segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Twisted Sister – Metal Meltdown Live! (Box Set – BluRay + DVD + Cd – 2016)

Twisted Sister - Metal Meltdown
Acorda Las Vegas!!!!
Por Trevas

Prólogo – One More For A.J. Pero!
Gravado em 30 de maio de 2015, o presente show pode ser considerado um evento único por dois motivos: 1. Foi o primeiro show da série Metal Meltdown, evento que passou a ser realizado esporadicamente no Hard Rock Casino de Las Vegas, patrocinado por uma rádio estadunidense; 2. O evento foi realizado em homenagem ao eterno baterista da banda, AJ Pero, falecido apenas dois meses antes.

O saudoso AJ mãos de marreta!
Para o lugar de A.J. Pero, os sick motherfuckers recrutaram nada mais nada menos que o megalomaníaco, prolífico e ultra talentoso Mike Portnoy (Dream Theater, Adrenaline Mob, Avenged Sevenfold, Transatlantic e mais de um milhão de projetos efêmeros). Aliás, a título de curiosidade, A.J. havia substituído Portnoy no Adrenaline Mob e foi o próprio Mike quem se ofereceu para retribuir a sucessão do amigo no Twisted Sister. Essa união improvável, por si só já seria motivo de dar uma checada nesse ao vivo.

Apresentação

O pacote, contando com um Blu Ray, um DVD e um Cd vem encartado em um Digipack com três miolos separados de acrílico para os respectivos discos. À parte das fotos e do repertório do show expostos na capa e contracapa, não há encarte, e ficamos sem ter maiores informações sobre o produto. Na verdade, um pequenino selo na embalagem externa é quem dá a dica, avisando “Live Concert+Rock Documentary+Concert Album”. De positivo, o design é bacana e o valor do pacote é bastante acessível lá fora. De estranho, um fato que vem se repetindo direto nos pacotes do tipo – o conteúdo do BD e DVD são exatamente o mesmo! A diferença residindo apenas na resolução. Não entendo essa estratégia, mas é bastante comum.

O box aberto - parte superior representa a face interna, a inferior a capa e contracapas 
Imagem e Som
Imagem e som cristalinos e edição bastante comportada, ainda que bastante funcional, que lembra muito mais a de uma transmissão de televisão ao vivo do que propriamente a gravação de um evento para um lançamento especial. A mixagem é bacana tanto no show em BD quanto em Cd, e se você escuta uma plateia tímida na mesma, já te digo que isso pouco ou nada tem a ver com quem fez a pós produção.


O Show
Olhando as 16 faixas que compõe o repertório de cerca de 70 minutos do show, duvido que algum fã do TS tivesse algo a reclamar. Talvez uma ou outra música pudesse estar ali, mas duvido que você abrisse mão de alguma das que foram escolhidas. E cara é absolutamente impressionante a energia de Dee Snider em cima do palco. Aos 60 anos de idade, e físico de garotão, o Jandirão agita como poucos e ostenta um carisma gigantesco. E não bastasse isso, ainda está em um de seus melhores momentos em termos de qualidade vocal da carreira. Excetuando um ou outro grito, pouco podemos diferenciar a performance dele aqui em relação ao mítico Live at Hammersmith, de ...1984!!!!! Ah, e se você pensa em reclamar da total ausência da tradicional maquiagem de palco dos caras, aquela que dá aquele aspecto exótico à banda – esqueça! Eles são tão feios que parecem monstrinhos de CGI.


Mas nem tudo são flores. A banda já não parece tão afiada assim, e em especial alguns dos solos ficaram bem tosquinhos. Ah, e Portnoy, como se saiu? Bom, o cara é um monstro tecnicamente, então não dá para dizer que alguma música dos travecos mais amados do rock representariam um desafio para ele. Mas acho que justamente na tentativa de soar comedido e respeitoso com o legado do mão de marreta Pero, Portnoy acabou soando apenas...meh. Não, não funcionou. Talvez tenha faltado química, ensaio. Não sei. Apenas não funcionou lá muito bem, ainda que em momento algum seja um fator comprometedor do todo.


