sábado, 23 de janeiro de 2021

Sepultura – Quadra (CD-2020)


 

Nasce Um Novo Clássico

Por Trevas

Uma vez, li uma entrevista com o guitarrista Andreas Kisser que achei bastante valiosa para ilustrar meu pensamento sobre o Sepultura. Nela, o entrevistador (acho que foi na Roadie Crew) perguntava sobre como a expectativa dos fãs sobre o direcionamento de um novo lançamento afetava a banda. Andreas, com sua inteligência habitual, explicou brilhantemente que cada fã tinha uma imagem do que considerava ser o Sepultura ideal. E ele mesmo também tinha uma imagem bem nítida de seu Sepultura ideal. Sendo assim, invariavelmente o que a banda viesse a lançar chegaria perto do Sepultura que alguns idealizam, e distanciaria de maneira igual do Sepultura ideal de outros tantos. Logo, seria tolice compor pensando nisso, o Sepultura real sempre perderia para os vários Sepulturas imaginários. Machine Messiah representou com maestria o nascimento de mais um desses muitos Sepulturas, ganhando espaço nas listas de melhores do ano ao redor do globo em 2017. Surpreendente para um disco cuja gestão total durou poucos meses. Mas Kisser queria mais. Repetindo a parceria com Jens Bögren, dessa vez a banda tomou todo o tempo necessário para trabalhar em seu sucessor. Novamente conceitual, as ideias por detrás de Quadra são repletas de nuances, e deixarei aos curiosos pesquisar mais sobre o assunto. Em resumo, o conceito brinca com estereótipos e maneiras diferentes de ver a realidade, com uma mensagem simplificada de respeito às diferenças. Como sempre digo, a intenção quando da criação de um disco conceitual pode ser brilhante, mas de nada servirá se as músicas não estiverem à altura. Então, vamos ao que interessa: como soa Quadra?

Os quatro de Quadra

O disco também está dividido em quartos, cada qual com 3 músicas. A dobradinha que abre a bolacha é de destruir qualquer pescoço. Isolation e a pretendente a clássico Means To An End mesclam os elementos sinfônicos típicos das produções de Bögren com uma ferocidade absurda. Os detratores podem reclamar de qualquer coisa do Sepultura atual, mas definitivamente jamais poderão acusar a banda de amansar seu som. Last Time encerra o primeiro quarto do disco, com orquestrações que dão um certo tom épico em outra pancadaria que ficará muito bem ao vivo.


O segundo quarto abre com elementos tribais em Capital Enslavement, outro destaque, com sua forte letra. Ali é o primeiro momento menos frenético do disco, contando com um groove carregado, assim como em Raging Void, um dos refrães mais legais de todo o disco. Já nesse ponto dá para comemorar Quadra como a melhor performance vocal do gigante Derrick Green, cada vez mais versátil.


A épica Guardians of Earth inaugura o terceiro quarto, com sua mensagem poderosa e preservacionista traduzida perfeitamente em um clipe igualmente forte. The Pentagram é uma das duas instrumentais que vem salientar a força criativa dessa formação da banda e nos lembrar do monstruoso guitarrista que é Andreas Kisser. E se alguém souber de que planeta vem Eloy Casagrande, favor avisar. Além da performance colossal, o baterista também co-assina quase todas as faixas do disco com Kisser.  Autem encerra mais um quarto do disco de maneira tão experimental quanto empolgante.


A faixa título inaugura sua soturna e aventureira reta final, uma pequena peça instrumental no violão clássico, seguida pela excelente Agony Of Defeat, que traz Derrick usando vocais limpos, com maestria, e com ótimo arranjo. A surpresa aumenta ainda mais com Fear, Pain, Chaos, Suffering, com um dueto espetacular entre Green e Emmily Barreto, a ótima vocalista do Far From Alaska. Ao final das contas, Quadra não só se mostra uma sequência digna para Machine Messiah, como também forte postulante a novo clássico do metal nacional. Um disco único e forte. (NOTA:10)

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Gravadora: BMG (nacional)

Prós: pesado, experimental e ainda assim viciante

Contras: só os muito puristas terão algo a reclamar

Classifique como: Thrash Metal, Modern Metal

Para Fãs de: Gojira, Machine Head


Trivium – What The Dead Men Say (CD-2020)

 


Mantendo A Boa Fase

Por Trevas

O 9º disco do quarteto estadunidense, agora com 20 anos de carreira nas costas, chegou às lojas repleto de expectativas, tendo em vista o sucesso de The Sin And The Sentence junto ao público e à crítica especializada. Repetindo a formação e a parceria com o premiado produtor Josh Wilbur, fomos checar se dessa vez a banda não repetiria sua sina de discos medíocres seguindo seus grandes trabalhos...

