande faixa para a coleção do Machine Head.
Machine Head 2014
Eyes Of The Dead é mais visceral,
ainda que curiosamente intrincada, e é quase impossível não cantarolar Murder, Murder junto a seu refrão. Os duelos de solos entre Demmel e Flynn, destaque recorrente desde o ressurgimento da banda, ficam
cada vez mais impressionantes, remetendo aos tempos áureos do metal oitentista,
quando se dava uma grande importância a esses detalhes. Robb mostra nessa faixa que está cada vez melhorando mais como
vocalista, soando em alguns momentos mais brutal que nunca, e em outros com um
refinamento melódico só adquirido recentemente.
Robb após uma temporada na casa de Zakk Wylde
Sim,
a versatilidade do novo disco já impressiona até aqui, mas Beneath The Silt ressalta ainda mais esse diferencial. A mesma parece
saída do bestiário musical do Down (inclusive
com Robb encarnando sua
personificação de Phil Anselmo em
alguns momentos) o que definitivamente não é ruim. In Comes The Flood, com sua letra atacando fortemente o “sonho
americano”, reitera a constatação de que Demmel
e Flynn andam com inspiração em alta
na criação de riffs. Novamente parece haver algum novo tempero na música, algo difícil de explicar: ainda soa como Machine Head,
mas de uma maneira diferente, reflexo de uma banda em seu novo auge.
Damage Inside funciona como um etéreo interlúdio para a
agressividade inclemente de Game Over,
uma cusparada venenosa em direção ao agora desafeto Adam Duce. O novato MacEachern
que no restante do disco luta bravamente para se fazer ouvir em meio à
performance sempre demolidora do excelente Dave
McClain (um dos bateristas mais subestimados da cena), aqui ganha seu merecido
destaque. Ainda que extremamente pesada, Game
Over tem um refrão tão contagioso que poderia figurar em algum hit de uma rádio
rock fictícia.
Capa da edição em formato tradicional
Imaginal Cells, um interlúdio que mistura trechos de
falas com um tema instrumental que parece saído de algum trabalho do Megadeth, prepara o terreno para o
encerramento com Take Me Through the
Fire, a música mais mundana do repertório do novo disco. Não me entenda
mal, Take Me está longe de ser ruim,
apenas empalidece quando comparada a excelência do material que a antecedeu.
Saldo Final
Bloodstone & Diamonds é a prova cabal de que a torrente de
criatividade do renascido Machine Head
não tem limites. A qualidade do material aqui presente se faz ainda mais impressionante
se levarmos em conta que a banda não se rendeu à fórmula estética que garantiu
o sucesso dos discos anteriores. A temida estagnação criativa definitivamente
parece estar a uma galáxia de distância, mas dessa vez ao invés de me preocupar
com o que o futuro reserva para uma de minhas bandas favoritas, curtirei o seu
presente. Um presente brilhante, diga-se.
NOTA: 9,5
P.s.: A edição
Deluxe aqui analisada não apresenta nenhum material extra, mas vem encartada em
um belo Digibook cujo interior emula um livro de ocultismo. Apenas para os mais
aficionados.
Prós:
Grande músicas,
ótima execução e produção caprichada.
Contras:
Um pouco longo,
pode cansar os ouvintes com déficit de atenção.
Classifique
como: Modern Heavy Metal, Groove Metal, Thrash Metal
Para Fãs de: Fãs
de Thrash e de um Heavy mais moderno
Nas décadas
anteriores, os executivos da indústria musical matavam e morriam (figurativamente
falando, acho) tentando descobrir fórmulas mágicas para levar bandas ao
sucesso. Raramente conseguiam. Com raras exceções (lembro de Led Zeppelin e Bad Company) a maioria das tentativas de bandas previamente
planejadas fracassaram retumbantemente. O caos parece muitas vezes conspirar a
favor do bom rock and roll. E a Blues
Pills é o mais recente exemplo disso. Vamos lá: 2011 - jovem sueca (Elin Larsson) é demitida de seu emprego
em sua terra natal e resolve tirar um ano sabático na Califórnia. Lá, conhece dois irmãos que, assim como ela,
são apaixonados pela música dos anos 1960/70. Esses dois, Zack Anderson (baixo) e Cory
Berry (bateria), já haviam tocado com a Radio Moskow e tinham bons contatos e alguma experiência.
