segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Cheap Trick – We’re All Allright! (Cd-2017)

Cheap Trick - We're All Allright! (Cd-2017)

Um Truque de Mestre!
Por Trevas

Na ativa desde o final da década de 1960 (como Fuse), o Cheap Trick é uma espécie de patinho feio do Rock estadunidense: mesmo com uma vasta discografia que angariou uma penca de discos de ouro e platina e sua recente indução ao Rock And Roll Hall Of Fame, parece que a banda nunca conseguiu o mesmo respeito fora de seu continente que outros artistas do mesmo quilate. Quer dizer, excluindo no Japão, claro, só lembrar o mítico Live At Budokan, que registrou com maestria o fanatismo dos Nipônicos com o quarteto de Illinois.


Cheap Trick em sua juventude...
Talvez esse fato seja parcialmente explicado pela aura descompromissada e galhofeira que envolve a banda, que usa toneladas de influências dos Beatles e as mistura num rock simples e direto, sem muito espaço para devaneios intelectualoides e/ou contemplativos. Um som que ficou conhecido pela infame alcunha Power Pop. Mas mesmo muitos daqueles que compram a opção estilística dos caras parecem ter esquecido um pouco o Cheap Trick em tempos recentes. O fato é que, após uma década de 1990 algo vazia, a banda voltou a ter uma produtividade bem razoável, mas seus trabalhos raramente alcançaram o furor de outrora. O imbróglio judicial com o ex-baterista Bun E. Carlos (hoje resolvido, Bun é membro da banda para fins burocráticos, ainda que sua saúde o afaste de outros compromissos como gravações/shows) ajudou ainda mais a confundir e afastar os fãs de outrora. Mas a indução ao Rock And Roll Hall Of Fame, em 2016, com a formação clássica mostrando ter enfim aparado suas arestas, voltou a trazer os olhos para a banda, e dessa vez pelos motivos certos. Aproveitando o momento, o Cheap Trick logo anunciou ter se juntado ao premiado produtor Julian Raymond (que tem alguns Grammys na sua coleção, mas por trampos com artistas de Country Music) para trabalhar em um álbum que fizesse justiça aos anos de ouro de sua carreira. O título, divertido e sintomático: We’re All Allright!

Em 2016, fazendo as pazes, no Rock And Roll Hall Of Fame

Um Disco, Dois Momentos

O disco começa virulento, com duas pedradas rockers de primeira: You Got It Going On é irresistível com seu riff na cara e refrão grudento. Música perfeita para a abertura de um show, diga-se. Mal temos tempo de respirar e a pedrada à lá AC/DC (banda irmã dos caras, bem que se lembre) Long Time Comin’ nos convida a tirar o tapete da sala e dançar, aquela sensação que todo bom rock and roll deveria transmitir.



A produção de Julian deu uma cara bem ao vivo e algo punk ao trabalho, e essa veia punk aparece destacadamente na terceira faixa, a divertidíssima Nowhere, definitivamente uma ode ao som clássico do Cheap Trick. As guitarras de Rick Nielsen e Robin Zander estão absurdamente na cara, e a cozinha de Tom Petersson e Daxx Nielsen (filho de Rick), se não tem o charme da cozinha original (em muito pela ausência da idiossincrasia baterística de Bun E.), não fica devendo em nada em termos de pegada e técnica.  E o espírito do mais puro rock and roll prossegue com Radio Lover, e cá entre nós, me peguei pensando o que diabos os velhinhos tomaram para gravar tantas faixas rápidas e energéticas num disco só. O ouvinte desavisado dificilmente acreditaria não se tratar de um disco feito nos tempos áureos dos caras, tamanha o tesão musicado. E esse efeito é em muito amplificado pela voz de Robin Zander, que não parece ter envelhecido nem um dia desde In Color, de...1977!!?!?!?!



Em Lolita o lado Power Pop da banda lá nos anos 1980 aparece, e sinceramente me permiti imaginar se o Muse não bebe do som dos velhinhos tanto quanto bebe o som do Queen. Brand New name On Na Old Tattoo é outro rockão visceral de fazer muito moleque ter que tomar biotômico Fontoura para chegar perto da ferocidade dos caras.

Cheap Trick 2017 = as rugas chegaram, mas a gaiatice continua

Mas aí o truque barato do produtor cai por terra, das quatro músicas restante do disco, três são daquelas baladas ou semi-baladas repletas de infusão dos Beatles que também sempre fizeram parte do arsenal dos estadunidenses. Não, nenhuma das quatro canções é excepcionalmente ruim, elas apenas quebram o ritmo frenético que a bolachinha imprimia até então. Floating Down é viajante, já She’s Allright é apenas passável e traz um pouco demais do Country Pop que fez a fama de Julian Raymond. Listen To Me volta ao rock direto e raçudo, com o baixo de Petersson ganhando destaque, e o disco tem fim em sua edição normal com a algo épica Rest Of My Life. A edição especial ainda traz 3 outras faixas, uma cover bacana para Blackberry Way (do The Move), além da divertida Like A Fly e a chatinha If You Still Want My Love.


Veredito da Cripta

We’re All Allright é em boa parte de suas dez faixas, uma pedrada rocker irresistível, um disco tão divertido que fará o fã mais chato baixar a guarda e agitar perante o som de casa. Uma pena que as três baladinhas colocadas ao final da bolachinha diminuam em muito o impacto, não fossem elas estaríamos diante de um dos grandes destaques do ano. Ainda assim, um ótimo disco. Aconselho àqueles que estão desesperados para trocar seus ingressos do festival Solid Rock após o cancelamento do Lynyrd Skynyrd (e substituição da banda pelo Cheap Trick) a dar uma checada nesse disco antes de efetuar a troca. Vocês podem ter uma grata surpresa!


NOTA: 8,54


Gravadora: Big Machine Records (importado).
Pontos positivos: os números mais rockers são absurdamente bons, a voz de Zander está em dia
Pontos negativos: as baladinhas quase estragam o poderio do disco
Para fãs de: AC/DC, Alice Cooper, Mott The Hoople
Classifique como: Hard Rock, Rock, Power Pop



4 comentários:

  1. Show, Trevas!
    O que eu ouvi, aprovei com um sorriso no rosto (mesmo que não seja o ídAlo, Bun E. na batera).

    Que venha o LACRIMEJANTE show!

    Robin! Robiiiiiiiiiiiiiiiiiiiin! \o/

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    1. Valeu, Delacroix!
      Pode escutar sem medo que o disco é quase todo fodão!
      Abraço
      Trevas

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  2. Fico me perguntando se não só a existência desse disco como tb o surpreendente peso não tem um dedo ou uma mão do Dave Grohl... O Nielsen andou participando de discos dos Foo Fighters e o Dave deve ter botado muita pilha (fã bagarái!!).
    Mas realmente o q mais surpreende é a voz do Zander! Qse 70 e rasgando até os zói da gente!!!! Muito bom!!
    Só pra fechar, eu curti as mais lentinhas... hahahahaha
    Abração!
    ML

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    1. Fala, Marcellão!
      Pode ser que tenha absolutamente tudo a ver. Não sabia disso, senão teria até citado na resenha hehehehe. Sério, surreal a qualidade e força da voz do Zander. Incomum!!!
      Na verdade não achei as lentinhas ruins não, mas o disco estava tão diretaço que elas me deram uma ligeira broxada hehehehhe
      Abraço
      T

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