Sorriam, rapazes...ou não

IX é a típica introdução que as bandas de Metal costumam utilizar para criar um clima antes de subir nos palcos e precede a faixa título, nos deixando com a pulga atrás da orelha: teria a banda optado por retornar ao excesso de melodias que tornara Silence In The Snow uma pequena decepção? Produção bem polida e vocais limpos em destaque, a despeito da quebradeira instrumental ao fundo. Boa canção, mas que sucumbe ao poderio inicial do trabalho anterior, falhando como um cartão de visitas que impressione.


Melhor se sai Catastrophist. Apesar de não abrir mão da melodia, o refrão caprichado, a dupla quase telepática de guitarras (Matt e Beaulieu) e a devastação baterística de Alex Bent dão uma vida irresistível ao que poderia bem ser um Pop Metal aguado em outras mãos. E a ótima performance do quarteto (somem-se aos citados, o baixista e fundador Paolo Gregoletto), essa é uma constante na bolachinha.  A, e qualquer tentativa restante de comparação entre o novo material e Silence cai definitivamente por terra após a trauletada Amongst The Shadows & The Stones.


Na verdade, ao invés de repetir a fórmula do bem-sucedido disco anterior, aqui o Trivium optou por mesclar as facetas que já haviam aparecido em trabalhos mais recentes. As quase radiofônicas Bleed Into Me e The Defiant não ficariam estranhas, por exemplo, em Vengeance Falls. Assim como Sickness Unto You tem a caruncha de The Sin And The Sentence.


Ponto extra para a produção e banda por optarem em manter a duração do CD abaixo dos 50 minutos, fazendo com que What The Dead Men Say não deixe a peteca cair por um minuto sequer. Um dos discos mais equilibrados da carreira do Trivium, e olha que a banda já tem outro prontinho para sair. Que mantenham a boa fase! (NOTA: 9,08)

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Gravadora: Roadrunner Records (importado)

Prós: uma mistura das várias facetas da banda

Contras: nada a declarar

Classifique como: Heavy Metal, Metalcore

Para Fãs de: Killswitch Engage, Soilwork

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Lords Of Black – Alchemy Of Souls – Part I (CD-2020)

 


Spanish Castle Magic

Por Trevas

Com uma carreira relativamente curta, apenas 6 anos desde sua formação, a banda espanhola Lords Of Black ganhou atenção extra quando seu vocalista, o chileno Ronnie Romero foi anunciado como nova voz do lendário Rainbow. Com dois ótimos álbuns nas costas, o quinteto, liderado pelo guitarrista Tony Hernando, tinha tudo para capitalizar em cima disso com seu terceiro disco, Icons Of The New Days. Mas tão logo o trabalho ganhou as lojas, a saída de Ronnie, então disputado à tapa por dezenas de projetos musicais, fora anunciada. Tony tentou seguir em frente, escolhendo o argentino Diego Valdez para o posto, mas as coisas não vingaram. Já com o novo disco composto, de alguma maneira que talvez nunca saibamos ao certo, Hernando convenceu Ronnie a retornar e gravar esse Alchemy Of Souls, primeira parte de dois trabalhos cujo conceito das letras passa pela eterna luta que cada um de nós trava entre o bem e o mal.

Señores de La Negritud, 2020

E a nova bolachinha começa muito bem, obrigado. Com aquele enfoque moderno num Metal que vaga entre o tradicional e o Power, e ótima produção por parte de Hernando (com mixagem e masterização nas mãos de Roland Grapow), Dying To Live Again seria o tipo de faixa que se esperaria de Axel Rudi Pell, se ele resolvesse sair um passo que fosse da caixinha. É bom ouvir a voz de Ronnie Romero, e concordo com o patrão dele: ele soa melhor aqui do que em qualquer outro dos 789 projetos em que tem cantado atualmente.