Elin - uma bela vocalista, ou uma vocalista bela?
Elin já havia cantado
antes e resolve participar de algumas jams com os dois, gravando uma demo para
duas músicas. As músicas foram postadas no youtube, chamando a atenção de um selo
sueco, que oferece um contrato à (ainda nem existente) banda. Para completar a
formação, convocam para a guitarra um prodígio francês de apenas 16 anos, Dorrian Sorriaux. Para o nome da banda,
buscaram inspiração em um fanzine dedicado a bandas obscuras dos anos 1960 e
70. E lá está: direto do caos, Blues
Pills toma a Europa de assalto, ganhando ótimas resenhas para os três eps
lançados (dois em estúdio, um ao vivo) e em especial, atuando convincentemente
em cima dos palcos. Apesar dos parcos três anos de existência, o primeiro full
lenght da banda foi lançado sob a sombra de uma grande expectativa.
Blues Pills
Bem vindos à máquina do
tempo
O
disco, homônimo, conta com bela embalagem em digipack, trazendo como bônus uma
apresentação ao vivo no festival Hammer
Of Doom, em 2013. A arte gráfica ficou a cargo de Marijke koger-Dunham e casa perfeitamente com a proposta musical. A
produção ficou nas mãos de Don
Alsterberg, que já produzira anteriormente dois grandes nomes da cena
Retro-rocker, Graveyard e Horisont.
High Class Woman (ver vídeo) começa
quase que como um rip-off do Foghat,
até que Elin Larsson mostra sua voz
carregada de blues, culminando num refrão para lá de bacana. O interlúdio com
forte marcação rítmica aumenta a sensação de volta ao tempo. Musicaço.
Ain’t No Chance parece continuar de
onde a música anterior parou em seu primeiro minuto, mas ganha vida própria
depois, em mais uma boa exibição de blues rock carregado de elementos
setentistas. Jupiter (vídeo no link
abaixo) eleva o nível, com melodias marcantes de Elin e um clima ligeiramente psicodélico que contagia.
Black Smoke, já conhecida de
quem acompanha os shows da banda, é tão a cara do Graveyard que até fui checar os créditos de composição. Muito boa. A
balada River deveria servir
perfeitamente como canal para Elin
brilhar, mas embora seja bonita, não chega a cativar. Falta algo, embora possa
se destacar a beleza das guitarras de Dorrian,
ainda um garoto. No Hope Left For Me,
outra balada, dessa vez trafegando um pouco mais no terreno do Rythm and Blues,
acerta em cheio com bela interpretação vocal e um tempero bacana por parte da
guitarra.
A já para lá de conhecida Devil
Man acelera o ritmo, voltando a carga para um rockão setentista encardido.
O trabalho da cozinha chama a atenção nessa faixa, que geralmente se destaca no
set ao vivo dos caras. Outra que já faz parte do repertório, Astralplane mistura Hendrix com a delicadeza da interpretação
da sueca de forma absolutamente irresistível.
A
acelerada Gypsy também tem aquele
feeling Hendrixiano, mas não empolga tanto. A power balada Little Sun, obrigatória nos shows, fecha de forma bela e
melancólica os poucos mais de quarenta minutos de música.
Saldo
Final
O
primeiro disco completo da Blues Pills faz justiça à expectativa gerada,
mostrando uma ótima alternativa a quem anda apaixonado pela onda retro-rocker
que se espalha pelo mundo de forma surpreendente. O disco estreou com o pé
direito, ficando com o quarto lugar nas paradas germânicas, e o mais legal é
que fica evidente, pela idade dos músicos, que ainda há espaço para evolução. Poderia
dizer se tratar de uma banda promissora, mas seria injusto, a Blues Pills já é
uma realidade.