Mesmo com essas limitações, a energia que a banda emana no palco deveria ser o suficiente para enlouquecer qualquer um.  Mas não. O Casino, longe de lotado (ainda que a edição sabiamente não mostre muito o fundo da plateia), parece habitado por alguma plateia acostumada ao Domingão do Faustão ou partidas de tênis. Quase não se vê gente agitando e poucos braços se levantam com os tradicionais chifrinhos. Vocalmente só percebemos que existe alguém assistindo a banda nos intervalos e quando Dee, macaco velho, instiga a galera.

De quebra, a edição do material ainda nos prega uma peça que quebra ainda mais a energia da apresentação. Entre uma ou outra música somos transportados para entrevistas e cenas do passado, e não há opção de assistirmos a apresentação na íntegra, sem essas interrupções desnecessárias. Esse modelo já fora utilizado antes pela banda no DVD do Wacken, então há um padrão aqui. E pasmem, há interrupção entre uma música e outra no Cd também, cáspite! Um que de fato não me agrada muito, mas fazer o que? Mas se essa ideia não agradou, outra me pareceu bem bacana – em Burn in Hell, um solo de A. J. Pero é transmitido nos telões, representando a tão merecida homenagem.

Extras

Há ainda um documentário de uma hora e meia repleto de entrevistas e cenas de bastidores. Bem bacana, até por que Dee é um fanfarrão de mão cheia, uma espécie de Renato Gaúcho do rock e solta uma bravata atrás da outra, com senso de humor ácido que não perdoa nada nem ninguém. Jay Jay é outro figuraça e ouvir ele falando também vale a pena. O documentário tem boa edição e é bem legal. Uma pena que seu conteúdo acabe por não ter tanto impacto assim, já que o bastante elogiado filme We Are Twisted Fucking Sister meio que esgota tudo o que precisaríamos saber sobre a banda. Detalhe, o material não possui legendas.

Saldo Final

Metal Meltdown é um ao vivo que alterna boas ideias com outras nem tão bacanas assim. Entre altos e baixos, ainda é um material que há de divertir bastante. Mas, infelizmente, passa longe de ser o documento definitivo em vídeo de uma das melhores bandas ao vivo da história do rock.

NOTA: 7,50

Pontos positivos: Ótima imagem e som, Dee chutando bundas
Pontos negativos: as interrupções no show e a plateia apática.
Para fãs de: Lizzy Borden, Alice Cooper
Classifique como: Hard Rock, Heavy metal 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dio – A Decade of Dio: 1983-1993 (Box Set – 2016)

A Decade of Dio
A importância de Ronnie James Dio para a história do rock pesado já seria imensa mesmo se o pequeno estadunidense tivesse gravado apenas Rising (com o Rainbow) e Heaven & Hell (com o Black Sabbath). Para nossa sorte, além e outros discos com as bandas citadas, Ronnie gravou um punhado de pérolas em sua banda solo. E se a força de Dio, a banda, acabou diluída para a nova geração pela sequência de trabalhos pouco inspirados lançados a partir de 1996, esse recém editado Box Set, contando os 6 discos que o gnomo gravou entre 1983-1993 (sob contrato com a Warner), vem para mostrar para a garotada que o cara já teve uma carreira que rivalizava com a dos grandes nomes da época. Afinal, foram 10 milhões de discos vendidos nem estilo pouco afeito ao mainstream. Para os já iniciados, o Box Set tem também sua serventia, já que traz os respectivos trabalhos remasterizados pela primeira vez para Cd. Como de praxe, a resenha irá avaliar a apresentação do Box Set e seu conteúdo musical em separado.

O pequeno grande Dio
Apresentação

O Box Set foi pensado como um pacote econômico contando com os seis discos do Dio enquanto artista contratado da Warner. Ou seja, não foi nem de longe projetado com os requintes necessários para satisfazer os colecionadores de edições especiais. Na prática temos um estojo de papelão, altamente suscetível a danos, com arte gráfica inédita de Marc Sasso (artista de longa parceria com Ronnie e sua trupe). Dentro, os seis “Mini Lps”. Ao contrário de box sets como o do Bruce Springsteen e do Blue Öyster Cult, os “Mini Lps” não são nada luxuosos, resumidos às capinhas de papelão bem tosquinhas e estreitas com encartes simulando os originais, o que não ajuda em muito, já que os encartes dos vinis originais eram bem fraquinhos. Não há a sacada do envelopinho plástico do vinil, o que ajudaria a proteger os Cds. Ou seja, espere por arranhões no tira e bota da embalagem. Ah, e as capinhas são tão estreitas que indicam também que seus “encartes” ficarão danificados bem rapidamente. Fora isso, outra bola fora é a total ausência de ficha técnica ou livreto no Box. Para não dizer que a apresentação do pacote é um total desastre, há de ser justo em verificar que a impressão das artes de capa estão em resolução muito melhor que as edições em Cd originais. Além de que, os Cds em si são printados em réplicas dos miolos das respectivas edições em vinil.