Into the Black mantém a toada, com Ronnie dividindo os holofotes com a guitarra encorpada de Tony (que também responde pelos teclados climáticos), e a cozinha precisa de Dani Criado e Jo Nunez. Tony escreveu todas as canções e letras, com algumas parcas contribuições nessas últimas pelas mãos de Valdez, o breve vocalista substituto. E, a despeito do que o estilo e arte gráfica indicam, a temática raramente esbarra na fantasia, centrada bem mais em questões pessoais e do mundo atual. Letras bacanas, por sinal.


Deliverance Lost flerta com o Power Metal mais clichê, se salvando da mediocridade mais pela voz do chileno.  Já a excelente Sacrifice destaca o baixo de Criado, evocando o clima algo dark dos dois primeiros discos, o que se repete em Brightest Star.


Closer To Your Fall tem um quê de Prog Metal, mas de uma maneira interessante. A partir daí temos um final que se mantém bacana, mas sem nenhum destaque absoluto. O que não diminui nem um pouco o brilho de mais um capítulo de qualidade dessa jovem banda que já impressiona pela regularidade. Recomendo. (NOTA;8,64)


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Gravadora: Hellion Records (nacional)

Prós: Ronnie Romero e Tony Hernando fazem uma dupla e tanto

Contras: podia ser umas duas músicas mais curto

Classifique como: Heavy Metal

Para Fãs de: Rainbow, Dio


sábado, 16 de janeiro de 2021

Phil Campbell and the Bastard Sons – We’re The Bastards (CD-2020)

Bastardos Gloriosos

Por Trevas

Quando Lemmy Kilmister partiu desse plano, o mundo da música pesada sofreu um baque imenso. E nem precisa dizer o quanto a morte do patrão e amigo desmontou o universo de seus parceiros de longa data, Mickey Dee e Phil Campbell. Mickey logo encontraria asilo nos titãs teutônicos do Scorpions, mas Phil escolheria um caminho bem diferente para se manter ativo: um disco solo que demorou mais que obra de igreja e, em paralelo, uma banda que permitisse tocar com seus três filhos: Todd (guitarras, gaita), Dane (bateria) e Tyla (baixo). Com o amigo dos garotos, Neil Starr (Attack! Attack!), assumindo os vocais, surge finalmente o quinteto galês Phil Campbell and the Bastard Sons. O que Phil não previa é que rapidamente a demanda pela banda cresceria ao ponto de tocarem em destaque nos festivais de verão europeu, além de turnês abrindo para Saxon, Guns & Roses, Hawkwind e Airbourne. We’re The Bastards é o segundo full length da banda, dessa vez produzido por Todd Campbell. Vamos ao som...

Tio Phil ensinando aos moleques as regras de etiqueta de Lemmy


E logo de cara temos a faixa título, feita sob medida para o ambiente ao vivo. Grudenta, mostra um Rock ao mesmo tempo vigoroso, simples e com uma pegada atual. A produção é caprichada e também se vale dos elementos clássicos, misturados ao Rock moderno, como na gaita na viciante Born To Roam, um Southern Rock que bem poderia estar no hoje incensado disco do Pride & Glory.



A mistura de elementos nunca se faz de modo gratuito por aqui. E, embora definitivamente esse projeto passe longe do legado do Motörhead, temos aqui e acolá números que tem um pouco da essência da banda do saudoso Tio Crocotó, como Son Of A Gun, Animals e, em especial, a virulenta paulada Punk Rocker que leva o nome sugestivo de Destroyed (co-escrita por Harley Flanagan, do Cro-Mags, que também dá uma palhinha).


Falando das performances individuais, Phil e Todd detonam em ótimos riffs e solos, e a cozinha de Tyla e Dane vai muito além do meramente funcional. A turminha talentosa se estende para além do DNA, Starr é um vocalista muito bom, ainda que por vezes me soe muito Poppy Punk, que é seu background na cena galesa. Mas além das melodias bem boladas o cara também tem a manha de escrever letras bem acima da média.

