terça-feira, 27 de outubro de 2020

Confess: The Autobiography - Rob Halford (Livro - 2020)


 

Confissões do Metal God

Por Trevas

 

Confess é o livro que conta a saga de um certo Robert John Arthur Halford, nascido e criado em uma Birmingham do pós-guerra, no coração poluído do Black Country, para se tornar uma das mais emblemáticas figuras da história do rock.

Eventualmente, Rob Halford ganharia o mundo à frente do Judas Priest, uma das maiores bandas de Heavy Metal em todos os tempos, uma verdadeira instituição britânica. A própria redefinição do British Steel.

Mas Confess definitivamente não é um livro sobre o Judas Priest.

Confess é sobre a jornada de descobertas e auto aceitação de um jovem criado em um lugar empedernido, em uma época cinzenta, escapando do destino do chão das fábricas, e vivendo sonhos, por culpa do amor à música.

O livro justamente funciona melhor em sua primeira metade, quando Rob relembra sua infância e juventude, e as desventuras da descoberta de sua homossexualidade (a aceitação viria muito, mas muito mais tarde), de maneira bem-humorada e leve.

Na segunda metade o livro ameaça entrar na cansativa seara da “saga do junkie”, lugar comum em 10 a cada 10 biografias do mundo do rock.

Ainda assim, escapa do marasmo devido ao “brilho no olhar “ com que o quase septuagenário senhor conta até os momentos mais trágicos, espelhando a conhecida personalidade “boa praça” do careca mais famoso da cena. Por exemplo, dá pra sentir a empolgação do já milionário senhor narrando sua fanboyzice em encontros com Andy Warhol, Cher, Jack Nicholson, Jimmy Page, Freddie Mercury, Dio, Lemmy, Madonna, a própria Rainha e...Lady Gaga?!?

Sua faceta pacífica só se mostra esgotada no episódio em que o babaquara Axl Rose tenta impedir que o Judas use a Harley Davidson no show do Rock In Rio II. Por pouco um show histórico quase não acontece...

Aos pudicos, um alerta, Rob é bastante “gráfico” ao narrar suas descobertas sexuais, preparem-se para ouvir bastante sobre punhetas e boquetes em desconhecidos em banheiros públicos, e descubram que também nos EUA há uma estranha relação entre Forças Armadas e o armário...enfim...

Os fãs de Judas Priest terão sua cota de anedotas, possivelmente algumas poucas delas inéditas, mas certamente ficarão frustrados se encararem a leitura como uma dissecação da história da banda e suas relações internas. Nesse ponto Rob é bem político e algo evasivo.

Há, por exemplo, uma clara licença poética sobre sua saída da banda e sobre a entrevista que o levou à se assumir para o mundo. Assim como um certo eufemismo nos eventos que levaram à decisão de KK de se desligar da mesma.

Mas prefiro analisar o livro pelo que ele é, uma história incomum de um personagem igualmente incomum, e contada de forma muito divertida.

Leitura das boas.

Mas o livro definitivo sobre a história do Judas Priest, esse ainda está por ser escrito.

Mick Wall?? (NOTA: 8,00)


Formato: E-book Kindle (em inglês)

Editora: Hachette Books

363 páginas






sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Blue Öyster Cult – 45th Anniversary Live In London (Blu-ray – 2020)



Bodas de Platina

Por Trevas

45 anos de estrada...uma marca assustadora, mesmo no longevo universo do Rock & Roll. E mais assustador ainda quando se fala de uma das bandas mais idiossincráticas e inclassificáveis da história. E cá estamos, diante do lançamento em alta resolução de um dos shows da turnê que comemorou essa marca, realizado no Indigo At The O2, Londres, em julho de 2017.

A imagem e som são para lá de cristalinos. O palco é simples, sem nenhuma grande produção nem arroubos na iluminação. A edição é comportada e nada frenética, o que agrada em cheio à faixa etária consumidora, uma galera que geralmente gosta de veros takes privilegiando a destreza dos músicos em seus instrumentos, ao invés da alucinante linguagem de videoclipe que alguns Home Vídeos nos trazem. 