Apresentação da edição em Cd do Box
Conteúdo Musical



Holy Diver

Holy Diver (1983) é um clássico impecável, e mesmo sua faixa mais “fraca” (Invisible), não faria feio frente à boa parte do material de qualquer banda de Heavy Metal do primeiro escalão da época. Aqui temos Don’t talk to Strangers, Straight Through the Heart, Gypsy, Shame on the Night, Stand up And Shout, Caught in the Middle, a faixa título e a famosíssima – e desfavorita do patrão – Rainbow in the Dark. Parece até uma coletânea de tanta coisa foda! Não à toa, é de longe o maior sucesso comercial do gnomo em sua fase solo. A versão remasterizada deu um belo brilho a um material que já era perfeito em sua prensagem original (NOTA:10).



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The Last In Line
Holy Diver é um disco quase impossível de ser superado, mas temos que admitir que seu sucessor, The Last In Line (1984) chegou bem perto de iguala-lo. Seja na fúria de We Rock e I Speed At Night, seja na veia épica de Egypt e da faixa título, o material aqui é todo da melhor qualidade. Mystery, com sua pegada mais Hard, já indicava o caminho que a banda seguiria no disco seguinte. Novamente, mais um belo trabalho de remasterização (NOTA: 9,43).

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Sacred Heart
Sacred Heart (1985), o derradeiro rebento da formação clássica do Dio, já sofria com alguma inconstância. O “lado A” era quase perfeito, com a feroz King of Rock and Roll, seguida pela épica faixa título, Another Lie (reminiscente do disco anterior em sonoridade) e a pop e inspirada Rock n Roll Children. Mas o “lado B” já não impressionava tanto assim, Hungry for Heaven parecia música de filme de sessão da tarde, Like the Beat of a Heart e Just Another Day também se salvavam como coadjuvantes interessantes, mas Fallen Angels e Shoot Shoot, apresentadas em seguida, marcavam a primeira vez que os fãs esbarravam com composições bem abaixo da média contando com a voz do mestre. Infelizmente o trabalho de remasterização não se mostrou lá muito generoso com Sacred Heart, que soa apenas mais alto no mix do que na primeira prensagem (NOTA: 8,55).




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Dream Evil
A conturbada saída de Vivian Campbell foi um baque para a banda e fãs. Para seu lugar foi chamado Craig Goldy, cujo trabalho Ronnie conhecia de quando produzira algumas demos do Rough Cutt. Com sonoridade mais sombria e produção mais caprichada que o disco anterior, Dream Evil (1987) pode ser pouco lembrado fora do círculo de fãs do Dio, mas é um puta disco de Hard/Heavy. Night People, Sunset Superman, Naked in the Rain e Faces in the Window são muito boas. E All the Fools Sailed Away é um dos mais belos exemplares épicos do Dio. Confesso que I Could Have Been A Dreamer pode soar um bocado xarope para os não tão afeitos ao hard Rock, mas mesmo assim considero Dream Evil um dos grandes trabalhos do gnomo. Ah, a prensagem original em Cd já trazia um bom som, mas a remasterizada faz toda a diferença aqui (NOTA: 9,00).



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Lock Up The Wolves
O problema quando você lança de cara um trabalho bem-sucedido tanto comercialmente como artisticamente, é que passam a medir tudo o que você faz utilizando como comparativo essa obra. E a paulatina queda de vendas dos discos do Dio começou a gerar uma série de problemas. A gravadora já não colocava a banda como prioridade e as discussões sobre dinheiro foram se tornando cada vez mais complicadas. Em 1989, Ronnie viu-se abandonado pelos companheiros de longa data, sendo obrigado a remontar sua banda. Para o posto de baterista, Simon Wright foi chamado. Para os teclados, Jens Johansson. Para o baixo, Teddy Cook. E nas guitarras, um então promissor jovem inglês de 18 anos, Rowan Robertson. Lock up the Wolves (1990) abre de maneira igualmente promissora com a veloz Wild One, seguida da boa Born on the Sun. Uma pena que daí para frente, tudo soe bastante medíocre, com exceção da clássica faixa título. De longe o mais fraco dos discos contidos na caixinha, Lock up the Wolves ganhou bastante com o trabalho de remasterização (NOTA: 6,88).




