sábado, 15 de setembro de 2018

Bruce Dickinson: Uma Autobiografia – Para Que Serve Esse Botão? (Livro/eBook – 2017)






Entrando Na cabeça do Multi-Homem
Por Trevas

Radialista, escritor, roteirista, ator, esgrimista, piloto de avião e vocalista da maior banda de Heavy Metal do planeta. Bruce Dickinson é o verdadeiro Multi-Homem e uma daquelas raras personalidades da cena metálica prontamente reconhecidas pelos humanos “normais”.  Portanto, não é de se estranhar que uma mente tão irrequieta ainda trouxesse ao mundo uma autobiografia. Mas “Para Que Serve Esse Botão” não é exatamente a típica biografia de astro do rock, repleta de baixaria de bastidores e uma repetitiva adulação ao estilo de vista hedonista. Bruce definitivamente não é um astro do rock padrão, e esse livro é um tratado sobre a sua existência absolutamente incomum e estoica. Dono de uma mente irrequieta, curiosa e dotado de uma teimosia Godzillica, Bruce transformou a “arte de não pertencimento” aos cenários de sua vida, potencializadores de bullying e solidão em sua infância, em um gatilho para superar suas limitações e permitir que sua mente e corpo nunca ficassem estagnados. Sim, o livro é centrado na forma que Bruce viveu esses vários estágios de sua evolução, e em como ele enxergava o mundo em cada uma dessas etapas. Ah, e essas etapas, fossem elas a infância solitária, o desenvolvimento da paixão por máquinas (em especial os aviões, que tomam bastante espaço na leitura) e música e até mesmo a batalha contra o câncer são meros cenários dentro de uma história muito bem contada por um britânico inteligente e sarcasticamente bem-humorado. E esse é o trunfo e a maldição do livro. Se temos uma narrativa incomum, deliciosa e de fácil leitura, por outro lado o Iron Maiden, Samson e carreira solo do vocalista servem de mero pano de fundo para a história principal. Se seu interesse é chafurdar nos bastidores da maior banda de heavy metal da história, melhor centrar seus esforços em outras paragens, há muito pouco (na verdade, quase nada) de novidade sobre a Donzela aqui. Mas quem estiver em busca de uma leitura divertida (com ótima tradução em português na edição em eBook, aqui analisada) e um enfoque original na manjada estrutura das autobiografias de celebridades, encontrará nas memórias de Mr. Dickinson um ótimo passatempo.

NOTA: 9,00

Formato: Ebook Kindle
Editora: Intrínseca

domingo, 9 de setembro de 2018

Paradise Lost – Medusa World Tour (31/08/2018 - Teatro Rival – Rio de Janeiro/RJ)





Deliciosamente Miserável
Fotos e texto miserável por Trevas

Sexta-feira à noite talvez seja tradicionalmente o momento menos Doom de uma semana, e se do lado de fora do sempre agradável Teatro Rival centenas de pessoas tomam as ruas em busca de cerveja, conversas e relacionamentos que os levem para longe de suas vidas miseráveis, dentro do Teatro temos o inverso, pessoas felizes e ansiosas justamente para serem arremessadas em uma atmosfera depressiva e...miserável. Sim, a casa, com um bom público, aguarda a chegada de mais um show dos mestres do Doom/Gothic Metal, os britânicos do Paradise Lost.