NOTA:
8,5
DVD Bônus
O
DVD encartado na edição deluxe do disco traz uma apresentação de pouco menos de
40 minutos (e 7 músicas) no festival Hammer of Doom de 2013 além de uma
entrevista feita nos bastidores após o referido show. Considerada o grande
destaque do festival em 2013, a apresentação da banda é crua, coesa e
inspirada. Elin canta muito, é bonita e possui grande carisma, e o misto de
timidez nos intervalos das músicas com a confiança na execução das mesmas dá um
charme especial à frontwoman. Se considerarmos que Dorian tem apenas 18 anos,
fica claro que estamos diante de um talento bruto com um puta futuro. E os
irmãos Azk e Cory formam uma cozinha coesa. O som é excelente e a qualidade de imagem é boa, contando com uma edição correta. Já a entrevista, essa é legal, mas
não acredito que valha mais que uma rápida assistida. Em suma, uma grande
apresentação que vale o investimento na edição deluxe.
Prós:
Bela voz, bons
riffs e produção cuidadosa que cria um clima retrô envolvente.
Contras:
Lembra um
bocado o Graveyard em determinados momentos, não que isso seja ruim.
Quatro anos após a
morte do insubstituível Steve Lee, o
Gotthard lança seu 11º disco, Bang! Segundo a contar com os vocais do
australiano Nic Maeder, Bang! tenta reascender a chama da
banda, depois do apagado Firebirth.
Após uma breve introdução, a sequência com a faixa título e Get Up’n’Move On parece indicar que a
banda novamente não irá conseguir voltar aos trilhos. Nic possui uma voz comum e algo sem sal, mas a culpa
definitivamente reside nas composições. A power balada e primeiro single, Fell What I Feel (ver vídeo),
radiofônica e inspirada, mostra que há esperança.
A
balada seguinte, C’est La Vie, é
chatinha, mas a partir daí, temos um show de hard rock nos moldes daqueles que
os suíços nos acostumaram a ouvir em discos como Dial Hard e Lipservice.
A sequência com Jump The Gun, Spread Your Wings, I Wont Look Down e My Belief
trazem aquele som calcado em Whitesnake,
Aerosmith e pitadas de Led e Purple que fizeram a fama da banda. A melecosa Maybe estraga o ritmo, mas temos outra boa saraivada de hardões com
Red on A Sleeve, What You Get e Mr. Ticket Man. O final fica aos cuidados da passável Thank You, que se estende por longos 10
minutos, graça ao arranjo grandioso com vários solos de guitarra. A edição
limitada inclui dois bônus desnecessários. Enfim, apesar do repertório
desigual, Bang! Trará de volta
aquele sorriso no rosto dos fãs de Gotthard.
Quem sabe no próximo álbum os caras não fazem um novo clássico?
NOTA: 7
Gotthard - caminhando na direção certa.
Prós:
Boas melodias e
maior pegada que nos discos anteriores.
Contras:
Um pouco longo
demais.
Classifique
como: Hard Rock
Para Fãs de: Whitesnake,
Aerosmith
Hammerfall - (r)Evolution
Hammerfall
– (r)Evolution – (Cd-2014)
Generic Metal sem
concessões
Depois de chegar a
anunciar o fim das atividades, diante da fraca receptividade a Infectious (de 2011), o Hammerfall se reúne para lançar seu 9º disco,
prometendo um retorno às origens. A capa, genérica até a medula, mostra que o
curioso título é um engodo total. Aos primeiros instantes de Hector’s Hymn fica claro que não
encontraremos nenhuma revolução aqui, apenas aquele Power Metal com influências
de NWOBHM e gang vocals em profusão. Com uma produção cristalina que só peca no
mix dos ditos gang vocals, tão altos que chegam a destoar, o novo tento dos
suecos fará a alegria dos órfãos do decadente metal melódico.
Uma
pena que petardos como a faixa de abertura e a excelente Bushido não encontrem companhia à altura. Coisas como Winter Is Coming, Live Life Loud e a faixa título estão bem abaixo da capacidade da
banda. E é impossível não achar graça da voz agudinha e limpa de Joacim Cans se anunciando como “Demon
From Hell” na bacaninha Ex Inferis. A
edição limitada ainda traz Demonized,
melhor que a maioria das músicas da edição normal. Em suma, originalidade em
baixa, mas parece que os fãs não se importaram, a bolachinha atingiu o primeiro
lugar nas paradas suecas. Indicado somente para os tarados pelo estilo.