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Strange Highways
Após uma curta e traumática tentativa de retorno ao Black Sabbath (que renderia o excelente Dehumanizer), Ronnie voltou suas atenções à banda solo com sangue nos olhos. Tentando seguir o caminho iniciado em Dehumanizer, com uma sonoridade mais moderna e temática calcada em problemas reais, Ronnie chamou para sua banda um guitarrista que se encaixava nessa visão – o então novato Tracy Grijalva, ou simplesmente Tracy G.
Strange Highways (1993) foi um tremendo choque para os fãs do estilo capa-e-espada do baixinho. Era uma época de crise de identidade para o heavy metal, que via sua maldade trevosa e aura perigosa repentinamente sendo taxada de caricata e infantiloide por uma geração que estava sendo alimentada pela sombria e realista cena Grunge. Talvez os fãs tenham se sentido traídos ao ver um de seus baluartes cedendo de alguma forma à estética do “inimigo”.  Mas escutado hoje em dia, fica até difícil entender o drama. Jesus, Mary & the Holy Ghost é uma das faixas mais inventivas e furiosas que Ronnie já cantou. Firehead, Hollywood Black e Blood From A Stone se distanciavam muito mais do material clássico da banda pela forma do que propriamente pelo conteúdo em si. E a faixa título, essa é um demônio Doom de fazer Leif Edling ter uma ereção. E o criticado Tracy G. pode ser uma péssima escolha para interpretar os solos de Vivian e Craig ao vivo, mas mostrava-se um baita guitarrista para o material proposto. Enfim, um disco muito bom, que sofreu muito preconceito devido ao timing de seu lançamento e que soa ainda melhor na edição remasterizada (NOTA: 8,39).





Saldo Final:
A Decade of Dio traz um legado musical de alta qualidade encapsulado em uma apresentação totalmente Low Budget. Seu baixo custo lá fora faz do pacote um tremendo doce de coco para aqueles que porventura queiram começar a sua coleção do zero. Para os muitos fãs de carteirinha, que já tem os discos, já há um problema. A remasterização certamente seria o chamariz, mas a falta de capricho na apresentação do pacote vai fazer muita gente desistir de renovar sua coleção. Ao menos um livreto que fosse deveria ter sido incluído. E não estou nem entrando no mérito da absoluta ausência de material inédito. Enfim, um Box Set ruim como item de colecionador, mas bom em seu conteúdo musical. Dio merecia mais.






















sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Rival Sons – Hollow Bones (Cd-2016)

Rival Sons - Hollow Bones
That 70’s Show
Por Trevas

Após o sucesso de Great Western Walkyrie, um dos melhores discos de 2014 (resenha da Cripta), os californianos do Rival Sons passaram a figurar em tudo o que é festival e premiação ao redor do globo. Em uma delas, mais especificamente no evento de melhores do ano da revista inglesa Classic Rock Magazine, sua curta apresentação gerou elogios efusivos da nata do rock britânico presente na premiação. Uma figura em especial fez questão e parabenizar a banda após o show, com a família à tiracolo. A figura? Um sorridente Ozzy Osbourne. Conversa vai, conversa vem, Ozzy se despede. A banda segue seu projeto ambicioso, o de em pleno 2015 com boa parte da população mundial não mais dando a mínima para Cds, lançar um disco novo por ano, como se fazia no passado cujo som emula à perfeição em seus trabalhos. Mas no meio do caminho havia um... Black Sabbath? Sim, poucas semanas depois da premiação da Classic Rock, os empresários do Black Sabbath fizeram contato, convidando os incrédulos estadunidenses para ser a banda de abertura da última turnê dos maiores baluartes do heavy Metal. E não, o convite não se restringia a uma pequena perna da The End Tour, se estendendo a todas as datas em todos os continentes. Extremamente honrados, os quatro músicos resolveram abandonar a meta do disco anual. Por uma boa causa, claro. Para nossa sorte, havia material suficiente para um novo rebento, Hollow Bones, adornado com a belíssima arte de capa de Martin Wittfooth e lançado aqui no Brasil pela Hellion Records em uma edição em digipack tão cuidadosa quanto à gringa.