Miserável Quinteto
O quinteto adentra o palco com apenas um par de minutos de atraso, ao som de From The Gallows, e algo parece não clicar. Talvez seja o semblante pouco confiante do rabugento vocalista Nick Holmes, visivelmente incomodado com a torrente de feedback que toma o som da casa cada vez que ele ousa atravessar o meio do palco com seu microfone, talvez seja simplesmente o fato da banda estar afastada dos palcos há quase 20 dias. Difícil dizer. Após uma breve introdução na qual Nick faz sua primeira intervenção de um seco humor tipicamente britânico, Gothic toma de assalto a casa e a receptividade por parte do público desmonta por absoluto qualquer eventual sensação de que a noite não funcionaria. One Second causou terror nos Headbangers quando foi introduzida ao mundo 21 anos atrás, hoje é cantada em uníssono, o que mostra o quanto público de Heavy Metal evoluiu (e a receptividade para a dançante Erased? Quem diria?). A emoção era palpável, em especial no rosto do simpaticíssimo Aaron Aedy, que agita sua calva e reluzente fronte a cada música, cantando de coração cada letra e agradecendo aos fãs com um sorriso no rosto a cada intervalo.

Aaron, miseravelmente feliz. Talvez seja demitido...
Greg Mackintosh continua com sua aura mutante e algo perigosa, comandando as guitarras solo, quase inaudíveis do lado onde eu estava do palco. Stephen Edmondson capricha nos graves que fazem tão bem a esse tipo de som, com seu semblante quase impassível. O jovem finlandês Waltteri Väyrynen é mais um de uma longa lista de bateristas que faz o Paradise Lost enrubescer até o Spinal Tap, e sua performance não compromete, embora fique claro que o garoto (ainda) não tem a mão necessária para os números mais carregados no Doom. E eles estão presentes em profusão no repertório, representados por Medusa, An Eternity Of Lies, No Hope In Sight e a apoteótica Beneath Broken Earth. Entre elas Nick Holmes, com sua voz limitada funcionando cada vez melhor ao vivo, destilava tiradas intencionalmente mal-humoradas, sempre seguidas de um olhar de soslaio aos colegas de palco e um sorriso que era um leve esgar, como quem dissesse “nossa, essa foi péssima”. A palavra “miserável” foi citada tantas vezes quanto “Love” num show do Whitesnake. “Essa próxima música nós tocamos todo show tem só uns 20 anos, mas que parecem centenas”, diz Nick sobre seu entusiasmo por tocar As I Die pela bilionésima vez. “Essa música que nós tocamos é tão miserável que fará a próxima parecer pop e feliz, só que não”. “Essa música é sobre morrer, pois estamos todos morrendo não é mesmo, isso se vocês já não morreram”. “Quem esteve no show de 1995? Ah, que bom que vocês ainda não morreram”. Sim, o arsenal de tiradas de humor negro parecia interminável, mas o auge foi a dedicatória de uma música do set (não lembro qual) à (inexistente) banda de abertura, nomeada Cryptic Penis. Nick é estranho...

Para nossa sorte, o humor miserável de Nick Holmes não cabe na foto 

O show, de 90 minutos de duração foi suficientemente diferente dos anteriores na cidade, o que fez a felicidade de boa parte do público, que cantou cada letra e se retirou com um sorriso miserável do rosto ao final abrupto com a manjada Say Just Words. As reclamações existiram, todas centradas na ausência de material de um ou outro disco, algo corriqueiro para uma banda com tantos discos lançados e que mudou consideravelmente seu som entre um e outro desses trabalhos. Mas nada que apague a realidade, foi mais um miserável showzaço dos britânicos (NOTA: 9,00)  




É, meu celular só permite fazer fotos miseráveis, vou me matar e já volto...






sábado, 4 de agosto de 2018

Aglarion – Beyond The Void (Cd-2018)



Um Incidente Incomum Em Um Planeta Distante...
Por Trevas

Às vezes a vida nos prega umas peças. Estava eu a fazer um show com minha banda tributo ao Black Sabbath e Ozzy, a Blizzard Of Ozz, num domingo. Um amigo e ex-colega de paleontologia (sim, vejam só, já trilhei esse caminho bacana), hoje um renomado pesquisador/professor, cantava cada música a plenos pulmões lá da plateia. Começamos a tocar Crazy Train, chamo ele ao palco, enquanto faço um stage dive. O cara detona. O show estava sendo filmado, a filmagem vai parar no Youtube. Uma banda de progressivo procurava um vocalista, viu o vídeo e bum, deu o clique. Leo Avilla é o nome do dono da bela voz. Aglarion o nome da banda. E eu me tornei um orgulhoso padrinho incidental.