As 13 músicas do repertório oficial da bolachinha são todas pelo menos legais, encerrando com um dos destaques, a bela Power balada Waves, que demonstra ainda mais a versatilidade do quinteto. A edição nacional, pelas mãos da Shinigami, ainda conta com 4 faixas gravadas ao vivo, com boa qualidade, mostrando que a patota funciona bem nos palcos. A última dessas faixas bônus é nada mais nada menos que uma releitura para Rock’n’Roll, do Motörhead, uma ode ao estilo musical mais amado do planeta. E que resume bem o espírito de We’re the Bastards: é apenas Rock, mas se Rock And Roll é tudo que nos resta, até que a coisa não pode ser tão ruim assim. Um disco surpreendentemente divertido! (NOTA: 9,00)

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Gravadora: Shinigami Records (nacional)

Prós: ótimo rock misturando o clássico com o moderno

Contras: o disco é um pouco longo, embora não pareça

Classifique como: Rock ‘n’ Roll

Para Fãs de: AC/DC, Airbourne, Black Stone Cherry


Testament – Titans Of Creation (CD-2020)


 

Thrash Metal Titânico

Por Trevas

Após o arregaço que foi Dark Roots Of Earth, os incansáveis veteranos do Testament passaram por um período turbulento, onde até mesmo o futuro da banda foi posto em xeque. O momento conturbado acabou por gerar Brotherhood Of the Snake, que até passa longe de ser um disco ruim, mas que também refletia a falta de direcionamento, comunicação e motivação que contagiou o quinteto. Para nossa sorte, os rapazes acertaram os ponteiros e deixaram o descontentamento com o disco anterior de lado, demonstrando sua animação renovada nas muitas entrevistas que antecederam o lançamento de Titans Of Creation, projetado para ser um disco mais melódico, mas não menos feroz do que o habitual.

Amiguinhos de novo? Testament, 2020

E a pancadaria começa muito bem com a apoteótica Children Of The Next Level, com sua letra que relembra o caso da seita baseada em Ufologia Heaven’s Gate, que cometeu suicídio coletivo em 1997. Uma paulada com estrutura Old School, tal qual WWIII. A produção, nas mãos de Eric Peterson e Chuck Billy (com auxílio de Juan Urteaga e mixagem por Andy Sneap) é precisa e mescla bem o lado Old School escolhido (em especial na voz de Chuck, soando bastante mais próxima dos anos 1980) com a modernidade. Individualmente, a banda é de longe a mais impressionante da velha guarda do estilo, com destaque para a cozinha absurda de Gene Hoglan e Steve Di Giorgio.


E os fãs da faceta mais clássica do Thrash Metal definitivamente irão se deliciar com a ferocidade de números como Ishtar’s Gate, Symptoms, The Healers, Code Of Hammurabi e City Of Angels. Nenhuma delas faz a menor questão de deixar pescoços incautos intactos. Há espaço até para algo mais próximo do Metal Tradicional, como na excelente Dream Deceiver, que bem poderia estar num dos discos iniciais do Savatage. Fácil, fácil uma das melhores aqui.


Apesar disso, senti um pouco a falta da mistura com Death Metal que a banda se especializou em fazer e que rendeu os já clássicos Dark Roots Of Earth e The Gathering. Ela aparece timidamente na trauletada Curse Of Osiris e em especial na sinistra Night Of the Witch (as duas trazendo Eric dividindo os vocais com Chuck), essa última, o grande destaque de um trabalho que mantém intacta a incapacidade atual do Testament de fazer um disco ruim. Muito bom! (NOTA: 8,90)

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Gravadora: Shinigami Records (nacional)

Prós: ótima produção e ferocidade Old School

Contras: a banda praticamente abandonou as incursões pelo Death Metal

Classifique como: Thrash Metal

Para Fãs de: Megadeth, Overkill, Death Angel


Jorn - Heavy Rock Radio II - Executing the Classics (CD-2020)


 

Festa PLOC Importada

Por Trevas

O norueguês Jorn Lande pode se orgulhar de ser dono de uma das melhores vozes de sua geração. Infelizmente parece não se importar em diluir sua fama alternando alguns poucos discos memoráveis, como Burn The Sun (com o Ark), Dracula (com Trond Holter), The Duke (solo) e o primeiro disco com o Masterplan, com uma miríade de lançamentos para lá de medíocres. Dentro desse espectro pouco animador, se encontram seus lançamentos baseados em covers. E basta dar uma olhada no repertório escolhido (clássicos?) para sentir que não há muita esperança aqui.

Está sorrindo? espere até ouvir meu novo disco...

