segunda-feira, 27 de março de 2017

Uli Jon Roth – Tokyo Tapes Revisited (Box Set: Blu-Ray + 2cds – 2016)

Uli Jon Roth - Tokyo Tapes Revisited

A Orgia Guitarrística do Hippie Velho
Por Trevas

O Scorpions é a maior banda de rock alemã em todos os tempos. Quem se acostumou ao Hard meloso e radiofônico da banda nos anos 1980 em diante talvez nem se dê conta que a banda era bastante pesada para os padrões setentistas quando surgiu. E se Rudolph e Klaus já se mostravam os capitães do barco, a arma secreta da banda vinha na forma de um estranho hiponga com um jeito único de tocar guitarra: Uli Jon Roth.

Uli entrou para o Scorpions substituindo o imberbe Michael Schenker, que fora “abduzido” por um UFO britânico. Com a banda gravou quatro bem-sucedidos discos de estúdio, que ajudaram a banda a cimentar sua reputação, em especial no Japão, onde se tornaram gigantes. E foi justamente na terra do Sol Nascente que gravaram em 1978 um dos maiores discos ao vivo de seu tempo, o hoje mítico Tokyo Tapes. E se Tokyo Tapes mostrou ao mundo o poderio do Scorpions nos palcos, também representou o canto do cisne para Uli que, avesso a visão comercial de música da dupla de chefes do quinteto, preferiu montar seu próprio grupo, o Electric Sun. Tokyo Tapes Revisited é o registro do show que Uli e sua banda realizaram em 2015, no Japão (dã), para comemorar o legado da fase do guitarrista junto à um dos maiores grupos de rock da história.

Tokyo Tapes original

Apresentação

Como tem sido comum, Tokyo Tapes Revisited foi lançado em uma miríade de formatos diferentes. DVD. Cds. Vinil. DVD +Cds. Blu-ray. Blu-ray +Cds. Earbook com um porrilhão de itens... Enfim, tem para todos os bolsos. A versão aqui analisada é a que tem o Blu-ray e dois Cds, com o repertório idêntico. A apresentação é bem bonita, um caprichado digipack que se abre, cada parte contendo um miolo acrílico individual para um dos três disquinhos. O livreto, em papel fosco de qualidade, só engrandece as belas fotos do show. Bonito e prático.

Um dos muitos formatos de fazer fã pobre chorar copiosamente
Imagem

O material traz algumas das imagens mais nítidas e cristalinas que vi nos lançamentos recentes. Nem na absoluta escuridão e muito menos nos momentos mais repletos de efeitos luminosos há aquela perda de qualidade e pixelização da imagem. E a iluminação do show é belíssima. As tomadas da edição não são tão dinâmicas quanto o usual, focando bastante as mãos do patrão, para deleite dos aficionados por guitarras. Há também diversas tomadas bonitas, claramente pensadas não só para a funcionalidade, mas também para dar um tom poético ao lançamento. Me lembrou o trabalho feito no belo Lamentations, do Opeth.



Som

Ainda que as músicas executadas sejam claramente números de Heavy Metal, a banda de Mr. Roth se esmera em fazer versões ricas em arranjos que as afastam um pouco do rótulo, mas sem abrir mão do peso. A formação de sete peças, composta por 3 guitarristas, baixo bateria e voz, sendo que um dos guitarristas assume os vocais em uma ou outra faixa, poderia resultar em uma mixagem bagunçada, mas definitivamente o trabalho da equipe de som, majoritariamente nipônica, beira a perfeição. Todos os instrumentos muito bem representados na edição final. O único e grande senão fica por conta da quase inexistente captação do som da plateia. Mas talvez a culpa não seja exatamente do engenheiro de som...vejamos no item abaixo...


Performances e repertório

Uli é um dos maiores guitarristas da história do rock, e mostra aqui que a idade em nada arrefeceu sua técnica e pegada, que continuam únicas. Com aquele jeitão de hippie velho, inspira simpatia e deixa sua banda brilhar bastante. Pudera, ele se cercou de feras:  

O baterista Jamie Little (Bob Catley, Robbie Williams), é preciso e trabalha na percussão em alguns momentos também. O baixista Ule W. Ritgen (Zeno, Fair Warning e o Electric Sun do patrão) trabalha funcionalmente nos bem bolados arranjos, encontrando seu espaço com criatividade no meio de uma orgia guitarrística. Niklas Turmann (Uli John Roth, Fair Warning) toca uma guitarra de responsa e ainda detona na voz. O tecladista Corvin Bahn (Gamma Ray) também assume de bom grado seu espaço como coadjuvante, aparecendo somente quando suas teclas se fazem necessárias para engrandecer os arranjos. Já o guitarrista David Klosinski, esse debulha suas guitarras sem fazer feio diante do patrão e mestre. Nathan James (Inglorious) é...bem...Nathan James: brega, over e extremamente talentoso. Se um dia esse cara domar os excessos, pode vir a se tornar o vocalista que ele pensa que é.