Rival Sons 2016
Repetindo a dobradinha com o produtor Dave Cobb, o Rival Sons inaugura a bolachinha com a primeira parte da faixa título, uma pedrada que já pode adentrar os sets da banda sem medo. A sonoridade está mais direta e vigorosa que no versátil disco anterior, com a guitarra de Scott Holiday bem na nossa cara e a cozinha precisa de Michael Miley e David Beste soando extremamente orgânica.


Tied Up (ver vídeo) mantém a toada direta, engrandecida pelo hammond onipresente de Tedd E. Ogreen-Brooks. A sonoridade mais direta não quer dizer nenhuma drástica mudança de direcionamento não. O som dos caras continua sendo aquele retro rock encardido e cheio de detalhes que vem conquistando o mundo disco a disco.



Thundering Voices (ver vídeo) é já de cara uma das melhores faixas que os californianos já confeccionaram, um daqueles hinos que você jura terem sido compostos entre 1968 e 1971. Nela quem nunca ouviu os caras poderá conhecer um dos maiores trunfos da banda: um baita vocalista que atende pelo nome Jay Buchanan. Seja nos vocais mais gritados, seja num simples sussurro, Jay domina nossos ouvidos sobremaneira. Confesso que não lembro de ouvir algum vocalista das últimas duas décadas que capture tanto em timbre quanto em interpretação e estilo a alma dos anos de ouro do rock.



Baby Boy segue a sequência impecável de faixas diretas e grudentas, aparentemente tão simples, mas repletas de detalhes de arranjos que nunca soam over, um mérito de Dave Cobb. Pretty Face diminui ligeiramente a intensidade, aparentemente (não sei se foi intencional) preparando o terreno para a segunda metade do disco, antigamente o lado B do vinil. A partir daí as músicas abandonam o caráter de urgência e apostam mais nas sutilezas. Fade Out é belíssima, um excelente canal para mostrar uma das características que mais salta aos olhos nos shows dos caras, a dinâmica absurda. Jay brilha como nunca em uma de suas melhores performances em estúdio, nesse que pode ser considerado o ponto mais alto do novo trabalho, ornado por um ótimo solo de Scott.


Uma pena que a partir daí a coisa já não funcione tão bem. A rendição para Black Coffee, de Ike e Tina Turner, me soa desnecessária, com aquele tipo de arranjo que andou tornando a audição de alguns dos trabalhos mais recentes do Bonamassa algo enfadonho. A segunda parte de Hollow Bones tenta soar como uma jam Zeppeliana, mas acaba por diluir ótimas ideias vocais e instrumentais em um vai e volta um pouco cansativo, com Mr. Buchanan dando uma exagerada nos Ad Libs. As baladas soul do Rival Sons sempre trilham uma linha tênue entre extrema beleza e uma breguice assustadora, e All That I Want infelizmente acaba por pender mais para a última, encerrando os parcos 37 minutos da bolachinha de forma não tão empolgante.

Saldo Final
Aparentemente fabricado em duas partes bem distintas, Hollow Bones funciona muito melhor quando tenta soar mais direto do que quando tenta transpor as já costumeiras viagens da banda nos palcos para o ambiente de estúdio. Apesar dessa dualidade e de ser claramente inferior a Great Western Walkyrie, trata-se ainda assim de um grande trabalho, que vem coroar o Rival Sons como uma das melhores bandas da atualidade. Que venham os shows com o Black Sabbath!

NOTA: 8,45









Prós:

Composições inspiradas, vocais e instrumental repletos de feeling e referências a bandas do passado.

Contras:
Pode soar como purgante para aqueles que não curtem o rock mais clássico.