E não há mesmo. A xaropagem começa com Lonely Nights, do Bryan Adams, ganha contornos trágicos com a péssima Winning (do Russ Ballard, que já ganhou releitura pelas mãos do Santana). Você sabe que o treco é azedo quando algo que o Don Henley(do chatíssimo Eagles) escreveu melhora o clima. É o caso com New York Minute.


A mediocridade retorna com a manjada (e modorrenta) Needles And Pins (originalmente do The Searchers) e se repete com versões burocráticas para as já nada atraentes Quinn The Eskimo (Manfred Mann’s Earth Band), Nightlife (Foreigner) e The Rythm Of The Heat (Peter Gabriel). Parece a banda de um amigo qualquer tocando no barzinho o que há de pior nas rádios especializadas em músicas de consultório de dentista. Mas dá para ficar pior: I Do Believe In You (The Pages) e Bad Attitude (simplesmente uma das piores músicas do pior disco do Deep Purple) são de cair os cabelos do saco. Para salvar a bolachinha do desastre, temos boas rendições para Love, do Santana e Mistery, do Dio. Mas nada que tire a impressão de ressaca após uma festa PLOC bem muquirana. Recomendado apenas aos (malucos) aficionados por trilha sonora de filme de sessão da tarde nos anos 1980. Se não for o caso, passe longe! (NOTA: 5,54)

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Gravadora: Frontiers Records (importado)

Prós: é bem produzido e Jorn tem a voz de sempre

Contras: parece uma daquelas rádios pavorosas que se escuta no dentista

Classifique como: Hard Rock?

Para Fãs de: Música de elevador e porcarias afins...

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ozzy Osbourne – Ordinary Man (CD-2020)


Renascendo das Trevas

Por Trevas

Passando por uma sequência de problemas de saúde nos últimos anos, Ozzy parecia fadado a rumar para um melancólico, e dessa vez, involuntário, fim de uma longa carreira. Até que um acaso do destino mudou severamente o rumo dos acontecimentos. Andrew Watt, guitarrista que participou do breve projeto Retro Rocker California Breed, com Glenn Hughes, se tornou um dos produtores e compositores do momento no mundo da música Pop (emplacando Hits no topo das paradas com gente do naipe de Shawn Mendes e Camila Cabello). Seu novo desafio, um trabalho do Rapper do momento, um tal Post Malone. Durante a pré-produção, Andrew descobre que Malone divide em comum com ele o amor pela música de Ozzy. A dupla viaja que uma das novas canções bem poderia ter participação do Príncipe das Trevas. E então Watt esbarra com Kelly Osbourne em uma festa e combina de enviar a música para ela. Kelly bota a música para o papai dodói das ideias escutar, e o velho pira com o som. E Ozzy topa gravar uma participação. Mas ninguém imaginou no que isso renderia...

Ozzy & Watt

Take What You Want simplesmente se tornou a primeira música a trazer Ozzy a aparecer no Top 10 da Billboard em nada menos que 30 anos. Foi a deixa para Sharon farejar uma mina de ouro ali, some-se a isso a empolgação do marido em gravar novamente, e temos Andrew Watt como novo parceiro do comedor de morcegos favorito dos fãs de metal. Como é típico de produções do mundo Pop, a lista de músicos que participaram das gravações é extensa. Alguns deles, nomes conhecidos, como Slash, Chad Smith, Elton John, Duff McKagan e Tom Morello. Mas à época, ficou em aberto qual o direcionamento que a bolachinha seguiria. Teria Ozzy virado Rapper

Watt & Ozzy

Straight To Hell começa muitíssimo bem, com um riff totalmente Black Sabbath, apesar da desnecessária referência “All Right Now” ser a primeira coisa que sai da boca do príncipe das Trevas. A produção tem aquela pegada moderna, mas com menos quantidade daqueles efeitos na voz que Ozzy vinha usando já tinha alguns discos. Slash faz um solo bem bacaninha aqui, e dá para dizer que se trata de uma das aberturas mais promissoras de um disco do vocalista em muito tempo. A segunda faixa é uma balada, a bonitinha All My Life, e aqui já fica claro o teor autobiográfico do disco. Para quem reclamou da falta de um Guitar Hero na bolachinha, ouça o inspirado solo final, por Watt


Goodbye segue com mais uma referência ao passado Sabbathico de Ozzy, um metal grooveado com aquela aura Pop que o vocalista sempre imprimiu em seus trabalhos solo. A faixa título, uma baladinha à lá Beatles, traz lado a lado dois ícones imortais da história da música: Ozzy e Elton John. O resultado fica melhor no clipe, mas ainda assim funciona melhor que a média das melecosidades habituais do Príncipe das Trevas. Ah, e tem novamente Slash no solo.