O repertório é excelente, mas ao contrário do que o nome do pacote indica, não representa um espelho do set de Tokyo Tapes. Apenas 8 das 18 músicas do clássico disco do Scorpions dão as caras no repertório de 19 músicas e mais de duas horas de duração, replicado tanto no Blu-Ray quanto nos dois Cds. Algumas ausências são absurdas: Speedy’s Coming, He’s A Woman She’s A Man, Robot Man e Steamrock Fever. Mas tem material bom o suficiente para compensar as ausências, incluindo dois números de Hendrix.

A plateia nipônica é de uma broxidão Godzillica que quase azeda o angu. Um amontoado de senhores de meia idade de terninho e cabelos curtinhos, que ficam educadamente sentados, se manifestando exclusivamente quando solicitados ou ao final das músicas. Até quando levantam os braços fica aquela impressão de que o fazem de maneira titubeante, como se temessem ser achincalhados por demonstrar emoções. Que eu me lembre o único momento onde ouvi eles cantando espontaneamente e a plenos pulmões foi em Kojo No Tsuki.



A mudez do público nipônico é frustrante? Sim, mas cairia muito bem no dono da bola. Uli Jon Roth é um monstro da guitarra, mas porra, por que diabos com dois excelentes vocalistas à disposição ele insiste em destilar sua horrenda e desafinada voz? Será que alguém em sã consciência gosta de ouvir esse cara cantando? Impossível!!


Saldo Final

Visualmente primoroso. Sonoramente belíssimo. Orgia guitarrística master. Repertório bacana. Talvez tenha faltado um pouco menos de exagero de Nathan e alguém ter mutado o maldito microfone do tio Uli. Uma celebração a uma era de ouro da carreira da maior banda de rock da Alemanha em todos os tempos. Muito bom!


NOTA: 8,50


Pontos positivos: belas imagens, som cristalino e guitarras em profusão
Pontos negativos: Plateia moribunda. E quem caralho quer ouvir a porra do Uli cantando? E manda o Nathan segurar a periquita!! 
Para fãs de: Scorpions, claro.
Classifique como: Heavy Metal, Classic Rock





domingo, 19 de março de 2017

Armored Saint – Carpe Noctum (Cd-2017)

Armored Saint - Carpe Noctum
Santos Compactados
Por Trevas

Uma da melhores bandas de Heavy Metal Tradicional dos Estados Unidos, Armored Saint assumiu seu lugar confortavelmente ao passar dos anos como uma entidade restrita ao nicho cult da cena. Poucos e espaçados lançamentos de estúdio, turnês esporádicas e de curta duração e estratégia de marketing quase inexistente. Some isso a um pacote de lançamentos ao vivo restrito, limitado a Home Videos que não vão além e Bootlegs chancelados e um Ep (Saints Will Conquer, ver resenha aqui) e temos motivos para ficar empolgados ao nos deparamos com a notícia meio escondida de que os Saints estão fazendo campanha de financiamento para um novo material ao vivo.


Pledge

Ok, assim que fiquei sabendo da campanha, escolhi logo meu pacote, incluindo o Digipack do disco, mais download digital e uma camisa especial da campanha. O envio do meu pacote atrasou alguns dias, e mesmo antes deu ter me dado conta disso, recebi uma mensagem de Tracy Vera, esposa de Joey Vera e empresária da banda, me informando que houvera um problema com as camisas de tamanho P (tamanho por mim escolhido). Ela me informava que eu poderia optar por aguardar o novo lote de camisas e receber o pacote todo junto ou receber o Cd antes e depois a camiseta. Informei que não havia problemas em esperar desde que eles me dessem um prazo e ele não fosse muito longo. Ao que ela me ofereceu uma outra opção: se eu optasse por um tamanho M, ela me enviaria no mesmo dia. Topei. Depois ela me mandou uma mensagem que, como desculpas pelo atraso, estaria seguindo um pequeno brinde no pacote. Recebi meu pacote ontem e, além da camisa e Cd, me foi enviado uma prancha com adesivos da banda e um pôster do disco autografado por todos da banda. Que bacana! Vai ganhar moldura, claro!!!


Pacote da felicidade do velho Trevas
O Disco.

Carpe Noctum cumpre exatamente o que promete, são oito faixas ao vivo pinçadas de eras diferentes da carreira da banda, muito bem executadas, obrigado. O material foi extraído de duas apresentações em solo alemão na Turnê do Win Hands Down (ver resenha aqui), em 2015. Uma delas da apresentação dos Saints no Wacken Open Air. Infelizmente não há informações de que música veio de qual apresentação. As performances aqui beiram a perfeição, todas ganhando e longe de suas contrapartes de estúdio. São elas: Win Hands Down, March Of The Saint, Stricken By Fate, Last Train Home, Mess, Aftermath, Left Hook From Right Field e o encerramento com Reign Of Fire. As guitarras e cozinha estão em sintonia quase telepática. A voz de John Bush nunca soou tão clara e perfeita numa gravação ao vivo, o que chega a levantar a dúvida quanto o uso ou não de overdubs no material.