A Aglarion surgiu em 2012, quando um grupo de amigos repleto de influências em comum decidiu montar uma banda de Metal Progressivo. O nome escolhido, o de um planeta fictício que flutua num oceano de luz numa galáxia distante. A intenção de suas composições? Mesclar arte e ciência nas temáticas e letras. Diversas formações se passaram até que eles enfim resolvessem gravar seu primeiro Cd, Beyond The Void. Por enquanto eu sou um dos poucos com acesso ao material, que sairá até o final de 2018. E vou então contar de primeira mão um pouco do que espera vocês.


Beyond The Void, o disco

Dharma, a instrumental que abre o disco, é uma verdadeira salada de referências progressivas. De Marillion a Genesis, passando por Kansas e Eloy, há de tudo um pouco para os fãs do estilo nos temas inclusos em seus belos 5 minutos. Innonimata, um reflexo sobre a natureza belicosa dos homens, inicia com uma parte falada e clima espacial e ritmo marcial, quebrados pela primeira aparição da voz de Leo Avilla. Um belo timbre que em muito lembra o saudoso Mac, do Threshold, com linhas melódicas dramáticas que agradarão aos fãs dos melhores momentos do Arena. Ótima música, repleta de dinâmica, um tema de teclado que gruda na mente (e que poderia estar tanto numa música progressiva quanto numa canção do My Dying Bride) e belos solos.

Sinos e efeitos sonoros, um belo timbre de guitarra e começa a instrumental Streets Of Salem, repleta de reviravoltas. Ao que tudo indica, a curta e épica We Are The Ones, cujo subtítulo é Koyaanisqatsi, tem sua letra baseada no filme cult homônimo, que expunha uma visão muda sobre as relações entre a humanidade, a natureza e a tecnologia.

On Clocks And Clouds tem um baixo pulsante (cortesia de Diogo Sarcinelli, que também co-assina as guitarras), bateria inspirada (por Filipe Barbosa) e clima Marillionesco em meio às mudanças de andamento e guitarras (Luiz Menezes) que flertam ligeiramente com o Heavy Metal aqui e acolá.  O tecladista Demison Motta mostra seu repertório de timbres no belo interlúdio Twilight Of A Life, preparando o terreno para a longa, sombria e por vezes bem pesada, Nostradamus. Talvez a primeira do material que indubitavelmente pode entrar no nicho do Prog Metal, é também a música que traz a performance mais versátil de Leo, numa linha melódica incomum e bem bonita. A fusão do peso metálico com a complexidade progressiva segue na ótima instrumental Nordgalen e em Icarus (The Myth), essa última com os teclados talvez um pouco acima do aconselhável na mixagem, mas com uma interessante resolução que remete aos melhores momentos do Neo Prog do início dos anos 1980. O disco tem fim com outra faixa épica, sintomaticamente chamada Valhalla, bem dramática (e com um gutural bem colocado, juro que ouvi) e que condensa o clima de todo o trabalho em seus sete minutos de duração.

Veredito da Cripta

Beyond The Void é um disco repleto de ótimas ideias e performances espalhadas num material de qualidade, mas que demanda atenção do ouvinte, crescendo com as repetidas audições. Como um bom disco de Progressivo deve ser, diga-se. Uma estreia promissora de uma banda que aposta num estilo pouco explorado em nosso país!


NOTA: 8,26


Gravadora: Ainda a definir.
Pontos positivos: muita dinâmica e ótimas performances
Pontos negativos: complexo, demanda a atenção do ouvinte em tempos de informações simples e mastigadas
Para fãs de: Marillion, Arena, Pendragon
Classifique como: Rock Progressivo, Metal Progressivo