NOTA: 6
Hammerfall - Muita pose, pouca inspiração
Prós:
Bons riffs,
Hector’s Hymn e Bushido são muito boas.
Contras:
Faltam bons
refrães, Gang Vocals muito altos na mixagem.
Classifique
como: Power Metal, Metal Melódico
Para
Fãs de: Metal Melódico sem grandes expectativas.
Death Penalty
Death
Penalty – Death Penalty (Cd-2014)
Gaz Jennings revive a
NWOBHM
Com o fim das
atividades do Cathedral, instituição
britânica do Doom Metal, muito se perguntaram quando teríamos a oportunidade de
ouvir novamente os riffs monolíticos do sempre inspirado Gaz Jennings. Bom, esse Death
Penalty (nome dado em homenagem ao famoso disco do Witchfynder General) é a resposta. Gaz capturou os talentos do baterista Fredrik “Cozy” Cosemans e da ótima vocalista Michelle Nocon, ambos da banda belga Serpentcult. Completa o elenco o baixista belga Raf Meukens. A introdução do disco
homônimo dá a clara impressão de que teremos um combo Doom, mas Howling At The Throne Of Decadence nos acerta
em cheio com um heavy metal tradicional calcado na NWOBHM de bandas como Angel
Witch e Satan. O Doom aqui serve
apenas como um tempero a mais.
A
banda soa coesa e pesada, com destaque absoluto para os riffs de Gaz e para a voz de Michelle, que lembra por vezes uma
versão mais agressiva da Doro dos
tempos de Warlock. E as composições
são todas muito boas, com destaque para Eyes
Of The Heretic, Children Of The
Night, Written By the Insane e Immortal
By Your Hand. A épica She’s A Witch
nos presenteia com flashes do velho Cathedral.
Gaz Jennings e sua trupe definitivamente
acertaram a mão nesse que pode ser considerado o melhor Debut do ano.
NOTA: 8
Death Penalty - uma estreia promissora
Prós:
Muito peso,
ótimos riffs e solos e uma grande vocalista.
Contras:
Nada a destacar.
Classifique
como: Heavy Metal com elementos de Doom e NWOBHM
Para Fãs de: Metal tradicional
e NWOBHM
Joe Bonamassa - Different Shades Of Blue
Joe
Bonamassa – Different Shades Of Blue (Cd-2014)
Finalmente Errando o
Alvo
Entra ano, sai ano e
a única coisa certa na vida é que Joe
Bonamassa lançará alguma coisa nova, seja um disco solo, um ao vivo ou
participação em algum projeto. Eis que 2014 não é diferente: Smokin’ Joe solta seu 11º disco de
estúdio. Como que para enganar os desavisados, Joe inicia DSOB com a única
cover do repertório, a curta Hey Baby
(do Hendrix). Daí para diante temos propositalmente
apenas faixas autorais, algumas delas contando com a cooperação de Jonathan Cain, do Journey. Apesar de Oh Beautiful,
com sua pegada mais rocker, o álbum é mais calcado em Blues do que os últimos
lançamentos do americano. Bonamassa continua
tocando como poucos, cantando bem e suas composições, mesmo quando longe da
genialidade, são agradáveis.
O
problema com o novo disco parece o mesmo que arruinou seu segundo lançamento
com Beth Hart: arranjos repletos de
sopros, percussão e teclados, deixando tudo com cara de big band. Tais arranjos
soam desnecessários e acabam por diluir os bons momentos guitarrísticos de
faixas como Love Ain’t No Love Song e
Living On The Moon. Se você gosta do
Bonamassa tocando nesse formato
(como no Live at Royal Albert Hall),
não verá nenhum problema e esse disco pode te agradar. Prefiro mil vezes Joe tocando com uma pegada mais Blues
Rock à Lá Gary Moore e Rory Gallagher (como em Live From New York) e esse DSOB definitivamente falhou em me
cativar. Segundo consta no encarte, a partir de agora Joe diminuirá consideravelmente seu ritmo de trabalho. Espero que da
próxima vez ele venha com mais sangue nos olhos.