No repertório, 15 faixas em 75 minutos de show. Marcadamente, para a data comemorativa, temos o disco homônimo por completo, somado a 5 números da fase inicial da banda. Sobre a banda, cabe ressaltar que aqui a formação é bem modificada, somente Eric Bloom e Buck Dharma restando dos tempos clássicos. Mas nem de longe isso deve gerar problemas: a já conhecida cozinha composta por Danny Miranda (também baixista do Queen, e que toca com os caras desde os idos de Curse Of The Hidden Mirror) e Jules Radino (bateria, também desde 2004 com o BÖC) é fenomenal. E ainda temos na formação um super trunfo: o multi-instrumentista Richie Castellano (voz, guitarra e teclado), que acrescenta um bocado tecnicamente ao time.



Dos nossos queridos velhinhos, já setentões, Eric Bloom demonstra alguma limitação, tanto na voz quanto na desenvoltura no palco. Inclusive, é notada a pegada mais lenta para alguns números, provavelmente por conta dessas limitações. Já Buck Dharma, esse está tocando como nunca, vide a memorável versão estendida para Then Came The Last Days Of May, na qual faz um duelo fenomenal com Castellano nos solos. Ah, e sim, ele ainda usa a "cheesetar". O que merece pontos extras!

Mas ao final das contas, se temos um BÖC menos feroz que no passado, por outro lado temos uma versão para lá de técnica da banda, em um show que provavelmente irá tirar um sorriso de qualquer fã dos veteranos. (NOTA: 8,00)


Extras

Nos tímidos extras, cerca de cinco minutos de imagens (em resolução razoável) da banda aquecendo, ensaiando alguns detalhes e conversando nos camarins.

 

Gravadora: Frontiers Records (importado)

Prós: repertório fantástico para os fãs da fase inicial

Contras: a voz de Eric Bloom está miudinha

Classifique como: Classic Rock

Para Fãs de: Ghost


Wolftooth – Valhalla (CD-2020)

 


Uma Certeira Dentada Lupina

Por Trevas

O quarteto estadunidense, composto por músicos veteranos (mas sem muito destaque) do underground local, causou um considerável estardalhaço com seu disco homônimo em 2018. Um disco vigoroso, que ficava preso entre as décadas de 1970 e 1980, mas dava curiosos vislumbres de outras eras, o que o destacava de boa parte da produção da NWOTHM. Eis que, nesse confuso ano, nos chega Valhalla. Hora de tentar entender melhor qual a magia do Wolftooth.

Daqui a pouco o lobo vai precisar é de dentadura

A introdução dedilhada, The Lamentations Of Frigg, prepara um interessante clima épico, e não ficaria estranha em um disco de progressivo. Mas progressivo definitivamente não se encontra mais a partir da excelente The Possession, que conjura uma mistura de Black Sabbath (impossível não notar a semelhança de estilo da voz de Chris Sullivan com o amado Madman) com elementos de NWOBHM. A produção é excelente, novamente nas mãos de Jeremy Lovins, que consegue deixar a sonoridade propositalmente num mundo fictício onde o Old School flerta com a modernidade.


Firebreather aliás é a própria conjuração de Old School. Quando segue esse caminho, repleto de duelos de guitarras, o Wolftooth remete aos bons tempos do Grand Magus (com um pouco do Orange Goblin). Mas há mais aqui do que simplesmente uma boa jornada na estrada do saudosismo. A própria faixa título estica as perninhas do Wolftooth para tocar um terreno que remete aos momentos menos loucos do Mastodon ou ao passado do Baroness. Quando flerta com esse lado, o groove da bateria e as linhas de baixo tomam à frente com maestria. E é exatamente esse equilíbrio entre dois mundos distintos que confere um charme especial ao Wolftooth. Valhalla pode não ser um clássico instantâneo, mas garante quarenta para lá de agradáveis minutos de uma banda que nasce com personalidade e cheia de promessas. Escute no talo! (NOTA: 8,71)

Visite o The Metal Club

Gravadora: Hellion Records (nacional)

Prós: instrumental excelente numa mescla de Metal tradicional e Sludge/Stoner

Contras: a voz de Sullivan pode enjoar

Classifique como: Heavy Metal

Para Fãs de: Grand Magus, Orange Goblin, Mastodon