Classifique como: Retro-rock, Hard Rock, Blues Rock, Classic Rock


Para Fãs de: Free, Bad Company, The Doors, The Who, Led Zeppelin

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Curtas: Running Wild, Killswitch Engage, Jeff Beck e The Dead Daisies

Running Wild, Killswitch Engage, Jeff beck & The Dead Daisies



Running Wild - Rapid Foray


Running Wild – Rapid Foray (Cd-2016)

A Balada do Pirata Cansado

A banda de Rock’n’Rolf parece aquele bom futebolista que já passou tem muito tempo do seu auge, mas não consegue largar o campo de jogo. Após alguns discos bem ruins, Rapid Foray vem com a promessa de que ainda há inspiração nesses velhos piratas. Black Skies, Red Flag parece querer mostrar que a banda ainda pode soar como nos velhos tempos. Quase consegue, mas fica claro que Rock’n’Rolf está com a voz bem gasta, parecendo que vai falhar a qualquer momento. Warmongers é a típica faixa anos 1990 mediana dos alemães. Stick to Your Guns traz uma veia AC/DC e Rapid Foray é divertida e puxa para o lado do Hard Rock. Black Bart faz justiça aos clássicos e certamente é o melhor exemplar do novo disco.


Os Riffs e solos da maior parte do material aqui são legais, mas deixam a gente com a certeza de que ouvimos tudo isso antes, e com maior ferocidade e velocidade, vide as burocráticas Hellectrifried, the Depht of the Sea e Into the West. Mas me daria por satisfeito se esse fosse o único problema, infelizmente há uma porcaria na bolachinha, a absolutamente intragável By the Blood In Your Heart. Há também uma tentativa infrutífera em criar um novo épico marcante, sob a forma de Last Of The Mohicans, uma faixa até bacana, mas que apresenta muito pouco que justifique ser esticada até onze minutos de duração (seria efeito da síndrome de Iron Maiden?). Enfim, Rapid Foray é bem melhor que Shadowmaker ou Resilient, mas nem de longe pode ser comparado aos melhores trabalhos do Running Wild. Um bom momento para pendurar as chuteiras em definitivo, Rolf!

NOTA: 7,17

Pontos positivos: alguns bons riffs, solos e refrães
Pontos negativos: não traz nada de novo e a banda parece repetir o passado, com a voz de Rock’n’Rolf soando cansada
Para fãs de: Rage
Classifique como: Heavy Metal Tradicional, Power Metal Europeu 

Pirata Velho ainda faz música boa?
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Killswitch Engage - Incarnate
Killswitch Engage – Incarnate (Cd-2016)

Mantendo a Boa Forma

Após um surpreendente retorno com o vocalista Jesse Leach no apoteótico Disarm The Descent, me parecia óbvio que o próximo passo do KsE corria o perigo de empalidecer numa comparação com seu possível melhor trabalho. Bom, dito e feito, minhas primeiras audições de Incarnate apontaram para um leve sentimento de decepção. Bobagem. O disco é muito bom, apenas não tem em cada uma de suas músicas aquela estampa de “novo clássico” que o Cd anterior e The End of Heartache traziam.


Mas dentro da qualidade bem homogênea do material, impossível não destacar o single Hate By Design (ver vídeo), a grudenta dobradinha Until the Day e It Falls On Me, e principalmente a mais diferente de todo o disco, a excelente Embrace the Journey...Unpraised. A produção continua afiada, assim como todos os músicos. Jesse parece mais solto aqui, talvez não mais preocupado em provar sua capacidade em comparação a um vocalista naturalmente mais talentoso (o monstro Howard Jones). Talvez por isso sua performance aqui seja menos impressionante que em Disarm, mas nada que prejudique nem um pouco o disco. Talvez Incarnate nunca se torne um disco de cabeceira para os fãs da banda, mas duvido que tenha desagradado a algum deles.

NOTA: 8,68

Pontos positivos: musicalidade impecável, refrães bacanas
Pontos negativos: nada a destacar, faltou só um pouquinho para considerar o disco perfeito
Para fãs de: Bullet for My Valentine, Soilwork, Shadows Fall, Devil You Know
Classifique como: Metalcore, Melodic Death Metal

KsE 2016
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Jeff Beck - Loud Hailer
Jeff Beck – Loud Hailer (Cd-2016)

Conspiração Guitarrística da Terceira Idade

Da letra declamada em The Revolution Will Be Televised, passando pelo Blues Rock eletrificado e moderno de Live In The Dark e pela bela balada Bluesy Scared For the Children, apenas uma coisa se faz constante, a magia das seis cordas de Jeff, que reitera ser um dos maiores expoentes do instrumento em todos os tempos. Loud Hailer, décimo primeiro disco solo do lendário setentão, mostra que idade não é sinônimo de acomodação criativa – aqui, Beck adota como parceiras Carmen Vandenberg e Rosie Bones, que formam o duo britânico de Blues Rock moderno Bones. Bones, a cantora, tem uma voz meio encardida que causará estranhamento a alguns. Mas seu feeling e capacidade de interpretação caem como uma luva no material cáustico da bolachinha.