Aí chegamos à cereja do bolo, Under The Graveyard é daquelas faixas que já nascem clássicas, mais uma que poderia bem figurar nos discos icônicos do vocalista, e se existirão turnês futuras, certamente ela estará no repertório. Falei em passado? Eat Me traz Ozzy na gaita, baixo pulsante e Riff encardido. Lembra aquelas coisas bacanudas do Alice Cooper da era Hey Stoopid (o que também a coloca numa pegada similar à encontrada em No More Tears, se pensarmos bem).


Today Is The End é outra grata surpresa, e certamente teria alta rotatividade nas rádios em décadas anteriores. Scary Little Green Man traz Tom Morello e um refrão grudento em uma faixa legal, mas que deixa a impressão de que poderia ter rendido mais. 


Holy For Tonight é mais uma balada, dessa vez não tão bonita, e que não fosse a produção moderna, bem poderia ter sido composta no início dos anos 1970. E aí entra o momento de desespero para os puristas: Post Malone divide os holofotes com Ozzy no suposto encerramento com a divertida e acelerada It’s A Raid. Mas a despeito de constar como Bonus Track, a já citada Take What You Want aparece em absolutamente todas as edições do disco, então de fato é ela que fecha o disco. Mas, a despeito de soar algo deslocada, não há nada que envergonhe aqui, se trata de um Pop caprichado com bela melodia.

Ozzy fez a escolha certa ao variar suas parcerias de composição (isso se acreditarmos que ele compõe algo), pois tudo aqui soa numa pegada bem mais interessante e viva que todo seu material pós No More Tears. E se o tom algo melancólico e autobiográfico indica um suposto fim de jornada, ela se dará em bom nível. Um disco que certamente ganhará mais admiradores no futuro, quando a troozice dos "fãs" amansar. Surpreendentemente legal. (NOTA:8,51)

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Gravadora: Sony Records (importado)

Prós: canções legais que fazem referência ao passado do Príncipe das Trevas

Contras: mais de uma balada no mesmo disco sempre incomoda

Classifique como: Heavy Metal, Hard Rock

Para Fãs de: Black Sabbath, Alice Cooper


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Benediction – Scriptures (CD-2020)


 

Bendito Retorno

Por Trevas

Um dos baluartes do Death Metal britânico, o Benediction aprontou para 2020 um retorno duplamente triunfante: não só a banda enfim lançava um disco de estúdio após longo hiato (12 anos), como também o fez trazendo de volta o vocalista Dave Ingram, ausente do posto desde o distante ano de 1998. Obviamente a soma desses dois fatores trouxe uma carga de expectativa ainda maior para a bolachinha, que conta com produção de Scott Atkins (Sylosis, Cradle Of Filth, Gamma Bomb, Amon Amarth) e da própria banda.

A voz continua a mesma, mas os cabelos...

Os doze anos passados cobraram seu preço, mas de uma maneira positiva. Iterations of I é o pé na porta que mostra o Benediction atual. Produção cristalina e moderna, mas com punch incrível e respeitando o legado dos britânicos. Darren Brooks e Peter Rew continuam com suas guitarras à lá serrote, desfilando riff atrás de riff, enquanto a cozinha recente formada por Dan Bate (baixo) e Giovanni Durst (bateria) não deixa pedra sobre pedra.


Ah, e Ingram, esse é o Cookie Monster padrão, em toda sua glória e esplendor. Mas talvez seu gutural seco seja o único óbice para que sons como Scriptures In Scarlet, The Crooked Man e Stormcrow não possam ser apreciados por fãs de Metal em geral. Sim, instrumentalmente o Death Metal em sua forma mais tradicional praticado pela banda ainda soa vigoroso, mas hoje em dia até os grupos mais mainstream se utilizam de elementos do estilo, então o Benediction definitivamente não pode ser tratado mais como algo tão extremo assim.