Bom, se Carpe Noctum é excelente quando julgado pelo que é, pode ser amplamente criticado pelo que não é. Confuso? Nem tanto. A primeira crítica é: ao se levar em consideração a qualidade dos vídeos de divulgação liberados para sua promoção, ficamos intrigados pela banda ter optado por não lançar um DVD/Blu-ray do material. Lembrando que não há material em vídeo com gravação profissional para os Saints, é uma crítica bem válida. A segunda crítica, ainda mais contundente, é quanto à duração: por que diabos mesmo com a campanha de financiamento pelos fãs, a banda optou por restringir o material a apenas 8 músicas e menos de 40 minutos? Não faria mais sentido lançar um ao vivo completo, com um repertório que fizesse justiça à uma discografia bem acima da média? Pois é.



Saldo Final

Carpe Noctum apresenta 38 minutos de uma banda que vive uma de suas melhores fases em cima de um palco. Um ótimo material, mas que faz com que a gente questione o porquê diacho os Saints nos privaram de um lançamento mais abrangente. Ainda ficaremos à espera do material ao vivo definitivo dessa grande banda. Esse só serve de aperitivo.


NOTA: 8,00

Gravadora: Metal Blade (importado)
Pontos positivos: muito bem gravado e executado
Pontos negativos: poderíamos ter muito mais músicas aqui 
Para fãs de: Riot, Anthrax
Classifique como: Heavy Metal



quinta-feira, 16 de março de 2017

Lovell’s Blade – Stone Cold Steel (Cd-2017)

Lovell's Blade - Stone Cold Steel

Lâmina Afiada
Por Trevas




O britânico Pete Lovell fez fama na cena metálica ao emprestar sua voz única aos pioneiros do Metal Holandês e uma das bandas mais cultuadas do metal oitentista, o Picture. Com eles gravou cinco discos, sendo o destaque absoluto o hoje clássico Eternal Dark. Pouco após a última vinda da banda por aqui, em 2016, saiu a notícia simultânea de sua saída da banda e formação do Lovell’s Blade. A sonoridade do novo projeto parecia até então um grande mistério, tendo em vista até então não existir vida musical do britânico fora da banda holandesa.


Lovell's Blade - 2017

Mas a única coisa que a nova banda levou do Picture foi o nome, inspirado em uma das canções mais marcantes de Eternal Dark. Desde os primeiros minutos da primeira rodada na bolachinha já dá para matar a charada, Lovell’s Blade aposta numa mistura de Biker Rock com Hard e Heavy mais tradicionais, uma sonoridade que tem pouquíssimas chances de desagradar a um vasto espectro do público de música pesada. E que se encaixa à perfeição na voz encorpada e rouca de Pete.

Existem momentos onde a mistura pende um pouco mais para o heavy metal, como na ótima faixa de abertura, além de Devil’s Daughter (excelente), Rise and Fall e Out For Blood. Mas em boa parte do material temos músicas que parecem feitas por um grande fã de Creedence e Bruce Springsteen que também curte Heavy Metal e AC/DC. Sim, a influência dos australianos fica clara em Dynamite, Nothing to Lose e Rolling On. E Springsteen e CCR estão claramente presentes nas linhas de voz de Lovell (cheque o Borntoruniano Ouououou de Dynamite), que soa melhor do que nunca na ótima produção da banda com Serge Naberman. Há também espaço até para um pouco de Southern Rock, em Into the Sun.



Obviamente a banda não é só a voz de Pete. Os riffs e solos dos ex-companheiros de Picture, Andre Wullems e Mike Ferguson são sempre bons (e que bacana, vem discriminado no encarte quem faz que solo, ô coisa bela e Old School) e a cozinha formada por Patrick Velis e Noel Van Eersel soa cheia de punch e precisa.





Saldo Final


Ao final dos pouco mais de quarenta minutos do disco de estreia do Lovell’s Blade sobra aquela impressão de que Pete, Andre e Mike deviam ter partido do Picture a mais tempo. Um disco imensamente divertido e bem feito de um novo grupo que promete ser uma delícia de assistir ao vivo. Grata surpresa!  


NOTA: 8,56


Gravadora: Classic Metal (nacional)
Pontos positivos: fusão de rock/metal temperada por uma ótima voz
Pontos negativos: nada a destacar
Para fãs de: AC/DC, Krokus
Classifique como: Heavy Metal, Heavy Rock