Mas não é só na aposta na ala feminina do rock moderno britânico que jaz a ousadia de Beck, não. Loud Hailer é um disco duplamente conceitual: primeiramente, trata-se de um disco de protesto, repleto de letras sarcásticas com críticas políticas e sociais. Segundo, embora não gire 100% em cima do tema, boa parte das letras faz referência à teoria conspiratória de que o 11 de setembro não passou de um embuste criado pelo governo estadunidense em pareceria com o britânico para justificar ações bélicas que na verdade tinham como intuito a corrida pelo petróleo. Esse é um assunto que delicia o velho Jeff sobremaneira. E é um assunto para lá de espinhoso para um senhor dessa idade soltar num disco lançado por majors ao redor do globo. Ponto pro véio.

Tia Jeff  trouxe suas novas amiguinhas para o chá das cinco (Rosie com um "Loud Hailer" nas mãos)
Musicalmente, os 45 minutos de Loud Hailer soam revigorantes, com um blues rock repleto de eletrônica e sujeira intercalando com algumas baladas bonitas. Quase todas as faixas funcionam muito bem, obrigado, sendo a funky O.I.L. o único ponto baixo (e The Ballad of the Jersey Wives um dos destaques). Enfim, um discaço surpreendente vindo das mãos de um velhinho que se recusa a assumir o fraldão geriátrico musical que vem se tornando o Classic Rock.

NOTA: 8,19

Pontos positivos: guitarras fantásticas, voz repleta de personalidade
Pontos negativos: A voz de Rosie pode incomodar ouvidos mais sensíveis
Para fãs de: Hendrix, Rory Gallagher, Gary Moore
Classifique como: Blues Rock

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The Dead Daisies - Make Some Noise
The Dead Daisies – Make Some Noise (Cd-2016)

Dream Team do Hard Rock Ataca de Novo!
Doug Aldrich na guitarra, Marco Mendonza no baixo, John Corabi na voz e Brian Tichy na bateria. Parece uma banda fruto de uma brincadeira de montar o line up dos sonhos para algum fã de Hard, não? Pois então, não é de mentira, esses são os acompanhantes que o guitarrista David Lowy angariou para o novo disco de seu Dead Daisies. Desde o riff inicial de Long Way To Go, totalmente calcado em AC/DC, até os últimos segundos do cover para Join Together do The Who, temos uma sequência incansável de Hard Rock vigoroso. Todos os músicos fazem suas partes à perfeição, como era de se esperar. A maior referência em termos comparativos seria o Aerosmith em sua verve mais rocker. Aliás, se Mr. Tyler não se mostrar mais interessado sem seguir com o Aerosmith, a banda cometeria imenso erro em não pensar em John Corabi para a vaga.


Os destaques ficam para We All Fall Down, Song and a Prayer e a faixa título (Quiet Riot puro!). Mas não dá para deixar de lado um ponto que alguns críticos vem citando em relação ao disco: o de que falta uma cara própria ao som da banda. É verdade, ainda que muito bem feito, Make Some Noise parece uma colcha de retalhos de tudo o que já fez sucesso no mercado estadunidense de Hard Rock (não dá para evitar ouvir Black Betty no início de All the Same, por exemplo, sendo que o restante dela é mais Aerosmith que o Aerosmith de hoje), fato esse amplificado pela opção do Dead Daisies em inserir dois covers no repertório, nenhum deles muito diferente das versões originais: a boa Fortunate Son (Creedence) e a fraca Join Together (The Who). Mas convenhamos, dá para perdoar totalmente a falta de criatividade quando o resultado é tão divertido quanto esse disco aqui!  