O que é não é demérito algum, em absoluto. O que importa é que temos aqui uma sucessão de faixas, majoritariamente midtempo, que devem fazer a alegria dos fãs antigos, a despeito da cara mais polida. E temos inclusive alguns números com letras originalmente escritas pelo ex-vocalista Dave Hunt. Mostrando que a força do material em parte pode ser explicada pelo hiato de 12 anos, que deu chance ao quinteto de compilar seu melhor material, gerando os 12 petardos que fizeram desse Scriptures um dos destaques do ano passado, a despeito de uma segunda metade ligeiramente menos impressionante. Um ótimo comeback! (NOTA: 8,88)

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Gravadora: Shinigami Records (nacional)

Prós: Death Metal direto e sem frescuras, com produção atualizada

Contras: pode soar polido demais para os fãs mais podrões

Classifique como: Death Metal

Para Fãs de: Bolt Thrower, Memoriam



Dark Tranquillity – Moment (CD-2020)


 

Ao Som Do Apocalipse

Por Trevas

Um dos nomes da tríade sagrada do Gothenburg Sound, o movimento que consolidou o Melodic Death Metal como um dos expoentes da cena pesada na década de 1990, o Dark Tranquillity chega ao seu 12º trabalho de estúdio em meio a muitas mudanças. Antes considerados músicos de apoio nos shows, a dupla de guitarristas Johan Reinholdz e Christopher Amott agora assumem como membros efetivos, e já chegaram ocasionando mudanças na forma de compor do sexteto sueco. Segundo o vocalista Mikael Stanne, as ideias básicas de Moment já estavam prontas antes da pandemia, mas o tempo ocioso (lembramos que a Suécia não adotou o lockdown a princípio) fez com que as canções fossem retrabalhadas, em especial por um proativo Reinholdz, ao ponto da banda ter que colocar um freio nas modificações propostas pelo guitarrista, para que o disco não perdesse a cara do Dark Tranquillity. Um meio termo foi encontrado, mas definitivamente Reinholdz se firmou como a mola mestra criativa aqui, deixando o tecladista (e usual compositor principal) Martin Brändström, mais focado na produção da bolachinha. E o resultado não poderia ter ficado melhor.

Cara de pandemia ou feiura habitual?

De cara Phantom Days mostra uma sonoridade forte e algo espacial, com o equilíbrio perfeito entre o instrumental e a voz encardida de Stanne, que reescreveu as letras todas para casar melhor com o mundo pandêmico. A presença de Amott, distante do processo criativo, adicionou belos solos à mistura, por vezes divididos com Reinholdz. A aura “espacial” citada aparece mais marcadamente na excelente Transient, que nos transporta para a era de ouro do Melodic Death Metal, assim como a matadora Identical to None, que sobreviveria bem como destaque no melhor dos discos do Arch Enemy.


Mikael Stanne balanceou bastante bem seus vocais urrados característicos com as vocalizações limpas, que em tempos passados tanto geraram reclamações por parte dos fãs. The Dark Unbroken, a viajante Remain In The Unknown, a grudenta Standstill e o encerramento com a bela In Truth Divided colocam toques de Synth Pop e Gothic Rock oitentistas no caldeirão, com grande êxito.


O disco é redondíssimo, não tendo em absoluto nenhum ponto baixo, e segundo Stanne, representa um refinamento do caminho seguido no trabalho anterior. E ainda que possa soar mais melódico do que alguns fãs esperariam, difícil não se empolgar com números como Ego Deception e Eyes Of The World, essa última, uma das canções mais bacanudas de 2020. Aos mais afeitos aos momentos mais “puros”, temos belezuras do porte de Failstate e Empires Lost To Time para alegrar os tímpanos mais agressivos.


Um dos raros discos majoritariamente compostos nesse “ano perdido”, se Moment representa criativamente o caminho que o Dark Tranquillity seguirá, só podemos ficar esperançosos. Um dos melhores discos do ano passado! (NOTA: 10,00)

Visite o The Metal Club

Gravadora: Nuclear Music/Omnia Records (nacional)

Prós: Tudo o que se pode esperar de um trabalho clássico do Melodic Death Metal

Contras: pode soar melodioso demais a ouvidos mais agressivos

Classifique como: Melodic Death Metal

Para Fãs de: In Flames, Soilwork