NOTA: 7,71

Pontos positivos: ótima produção e grandes músicos
Pontos negativos: soa algo genérico
Para fãs de: Aerosmith, Quiet Riot
Classifique como: Hard Rock

The Dead Daisies - só tem barão!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Death Angel – The Evil Divide (Cd-2016)

Death Angel - The Evil Divide
Mariposa Thrasher
Por Trevas

Os californianos do Death Angel eram considerados uma das bandas mais promissoras da segunda leva do movimento thrasher estadunidense. Formado por garotos bem novos e de ascendência filipina, o quinteto chamou bastante atenção por seu enfoque algo técnico para a época, além de um senso melódico que faltava a muitos de seus pares. Logo veio um ótimo contrato com uma Major e a promessa de imenso sucesso comercial e de fazer parte da mítica turnê Clash of the Titans. Tudo abreviado por um acidente de carro quase fatal envolvendo o baterista Andy Galeon. Nesse momento o parentesco entre os membros afetou um pouco o julgamento e a banda acabou por optar por encerrar a carreira ao invés de substituir o músico e seguir em frente.

Death Angel, quando os garotos ainda comiam Froot Loops
Em 2001, para nossa sorte, os caras resolveram retomar a carreira. Incialmente para alguns shows em festivais, depois lançando uma sequência de discos tão inspirados que fica difícil acreditar que o Death Angel não tenha angariado uma reputação do que a que atualmente desfruta. O ápice fora justamente o disco The Dream Calls For Blood (ler resenha da Cripta), álbum de 2013 que marcou a primeira e única vez que o DA chegou aos 100 mais da Billboard. Dado o sucesso comercial e de crítica de Dream, nada mais natural que o anúncio de um novo disco tenha causado uma certa apreensão nos fãs dos caras.


Death Angel 2016 - trocando o Froot Loops por maldade no coração



O disco   

Moth, a faixa cuja letra cáustica inspirou a arte gráfica e nome do disco, abre o disco de forma apoteótica – certamente um novo clássico para os californianos.


Cause For Alarm aumenta ainda mais a velocidade, contando com a participação do produtor e parceiro Jason Suecof em suas virulentas guitarras. A produção, aliás, apostou numa pegada mais crua que no disco anterior, mas com clareza de cada instrumento e punch absurdo. É possível sentir a pulsação e cada batida do ótimo Will Carroll em sua bateria, por exemplo.



E se sutiliza não foi o forte até aqui, Lost vem lembra aos incautos ouvintes que o Death Angel é também uma das bandas mais versáteis de sua era, com uma pegada que beira o Metalcore engrandecida (ou o material mais comercial do Megadeth) pela categoria habitual de Mark Osegueda nos vocais. Aliás, Mark é pouco lembrado, mas o considero um dos melhores vocalistas de Thrash da história.


As cortantes e muito bem trabalhadas guitarras do membro fundador Rob Cavestany e de Ted Aguilar fazem a boa Father of Lies subir um degrau na escala de grandeza. Hell to Pay, com belos momentos do baixo de Damien Sisson, mescla eficientemente a velocidade estonteante do Thash com elementos de Groove Metal (que aliás, dita o espírito de It Can’t be This).


Infelizmente a partir daí o disco cai um pouco na mesmice, ainda que de maneira bastante feroz. Hatred United/United In Hate traz na participação do brasuca Andreas Kisser seu maior trunfo. Breakaway é uma patada colossal na orelha, enquanto The Electric Cell sofre com a falta de refrão e riffs mais marcantes, apesar da destreza dos músicos em solos e convenções intrincadas. Let the Pieces Fall tem algo de Testament recente em sua estrutura e se não chega a competir com a grandeza do início da bolachinha, também não faz feio. Curiosamente, o trabalho se encerra com um cover que está anunciado como faixa bônus, mas na verdade se faz presente em todas as edições do disco lançadas ao redor do globo. Trata-se de Wasteland, clássico dos Goth Rockers do The Mission, executada de forma respeitosa, com um resultado excelente, ainda que improvável.


Saldo Final

O Death Angel continua com sua incansável rotina de lançar grandes discos desde seu retorno à ativa. The Evil Divide é um dos trabalhos mais vigorosos dos estadunidenses, e não fosse por uma ligeira queda de qualidade em sua metade final, poderia figurar fácil entre um dos melhores discos do ano. Muito bom.   


NOTA: 8,20

Pontos positivos: Thrash extremamente vigoroso, e ainda assim, muito técnico
Pontos negativos: cai um pouco de produção em sua segunda metade
Para fãs de: Testament, Megadeth, Metal Church
Classifique como: Thrash Metal